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terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOBRE O PRIMEIRO CAPÍTULO DE A REGRA DO JOGO

A Regra do Jogo definitivamente não decepcionou.

1. Melhor primeiro episódio.

2. Se fosse série do Netflix, eu veria os duzentos e cinquenta episódios que vai ter (porque com certeza vai ser prolongada) de uma vez só.

3. Eu elogiei Babilônia pela questão social e tal, mas, véi, quem é uma Babilônia na fila do pão perto de uma novela que com um capítulo consegue ter mais roteiro do que a outra inteira.

4. O comendador me fez ir do amor incondicional ao ódio eterno.

5. Giovanna Antonelli P.E.R.F.E.I.T.A: estilo "a loka", com risada e bordão ("nunca pensei") contagiantes.

6. Mocinha ótima.

7. Ele fez o drama dos parentescos, de Avenida, e o de mocinhx virando vilx, de A Favorita, que demoraram meses pra acontecer nas outras novelas, tudo num episódio só.

8. Roteiro muito bom. Eu fiquei tão agoniado com o sequestro que não tava cabendo no sofá.

9. Texto muito bom. Quase chorei com o comendador defendendo o moço.

10. Rosa Chiclete é o primeiro mocinho de novela que tou odiando por ser babaca e não por ser sonso.

Palpite: JEC vai continuar eclodindo o maniqueísmo por dentro, e o comendador pode conseguir dar um passo à frente em relação à Carminha nesse sentido. Ainda não sei como isso vai acontecer, mas o teaser (comendador de blusa preta e calça branca) e a abertura (peão reconstruído com partes pretas brancas) dão a entender que a intenção do JEC é essa. E a Tóia e a Atena parecem ter papel central nisso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

POR QUE BABILÔNIA FOI BOA DEMAIS PARA DAR CERTO



Parte do público pode não ter gostado de Babilônia por achar que a novela não tinha um roteiro consistente. Outra parte pode ter achado que as personagens eram planas demais, sem complexidades emocionais que gerassem identificação da gente com elas. Não discordo de nada disso. Mas o motivo principal de Babilônia não ter dado certo é que ela exagerou a mão na militância. Por paradoxal que seja, digo isso não como uma crítica, mas como um grande elogio.

Babilônia era progressista demais para agradar a maior parte do público. A novela expunha a intolerância e a corrupção que podem existir por trás da religião. Opunha-se ao o racismo, ao machismo,* à homofobia, à lesbofobia e (ainda que timidamente) à transfobia. Até um posicionamento contrário à redução da maioridade penal foi esboçado na trama. É claro que Babilônia não acertou em tudo. Além de ceder às pressões que sofreu, ela também deu algumas bolas fora. Mas o quadro final mostra uma novela mais comprometida com a militância do que nunca.

* A seguir, porém, há ressalvas em relação ao combate ao machismo por parte da novela.

Abaixo listo dez argumentos que sustentam minha perspectiva:

1. Uma família homoafetiva

Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) não só eram um casal de lésbicas, elas eram um casal de lésbicas idosas, que viviam juntas há décadas. Mais ainda: eram um casal de idosas que tinham sexualidade. Logo no primeiro capítulo, elas já se beijaram. Essa foi, aliás, a cena que desencadeou o boicote de parte do público evangélico e conservador à trama. A novela cedeu, e não houve mais cenas de beijo. Mas Teresa continuou sendo o maior exemplo de ética e caráter da novela. Seu casamento com Estela e a forma como criaram Rafael (Chay Suede) foram construídos como o retrato de uma família exemplar. Com essa família, a homossexualidade foi tratada no cerne da novela pelo lado das lésbicas, explicitando a lesbofobia.

2. Uma advogada formada pelo sistema de cotas

Paula (Sheron Menezzes) era uma advogada competente e bem sucedida, negra e nascida na favela. Conseguiu se formar graças ao sistema de cotas, comprar um apartamento no asfalto e viajar para os Estados Unidos. A novela se preocupou não só em retratar a necessidade de se criar espaço para os negros no ensino e no mercado de trabalho, mas também tentou fazer o mesmo: o número de atores negros na trama (ainda que bem menor que o ideal) foi muito superior à média das demais novelas. Antes de Babilônia, só se via tantos negros em seus próprios núcleos e com suas próprias histórias, em novelas que ainda os retratam como escravos. Infelizmente, enquanto a elite ainda é branca, a maior parte da população pobre e de favela é negra. Babilônia teve consciência disso e fez diferente de outras novelas, que mesmo tendo a favela como ambiente fundamental na trama, quase não têm atores negros. Claro, ainda não é o suficiente: se menos da metade da população é branca, os negros deveriam estar muito mais presentes nas faculdades, como Paula, nas novelas e em qualquer outro ambiente em que são marginalizados. Mas Babilônia deu um passo à frente nesse caminho.

3. Independência feminina

Regina (Camila Pitanga) não é uma mocinha frágil e não precisa de um homem para defendê-la. Ela criou a filha sozinha, na favela, sustentando a casa que, além das duas, era ocupada pela mãe e pelo irmão mais novo. Trabalhava pesado como barraqueira para isso, mas teve competência e garra para conquistar espaços e se empoderar. A personagem Alice (Sophie Charlotte) também era outra que se recusava a depender do dinheiro de um homem.

4. O proselitismo religioso

Aderbal (Marcos Palmeira) justificava seu machismo e sua homofobia através de sua religião. Mas ignorava os preceitos dela em relação a tudo o que lhe convinha: criava esquemas de corrupção para desviar dinheiro público para seu bolso, traía sua esposa, fez com que sua amante abortasse quando ela engravidou dele.* Como agradar ao público conservador retratando um líder evangélico como um canalha e lésbicas como heroínas? Ao opor a fé de Laís (Luisa Arraes) à de seu pai, a novela demonstrou que ter uma religião e ser intolerante são coisas muito diferentes. Através do namorado dela, Rafael, mostrou também que não se precisa ter religião para ser ético. Por meio desse relacionamento, Babilônia retratou a possibilidade de convivência entre os universos aparentemente tão distintos de evangélicos e homossexuais.

*É importante lembrar que o aborto ainda é visto de forma muito negativa, e a novela não avançou muito em relação a isso. Quando Cris (Tainá Müller) engravidou de Vinícius (Thiago Fragoso), entretanto, o mocinho disse que a decisão de ter ou não o filho era dela, porque o corpo é dela.

5. Os adolescentes e a criminalidade

Wolnei (Peter Brandão) foi cooptado pelo crime durante toda a novela, e durante a maior parte dela entrou nesse barco. Mas o que o tirou desse caminho não foi a prisão, e sim a educação, o afeto e as oportunidades que lhe foram dados pelos familiares e amigos, que não desistiram dele. A novela foi completamente antenada com as discussões e problemas atuais do país, como o envolvimento das empreiteiras com a corrupção, no caso de Aderbal, e a redução da maioridade penal, no caso de Wolnei.

6. A beleza dos cabelos crespos

Júlia (Sabrina Nonata) sofria bullying na escola por causa de seus cabelos crespos. Mas a mãe lhe ensinou a ter orgulho de sua raça e a se lembrar da força de gerações que já tinham sofrido antes dela. Regina ensinou Júlia a se sentir linda por ter cabelos crespos. Paula também adorava seus cabelos assim, usava turbantes e outros acessórios que reforçavam sua matriz africana, e se recusava a alisá-los. Ivete (Mary Sheila) passou a trama renegando o visual e alisando os cabelos, até se render a ele no final, transformando-se enfim numa mulher confiante de sua beleza.

7. A masculinidade, a homossexualidade e o armário

Sérgio (Cláudio Lins) não era um personagem previsto no início da trama. O par romântico de Ivan (Marcello Melo Jr.) seria Carlos Alberto (Marcos Pasquim). A história foi alterada, mais uma vez, para ceder às pressões do público, que não queriam ver o ator que fez tantos papeis de pegador vivendo um gay no armário. Mas a trama foi contada de qualquer maneira, e as correntes que o armário impõe a quem está nele e a quem gosta de quem está nele não deixaram de ser abordadas.

8. A identidade de gênero de uma mulher trans

Úrsula (Rogéria) era a avó de Gabi (Kizi Vaz). Alguns personagens estranhavam e tinham dificuldade de lidar com isso. Mas era algo imposto, não havia espaço para justificar a negação. Ela era a avó e pronto. Os ultrapassados que lidassem com isso.

9. A sexualidade feminina

Esse é um ponto muito complicado. A novela começou tendo a possibilidade de dar um passo à frente, mas cedeu às pressões do público e acabou dando dois passos para trás. A sexualidade feminina assusta. Uma mulher que adora transar, que vê um homem gostoso e quer comê-lo no primeiro banheiro que encontra, é um absurdo no nosso sistema de valores. Assim era Beatriz no início da trama.

A dicotomia mocinha exemplar e vilã toda-errada já tornava essa estratégia ambígua. Seria mais fácil aceitar esse tipo de comportamento da vilã do que da mocinha: imagina se fosse Regina quem gostasse de fazer sexo livremente dessa forma?* Caracterizar a vilã assim poderia reafirmar a inadequação desse comportamento... Mas as vilãs têm se tornado tão carismáticas e o público tem se identificado tanto com elas... Para o bem ou para o mal, Beatriz fez o público encarar essa possibilidade.

No entanto, mesmo partindo da vilã, a sexualidade exacerbada não foi aceita, e Beatriz foi transformada em uma mulher apaixonada por Diogo (Thiago Martins), que chegou a dopar o gato do Pedro (André Bankoff) para não ter que transar com ele, e a negar investidas do deuso Murilo (Bruno Gagliasso). Uma mulher pegadora foi demais para a cabeça do público, que não estava disposto a lidar com o tema, nem que fosse para reafirmar sua inadequação: a sexualidade feminina é algo que grande parte das pessoas sequer deseja pensar que existe.

* Regina foi caracterizada, em grande parte da trama, como uma mulher romântica e quase sem desejo sexual.

10. Namorados e maridos também estupram

Quando Guto (Bruno Gissoni) tentou forçar a namorada Laís a transar com ele, a cena foi adequadamente lida pelas demais personagens como tentativa de estupro. O corpo da mulher não é público, nem pertence ao homem. Levar a namorada ou a esposa a transar contra sua vontade é completamente inadmissível. Estupros não são cometidos apenas por estranhos. Laís sentiu vergonha e quis esconder o fato. Muitas mulheres passam pelo mesmo. Mas a personagem conseguiu perceber que quem deveria estar envergonhado era ele e denunciou publicamente o ocorrido (ainda que não criminalmente, como seria o ideal).

Porém nem tudo foram acertos. É preciso lembrar que a novela, desde o começo, deu uma grande mancada em relação a Beatriz: culpabilizar a adolescente pelos assédios do pai de Inês (Adriana Esteves). Ainda que a moça incentivasse as investidas, não se pode responsabilizar a menor: o adulto é quem tinha condições de avaliar se aquilo era certo ou errado.

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Edição: 29/08/15 13:14

Minha amiga Mariana me lembrou de uma ressalva importante em relação à questão dos cabelos crespos: durante a transformação que marcou a ascensão social da mocinha Regina, momento comum na narrativa de grande parte das novelas, a principal marca da melhoria de vida da mãe de Júla foi o alisamento de seus cabelos.

domingo, 14 de junho de 2015

GLOBO ABRINDO MÃO DOS CONSERVADORES?

Desde o polêmico beijo de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, Babilônia está tendo a pior média da história das novelas das vinte e uma horas da Rede Globo.

Aí, já vem casal de lésbicas e gay enrustido na próxima novela das nove. A impressão que eu tenho é que a Globo tá ligando o foda-se pro público conservador mesmo: "Vá com Deus para a Record".

O sonho da TV aberta de atingir a população ampla acabou com o advento da Internet, da TV a cabo, do DVD. Parece que a Globo, esperta como sempre foi (não é a toa que é a líder de audiência há tantas décadas), está percebendo que segmentar é a solução.

E se não dá pra brigar com a Record pelo público conservador, então vamo ficar com o seu oponente direto, nesse FlaXFlu que tem virado a sociedade brasileira.

domingo, 10 de maio de 2015

OS ATORES NEGROS E AS TELENOVELAS

Em Babilônia, a protagonista é Camila Pitanga (Regina). Há outros treze personagens negros. Dois deles bastante importantes no enredo: a de Sheron Menezzes (Paula), que é uma advogada bem sucedida, formada pelo sistema de cotas, e o de Thiago Martins (Diogo), ator que eu não sei se se identifica como negro, mas dentro da novela é visto como tal.

Os outros são: Marcello Melo (Ivan), Virginia Rosa (Dora), Val Perré (Cristóvão), Cesar Mello (Tadeu), Sabrina Nonata (Júlia), Marysheila (Ivete), Kizi Vaz (Gabi), Juliana Alves (Valeska), Cauê Campos (Carlinhos), Viviane Porto (Cilene) e Peter Brandão (Wolnei).

São quatorze personagens, num total de cinquenta e três que a novela tem. Menos de um terço, mas muito mais do que nas novelas em geral. O padrão da maioria absoluta das novelas é de pouquíssimos negros. Amor à Vida, por exemplo, tinha quatro, nenhum deles de destaque, num universo de noventa. Apesar de personagens bem sucedidos como os de Camila Pitanga (Carol) e Lazaro Ramos (André), em Insensato Coração, a maior parte dos personagens continua associada a serviços domésticos ou à favela. Em Babilônia, quase todos moram em uma.

Taís Araújo foi a primeira atriz negra a protagonizar uma novela brasileira (Xica da Silva - 1996). Antes disso, mesmo em novela sobre escravidão, como Sinhá Moça e Escrava Isaura, a protagonista era branca, mesmo que ela própria fosse escrava. Taís Araújo foi também a primeira protagonista negra de uma novela da Globo (Da Cor do Pecado - 2004), e depois de uma das vinte e uma horas (Viver a Vida - 2009). Só ela (quatro vezes) e Camila Pitanga (três vezes) já conseguiram esse feito.

Temos falado muito sobre a representação de LGBTs nas novelas, mas não podemos esquecer que outros grupos historicamente sub-representados continuam sendo...

sábado, 9 de maio de 2015

É MESMO ERRADO MUDAR A TRAMA DE BABILÔNIA?

Depois de um beijão entre duas das maiores atrizes brasileiras, idosas, no seu primeiro capítulo, Babilônia (Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga) vai eliminar a trama em que Marcos Pasquim revela-se gay. Os ânimos estão exaltados na militância online. Fala-se em boicote dos LGBTs à novela, assim como os evangélicos resolveram boicotá-la depois do beijo entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg.

A telenovela é um produto formado por uma tensão constante entre autor, público e emissora. Na história dos folhetins, essa tensão já gerou muitos resultados bons e ruins. Em Torre de Babel (1998-1999), as personagens de Silvia Phipher e Christiane Torloni, criadas por Sílvio de Abreu, foram mortas na explosão de um shopping, por determinação da Globo, depois de uma má aceitação delas por parte do público. Em América (2005), de Glória Perez, uma cena de beijo entre Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro chegou a ser gravada, mas a emissora, em meio a um público dividido, não permitiu que ela fosse ao ar. Em Amor à Vida (2013-2014), foi o público, através das redes sociais e até de telefonemas para a emissora, quem fez com que a Globo permitisse a cena de beijo entre Thiago Fragoso e Mateus Solano, escrita por Walcyr Carrasco.

Dez anos depois da proibição do beijo no último capítulo de América e dois anos depois da permissão do beijo no último capítulo de Viver a Vida, um beijo foi permitido no primeiro capítulo de Babilônia. É curioso que Torre de Babel e Babilônia façam referência a passagens bíblicas relacionadas ao pecado. De Torre de Babel, com a morte de duas lésbicas, para Babilônia, com o beijo entre elas logo de cara, passaram-se dezessete anos. As relações entre autor, público e emissora mudaram progressivamente nesse período.

Nos últimos anos, a problematização do preconceito e violência contra LGBTs tem estado sempre presente nas telenovelas. No horário das vinte e uma horas especialmente. Salve Jorge (2012-2013, Glória Perez) teve o tráfico de uma transexual brasileira para a Turquia, interpretada por uma atriz trans. Depois veio Amor à Vida. Em Família (2014, Manoel Carlos) teve o primeiro beijo entre duas lésbicas nessas novelas. Império (2014-2015 Aguinaldo Silva) teve a personagem queer Xana Summer.

A emissora Globo não é militante LGBT. Mas os autores de suas telenovelas são. A emissora está preocupada com a audiência, o que é normal e esperado. Ela é uma empresa, com fins lucrativos. Mas os autores estão preocupados em contribuir para a conquista de direitos e reconhecimentos de LGBTs. Em todas as disputas entre os dois, quem faz com que a coisa tenda para um lado ou para o outro é o público. Uma emissora de TV, que conta com uma concessão pública, deve ser socialmente responsável. A Globo não é uma heroína, mas tem proporcionado uma contribuição importante nas conquistas de reconhecimento de LGBTs nos últimos anos, apesar das limitações de alcance estabelecidas.

Nem Babilônia, nem seus autores, nem a Globo, devem ser vistos como monstros por eliminarem a homossexualidade do personagem de Marcos Pasquim. É uma pena que isso tenha acontecido, mas foi um ajuste razoável para conter os ânimos. Adianta forçar pela goela do público conservador um número saturado de tramas sobre essa questão? Isso faz com que esse público deixe de assistir o produto, deixando também de ser atingido por ele. Faz com que esse público se organize contra esse produto, reforçando seu próprio ódio e oposição aos direitos de LGBTs. Um equilíbrio tem que ser alcançado, para que esse público seja atingido positivamente, e com isso repense o ódio e a oposição que tem exercido. É preciso pensar de forma estratégica e não apenas emocional.

quinta-feira, 26 de março de 2015

POR QUE O BEIJO GAY NÃO COLOU DESTA VEZ?

Quem me conhece sabe que mais do que uma indignação por causa das reações negativas à novela Babilônia por parte de perspectivas evangélicas, o que eu estou sentindo é uma profunda tristeza pelo aumento da rivalidade entre grupos que acontecimentos como esse provocam. O que eu gostaria não é calar a boca dos evangélicos. O que eu gostaria é que isso não incomodasse tanto.

Mas como conseguir avanços políticos sem incomodar? Em alguns momentos, esfregar uma realidade diferente na cara de alguém é necessário para se impor, para mostrar que os seus direitos são maiores e mais importantes que os valores dos outros. Mas quais as consequências dessa estratégia?

Para os sujeitos diretamente implicados, isso significa um aumento muito grande na auto-estima deles. Homens e mulheres homossexuais passam a se sentir muito mais seguros para dar beijos em público depois que personagens da novela das nove fazem isso em frente a todo o país. Por muito tempo prevaleceu a lógica do armário para a homoafetividade: "Se quer fazer sem-vergonhices, que seja entre quatro paredes e não na frente dos outros". É a lógica da tolerância ao invés do respeito, em que os tolerantes ditam os limites aos tolerados. Mas na novela, não tem quatro paredes: os ambientes privados dos personagens são públicos para todos.

Para os sujeitos com perspectivas fortemente contrárias, a reação é de indignação. Antes de contribuir para a aceitação da homossexualidade por parte desses sujeitos, a exposição de um beijo no primeiro capítulo de uma novela das nove entre duas senhoras, sendo uma delas a atriz mais reconhecida do país, é um combustível potente para alimentar o ódio.

Para sujeitos com posicionamentos pouco inflamados em relação ao tema, a maré é quem vai conduzindo as leituras. O esperado beijo entre Félix e Niko, em Amor à Vida, foi inevitavelmente visto com maus olhos por grupos evangélicos. Mas eu pessoalmente presenciei brilhos nos olhos e sorrisos nos lábios de sujeitos não-LGBTs durante a cena. Do ponto de vista de estratégias comunicativas, aquele momento foi sem dúvida uma vitória sem precedentes.

O beijo entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg teve uma natureza bem diferente. Veio antes das personagens, se impôs de forma muito menos digestível e palatável. Desceu amargo. Causou refluxo. Gerou uma sensação de se querer fazer descer algo pela guela do outro. Aí foi a indignação de grupos evangélicos e não a legitimidade do amor entre dois sujeitos quaisquer o que gritou e tocou o público amplo. A meu ver, demos um tiro no pé.

Supostamente, o beijo entre as personagens deveria expressar a naturalidade do afeto entre pessoas do mesmo sexo. Mas foi por isso mesmo que aquele beijo foi colocado ali? Ou a intenção era outra: causar a partir da não-naturalidade do proposto natural?

Acho que o momento é propício para que repensemos nossas estratégias de ação. Para termos reconhecimento público não temos que recrudescer inimigos, temos que conquistar e fortalecer aliados. Nem hoje, nem amanhã vamos conseguir que Silas Malafaia e sua trupe nos reconheçam. Quem temos que ganhar são os sujeitos não-LGBTs e não-evangélicos e os evangélicos não-fundamentalistas. É trazendo esses para o nosso lado e não dando a faca e o queijo na mão de Silas para levá-los para o lado de lá, é que vamos enfraquecer essa perspectiva.

Isso não significa voltar atrás nas conquistas. Parar os beijos. Significa pensar em como fazê-los de maneira mais estratégica.

terça-feira, 10 de março de 2015

ENCONTRE O ERRO - IMPÉRIO

Sim, isto é uma cópia descarada do “Encontre o erro” do Morri de Sunga Branca. Esse site fazia zuações hilárias com as novelas, antes de se vender para a Globo, por um canalzinho de vídeos chinfrim no GShow. O auge foi durante a novela Salve Jorge, com a saudosa Vôtevingájéssica.


Império tem tantos ou mais erros do que Salve Jorge tinha. Então fiquei com saudade dessas zuações e resolvi reavivá-las hoje, depois de uma das cenas mais mexicanas da nossa dramaturgia, envolvendo os queridos odiados personagens Maria Chefeira, Vicenbonete e Crissonsa.


Só que o meu blog é classe c e minha internet custa 2,99 cada 50MB, então não vou encher o post de prints da novela igual o Morri fazia, pq não sou pago pra isso. Enfim, se alguém quiser me mandar os prints, depois eu acrescento.

Então. Na infância, Crissonga dispensava Johnson’s Baby e já tomava banho usando Vicenbonete. 


Aí veio o primeiro governo Lula, a família do Vicenbonete começou a receber Bolsa Família e pôde voltar a criar ele no sertão.

Um dia Vicenbonete voltou pra Santa Tereza e. como 80% do elenco da novela, foi morar na casa do Xana Vera Verão Summer.


Crissonsa largou o namorado advogado do diabo pra poder voltar a se ensaboar com as fragrâncias de Jequiti de Vicenbonete.


Um dia, o moço todo fofo chama Crissonsa e o irmão figurante e a tia pentelha, todo mundo para jantar no Vicenbonete (o restaurante que têm o nome do chefe, e que antes era Enricomofóbico). Ela, do nada, dá um chilique e fala: “Você é o amor da minha vida e paga janta pra minha tia pentelha, então eu vou terminar com você”

Maria Chefeira, que havia sido abandonada por Enricomofóbico, não consegue controlar sua atração fatal por chefes cujos restaurantes têm o nome deles, e aproveita para levar Vicenbonete para o seu banheiro.


Maria Chefeira passa a dar uma média de um chilique por capítulo, em alguns deles chegando a dar três e pedir música no Fantástico. A cada chilique, Vicenbonete fica mais apaixonado e pede ela em casamento.

Maria Chefeira então, começa a preparar o casamento. A primeira coisa a decidir é quem contratar para organizar o evento. O que fazer nessa hora?

a) Ligar pra Fernanda Souza e perguntar: “Miga, quem organizou seu casamento com o Thiaginho?” 
b) Procurar um buffet no Google
c) Contratar os pais do seu ex que te largou no altar.


A segunda decisão importante é quem chamar para ser sua madrinha:

a) Sua BFF da escola.
b) Uma figurante qualquer que passar pela rua.
c) A ex do seu futuro marido que também é o amor da vida dele.

A terceira decisão é decidir que função sua madrinha vai ter no seu casamento:

a) Levar as alianças.
b) Ficar quietinha no altar e assinar um papel no fim da cerimônia.
c) Te vestir de noiva.

A quarta e não menos importante decisão é o vestido da madrinha.

a) Um pretinho básico.
b) Um terninho em tons pasteis à la esposa da Claudete Hétera.
c) O vestido branco e dourado/preto e azul
d) Um vestido mega vermelho cor-de-cabelo-de-Duda realçado com marca texto.


O que a ex fala como resposta a todas essas decisões?

a) Cê tá louca, minha fia? Eu vou te manda praquela clínica que o Pavão Misterioso ficou internado na novela das sete!
b) Olha, estou lisonjeada com o convite, mas tenho um exame de fezes inadiável marcado para o mesmo dia.
c) Claro, miga, vamos dar as mãos e ser felizes no mundo da imaginação!

Aí, enquanto a ex do seu bofe tá te vestindo, sobre o que você fala?

a) E essa crise da água, hein, menina?
b) Ontem eu gastei minhas Tramontina fazeno panelaço contra aquela brega.
c) Quantas vez por dia cê dava pro meu noivo? Era gostoso?


Depois desse diálogo surreal, Crissonsa e Maria Chefeira começam a briga mais emocionante da hizzzzZzz Z ZZZ...

Ops, cochilei cinco minutos e até agora nem um tapinha, acordei assustado achando que tinha deitado no controle remoto e ido sem querer pra um programa de lesco-lesco lésbico.


De repente elas param de se engalfinhar e começam a rir alegremente da situação, como boas migas que são.

AI, MIGA, COMO VOCÊ É DIVERTIDA! POR ISSO Q TE CHAMEI PRA SER MINHA MADRINHA, SÒ VC PRA RASGAR MEU VESTIDO E ME BATER NO DIA DO MEU CASAMENTO, TE AMO S2 S2 S2 Ó, TIVE UMA IDEIA, CASA COM ELE NO MEU LUGAR, MIGA, EU SOU FILANTRÓPICA E QUERO DOAR MEU NOIVO PRA ALGUÈM DA CLASSE C

Aí a Crissonsa fala: AH, TÔ FAZENO NADA, VAMO CASAR, ENTÂO, NÉ...


Aí chega uma costureira que não só não tem falas como também não tem uma atriz escalada para fazê-la, leva uns cinco pano de prato da casa dela, remenda o vestido da Maria Chefeira pra caber na Crissonsa e ele fica lindo como novo.


Ela passa num antiquário no caminho e compra o véu que a Isis Valverde usava em Sinhá Moça pra fazer mais mistério quando chegá.


Aí, sem proclames, sem documentação necessária, sem ninguém achar estranho, sem a mãe da noiva fazer barraco, sem Vicenbonete se importar com quem tá casando, ocorre uma cena chatíssima de flashbacks que dura uns quarenta minutos.


Tá vendo, Dilma, onde o país tá chegando, até rodízio de noiva a gente já tá teno que implantá.

Olha, só acho que esse sabonete já esfregou corpos melhores.


Edit: O Morri de Sunga resolveu ressuscitar e publicou um Encontre o Erro de Império também! \o/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O MELODRAMA DE VOLTA EM BOOGIE OOGIE

Estava com saudade de novelas que retratam grandes conspirações do destino, uma das características principais do melodrama, linguagem tradicional das telenovelas. Boogie Oogie trouxe com maestria esse elemento para seu primeiro capítulo.

Sandra (Ísis Valverde) e Vitória (Bianca Bin) foram trocadas na maternidade. Mas o destino faz de tudo para cruzar o caminho das duas mais vezes. Um dia antes do casamento de Sandra, sua irmã pestinha joga café em seu vestido de noiva e ela sai desesperada para comprar vinagre para tirar a mancha, porque o seu havia acabado, e todo mundo em sua casa estava ocupado. Mas é jogo do Brasil na Copa de 1978, e o mercado está fechado. Então ela se depara com Rafael (Marco Pigossi), o namorado de Vitória, que havia acabado de brigar com ela, e ele se apaixona à primeira vista.

No dia seguinte, o avião de Rafael e o táxi no qual estava Alex (Fernando Belo), noivo de Sandra, estragam ao mesmo tempo, e o avião cai ao lado do táxi. Se o táxi não tivesse estragado minutos antes, por outro motivo, ele não teria estragado novamente no local exato onde o avião do outro cairia. Alex salva Rafael, mas morre em seguida devido à explosão do avião. E tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que Susana (Alessandra Negrini), que fez a troca das meninas, volta ao Brasil.

Essas grandes conspirações do destino, em que absolutamente tudo acontece de modo a aproximar os pares românticos e corrigir os erros do passado são extremamente exageradas sim, mas também são apaixonantes! Pensar que existem forças superiores atuando pra que tudo saia exatamente como tem que sair é muito empolgante, e uma das características mais tradicionais das novelas, que vem sido menos utilizada com o tempo. É muito bom ver tudo isso de volta!

Mas a novela também é contemporânea em relação a outros elementos. Produção sofisticada, com uma cenografia impecável. Até refrigerante Crush, que a minha mãe reconheceu imediatamente na cena da briga de Vitória e Rafael. Em 1978, minha mami poderosa tinha 25 anos, e poderia muito bem ser uma daquelas pessoas bebendo Crush no bar. A montagem também foi excelente, começando com o acidente e voltando em seguida pro dia anterior.

A abertura é incrivelmente boa, e a trilha sonora também promete (aliás, esse tem sido um ponto alto de várias novelas atuais, como Império e O Rebu).

O texto também foi muito bom, com falas como a de Carlota (Giulia Gam): "A festa é hoje, não é em 2014 não" (Viva à metalinguagem nas novelas! Elemento novo que tem sido cada vez mais explorado), a de Alex: "Só a morte vai me impedir de me casar amanhã" e a de Pedro (José Loreto) para Alex: "Não vai haver casamento, sabe porquê? porque o destino tá contra você".

A personagem Claudia (Giovanna Rispoli) também promete como um vilã mirim hilária.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ARMÁRIO PERSISTE ENTRE OS ATORES BRASILEIROS

O que estes oito atores brasileiros têm em comum? Todos eles negam boatos que correm na Internet de que seriam gays ou bissexuais...

Bom, vamos deixar claro o que eu estou falando e o que eu não estou falando neste post, bem como qual é a intenção dele. Eu não estou sugerindo que nenhum desses atores seja de fato gay ou bissexual. Primeiro porque eu não sei se eles são ou se não são, segundo porque pouco me interessa se de fato eles são ou se não são. O que eu estou afirmando neste post é que há boatos na Internet apontando esses atores como gays ou bissexuais. Como eu sei disso? Eu pesquisei sobre esse tipo de boato para escrever este post. Não vou colocar aqui as fontes de cada boato, porque se são boatos, e não notícias, é claro que nenhuma dessas fontes é segura.

Então para quê eu estou falando disso? Não é para ser vigia da sexualidade de ninguém, mas para falar de uma questão mais ampla do que cada um desses boatos, que é a forma como o armário ainda impera no Brasil. Para mim, não importa se esses atores alvos dos boatos é que são gays ou bissexuais, ou se outros atores brasileiros é que são. O que importa é que é muito improvável que quase nenhum ator brasileiro seja, apesar do número quase inexistente de atores brasileiros assumidos.

Portanto, não me venham dizer que segundo o blogueiro Vanrochris Vieira tais atores são gays, ou que o blogueiro Vanrochris Vieira publicou uma lista de atores gays. Eu não estou fazendo isso neste post, nem em lugar nenhum. Eu estou sim apontando quais atores são alvos de boatos desse tipo na Internet. Para confirmar a existência de tais boatos, basta fazer uma rápida pesquisa.

Esses oito atores não são os únicos alvos de boatos. Mas os boatos em torno de cada um deles e a forma como os envolvidos reagiram tornam seus casos os mais interessantes para essa discussão.

Leonardo Vieira teria virado alvo de boatos depois de divulgar centenas de fotos em um fotolog ao lado de um designer, algumas delas com legendas insinuantes, como "Romance in São Paulo". O ator e o designer entraram com ação contra um jornal que teria feito "acusações" sobre isso.

Rodrigo Simas e Marco Pigossi viraram alvo de suspeitas quando o jornalista Leo Dias publicou uma notícia cifrada sobre um casal de jovens atores da novela Fina Estampa que estariam namorando. Posteriormente, a jornalista Fabiola Reipert publicou outra notícia cifrada sobre um jovem ator global que teria se assumido para a família, e os boatos apontaram novamente para Rodrigo Simas.

Reynaldo Giannecchini é alvo desde o fim do término de seu relacionamento com Marília Gabriela, pois dizem que ele teria se envolvido com o filho da entrevistadora. Posteriormente, um ex-empresário dele veio a público dizendo que os dois haviam tido um caso.

Henry Castelli e Julio Rocha são ambos apontados por boatos como ficantes do diretor Wolf Maia. Este inclusive entrou com processo contra Leo Dias devido a uma notícia de que ele havia dado um carro para Caio Castro.

Os boatos em torno de Carmo Dalla Vecchia apontam um relacionamento entre ele e o escritor João Emanuel Carneiro. 

Já Vitor Fasano já processou IstoÉ e Veja por insinuações feitas pelas revistas.

Na contramão dos atores que negam os boatos, há pouquíssimos que não negam. O caso mais proeminente é o de Jesuíta Barbosa, que foi recentemente apontado como namorado do ator Fabio Audi, um dos protagonistas do Filme Hoje eu quero voltar sozinho. Mas apesar de não negar, Jesuíta Barbosa também não fala publicamente sobre o tema. O único ator brasileiro que realmente se assumiu até hoje foi Marco Nanini.


Para muitos, a explicação para que os atores não se assumam está na suposição de que isso tornaria sua credibilidade como galãs comprometida junto ao público. Mas a lógica do armário também impera entre os cantores e apresentadores brasileiros. Quanto aos cantores, é apontado também que sair do armário diminuiria o número de fãs mulheres, que nutrem amores platônicos por eles. Mas e entre os apresentadores? Nesse caso, a única explicação é que se assumir prejudicaria a imagem pública dos mesmos.

Temos comemorado os avanços na representação dos homossexuais no país, mas a prevalência da lógica do armário entre os atores mostra que ainda há muitos passos para se dar nesse sentido.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

GAME OF THONES: VIOLÊNCIA, SADISMO E VALORES

Me forcei a ver a primeira temporada inteira de Game of Thrones. Tinha começado a ver, no ano passado, e parado no episódio 4. Mas tanta gente com quem eu convivo e que gosta das mesmas coisas que eu adora tanto a série, que eu me obriguei a ver, pelo menos uma temporada inteira.

Eu tinha parado de ver porque a violência do seriado havia me chocado. Assassinatos e estupros, com todos os requintes de sangue, tripas e crueldade, mostrados sem nenhuma atenuação. Essas coisas ainda me assustam. Como as pessoas podem gostar de ver coisas assim? Eu me forcei a não virar o rosto em nenhuma dessas cenas, e nenhuma delas foi nem um pouco prazerosa, muito antes pelo contrário. Mas ao longo dos episódios, foi ficando menos chocante e mais banal pra mim (o que considero pior ainda).

De qualquer forma, acho muito triste e preocupante que assistir a esse tipo de imagem agrade as pessoas. E continuo não gostando disso na série. Não só do fato de ela mostrar essas imagens, mas de ela ser uma série que gira em torno de tanta crueldade.

Mas, por outro lado, eu consegui entender o que a série tem de bom, pra atrair a admiração de tantas pessoas que gostam das mesmas coisas que eu. O roteiro é incrivelmente bem feito. Os personagens e as situações são muito bem construídas. Gera muita identificação, suspense, torcida pelos desfechos que você gostaria e surpresa em relação ao que realmente acontece.

E acabou que pronto: agora eu também gosto da série e vou continuar assistindo às demais temporadas. Acho uma pena que a condição pra que eu continue acompanhando a história seja continuar acompanhando também as barbaridades que ocorrem nela. E acho uma pena que uma série tão boa se baseie em coisas como essas. Mas acima de tudo acho uma pena que eu seja parte de, provavelmente, apenas uma minoria para a qual a violência atrapalha ao invés de contribuir para o roteiro, visto que não parece haver muita reclamação em torno dessa questão por parte do público.

Mas nem tudo está perdido: eu me identifiquei imensamente com os personagens que mais fogem dessa lógica de violência gratuita e banalizada: Khaleesi, Snow, Arya e Tyrion. E me parece que eles são, também para o público amplo, os favoritos. É um consolo ver que mesmo entre os que gostam de assistir a essas barbaridades, as pessoas se identificam justamente com as personagens mais críticas em relação a elas. O sadismo desse público me parece bem menos pior sob essa luz: ele próprio parece encarar esse alvo de prazer que possui, a violência, como algo que no fim das contas é errado.

No mais, prefiro acreditar que grande parte das pessoas que não se incomodam com essas cenas, também não gostam propriamente de vê-las, mas apenas não ligam pra elas. Talvez, diferente de mim que demorei para achá-las mais banais, muitos já as vejam dessa forma desde o início, o que é também triste, mas talvez pelo menos um pouquinho menos cruel.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

DECIDI SAIR A FAVOR DE WALCYR CARRASCO!

Eu amo a falta de noção dele e a banana que ele dá pro politicamente correto. Adoro ele tratar do tema da gordura, por exemplo, de um jeito q ninguém nunca teve coragem de tratar numa novela: evidenciando a baixa auto-estima do gordo e o tanto que ele é zuado o tempo todo. O mundo é assim, gente: é trágico, mas também é cômico: rir de como a gente é babaca também pode ser bastante libertador.

É como personagens como a Vera Verão e a Waléria, do Zorra Total. Galera reclama de estereótipo, mas existe gente exatamente com o perfil das personagens na vida. Eu digo porque conheço. E são pessoas com uma personalidade muito engraçada mesmo. Mas eu acho legal a gente rir com e não de. E acho que essas personagens proporcionam isso.

Mais que isso: acho que é isso que as pessoas nas quais esses personagens são inspiradas fazem. Não é à toa a quantidade de gays e travestis engraçadíssimas e gordinh@s super divertidos que existem no mundo: sobra pra eles esse lugar pra serem melhor aceitos.

Encarar isso, mostrar isso e tratar disso com naturalidade, pra mim é um mérito muito maior do que ficar dando lições de moral pra população ou simular um mundo asséptico.

Esse estilo sempre acompanhou o autor, em grandes novelas como Alma Gêmea, por exemplo, quando o pessoal da pensão chamava os negros que frequentavam o local de torradinhos, e eu rachava de rir com isso. Sou racista por causa disso? Eu também morro de rir quando chamam o Félix de bicha, e grande parte do esforço da minha vida é lutar pelos direito das bicha! E sejamos justos: já teve novela que mais conseguiu conscientizar o público a favor das bicha? E isso graças à ~falta de noção~ dele de colocar a bicha como vilã, e não como herói.

É aí que tá: pra mim, há muito potencial em rir de como é retardada a situação em que alguém é descriminado por causa dessas coisas. Isso, pra mim, é positivo. Acho algo completamente diferente um homem branco hétero cis falando mal de bicha, negro e gordo (como stand ups estúpidos q existem) e os negros, as bicha e as gorda sendo mostrados se virando em situações humilhantes, mas engraçadas, que geram ternura, identificação e humanização de forma leve.

E mais: reclamam da construção psicológica de personagens como Amarylis e Eron. Acho, de fato, elas muito mais bem feitas que uma personagem como Santiago, de Avenida Brasil. É claro q elas poderiam ser melhores, mas não vejo motivo pra tanto estardalhaço. E no outro caso, não vi ninguém reclamando.

Ele tem um milhão de núcleos e personagens? Tem. Mas ele consegue cuidar de cada um deles, diferente do q acontecia em Salve Jorge, por exemplo.

Pra mim, os únicos problemas da novela são a repetição sem fim dos mesmo eventos envolvendo os personagens secundários (como os dois casais no motel) e o núcleo do Thales, q se perdeu desde o começo, com a coisa toda do cabelo da atriz. De resto, acho a novela excelente. E, curioso: ao contrário do q elogiam tanto, também não curto nada o exagero da Tatá. Adoro ela, mas ela não sabe o limite entre o engraçado e o ridículo, por isso, oscila demais entre os dois.

É isso. Atirem suas pedras: elas baterão na minha testa e na do Walcyr e voltarão pra de vocês. Bjos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

POR QUÊ, DIABOS, A GENTE AMA O FÉLIX?

09/01: Atualizações em verde.
01/02: Atualizações em roxo.

Há cerca de um ano atrás, escrevi duas análise a respeito de Carminha, de Avenida Brasil (elas estão aqui e aqui). O fascínio do público por uma vilã tão forte me intrigou e me fez refletir o motivo de tanta adoração. Este ano, um fenômeno parecido se repete com o gosto do público por Félix. Mas Félix e Carminha, apesar de ambos serem vilões, são personagens com perfis muito diferentes. Dessa forma, mais uma vez eu precisei refletir muito para conseguir pistas sobre os motivos dessa nova identificação. Amor à Vida ainda não terminou, mas me arrisco, desta vez, a construir uma análise no calor do acontecimento, mesmo que ela tenha que ser revista depois.

Comparando Félix com Carminha, evidencia-se claramente uma diferença básica. Carminha não tinha um perfil de psicopata: ela sofria constantemente por culpa e remorso em relação às maldades que cometia e não tinha o sangue frio necessário para matar seus inimigos. Félix, por outro lado, foi capaz de abandonar à morte uma criança recém-nascida, sem nenhuma dificuldade e sem remorsos posteriores.

A figura do psicopata, no discurso médico, é a pessoa que, devido a um transtorno mental, não possui a capacidade de processar sensações como a culpa, o remorso e a empatia (colocar-se no lugar dos outros). Na novela, ela aparece, em uma discussão entre Bernarda e Pilar, como a pessoa que, devido a uma doença mental, é absolutamente malvada. Bernarda não acredita que o neto seja um psicopata, mas sim que apresenta um perfil psicológico parecido com o de um psicopata, devido a uma “falta de amor”.

O caminho encontrado por Walcyr Carrasco para salvar Félix foi similar ao de João Emanuel Carneiro para salvar Carminha: transferir o vilão. Walcyr, além de conduzir melhor essa transferência (afinal, ele já tinha o exemplo da pioneira, mas abrupta forma encontrada por João Emanuel Carneiro), o fez de forma mais pulverizada. No caso de Carminha, toda a maldade recaiu sobre seu pai, Santiago. Para aliviar a barra de Félix, a vilania do roteiro foi transferida primeiramente para César, mas depois para Amarylis e Aline. Por hora, vejamos apenas a situação de César.

Félix teria se tornado uma pessoa com “um perfil próximo ao de um psicopata” devido à “falta de amor” relegada a ele por César, graças à sua “afeminação” e à culpa que o pai lhe atribuía pela morte do irmão mais velho, Cristiano. Dessa forma, assim como Carminha se inocentou da responsabilidade por sua maldade devido ao fato de ela ter sofrido duramente durante a infância, também Félix torna-se isento de sua responsabilidade devido ao fato de ter adquirido seu perfil psicológico graças à forma como seu pai lhe tratara.

Bernarda acredita que Félix possa ser capaz de mudar seu perfil psicológico ao receber o amor que sempre lhe faltou, ao entrar em contato com a alma de um anjo (metáfora criada por Niko). É isso o que acontece com ele quando o vilão passa a viver com Márcia e torna-se próximo a Niko. A sacada é antiga: a narrativa da redenção por meio do amor sempre foi uma das bases dos enredos das telenovelas. Márcia e Niko seriam os anjos da metáfora, capazes de transformar Félix.

Mas para o discurso médico, a psicopatia é algo irreversível, apesar da crença recorrente das pessoas próximas ao psicopata de que ela seria possível. O posicionamento de Bernarda, ao não enquadrar o neto como psicopata, mas sim como alguém que tenha adquirido um “perfil parecido com o de um psicopata” vai nessa direção: tenta tirar da visão que se tem do neto a impossibilidade de mudança, ao negar-lhe esse rótulo. Ora, qual seria a diferença entre um psicopata e alguém com o “perfil parecido com o de um psicopata” senão, justamente, a possibilidade de reversão desse quadro?

Mesmo assim, Walcyr tinha um grande pepino em suas mãos: como transformar Félix em uma pessoa melhor sem negar o perfil psicológico que ele próprio construiu para a personagem? Félix, em nenhum momento mostrou, de fato, remorso ou culpa pelos atos que cometeu. Pelo contrário, conversando com Márcia, ele disse aos risos: “Eu? Ficar cuidando da Marijeyne? Não, não, não! Não suporto criança! Já joguei uma na caçamba, posso jogar ela também. Você não tem medo disso?”. Entretanto, logo na sequência, vendo-se obrigado a cuidar da criança, ele aprendeu, com essa experiência, que uma situação que ele considerava ruim (o convívio com crianças) pode ser, na verdade, muito boa.

É também pela experiência que ele aprendeu porque determinadas ações não devem ser feitas, como o ato de abandonar uma criança à morte. Afinal, tal ação foi o que fez com que ele passasse por várias experiências negativas, como perder o status social e econômico que ele possuía. Ao invés de sofrer de remorso por ter cometido as coisas que cometeu, Félix foi condicionado, pela experiência, a considerar um erro realizar ações como essas. 

Acima de tudo, Félix aprendeu que há outras formas, outros meios para se conquistar as coisas na vida. Enquanto a forma que ele usava funcionava (ou pelo menos parecia que iria funcionar), ele continuou com ela, mas quando ela falhou, ele viu que a cooperação pode funcionar melhor. Esperto como é, adaptou-se e aprendeu a jogar o jogo da vida com cartas novas.

Outra característica do perfil psicopático que Félix apresenta é fazer-se o tempo todo de vítima, com seus bordões do tipo “Eu devo ter salgado a santa ceia para merecer” isso ou aquilo. Mas, o próprio discurso médico aponta que a psicopatia manifesta-se em diferentes graus. Félix mostrou-se capaz de apresentar empatia por pessoas que lhe ajudaram em momentos de dificuldade, ou seja, Márcia e Niko. Inclusive, dando para Márcia metade de seu rendimento mensal. Mostrou empatia também pelo filho de Aline e César, ao vê-lo abandonado como antes ele abandonara Paulinha. 

Numa segunda fase, Amarylis aparece como a vilã à qual Félix se opõe como herói para salvar Niko. Posteriormente é Aline que ele combate para salvar César. E é isso o que proporciona sua reconciliação com Paloma, e depois também com Paulinha. É a partir dessa reconciliação que fica evidente o quanto ele mudou: não aceita um cargo de presidência no hospital, que antes era seu objetivo, porque agora tem outros planos de vida.

Mas Félix não mudou assim da água para o vinho, e isso aponta uma coerência da personagem, que faz com que sua trajetória não fique agarrada na goela dos telespectadores, mas desça, ganhando a confiança deles de que ela, por ser verossímil, parece verdadeira. O "ato de generosidade" que realizou ao entregar o pendrive de Mariah a Paloma, relevou ele no dia seguinte à sua Mami Poderosa, foi, antes de mais nada, uma estratégia para distrair Bruno e Paloma e sair ileso depois de toda a confissão, que só ocorreu por pressão de Pilar, que ameaçava tirar-lhe os luxos reconquistados.

Depois da sessão de revelações, Félix foi até a casa de Niko se esforçando pra sentir dor e arrependimento pelas coisas que fez e que, agora com seu novo julgamento à respeito de como é e como não é adequado agir, considera erradas. Mas o esforço imenso pra se atingir um sofrimento raso e efêmero é de dar pena (não do ator, como sempre ótimo, mas da personagem).
Também quando Paloma se reconcilia com ele, ele não chora, apenas se emocionando quando ela lhe oferece um cargo no hospital. Mas consegue se emocionar de fato ao receber do pai o reconhecimento que sempre lhe faltara.

Passar toda a verdade a limpo foi algo importante para a trajetória da personagem. Assim como também foi importante ele ter recebido uns tabefes de Paloma, afinal, o público de novela já demonstrou que gosta de uma boa vingança, e que ela ajuda muito a deixar as personagens quites (vide Carminha e Nina de Avenida Brasil).

Pagar pelos seus atos também é algo que João e Walcyr usaram para redimir seus vilões. Carminha pagou indo morar no lixão com Lucinda. Félix iniciou seu pagamento tendo que vender hot dog ao lado de Márcia. Respeitando o seu “perfil próximo ao de um psicopata”, Félix adaptou-se rapidamente à sua nova realidade, autointitulando-se o “rei do hot dog”. No fim, ele e César pagaram mutuamente: tendo que conviver um com o outro, com suas diferenças e dificuldades.

Algo que sempre me incomodou nos discursos sobre a psicopatia é a crueldade com que se condena o psicopata ao isolamento social. O psicopata, ou alguém “com o perfil parecido com o de um psicopata”, como quer Bernarda (afinal, o que é esse termo além de um rótulo dado às pessoas com esse perfil pela medicina?), não é responsável por sua incapacidade de sentir culpa e empatia, que é o que o leva a ser capaz de cometer atos prejudiciais aos outros com tanta naturalidade. Não havendo a possibilidade de reverter essa incapacidade, não haveria nenhuma outra forma de condicionar o psicopata ao bom convívio social? Félix é a visão esperançosa de que sim, por isso é uma personagem tão conquistadora.

É claro que esse é apenas um dos elementos que fazem com que a personagem seja tão querida. Há outros mais evidentes, e talvez mais fortes, mas que, acredito eu, não seriam capazes de gerar tamanha identificação sem o complexo esquema que analisamos até então.

Esses elementos evidentes são parecidos com os que possuía Carminha. Félix, além de ser bem construído pelo autor, é interpretado por um ótimo ator. O vilão é carismático devido ao seu bom-humor e sua autenticidade. Ele é uma personagem única, forte e impositiva, que acredita no que diz (ele não cansa de dizer que é mal) e no que faz. Apesar das encenações de falsidade em relação a outras personagens, sua real face foi apresentada para nós desde o começo, o que adiciona o elemento da cumplicidade que sentimos em relação a ele, e não a Amarylis e Aline, por exemplo.

Não é à toa que o final da novela foi focado na relação dele com seu pai. Não é a toa que essa personagem deu o primeiro beijo gay da nossa teledramaturgia. O beijo e o tão sonhado "eu te amo" vindo de César foram os pagamentos recebidos por ele por ter sido tão amado pelo público.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A maldade fascinante de Avenida Brasil


A teledramaturgia é a minha maior paixão desde que eu me entendo por gente. Já assisti centenas de novelas, minisséries e seriados brasileiros, estadunidenses, mexicanos, colombianos, argentinos. Mas em todo esse tempo, eu nunca vi um fenômeno tão instigante e tão fascinante quanto a paixão do público brasileiro por uma vilã da magnitude de Carminha, de Avenida Brasil. Mas porque uma personagem tão má se tornou tão amada?

Primeiro por suas características psicológicas. Carminha foi uma criança que viu o pai matar a mãe a sangue frio, que foi abusada e abandonada por ele, que cresceu num lixão sendo explorada por um homem asqueroso. O resultado desse processo foi ela ter se tornado extremamente carente e egocêntrica. Carminha aprendeu a manipular, a jogar jogos com as cartas dos outros, para sobreviver. Carminha aprendeu a criar fantasias em sua mente, nas quais era ela quem mandava, nas quais todo aquele sofrimento não a afetava. E Carminha caiu na sua própria armadilha: enganou a si mesma e se confundiu com as personagens que criou. Chegou a um momento em que não sabia se era a esposa apaixonada de Tufão ou sua carrasca.

Na casa de Tufão, Carminha entrou atrás de dinheiro, mas encontrou muito mais que isso. Encontrou todo o afeto, atenção e cuidado que ela nunca teve. Cercada de pessoas que a amavam e a admiravam, incluindo Max, o homem pelo qual ela era apaixonada. Carminha passou doze anos na casa de Tufão, desviando dinheiro dele com a maior facilidade, mas nunca chegou a dar o golpe final para fugir com Max, como ela lhe prometia. Por quê? Porque ela gostava de viver na casa de Tufão, ela gostava da vida que levava ali, aquilo se tornou a coisa mais importante da vida dela.

Carminha não é psicopata, não é friamente cruel, como seu pai. Ela ama, sente culpa, sente pena, sente tristeza. O amor incondicional que ela sente por Jorginho transbordava claramente desde o início da trama. Esse amor imenso se baseava em dois pilares: na culpa que ela sentia por tê-lo abandonado e no orgulho que sentia por ter sido capaz, pelo menos por alguns anos, de manter uma vida normal ao lado de Max. Jorginho era a esperança de Carminha de poder fazer algum bem, de ser diferente de seu pai e de Nilo. Ser igual a seu pai era seu pior medo, e o asco que sente por ele também transbordava.

A pena e a culpa em relação a Rita também eram claras. Ela teve mais de uma chance de matá-la: quando criança, quando na cova, mas não o fez. Pelo contrário, ela sempre arrumava um jeito de tentar tirá-la da sua vida, afastando o objeto de sua culpa, e tentando encamilhá-la para uma vida minimamente digna em algum outro lugar. Foi assim quando ela tentou ajudar Betânia pensando que era Rita. Foi assim quando ela tentou afastá-la de sua casa quando descobriu que ela e Nina eram a mesma pessoa. Carminha tinha medo de ser para Rita o que seu pai foi para ela. Carminha inventava histórias sobre sempre ter ajudado e amado Rita não para enganar os outros, mas para enganar a si mesma. Por isso ela contava essas histórias para Nina, que considerava uma amiga. Para ver em Nina a compreensão de que ela precisava.

A condicionalidade da crueldade de Carminha se mostra na sua dificuldade quase insuperável de matar. Quando resolver fazer isso com Max, tomou todo o cuidado para que ele se sentisse feliz o máximo possível e para que não soubesse que ia morrer. E não conseguiu fazer por ela mesma: teve que solicitar a Lúcio que fizesse. Mas por que matá-lo? Porque Max, ainda mais que Nina (a qual ela não conseguiria matar por sua culpa) podia tirar-lhe o afeto da família Tufão. Foi quando Max ameaçou contar a todos a verdade, e ela sabia que ele realmente faria isso, que a situação se tornou insustentável para Carminha. E olha que a situação para ela na casa do Tufão já estava praticamente perdida. Por que não dar um golpe nele de vez e sumir? Porque ela queria lutar até o fim para manter aquela vida que levava. Carminha só conseguiu matar com as próprias mãos, quando Max estava prestes a acabar com a vida de Nina, Jorginho, Tufão, Lucinda e todos aqueles que ela mais amava e queria proteger, mesmo sem admitir.

E foi a culpa o que salvou Carminha. A culpa por ter feito tanto mal a Nina, a Tufão, a Jorginho, a Ágata, a Max. E também o afeto que recebera deles, que mostrou-lhe outras possibilidades. Ela precisou ser confrontada com seu pai para ter claro em sua mente o que ela queria e o que ela não queria ser. Todos nós temos conflitos internos, perverssidades contra as quais lutamos, por isso nos sentimos tão perto de Carminha.

Em segundo lugar, o que nos atraiu para ela foi o poder que ela tinha em suas mãos, com sua capacidade de manipular e passar por cima de limites éticos. Carminha não é a primeira vilã pela qual nos apaixonamos, basta lembrar de Nazaré, de Senhora do Destino, por exemplo. Aliás, não é à toa que foi a talentosíssima Adriana Esteves quem viveu essa outra na juventude. Renata Sorrah, inclusive, afirmou ter baseado sua Nazaré na de Adriana. Quem não gostaria de ser capaz, às vezes, de passar por cima de seus princípios para conseguir aquilo que quer? Nos identificamos com a maldade dessas vilãs porque desejamos ser capazes de ser malvados assim às vezes, e de fato, às vezes somos.

O final de Carminha poupou ela da morte, destino das vilãs mais odiadas, mas não lhe deu a fuga. Ela pagou pelos seus erros da pior forma: convivendo com as consequências deles pelo resto da vida. A perda de seus cabelos loiros (já ocorrida quando Nina estava comandando) é simbólica: Carminha perdeu com eles seu brilho. Mas não sua personalidade: continuou reclamando, exigindo e resmungando como sempre.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Avenida Brasil foi uma excelente novela, mas com muitos problemas na condução do roteiro


Positivo: Dinamicidade, mistério e inovação do enredo
Um enredo que não trata de um triângulo amoroso e sim de uma vingança. A cada final, um gancho mais forte e mais impactante. A cada semana, reviravoltas inesperadas e uma profusão de acontecimentos. Deu adrenalina assistir Avenida Brasil.

Negativo: Transferência de vilão
Foi genial o que João Emanuel Carneiro fez para redimir Carminha: transformar Santiago num vilão muito maior que ela e atribuir a isso os desvios de caráter da loira. Entretanto, essa transferência não foi bem conduzida. Santiago entrou já na metade da trama e mudou da água para o vinho na última semana.  Teria sido bem mais coerente inseri-lo, mesmo que inicialmente apenas por referências ao personagem, desde o começo da novela. Do mesmo modo, teria sido muito mais verossímil ter dado pistas de sua maldade há muito tempo, para que sua transformação não parecesse uma estratégia desesperada para salvar Carminha no final.

Positivo: Uma das personagens mais bem construídas da nossa teledramaturgia
Carminha é uma vilã incrível. Uma vilã carismática, que sofre, chora, ri, ama, odeia, tem raiva, tem tédio, tem tesão, tem ambições, defeitos e pontos fracos como qualquer um de nós. Uma vilã que finge, mas finge tão bem, que acredita nas próprias mentiras e passa a se misturar com a personagem que ela mesma constrói para enganar os outros. Carminha fingia ser religiosa, mas quando estava sozinha em apuros, não parava de rezar. Carminha fingia ter pena e culpa pelo que fez com Rita ou será que tinha de verdade? Carminha fingia considerar a família de Tufão sua família ou será que considerava de verdade? Uma vilã que tenta matar o homem que ama, mas faz isso sofrendo terrivelmente. Os limites de Carminha são borrados. Ela não é nada caricata ou maniqueísta. Ela é humana, complexa, intangível. Não só ela, mas vários outros personagens dessa novela também são assim, como Nina, Nilo e Suelen. Carminha não foi bem construída só pelo autor, mas também pela atriz. Adriana Esteves mostrou-se uma das melhores no que faz.

Negativo: Velocidade de desenvolvimento do enredo
Apesar de ótimo, o roteiro de Avenida Brasil foi lento. Desde a segunda semana da novela, quando ocorreu o fim da primeira fase, o roteiro aponta para a conclusão da vingança de Nina: destituir Carminha de seu lugar como esposa de Tufão. Porém isso só foi acontecer faltando duas semanas para o fim da novela. Se tivesse ocorrido faltando, por exemplo, dois meses, poderíamos ter visto a loira comer o pão que o diabo amassou por mais tempo e ter se redimido aos poucos, e não de forma brusca como teve que ocorrer no final.

Positivo: Fotografia
Ouso dizer que Avenida Brasil tem a melhor fotografia da história da nossa teledramaturgia. A câmera inquieta, os ângulos inesperados, a estética cinematográfica. Como não prender a respiração em momentos como a saída de Nina da cova ou a morte de Max? Como não amar loucamente as cenas de Ritinha e Batata no lixão? Aliás, a direção de arte dessas cenas é simplesmente melhor do que muita coisa premiadíssima.

Negativo: Perda das fotos da traição de Carminha
Esse foi um dos maiores erros da nossa teledramaturgia. Carminha não poderia, em hipótese alguma, ter virado o jogo roubando de Nina as fotos que provam sua traição. Simplesmente porque é óbvio que essas fotos estariam salvas online, em diversos locais. O que deveria ter acontecido é que Carminha deveria ter conseguido algo contra Nina que a deixasse de mãos amarradas e a impedisse de usar as fotos. Por exemplo: Begônia, a irmã de Nina, já foi viciada em drogas. E se Carminha descobrisse que ela veio para o Brasil ilegalmente, fugindo de um mandado de prisão por tráfico de drogas na Argentina? Nina não arriscaria mostrar as fotos para Tufão sabendo que por isso Begônia poderia ser denunciada por Carminha.

Positivo: Direção
Acho graça quando reclamam da representação da classe C na novela, por gritar demais. Essa estética inovadora do bairro do Divino é justamente um dos pontos altos da trama. As cenas na casa de Tufão são algumas das mais bem dirigidas que já assisti. Uma bagunça organizada divertidíssima. E sim, muita gente da classe C se comporta assim mesmo (minha família incluída)! Engraçado que só reclamam disso os intelectuais da classe B... Todos falando ao mesmo tempo, improvisando: muito bem feito!

Negativo: Escolha de Débora Falabella para Nina
Débora é uma ótima atriz, mas não se encaixa no papel. Não tem o carisma necessário. O embate entre Mel Maia e Adriana era justo. Com Débora no lugar, o carisma da loira a ofusca completamente. Eu teria apostado em Ísis Valverde...

Positivo: Bagunça de lugares entre mocinha e vilã
Uma mocinha que odeia, que quer vingança, que mente, engana. Uma vilã adorável que se redime no final. João Emanuel Carneiro ousou em bagunçar esses lugares, e fez isso muito bem. E o final pra essas duas também é perfeito e inovador. A gente não perde por esperar e assistir amanhã!

domingo, 3 de junho de 2012

Avenida Brasil = A Favorita 2

João Emanuel Carneiro repete em Avenida Brasil os mesmos tipos presentes em A Favorita. Confere só:


A vilã linda e poderosa


 =

Flora e Carminha. Ambas são vilãs lindas, loiras e poderosas que a gente tanto ama. Ambas são dissimuladas, fingem-se de boazinhas, mas botam pra quebrar com suas maldades. Ambas se acham injustiçadas e pensam que tudo que fazem é o certo. Ambas são loucas assim do jeito que a gente gosta por causa de traumas do passado. Flora era traumatizada porque sua irmã adotiva Donatela era tudo o que ela não se achava: linda, boa cantora e amada por todos. Carminha é traumatizada por seu passado difícil no lixão.



A mocinha chata e revoltada

 =

Lara e Nina. Ambas brigam contra si próprias pra não cairem na revolta e na vingança. Ambas travam uma luta interna entre o bem e o mal. Ambas têm fantasmas do passado que as assombram. Ambas são songa mongas e têm cabelos de papa-capim. Em A Favorita, Lara era a filha de uma assassina presa por ter matado seu pai (daí seu trauma). Depois a Flora tenta fazer a cabeça dela para que ela acredite que sua mãe adotiva é quem, de fato, matou seu pai. Mas quando percebe quem é a real vilã, começa a querer lutar por justiça ao lado de Donatela. No final, ela tem que escolher se mata ou não Flora para salvar Donatela (conflito interno entre os dois lados da força).


A injustiçada barraqueira

 = 

Donatela e [Monalisa + Lucinda]. Ambas as três falam alto e não têm modos. Ambas as três são incompreendidas por quem acha que essas características fazem delas bitches. Ambas as três comem o pão que o diabo amassou por causa disso. Em Avenida Brasil, Donatela, rival de Flora no amor e na ética, se desmembrou em duas, uma para cada uma dessas funções. 


O mocinho problemático

 =

Halley e Jorginho. Ambos são lindos e problemáticos. Ambos são o Cauã Reymond. Ambos são adotados, mas não sabem que sua mãe verdadeira está por perto. Halley era o filho roubado de Donatela em A Favorita. Em Avenida Brasil, Jorginho herda também um pouco do que compunha Lara: sua intuição lhe diz quem é a verdadeira vilã (sua mãe) e quem é a verdadeira mocinha.


O homem de bom coração enganado pela vilã

 =

Zé Bob e Tufão. Ambos tem esse jeito politicamente correto. Ambos não fazem quase nada na trama. Zé Bob foi "enfeitiçado" por Flora no início de A Favorita, mas depois percebeu seu real caráter e ficou com Donatela, sua rival também no amor.


O michê cafona

 =

Dodi e Max. Ambos vivem na casa dos ricaços fingindo ser o que não são. Ambos se vestem como o Agostinho de A Grande Família. Ambos são vilões meio burros que não fazem muitas maldades, mas vivem de pequenos golpes. Em A Favorita, Dodi era o pai verdadeiro de Lara e amante de Flora.


A velha injusta

 =

Irene e Muricy. Ambas adoram a candidata a nora errada. Ambas odeiam a candidata a nora boazinha, mas barraqueira. Irene era sogra de Donatela em A Favorita.


A namorade gente boa

 =

Cassiano e Débora. Ambos são bonzinhos e gente boas, e a gente torce por eles, mas sabe que eles não vão ficar com quem gostam... Cassiano era o namorado de Lara em A Favorita.


O velho vira-casaca

 =

Silveirinha e Nilo. Ambos sabem muitos segredos do passado. Ambos são leais a quem lhes der dinheiro e um pouco de carinho. Silveirinha mudou de lado em A Favorita, deixando de ajudar Flora e se aliando a Donatela.