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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Contrato de relação completa

Eu proponho um modelo de relação em que nós dois teríamos acesso livre aos nossos corpos e a nossas mentes. Poderíamos tocar o corpo do outro com qualquer parte do nosso próprio corpo, desde que o outro aceitasse esse toque. Poderíamos perguntar qualquer coisa que quiséssemos saber e falar qualquer coisa que viesse à nossa mente. Não haveria necessidade de certeza sobre o que estivéssemos falando, pois seriam ideias que ainda estariam sendo processadas por nossos pensamentos, um junto com o outro. Por outro lado, não haveria necessidade de falar nada que não saísse naturalmente.

Eu proponho um modelo de relação em que não teríamos nenhuma obrigação um com o outro, a não ser buscar agradá-lo e cativar a confiança dele. Cada um de nós seria livre para sair pela porta quando quisesse, para se envolver em qualquer tipo de relação com outras pessoas e para cometer os erros que nos dessem na telha. Da outra pessoa, não partiriam cobranças, mas compreensão e apoio. E não haveria insegurança ou ciúmes, porque se saberia que a relação só valeria a pena enquanto o outro voltasse por conta própria.

Eu proponho um modelo de relação em que cada um de nós ofereceria ao outro o corpo e a alma que tem. Nessa relação, não haveria motivos para sermos homem ou mulher, penetrante ou penetrado, heterossexual ou homossexual. Eis os nossos corpos e nossas almas: com suas peculiaridades e potencialidades, sejam elas quais forem. O que nos atrairia seria o desejo inexplicável, inteligível e impalpável de estar junto, de corpo e de alma.

Eu proponho um modelo de relação em que não haveria roteiros, nem protocolos, nem prazos, nem metas, nem culpas... Se não estamos com vontade de fazer, não façamos. Se desse jeito não está bom, tentemos de outro. Se não está dando certo de jeito nenhum, então não tentemos mais: é porque a relação completa não chegou a existir, mas a tentativa certamente valeu a pena.

Eu proponho um modelo de relação em que cada um se chamaria de comparsa. Porque é isso que cada um de nós seria para o outro: um cúmplice, um amigo, um irmão. Nos sentidos mais profundos e puros das palavras, despidos de toda convenção social existente e criando novas. Reinventando o mundo e suas instituições deficientes e impotentes.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A desigualdade social se relaciona diretamente ao acesso à felicidade

Andando em diferentes regiões de Belo Horizonte, tenho visto experiências de vida muito diversas. Num dia desses, estive observando primeiro os frequentadores do Mangabeiras e depois os do Centro (nas proximidades da rodoviária). Tenho ficado cada vez mais convencido de que o maior marcador de desigualdades nas experiências de vida das pessoas é mesmo o status social. Afinal, mais grana significa mais acesso a bens materiais, e o acesso a bens imateriais está diretamente relacionado a isso. Ou seja, quem tem mais dinheiro tem mais poder sobre a vida, mais meios de fazer com que ela seja mais próxima do que se deseja.

Os frequentadores do Mangabeiras: Gente bonita, alegre, aparentando ser jovem e saudável, com carros bons, roupas de marca e outros bens de consumo, se divertindo ou se exercitando, comendo aquilo que têm vontade de comer, indo aonde têm vontade de ir. O ambiente: ruas bonitas, limpas, bem conservadas. Tranquilidade e civilidade.

Os frequentadores do Centro (nas proximidades da rodoviária): Gente feia, deformada, com cara cansada ou triste, mal vestida (tanto do ponto de vista da qualidade das roupas quanto da adequação dos modelos às silhuetas), aparentando ser velha e doente, andando a pé ou de ônibus, indo ou voltando do trabalho, comendo porcarias baratas. Muitos mendigos quase pelados, cheios de tumores pelo corpo, muito sujos. O ambiente: ruas sujas, feias, mal conservadas. Violência e insegurança.

É curioso, primeiro, que as pessoas do Mangabeiras sejam infinitamente mais bonitas que as do Centro. É realmente incrível a diferença: as do Mangabeiras são saradas, têm pele e cabelo bonitos e bem cuidados, sorriso branco, postura adequada. As do Centro ou são magras e concurdas ou imensamente gordas. Têm a pele manchada e cabelos esgandalhados (ambos secos ou oleosos demais). Às vezes faltam-lhe dentes, e os que persistem são geralmente amarelos.

É possível pensar, então, que a beleza é genética? De forma alguma. É claro que existem exceções dos dois lados: pessoas surpreendentemente bonitas de uma forma muito natural e simples no Centro, e pessoas bem vestidas, com a pele bem cuidada, mas bastante gordas ou com o rosto “mal diagramado” no Mangabeiras. Mas a grande maioria segue a regra: se é tanto mais bonito quanto mais dinheiro se tem.

Para começar, ter tempo e dinheiro para frequentar academias (para moldar o corpo) não é para qualquer um. Além disso, produtos e tratamentos para a pele e os cabelos também não são acessíveis a todos. “Luxos” como um clareamento dental ou uma cirurgia plástica, então, nem pensar. Ademais, tratamentos com nutricionistas, terapeutas, dermatologistas, esteticistas e demais especialidades são uma realidade muito distante de quem mal consegue ter acesso a um clínico geral.

Entendemos a questão do acesso à beleza e à saúde. Mas e à alegria? Primeiro, quem tem mais grana vai aonde quer, trabalha com o que gosta, tem tempo e meios para se divertir e relaxar, come o que está com vontade de comer. Quem não tem grana, não tem como pagar passagem, nem entrada em boates, teatros, cinemas e outras opções de lazer. Não tem como comer nada que não seja barato, e que, portanto, não seja vendido nas seções de promoção dos supermercados ou nos botecos de esquina. Muitas vezes, além da grana, não tem tempo pra fazer nenhuma dessas coisas. Trabalha com o que aparece, gostando ou não. E trabalha muito, ganhando pouco. Sendo feio e tendo poucas oportunidades para sair de casa senão para trabalhar, fica difícil iniciar e manter relacionamentos. Fica difícil até pra fazer e manter amigos.

Depoimento pessoal: não tenho dinheiro para fazer academia, para pagar nutricionista, dermatologista e terapeuta. Também não tenho como pagar por tratamentos e produtos de beleza. Sou magro demais e minha postura não é boa, talvez eu fosse assim mesmo tendo dinheiro, mas provavelmente o acesso a todas essas formas de controle do corpo ao menos atenuaria consideravelmente meu quadro. A essa altura, talvez se eu passasse a ter dinheiro hoje, pouco poderia ser alterado, pois essas coisas são mais fáceis de se modificar na infância e na adolescência do que na idade adulta. Muitas vezes, fiquei sem comer algo porque não tinha dinheiro pra isso. E não falo de nada demais: falo de sanduíches, pizzas, sorvetes e coisas do tipo. Muitas vezes não tive dinheiro pra coisas muito simples, como cortar os cabelos. Quase nunca tenho grana pra sair, seja em bares, no cinema, no teatro ou em boates. Quase nunca tenho dinheiro pra comprar um livro ou uma roupa (que nunca é de marca).

Tenho muita dificuldade pra encontrar relacionamentos, e ela está muito ligada a todas esses fatores materiais. Sou feio e não tenho uma aparência saudável. Quase nunca consigo sair de casa. Mas, graças à minha inteligência, que é talvez meu único talento, tenho há anos convivido com pessoas com grana (sim, a inteligência também se compra com boas escolas, e assim como aquelas exceções estranhamente bonitas no centro, eu sou uma exceção nesse ponto). E esse desencaixe tem sido, pois, um grande ponto de inquietação da minha alma.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A discriminação como caminho para a felicidade

Toda vez que vejo um ser humano rindo de outro, paro para pensar o que motiva aquele ato. Eu, como ser humano, não sou diferente: também rio da cara dos que considero de algum modo piores do que eu. Mas a cada dia tenho visto nos outros menos motivos para rir. E isso não se deve ao fato de eu ter me tornado uma pessoa melhor, mas sim mais infeliz.

Estar acima do peso ideal é ser GORDO. Não se enquadrar nos padrões de beleza é ser FEIO. Não possuir alguma parte do corpo ou ter alguma parte do corpo com possibilidades funcionais reduzidas é ser ALEIJADO. Não ter tido acesso ao ensino formal ou não dominar a variante padrão da língua oficial é ser IGNORANTE. Não ser mais inteligente que a média é ser BURRO. Ser afeminado (no caso dos homens) é ser VIADO. Ser masculinizada (no caso das mulheres) é ser SAPATÃO.

Porque o fato de alguém ser gordo, feio, aleijado, ignorante, burro, viado ou sapatão me faria rir? Porque perceber nos outros essas características faz com que eu me sinta uma boa pessoa. Uma pessoa magra, bonita, saudável, culta, inteligente, feminina (no caso das mulheres) ou máscula (no caso dos homens). Somente percebendo que os outros não possuem características valorizadas, que eu acredito possuir, é que possuí-las torna-se algo bom. Somente rindo dos que não possuem tais características posso perpetuar a valorização dessas características e assim continuar sendo, de algum modo, uma pessoa superior. Desse modo, eu posso manter minha própria felicidade.

Não encontrar mais em si tais características valorizadas me faz infeliz e me faz deixar de achar graça na ausência delas também nos outros. Se o fato de não se encontrar no outro uma característica valorizada que se tem faz rir, encontrar no outro uma que não se tem dói e faz chorar.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

As formas de amor e as violações nas expectativas por reconhecimento

A única forma como podemos acessar o nosso eu é vendo-o através do outro. As pessoas com as quais convivemos funcionam pra nós como espelhos. Só através delas podemos nos autoavaliar e receber os parâmetros necessários para descobrir se estamos ou não adequados às expectativas sociais existentes em relação a nós. Axel Honneth, através de sua teoria do reconhecimento, acredita que cada indivíduo precisa de um conjunto de respostas dos demais para se afirmar enquanto pessoa. O reconhecimento seria a confirmação do outro de que nós estamos aptos à convivência social.

Honneth distingue três níveis de reconhecimento: o amor, o direito e a estima. O amor diz respeito às formas elementares de afeto. A corporeidade, a sexualidade, o carinho e o cuidado estão ligados a ele. O direito refere-se à existência de uma posição de equivalência em relação aos demais indivíduos. Ele é alcançado a partir do momento em que somos tratados de forma equânime àqueles que convivem conosco. A estima seria o inverso: contemplaria a posse de qualidades que tornam cada indivíduo único, e, portanto, especial e necessário a uma comunidade.

O reconhecimento envolve uma expectativa por parte dos indivíduos. Estamos permanentemente demandando reconhecimento dos outros. Mas frequentemente ocorrem violações em nossas expectativas por reconhecimento. Tais violações podem ser de dois tipos: negativas ou positivas. As violações negativas dizem respeito à ausência pura de demonstrações de reconhecimento. No caso do amor, por exemplo, uma violação negativa seria uma mãe que nunca afaga o filho. As violações positivas por outro lado, referem-se à existência de um comportamento inverso ao esperado, como o de uma mãe que espanca o filho.

O amor, nível de reconhecimento mais elementar, pode ser divido entre três diferentes formas: o amor familiar, o amor-amizade e o amor sexual. O amor familiar é aquele que demandamos dos primeiros indivíduos aos quais temos acesso em nossa trajetória de vida, como nossos pais, tios, avós e irmãos mais velhos. Mais tarde, o mesmo tipo de reconhecimento passa a ser demandado de nós por nossos filhos, sobrinhos, netos e irmãos mais novos. Nesse momento, acabamos por demandar também deles o mesmo tipo de reconhecimento que lhes oferecemos. Isso porque o reconhecimento implica reciprocidade: o sujeito que reconhece o outro também demanda reconhecimento dele. O amor familiar está ligado principalmente ao cuidado e ao carinho.

O amor-amizade é aquele que passamos a demandar dos indivíduos com os quais temos contato a partir do momento que nos afastamos de nossos familiares. São os vizinhos, colegas de escola, de trabalho ou de lazer. Esse tipo de amor está ligado ao companheirismo e à cumplicidade. Uma violação positiva desse tipo de amor seria o bullying. O amor sexual, por sua vez, é demando por nós em relação àqueles que nos atraem sexualmente. Ele está ligado às carícias, estímulos e ao sexo propriamente dito. O estupro seria uma violação positiva desse tipo de amor.

Cada um desses tipos de amor não é exclusivo. Possíveis combinações dessas expectativas por reconhecimento são feitas por nós em relação a cada pessoa com a qual convivemos, de acordo com as especificidades da relação. Duas pessoas casadas, por exemplo, geralmente esperam uma do outra todas essas três formas de amor.

O ato de reconhecer o outro implica enxergar nele determinadas características que lhe tornam apto para ser reconhecido. No caso do amor familiar, por exemplo, o reconhecimento geralmente envolve um laço biológico: uma vez que fulano é filho biológico de sicrana, então provavelmente sicrana lhe dará amor familiar. No amor-amizade, as afinidades constituem o critério elementar. Ter visões de mundo parecidas, gostar das mesmas coisas, apresentar tipos de comportamento compatíveis. Em relação ao amor sexual, por sua vez, o que está em jogo é o desejo, despertado principalmente pela aparência física e pelo performatividade de gênero.

Violações em nossas expectativas por reconhecimento, sejam elas positivas ou negativas, são extremamente nocivas à visão que temos de nós mesmos. Podem gerar profundos estados depressivos nos indivíduos, especialmente se expostos a elas por longos períodos. Essas violações são especialmente problemáticas para quem não consegue se adequar às características que poderiam lhe proporcionar o reconhecimento esperado. Um órfão, por exemplo, perde o laço biológico que tinha com seus progenitores, correndo o risco de ficar sem acesso ao amor familiar. Uma pessoa com comportamentos ou opiniões muito alternativas ou desviantes, por outro lado, pode não conseguir ter acesso ao amor-amizade. Já uma pessoa considerada feia pela maior parte das outras com quem convive tem poucas chances de alcançar o amor sexual.