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sábado, 2 de maio de 2020

VAMOS FALAR SOBRE HSH PODEREM DOAR SANGUE?

O STF está julgando essa causa e, por enquanto, tem maioria a favor. Mais uma vez, é o poder judiciário quem tem garantido direitos à população LGBT, depois de aprovar o casamento igualitário, o direito ao nome social e a criminalização da LGBTfobia.

Mas por que é tão importante para a comunidade LGBT que homens que fazem sexo com outros homens possam doar sangue?

A medicina trabalha com dois conceitos relacionados a doenças: grupos de risco e comportamentos de risco. A ideia de grupos de risco define grupos de pessoas que têm maior chance de apresentarem certa doença. A ideia de comportamentos de risco define certos comportamentos que têm maior chance de causarem a doença. Em geral, o movimento tem sido de se distanciar da ideia de grupo de risco a favor da de comportamento de risco.

Vamos pensar nos homens que fazem sexo com outros homens enquanto grupo de risco. Segundo o Governo Federal, 1 a cada 250 pessoas vivem com HIV no Brasil. Mas segundo o Ministério da Saúde, 1 a cada 4 homens que fazem sexo com outros homens (HSH) na cidade de São Paulo vivem com o HIV. O número de HSH em São Paulo que convive com o HIV é 63 vezes maior que a média da população.

Agora vamos pensar em comportamento de risco. Segundo a Unaids, o sexo anal para quem é passivo tem 17 vezes mais chance de transmitir HIV do que o sexo vaginal para quem é receptivo. Já para quem é ativo no sexo anal a chance de transmissão é 3 vezes maior do que para quem é insertivo no sexo vaginal. Segundo pesquisa divulgada pela Folha, 18% dos homens heterossexuais tiveram três ou mais parceiras no último ano, contra 47% do homens gays e 44% dos homens bissexuais. Com isso, é possível concluir que homens gays e bissexuais têm, em média, pelo menos 3 vezes mais companheiros sexuais que homens heterossexuais.

Mas segundo a pesquisa divulgada pela Folha referenciada acima, 37% dos homens heterossexuais fazem sexo sem camisinha, contra 19% dos homens gays e 11% dos homens bissexuais. Portanto, homens heterossexuais transam sem camisinha, em média, 3 vezes mais que homens gays e bissexuais. É preciso ressaltar ainda, que homens heterossexuais também fazem sexo anal. Segundo pesquisa estadunidense divulgada pelo IG, 37% das mulheres nos EUA praticam sexo anal regularmente.

Atualmente, o critério para doação varia de acordo com o hemocentro, podendo estipular que o doador pode ter tido apenas um parceiro sexual no último ano, ou que tenha tido até dois parceiros nos últimos seis meses, por exemplo. Já uma portaria do Ministério da Saúde estabelece que não podem doar pessoas que fizeram, no último ano, sexo em troca de dinheiro ou drogas, pessoas que fizeram sexo com desconhecidos, e homens que fizeram sexo com outros homens ou com parceiras destes.

Perceba que pensando nos homens que fazem sexo com outros homens enquanto grupo de risco, em geral, a chance de contaminação é maior. Mas os grupos não são homogêneos. Vamos pegar por exemplo a cidade de São Paulo: 1 a cada 4 HSH vivem com HIV, mas 75% dos HSH não vivem e, no entanto, não têm o direito de doar sangue. Já homens heterossexuais que fazem sexo anal, por exemplo, podem doar sangue sem que isso seja um critério. Da mesma forma, podem doar sangue apesar de não terem usado preservativo com parceiras fixas, enquanto os HSH que usaram preservativo em todas as relações não podem doar.

É possível entender que há uma lógica por trás da ideia de que os HSH não podem doar sangue, mas não é a melhor lógica. A melhor lógica é olhar para o comportamento das pessoas, e não para qual grupo elas pertencem.

Por isso é tão importante para a comunidade LGBT que os HSH possam doar sangue: para que deixemos de ser estigmatizados, automaticamente tratados como portadores de doenças, humilhados ao tentar realizar uma atitude cívica.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

DIA DE COMBATE À LGBTFOBIA

17 de maio é o Dia de Combate à LGBTfobia!

Ué, mas não era à Homofobia?

Muita gente muito bacana e que super ajuda a combater à LGBTfobia, ainda não sabe a importância de se preferir o termo LGBTfobia ao invés de homofobia.

LGBT signigica Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Dentro da comunidade LGBT, as diversas identidades que compõe essas letrinhas foram historicamente eclipsadas pela visibilidade dada aos homens homossexuais.

No início, ao invés dessa sigla, se usava o termo "comunidade gay". Daí dá pra ver como, de um ponto de vista histórico, os homens homossexuais sempre tiveram uma visibilidade muito maior no movimento. Ainda hoje, muitas pessoas continuam a usar o termo "Parada Gay", ao invés de "Parada LGBT", por exemplo.

Depois, a sigla usada pra designar a comunidade era GLBT. O L, que significa Lésbicas, foi para frente para indicar a necessidade de se pensar e de se tomar atitudes para contornar esse problema.

Com o termo homofobia não foi diferente: as diversas identidades LGBT passaram a questionar o termo por focar apenas nos problemas e dificuldades enfrentados pelos homens gays.

Daí surgiram termos específicos para designar os preconceitos existentes contra cada identidade. A lesbofobia, por exemplo, está ligada a "estupros corretivos" e fetichização. A bifobia, ao apagamento desse grupo e à crença equivocada de que bissexuais são, na verdade, gays ou lésbicas enrustidos. A transfobia está ligada às violências e a negação de direitos sofridos pelas pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele que lhes foi designado quando nasceram.

Então começaram a surgir termos para tentar evidenciar a existência desses múltiplos preconceitos. Inicialmente, experimentou-se homolesbotransfobia. Grande e confuso. Chegou-se, então, ao simples, mas muito mais representativo, LGBTfobia.

Prefira esse termo! Utilizar os termos mais representativos é um jeito simples e prático de ajudar na luta contra a LGBTfobia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

POR QUE BABILÔNIA FOI BOA DEMAIS PARA DAR CERTO



Parte do público pode não ter gostado de Babilônia por achar que a novela não tinha um roteiro consistente. Outra parte pode ter achado que as personagens eram planas demais, sem complexidades emocionais que gerassem identificação da gente com elas. Não discordo de nada disso. Mas o motivo principal de Babilônia não ter dado certo é que ela exagerou a mão na militância. Por paradoxal que seja, digo isso não como uma crítica, mas como um grande elogio.

Babilônia era progressista demais para agradar a maior parte do público. A novela expunha a intolerância e a corrupção que podem existir por trás da religião. Opunha-se ao o racismo, ao machismo,* à homofobia, à lesbofobia e (ainda que timidamente) à transfobia. Até um posicionamento contrário à redução da maioridade penal foi esboçado na trama. É claro que Babilônia não acertou em tudo. Além de ceder às pressões que sofreu, ela também deu algumas bolas fora. Mas o quadro final mostra uma novela mais comprometida com a militância do que nunca.

* A seguir, porém, há ressalvas em relação ao combate ao machismo por parte da novela.

Abaixo listo dez argumentos que sustentam minha perspectiva:

1. Uma família homoafetiva

Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) não só eram um casal de lésbicas, elas eram um casal de lésbicas idosas, que viviam juntas há décadas. Mais ainda: eram um casal de idosas que tinham sexualidade. Logo no primeiro capítulo, elas já se beijaram. Essa foi, aliás, a cena que desencadeou o boicote de parte do público evangélico e conservador à trama. A novela cedeu, e não houve mais cenas de beijo. Mas Teresa continuou sendo o maior exemplo de ética e caráter da novela. Seu casamento com Estela e a forma como criaram Rafael (Chay Suede) foram construídos como o retrato de uma família exemplar. Com essa família, a homossexualidade foi tratada no cerne da novela pelo lado das lésbicas, explicitando a lesbofobia.

2. Uma advogada formada pelo sistema de cotas

Paula (Sheron Menezzes) era uma advogada competente e bem sucedida, negra e nascida na favela. Conseguiu se formar graças ao sistema de cotas, comprar um apartamento no asfalto e viajar para os Estados Unidos. A novela se preocupou não só em retratar a necessidade de se criar espaço para os negros no ensino e no mercado de trabalho, mas também tentou fazer o mesmo: o número de atores negros na trama (ainda que bem menor que o ideal) foi muito superior à média das demais novelas. Antes de Babilônia, só se via tantos negros em seus próprios núcleos e com suas próprias histórias, em novelas que ainda os retratam como escravos. Infelizmente, enquanto a elite ainda é branca, a maior parte da população pobre e de favela é negra. Babilônia teve consciência disso e fez diferente de outras novelas, que mesmo tendo a favela como ambiente fundamental na trama, quase não têm atores negros. Claro, ainda não é o suficiente: se menos da metade da população é branca, os negros deveriam estar muito mais presentes nas faculdades, como Paula, nas novelas e em qualquer outro ambiente em que são marginalizados. Mas Babilônia deu um passo à frente nesse caminho.

3. Independência feminina

Regina (Camila Pitanga) não é uma mocinha frágil e não precisa de um homem para defendê-la. Ela criou a filha sozinha, na favela, sustentando a casa que, além das duas, era ocupada pela mãe e pelo irmão mais novo. Trabalhava pesado como barraqueira para isso, mas teve competência e garra para conquistar espaços e se empoderar. A personagem Alice (Sophie Charlotte) também era outra que se recusava a depender do dinheiro de um homem.

4. O proselitismo religioso

Aderbal (Marcos Palmeira) justificava seu machismo e sua homofobia através de sua religião. Mas ignorava os preceitos dela em relação a tudo o que lhe convinha: criava esquemas de corrupção para desviar dinheiro público para seu bolso, traía sua esposa, fez com que sua amante abortasse quando ela engravidou dele.* Como agradar ao público conservador retratando um líder evangélico como um canalha e lésbicas como heroínas? Ao opor a fé de Laís (Luisa Arraes) à de seu pai, a novela demonstrou que ter uma religião e ser intolerante são coisas muito diferentes. Através do namorado dela, Rafael, mostrou também que não se precisa ter religião para ser ético. Por meio desse relacionamento, Babilônia retratou a possibilidade de convivência entre os universos aparentemente tão distintos de evangélicos e homossexuais.

*É importante lembrar que o aborto ainda é visto de forma muito negativa, e a novela não avançou muito em relação a isso. Quando Cris (Tainá Müller) engravidou de Vinícius (Thiago Fragoso), entretanto, o mocinho disse que a decisão de ter ou não o filho era dela, porque o corpo é dela.

5. Os adolescentes e a criminalidade

Wolnei (Peter Brandão) foi cooptado pelo crime durante toda a novela, e durante a maior parte dela entrou nesse barco. Mas o que o tirou desse caminho não foi a prisão, e sim a educação, o afeto e as oportunidades que lhe foram dados pelos familiares e amigos, que não desistiram dele. A novela foi completamente antenada com as discussões e problemas atuais do país, como o envolvimento das empreiteiras com a corrupção, no caso de Aderbal, e a redução da maioridade penal, no caso de Wolnei.

6. A beleza dos cabelos crespos

Júlia (Sabrina Nonata) sofria bullying na escola por causa de seus cabelos crespos. Mas a mãe lhe ensinou a ter orgulho de sua raça e a se lembrar da força de gerações que já tinham sofrido antes dela. Regina ensinou Júlia a se sentir linda por ter cabelos crespos. Paula também adorava seus cabelos assim, usava turbantes e outros acessórios que reforçavam sua matriz africana, e se recusava a alisá-los. Ivete (Mary Sheila) passou a trama renegando o visual e alisando os cabelos, até se render a ele no final, transformando-se enfim numa mulher confiante de sua beleza.

7. A masculinidade, a homossexualidade e o armário

Sérgio (Cláudio Lins) não era um personagem previsto no início da trama. O par romântico de Ivan (Marcello Melo Jr.) seria Carlos Alberto (Marcos Pasquim). A história foi alterada, mais uma vez, para ceder às pressões do público, que não queriam ver o ator que fez tantos papeis de pegador vivendo um gay no armário. Mas a trama foi contada de qualquer maneira, e as correntes que o armário impõe a quem está nele e a quem gosta de quem está nele não deixaram de ser abordadas.

8. A identidade de gênero de uma mulher trans

Úrsula (Rogéria) era a avó de Gabi (Kizi Vaz). Alguns personagens estranhavam e tinham dificuldade de lidar com isso. Mas era algo imposto, não havia espaço para justificar a negação. Ela era a avó e pronto. Os ultrapassados que lidassem com isso.

9. A sexualidade feminina

Esse é um ponto muito complicado. A novela começou tendo a possibilidade de dar um passo à frente, mas cedeu às pressões do público e acabou dando dois passos para trás. A sexualidade feminina assusta. Uma mulher que adora transar, que vê um homem gostoso e quer comê-lo no primeiro banheiro que encontra, é um absurdo no nosso sistema de valores. Assim era Beatriz no início da trama.

A dicotomia mocinha exemplar e vilã toda-errada já tornava essa estratégia ambígua. Seria mais fácil aceitar esse tipo de comportamento da vilã do que da mocinha: imagina se fosse Regina quem gostasse de fazer sexo livremente dessa forma?* Caracterizar a vilã assim poderia reafirmar a inadequação desse comportamento... Mas as vilãs têm se tornado tão carismáticas e o público tem se identificado tanto com elas... Para o bem ou para o mal, Beatriz fez o público encarar essa possibilidade.

No entanto, mesmo partindo da vilã, a sexualidade exacerbada não foi aceita, e Beatriz foi transformada em uma mulher apaixonada por Diogo (Thiago Martins), que chegou a dopar o gato do Pedro (André Bankoff) para não ter que transar com ele, e a negar investidas do deuso Murilo (Bruno Gagliasso). Uma mulher pegadora foi demais para a cabeça do público, que não estava disposto a lidar com o tema, nem que fosse para reafirmar sua inadequação: a sexualidade feminina é algo que grande parte das pessoas sequer deseja pensar que existe.

* Regina foi caracterizada, em grande parte da trama, como uma mulher romântica e quase sem desejo sexual.

10. Namorados e maridos também estupram

Quando Guto (Bruno Gissoni) tentou forçar a namorada Laís a transar com ele, a cena foi adequadamente lida pelas demais personagens como tentativa de estupro. O corpo da mulher não é público, nem pertence ao homem. Levar a namorada ou a esposa a transar contra sua vontade é completamente inadmissível. Estupros não são cometidos apenas por estranhos. Laís sentiu vergonha e quis esconder o fato. Muitas mulheres passam pelo mesmo. Mas a personagem conseguiu perceber que quem deveria estar envergonhado era ele e denunciou publicamente o ocorrido (ainda que não criminalmente, como seria o ideal).

Porém nem tudo foram acertos. É preciso lembrar que a novela, desde o começo, deu uma grande mancada em relação a Beatriz: culpabilizar a adolescente pelos assédios do pai de Inês (Adriana Esteves). Ainda que a moça incentivasse as investidas, não se pode responsabilizar a menor: o adulto é quem tinha condições de avaliar se aquilo era certo ou errado.

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Edição: 29/08/15 13:14

Minha amiga Mariana me lembrou de uma ressalva importante em relação à questão dos cabelos crespos: durante a transformação que marcou a ascensão social da mocinha Regina, momento comum na narrativa de grande parte das novelas, a principal marca da melhoria de vida da mãe de Júla foi o alisamento de seus cabelos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DISCRIMINAÇÃO E CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA


Ontem à noite, eu e outro homem estávamos juntos num bar no Centro de Betim (Gira Sol, ótima batata recheada, por sinal). Nos sentamos um perto do outro, trocamos não mais do que meia dúzia de selinhos, e ele fez um cafuné no meu cabelo. Nada que qualquer casal hétero não faça na frente de seus filhos e de seus pais, ou no banco da igreja. Um garçom se aproximou.

Garçom: "Por favor, o gerente pediu que eu pedisse a vocês que não ficassem juntos demais, pois há famílias com crianças aqui. Não é nada contra vocês, não temos preconceito, mas vocês sabem, tem gente que tem."

Eu: "Ok. Mas no momento a gente tá junto demais?"

Garçom: "Bom, ele só pediu pra evitarem de ficar muito juntos."

Eu: "Mas o que é ficar muito junto? Só pra saber, porque quero entender se a gente já fez alguma coisa indevida até agora ou não."

Garçom: "Bom, só estou transmitindo o recado."

O outro homem que estava comigo, para o garçom: "Tudo bem, não tem problema."

Eu, para o garçom: "Bom, tem problema sim. Mas a gente já entendeu o que você queria falar." 

Continuamos próximos, mas sem clima pra selinhos ou cafunés. No final, depois de conversar com o outro homem que estava comigo, chamei o garçom.

Eu: "Você é um excelente garçom, nos serviu muito bem. Mas não vamos pagar a taxa de serviço, porque fomos desrespeitados pelo estabelecimento. Não fizemos nada demais e vocês nos repreenderam mesmo assim."

Garçom: "Tudo bem. Mas só falamos para evitar constrangimentos. Tem gente que poderia reclamar."

Eu: "Alguém reclamou?"

Garçom: "Não."

Eu: "Vocês vão à mesa de casais héteros falar essas coisas com eles?"

Garçom: "Se eles estiverem passando dos limites, sim."

Eu: "Nós estávamos passando dos limites?"

Garçom: "Bom, a intenção era só evitar constrangimentos."

Eu: "Pois o que vocês fizeram foi criar um constrangimento. Nós havíamos pensado em ir conversar com o gerente, mas como ele também não veio conversar com a gente e pediu pra você transmitir o recado, também pedimos a você que transfira o nosso recado a ele."

Quando estávamos saindo, vimos um casal hétero em outra mesa dando um beijão de língua. Fiz questão de ir ao garçom mais uma vez.

Eu: "Olha, tem um casal hétero ali dando um beijão de língua, coisa que nós dois não fizemos em nenhum momento em que estivemos aqui."
Ele: "Ok."

Compartilhei o caso num grupo LGBT do Facebook, acreditando que ia encontrar alguma compreensão e suporte. Galera foi tosquíssima comigo, me dizendo que eu era culpado pela agressão, por não ter exigido uma retratação do gerente e não ter ido a uma delegacia prestar queixa. Como se sofrer preconceito não fosse ruim o bastante, ainda somos por vezes culpabilizados pelos preconceitos que sofremos. Como se eu fosse obrigado a terminar uma noite que era pra ser perfeita e que já havia sido bastante afetada, me desgastando ainda mais em uma delegacia, acabando de vez com o resto da alegria que ainda me sobrava, pela companhia com quem eu estava. Palmas pra quem tem ânimo pra fazer isso. Eu, além desse preconceito, tenho que enfrentar um transtorno bipolar que me deixa extremamente vulnerável a tudo isso.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MESMO AMOR


Nos últimos meses, tenho ouvido cada vez mais que branco não entende o problema de preto, que homem não entendo o problema de mulher, que cis não entende o problema de trans. Aí por que eu sou homem cis e branco, eu não sei nada sobre o que as mulheres, os negros e os trans passam.

Eu não sou nada disso. Mas sou gay. E eu sei muito bem o que um gay passa. E eu digo, sem medo de errar, que quem descreveu melhor isso até hoje, de todos as descrições que eu já vi, foi um hétero. Então, se eu tenho propriedade pra dizer isso, eu digo: héteros, eu acredito que vocês possam entender perfeitamente o que nós passamos.

Eu choro sempre com essa música. Aliás, chorei litros fazendo essa tradução:


Mesmo amor

Quando eu tava na terceira série, eu achava que eu era gay
Porque eu sabia desenhar, meu tio era
E eu mantinha meu quarto arrumado
Eu disse pra minha mãe
Lágrimas escorrendo pelo meu rosto
Ela, tipo: "Ben, você ama garotas desde antes da pré-escola, cê tá enganado..."
É, acho que ela tinha razão, né?
Um monte de estereótipos, tudo na minha cabeça
Eu me lembro de fazer contas do tipo
"É, eu sou bom no campeonato infantil"
Uma ideia preconcebida do que tudo isso significava
Pros que gostam do mesmo sexo
Ter certas características
Os conservadores da direita acham que é uma escolha
E que cê pode ser curado por algum tratamento ou religião
Uma mudança duma predisposição, feita pelo ser humano
Brincando de Deus
Ah, nem... aqui vamos nós
América, os fodões ainda têm medo do que a gente não entende
E "Deus ama todos os seus filhos"
É esquecido de algum jeito
Mas a gente parafraseia um livro
Escrito três mil anos atrás
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor

Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Se eu fosse gay, acho que o hip hop ia me odiar
Cê tem lido os comentários do Youtube ultimamente?
"Cara, isso é gay": tem um monte disso todo dia
A gente se tornou tão insensível com o que a gente tá dizendo
Uma cultura fundada na opressão
A gente ainda não aceita eles
Chamamos uns aos outros de bichas pelas costas
Num quadro de mensagens
Uma mensagem enraizada no ódio
Nosso gênero ainda assim ignora isso
Gay é sinônimo de inferioridade
Esse é o mesmo ódio que causa guerras religiosas
De gênero a cor de pele, a aparência do seu pigmento
A mesma briga que leva as pessoas a se manifestarem e insistirem
São direitos humanos pra todo mundo, não tem diferença!
Toque a vida e seja você mesmo
Quando eu tava na igreja me ensinaram outra coisa
Se você pregar ódio no culto
Essa palavras não são abençoadas
E a água benta que você asperge se torna envenenada
Enquanto todo mundo está mais confortável
Permanecendo calado
Ao invés de lutar pelos direitos humanos
Que tiveram seus direitos roubados
Eu posso não ser do mesmo jeito, mas isso não é importante
Não há liberdade enquanto a gente não for igual, eu defendo isso pra caramba
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

A gente aperta play, não apeta pause
Progresso, marche pra frente
Com o véu sobre nossos olhos
Nós viramos nossas costas para a causa
Até o dia em que meus tios possam ser unidos pela lei
Enquanto crianças estiverem andando por aí
Andando pelos corredores atormentados pela dor em seus corações
Em mundo tão cheio de ódio que alguns preferem morrer
A ser quem eles são
E um certificado no papel não vai resolver isso tudo
Mas é um lugar muito bom pra começar
Nenhuma lei vai mudar a gente
A gente tem que mudar a gente
Qualquer Deus em que você acredite
A gente veio do mesmo
Jogue fora o medo
Por baixo de tudo isso é o mesmo amor
Já é hora da gente se levantar

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Amor é paciente
Amor é bom
Amor é paciente 
Amor é bom 
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Eu não vou chorar aos domingos)
Amor é paciente
Amor é bom

(Tradução livre de "Same Love", de Macklemore & Ryan Lewis)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O PERIGO DO FASCISMO GAYZISTA

Na imagem, deputada e travesti Marquete Feliciana pedindo contribuições para a sua boate gay.

Eu sou evangélico e resolvi escrever um texto para demonstrar minha indignação. Acho incrível que depois de tudo o que passamos por conta dos gays, eles ainda tenham a coragem de nos acusar de intolerância. 

Todos os anos, cerca de 300 evangélicos são mortos no Brasil, apenas por serem evangélicos. Até o ano passado, nós não tínhamos o direito ao casamento civil, e ainda continuamos sem ter o direito de celebrar nossos casamentos em boates gays. E o pior: ainda não estamos seguros para nos expressar livremente nos espaços públicos. Os gays acham que seus filhos se tornarão evangélicos caso nos vejam “dando pinta de crente” nas ruas ou na televisão.

Eu me lembro quando contei para meus pais que eu era evangélico. Foi muito doloroso, porque eles reagiram muito mal. Tão dolorosa quanto foi a vez em que eu fui espancado na saída da escola, apenas por ser evangélico. Todos nós evangélicos passamos por coisas horríveis como essa. Por isso, muitos de nós ficamos na “arca”, ou seja, não contamos para ninguém sobre a nossa religião.

Os gays dizem que queremos privilégios. Não queremos, queremos apenas ter os meus direitos que eles têm. Por isso, queremos uma lei que proíba agressões evangelicofóbicas, mas eles estão tomando conta do Congresso (são mais de 70 deputados gays contra apenas um evangélico) e derrubaram esse projeto. Eles chegaram ao absurdo de tomarem a Comissão de Direitos Humanos, apenas para impedir que conseguíssemos avanços na militância PPNA (Protestantes, Pentecostais, Neopentecostais e Adventistas). 

Nas boates gays, as travestis ensinam que ser evangélico é errado, que gay evangélico não vai pra dark room. Elas chegam ao absurdo de argumentar que se todas as pessoas se tornarem evangélicas, a humanidade vai acabar, porque, segundo elas, nós consideramos o sexo algo errado.

A verdade é que nem eu, nem ninguém escolhe ser evangélico. Por isso não é uma opção religiosa, e sim uma orientação religiosa. Eles insistem em usar o termo evangelismo para designar nossa religião. Mas esse termo é muito pejorativo, pois remete a um momento histórico no qual a evangelidade era considerada uma doença.

Por isso, eu advirto vocês, irmãos, tomem cuidado com discursos de ódio como o da deputada travesti Marquete Feliciana, ou da travesti Silete Malafaioca.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

TATUAGEM

Esse rabisco, em breve, vai estampar meu braço para sempre.

Cis- é o contrário de trans-. Cis-tema é um trocadilho que indica o sistema cis-, ou seja, o conjunto de normas relacionados à heteronormatividade e à naturalização das construções de gênero a ela relacionadas. 

A ideia da tatuagem partiu de uma campanha estadunidense que está estampada na camiseta da foto abaixo. A minha tentativa foi adaptá-la para que ela ficasse mais parecida com um manifesto, como nas pixações políticas (já que a frase me chamou atenção justamente em forma de pixação, numa parede da Fafich).

Os dois símbolos de masculino intercalados remetem à homossexualidade entre homens, e o símbolo misto de masculino e feminino remete a performances de gênero masculinas não normativas, dentro da lógica cis-têmica (chamadas pejorativamente de "afeminação"). 


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Direito de resposta

Vi um vídeo no Youtube que me fez querer escrever uma resposta.

Não vou divulgar o vídeo pq não é do meu interesse. Este post é dirigido apenas pra quem já sabe do que eu tô falando.

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Mascarado Polêmico,

Sua crítica sobre o gel lubrificante é válida.

Sua crítica sobre o ator também.

Você tem uma retórica muito boa, parabéns por isso.

Sua compreensão sobre a PL122 é totalmente equivocada. A proposta dela é punir violências verbais e discriminações como ñ aceitar gays em um estabelecimento comercial, e não negar o direito de achar a conduta homo-orientada errada e expor essa opinião.

É como falar: eu não acho certo pintar o cabelo: se Deus fez ele ficar branco, tem q ficar assim. Você tem o direito de falar isso, mas não de humilhar alguém verbalmente por pintar o cabelo, nem de expulsá-lo de um restaurante por esse mesmo motivo.

A única direferença é q, na nossa sociedade, pessoas q pintam o cabelo ñ tem a mesma necessidade de proteção que homossexuais.

Você, obviamente, é ignorante em relação ao q se relaciona à orientação sexual, tanto q usa a palavra "opção". Você acha que seus filhos virtuais podem escolher se serão gays ou héteros. Como se alguém em sã consciência fosse escolher ser gay, na nossa sociedade...

No outro vídeo, sobre o kit-anti-homofobia, você demonstra mais sua ignorância:

O kit não era pra crianças, mas pra adolescentes do ensino médio.

Aém disso, você acha que defender gay dá voto... em que país você mora?

E ainda tenta defender q ñ se deve defender os gays pq nunca se defendeu os negros. Péssimo argumento. Se tudo tá errado até hoje, o certo é repetir o erro?

Você argumenta q gay sofre menos preconceito q negro. Mas o Brasil é o país q mais mata homossexuais no mundo. Isso ñ quer dizer nada?

"Cartilha-hétero"? Já viu hétero sofrer preconceito?

Crítica ao nazismo? Perdão, mas seu discurso é bem neo-nazista...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

PLC 122: você já leu o texto da proposta?

PROJETO DE LEI DA CÂMARA Nº 122, de 2006

Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, e o § 3º do art. 140 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, para punir a discriminação ou preconceito de origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero, e dá outras providências.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º A ementa da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero.” (NR)

Art. 2º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com as seguintes alterações:

“Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero.” (NR)

“Art. 8º Impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares ou locais semelhantes abertos ao público.
Pena: reclusão de um a três anos.
Parágrafo único: Incide nas mesmas penas aquele que impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público de pessoas com as características previstas no art. 1º desta Lei, sendo estas expressões e manifestações permitida às demais pessoas.” (NR)

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem, condição de pessoa idosa ou com deficiência, gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero.
Pena: reclusão de um a três anos e multa.” (NR)

EMENDA MARTA - VAI A VOTO NA CDH

SUBEMENDA Nº – CDH

(à Emenda nº 1 ­– CAS)

Inclui-se ao art. 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, nos termos do art. 2º do Projeto de Lei da Câmara nº 122, de 2006, o § 5º, com a seguinte redação:

“Art. 20.
§ 5º O disposto no caput deste artigo não se aplica à manifestação pacífica de pensamento decorrente de atos de fé, fundada na liberdade de consciência e de crença de que trata o inciso VI do art. 5º da Constituição Federal.” (NR)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre o uso da Bíblia para justificar a homofobia


Um dos principais valores da Bíblia é a tolerância, valor que tem sido extremamente distorcido.

A Bíblia não tem nenhum livro, nenhum capítulo, e nem sequer um único versículo condenando explicitamente a homossexualidade.

O que existe é a condenação, no AT, de algumas práticas sexuais homoafetivas da época.

Até pq a homossexualidade, como comportamento social q conhecemos hj, só surgiu no século XIX.

E muitas coisas do AT foram postas em terra no NT. Jesus manda amar ao próximo e não julgá-lo, apenas isso.

A homossexualidade, como conhecemos hj, adequa o comportamento afetivo a mtos valores cristãos.

Hj, o homossexual deve ser fiel, amar o companheiro, ter um único companheiro, e construir sua vida com ele.

Ñ havia essa perspectiva na época à qual a bíblia se refere, portanto se pode afirmar q a biblia ñ emite julgamento sobre isso.

Além disso, vivemos num estado laico, os argumentos de nossos representantes devem se basear na Constituição e não na Bílbia!

Fikdik Marco Feliciano.