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segunda-feira, 14 de agosto de 2023

BARBIE, BINARISMO DE GÊNERO E CINISMO

Imagem: Warner Bros. Pictures.

Assisti Barbie e não gostei. Me senti estranho porque todas as críticas que eu vi, antes e depois de ir ao cinema, foram positivas. Debatendo sobre isso com algumas amigas que gostaram muito do longa, enumerei os pontos que haviam me incomodado. Nenhum deles foi aceito como válido, e, na discussão que se seguiu, uma delas foi tão desrespeitosa que, literalmente, isso fez com que a nossa amizade acabasse ali. Então, assisti o filme de novo, observando com mais calma tudo o que me incomodou.

Barbie me lembra o feminismo liberal: hétero, cis, branco e de classe média. O filme trabalha com um sistema de cotas para emular diversidade: tem uma Barbie cadeirante que mal aparece, uma Barbie gorda, uma Barbie trans e um pequeno número de Barbies não brancas. A Barbie Presidente, inclusive, é preta: uma ótima forma de emular um lugar de destaque para uma dessas minorias. Mas as problematizações e discursos são, na verdade, muito pouco diversos: não se toca em nenhum problema relacionado à interseccionalidade, tomando a categoria mulher como única.

No entanto, até aí, acredito que, talvez, esse perfil possa ser visto mais como uma limitação do que propriamente como um "defeito". Talvez essa simplificação seja útil para tornar o discurso do filme mais contundente e coeso. Ademais, nenhum produto midiático consegue dar conta de tudo. Na verdade, essa não foi nem uma característica que se destacou para mim da primeira vez que vi o filme (e discuti sobre ele com minhas amigas). Foi algo que percebi melhor depois de um comentário da minha psicóloga, que é negra e lésbica. O que se destacou desde o início para mim como um problema efetivo foi o binarismo de gênero.

O filme naturaliza as relações de gênero. Para ele, as meninas têm uma ligação intrínseca com as bonecas, e só elas brincam de Barbie. Barbies e Kens simulam as categorias mulheres e homens de forma completamente distinta e oposicional. Independentemente da profissão, as Barbies são superfemininas. Já os Kens, apesar da emasculação ligada à ausência de poder e das roupas cor-de-rosa, são, na sua manifestação de gênero, ligados à masculinidade padrão. Além disso, claro, o desejo é sempre naturalmente voltado para o outro gênero.

É necessário apontar, no entanto, alguns esforços de representação da comunidade queer, através de personagens como a Barbie Estranha, o Ken Sugar Daddy e o Ken do Brinco Mágico (caricatos, ridicularizados e com uma aparição brevíssima) e, de forma mais sutil, o Allan.

No final, a Barbie Presidente reconhece que há preconceito contra a Barbie Estranha, e ela passa a ser tolerada. No entanto, essas figuras aparecem como exceções à norma sem colocar em risco sua hegemonia. Todas as demais Barbies e Kens continuam normativos e contando com 99% do destaque e tempo de tela que torna esse o modelo pelo qual o filme é quase que inteiramente marcado.

No entanto, é limitado o que se pode esperar de um filme sobre bonecas que são bastante binárias. Maquiagens, jóias, cabelos longos e saltos altos para as Barbies. Cara limpa, ausência de adereços, cabelos curtos e sapatos baixos para os Kens. Como o filme poderia representá-los diferentemente de forma coerente? Talvez tratando as exceções com mais destaque e menos deboche.

Além de cisheteronormativo, o filme é bastante cínico quanto à relação que se estabelece entre a Barbie e as meninas no mundo real. A única parte que encara esse problema é a primeira cena da personagem Sasha, na qual ela enumera as influências negativas que a boneca gera. No entanto, esse discurso é apresentado como o de uma menina chata que gosta de "reclamar no Twitter", sendo, por isso, deslegitimado.

O filme assume que a Barbie não é capaz de empoderar as mulheres no mundo real. Independentemente do poder dessas bonecas, o mundo continua sendo comandado por homens. Inclusive, todos os diretores da Mattel são homens, numa forma de "rir" de si mesma. No entanto, se as Barbies são livres do patriarcado na Barbilândia, nada muda no que diz respeito ao mundo real. No fim, a personagem Gloria propõe uma "Barbie Normal", como uma resposta simulada à pressão que as mulheres sofrem no patriarcado.

Mas, ao invés disso, do lado de cá da tela, o que a Mattel lança são as Barbies do filme por R$ 500 cada. A "solução" proposta, além de não existir de fato fora do filme, seria apenas a de uma boneca dentro de uma linha com centenas de outras "Barbies perfeitas". Com isso, a Barbie boneca se exime da sua responsabilidade em relação ao mundo real e ainda ri disso. O cinismo quanto à relação entre a Barbie e o capitalismo, então, é gritante.

No final, os Kens passam por uma transformação, se tornando mais maduros emocionalmente, mas isso não traz proposições de mudanças no mundo real, que seriam esperadas devido à relação entre ele e a Barbilândia. Se o filme considerasse que meninos também podem brincar de boneca, talvez trouxesse.

Imagem: Nando Motta. 

Eu também não gostei de outros pontos do filme. Achei a personagem Sasha mal desenvolvida, mudando de uma postura extremamente ácida para uma conformista de uma cena para outra ao chegar na Barbilândia. Também achei os diretores e funcionários da Mattel perdidos na trama após a fuga da Barbie, tendo sua ida para a Barbilândia praticamente sem nenhuma função no roteiro.

O discurso feminista de Gloria sobre as dificuldades de ser mulher no patriarcado é sensacional (apesar da ausência de interseccionalidade). Essa parte do filme e a que se segue, com as Barbies sendo resgatadas dos Kens, são impecáveis e valem pelo filme todo. Mas isso não significa que não se possa desgostar do filme por outros motivos.

Depois do final da discussão que tive com minhas amigas, da qual falei no início do texto, eu saí com um incômodo que eu não sabia explicar. Não era pelo fato de elas não terem concordado comigo. Era outra coisa que estava me incomodando. Foi só levando para a terapia que eu consegui elaborar. Eu havia escrito com cuidado dez pontos que não tinham me agradado no filme, mas nenhum foi considerado por nenhuma das quatro mulheres envolvidas no debate.

Eu, que já fui professor, sei que é muito difícil um aluno tirar zero numa prova. Para isso, ele não pode saber absolutamente nada sobre o assunto e ainda tem que ter muita má sorte de não conseguir deduzir ou chutar algo corretamente. Mas eu, que tenho certa bagagem em termos de discussões sobre gênero e comunicação, aparentemente, havia escrito apenas dez bobagens. É como se eu tivesse estudado com cuidado para uma prova, mas tirasse zero.

A situação não estava se encaixando, até que percebi: eu era a única pessoa não-binária naquele grupo. Poucas vezes consegui ver tão evidentemente o estabelecimento de uma relação de poder entre mim, enquanto pessoa não-binária, e pessoas binárias. Provavelmente é por isso que todas as críticas que vi sobre o filme também foram sempre positivas.

Imagem: Warner Bros. Pictures.

Obs.: Essa não é uma crítica de cinema, é uma análise sobre representações de gênero em um produto midiático. Não tenho formação em cinema e não estou questionando o potencial técnico do filme.

Postado em 14 de agosto de 2023 e editado pela última vez em 16 de agosto de 2023.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

JOUT JOUT, XUXA E RIO DOCE

Imagens: Lucas Landau (esqueda), R7 (centro) e Vanrochris Vieira (direita).

Jout Jout

Eis que a Jout Jout Prazer é entrevistada pelo . Eis que o Jô faz uma ~piada~ babaca sobre "cara de puta". Eis que a Folha de S.Paulo publica uma matéria na qual ela diz que se sentiu desconfortável. Eis que dezenas de homens vão aos comentários destilar ódio contra ela. 1. O Jô não sabia o q era sabatista. mas insistiu quatro minutos nesse assunto. 2. O Jô falou que leu o que ela falou, ela corrigiu, e ele mentiu que tinha falado certo. 3. A Jout Jout foi extremamente educada durante toda a entrevista, e também ao falar sobre o ocorrido. 4. Os comentários nesta postagem (a maioria absoluta deles feita por homens, que associam a Jout Jout a uma visão negativa sobre o feminismo que não tem absolutamente nada a ver com ela) mostram o quanto os vídeos dela são importantes. 5. A grande maioria dos comentários ser contra ela, e não contra o Jô, mostra porque a discussões q ela propõe são tão necessárias.

Xuxa

Vi o programa da Xuxa ontem e morri de vergonha alheia. A Anitta tava lá, e eles tavam forçando tanto a barra e pegando tão pesado pra falar da vida sexual dela e insinuar situações sexuais que ela tava quase correndo do palco. Era cheirar o abdômen de homem, encostar vibrador na boca, responder como ela faz sexo, dizer o que ela faria na cama com cada celebridade... Isso tudo chamando os papeis onde estão as perguntas de pergaminhos dos Dez Mandamentos, e com o elenco da novela brincando de sentar no colo de homem na dança das cadeiras. Coerência cadê? Enfim, saudades Banheira do Gugu.

Rio Doce

Acaba de acontecer algo muito bacana: o vídeo que gravei dos peixes agonizando no Rio Doce chegou a um estadunidense que me perguntou o que estava acontecendo. Eu expliquei e pedi que ele compartilhasse com seus amigos, para que mais gente saiba o que está acontecendo. Aqui no Facebook, o vídeo já foi visto quase 1.500 vezes. No Youtube, quase 6 mil vezes. É muito? Provavelmente não. Mas para alguém que tem menos de 500 "amigos" no Facebook, não patrocina seus posts, não tem o apoio de nenhum canal estabelecido ou mídia tradicional, e só tinha uma câmera portátil na mão, é fazer alguma coisa. Vamos continuar fazendo, e cada vez mais? Temos essa e muitas lutas pela frente ainda!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

CAUSA NÃO É JUSTIFICATIVA

Eu sofri violência psicológica a vida inteira de membros da minha família, vizinhos, colegas de escola e amigos por ser gay e afeminado. Eu apanhei na rua mais de uma vez por causa disso. Eu passei anos deprimido por ter tido uma dificuldade imensa de me aceitar como eu era. Agora imagina se eu ficasse por aí falando que não fecho com esquerdohétero, chamando todos eles de ozétero, falando que os argumentos deles são straight tears, me negando a dialogar com eles e tratando todos eles como inimigos. Não importa se minha heterofobia não ia matar ninguém, eu estaria sim adotando um discurso de ódio em resposta a outro.

Minha intenção ao fazer comentários sobre esse tema nunca é condenar as vítimas, mas instigá-las a questionar o ódio que sentem. Ninguém tem o direito de cobrar nada de uma vítima, a vitima nunca está errada. Mas eu não posso simplesmente falar que a resposta que algumas delas estão dando a longo prazo não precisa ser repensada, porque eu realmente acho que precisa. 

Muitas vezes não temos um controle sobre nossa resposta imediata. Mas, de qualquer maneira, existe uma escolha a ser feita a seguir: uma coisa é uma reação de ódio imediata e irrefletida, outra é tornar isso uma estratégia de vida. Eu entendo o que leva algumas vítimas a agir assim. Entretanto, eu não vejo a causa como justificativa para as ações e discursos de ódio que elas possam vir a adotar a longo prazo.

Se a vítima não tem responsabilidade pelos discursos e ações de ódio que passa a adotar, então o opressor, que é fruto da sociedade opressora em que vive, também não tem responsabilidade por oprimir. Eu acho sim que somos frutos do meio em que vivemos e das experiências pelas quais passamos. Mas, exatamente por isso, eu acho que temos que atacar sistemas e não pessoas. Só que eu acho também que todo mundo é capaz de refletir e ser crítico em relação ao contexto social do qual é fruto, fazendo sim escolhas sobre como se posicionar em relação a ele.

Ademais, tenho achado, cada vez mais, extremamente pobre adotar conceitos de identidade de formas tão limitadas. Há pouco tempo, eu percebi que não me identifico e nunca me identifiquei homem. Eu não caibo nessa identidade que me é impugnada. Também não caibo na de mulher. Me identifico muito mais com o gênero feminino na verdade. Mas gosto de ter barba, pênis, de não ter seios. Tenho algo de homem e algo de mulher em mim. E gosto disso.

De qualquer modo, decidi voltar a me declarar sim feminista. E se reclamar, sou feministo então. Só que mais do que lutar pela igualdade de homens e mulheres, eu acredito que é hora de lutarmos, também, contra esse próprio binarismo. Enquanto ele existir, vamos continuar atribuindo diferentes características sociais a machos e fêmeas.

domingo, 23 de novembro de 2014

OS SUPER-HERÓIS TÊM SE TORNADO PRÍNCIPES?


Hoje o Domingo Show (Rede Record) apresentou a história de um menino pobre que aprarece num desses vídeos bonitinhos da Internet, mostrando ser um grande fã do Hulk. Dentro da lógica cis-têmica, os meninos são incentivados a ser tornarem fãs de super-heróis, como Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Batman. Já as meninas são incentivadas a se tornarem fãs de princesas, como Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e Elsa.

Esses modelos de masculinidade e feminilidade oferecidos às crianças são muito significativos. A figura do super-herói tradicionalmente representa a força, a coragem e a virilidade. Já a princesa tradicionalmente representa a beleza, a doçura e a fragilidade.

O feminismo, principalmente a partir da década de 1960, tem lutado para que as mulheres sejam representadas de uma forma diferente. E essa luta tem alcançado grandes avanços. Hoje as princesas não seguem mais o modelo tradicional. Elas estão se tornando também super-heroínas. Rapunzel e Elsa, apesar da beleza e da doçura, não são nada frágeis, mas sim donas de superpoderes. Merida, além de não ser frágil, também não é doce e nem liga para beleza. Apesar de não ter super-poderes, ela é uma grande arqueira. Há modelos fortes tanto para meninas que se identificam com os ideais de beleza e doçura, quanto para as que não se identificam com nada disso.

Mas e no caso dos meninos? Há mudanças na forma como os modelos de masculinidade têm aparecido? Os heróis tem se tornado também príncipes? Elementos como a doçura e a fragilidade têm entrado na constituição desses personagens? Os meninos que se vêem frágeis e doces, e não fortes e viris, têm encontrado modelos a partir dos quais possam se identificar? Curiosamente, o Hulk, com sua força descomunal, é um bom exemplo de que as coisas também estão começando a mudar desse lado. A caracterização do personagem nos novos filmes da Marvel tem explorado bastante o lado sensível e frágil do herói.

Parte do movimento feminista tem defendido que não adianta apenas alterar os ideias de feminilidade, sem fazer o mesmo com os de masculinidade. Nesse entendimento, para que o machismo acabe, não é necessário apenas que as mulheres possam se ver como fortes, mas também que os homens possam se ver como frágeis.

Apesar dos homens se beneficiarem da dominação masculina, o machismo também os afeta. Todo homem passa por intensas torturas psicológicas e conflitos internos por ter que ser o tempo todo forte, corajoso e viril. Os que não conseguem se adequar a esses ideias sofrem desprezo, violência psicológica e, às vezes, física ao longo de toda a vida.

Sem ideais de masculinidade diferentes para os meninos, não só esses desviantes se sentem perdidos e sozinhos, como os outros continuam os vendo como desviantes e, por isso, sentindo-se superiores a eles.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A EMANCIPAÇÃO FEMININA DAS PRINCESAS DISNEY

As princesas dos primeiros filmes da Disney não conduziam a ação de suas próprias narrativas. Submissas, elas eram alvo das ações de vilãs femininas e salvas por personagens masculinos. Sua felicidade estava relacionada à aparição de um príncipe encantado em suas vidas. Posteriormente, elas foram se tornando cada vez mais independentes e ativas, até chegarem a se tornar heroínas. Algumas delas não precisam mais de um príncipe em suas vidas, trabalham e fogem aos padrões de beleza tradicionais. Esse processo não foi linear, houve a cada novo filme avanços e retrocessos, mas as mudanças alcançadas ao longo do tempo são incrivelmente significativas. Entretanto, todas ainda são cis e heterossexuais (ou não oficialmente homossexuais ou bissexuais)...

Na imagem, da esquerda para a direita, Anna, Jasmine, Rapunzel, Branca de Neve, Mulan, Aurora, Cinderela, Pocahontas, Tiana, Bela, Ariel, Merida e Elsa.

Branca de Neve (Branca de Neve e os Sete Anões, 1937) fica nas mãos de sua terrível madrasta depois da morte de seu pai, o homem que mantinha as mulheres sob controle. Contando com a misericórdia de um caçador, com o auxílio de sete anões e com o beijo de um príncipe, ela finalmente alcança seu final feliz. Enquanto o mal é encarnado na mulher ativa que conduz a narrativa, e inveja Branca por sua beleza, o bem é encarnado na mulher passiva que sofre as consequências. Branca de Neve é sempre salva por personagens masculinos, todos bons. Os anões a acolhem desde que ela cuide dos afazeres domésticos que se acumulavam na casa deles, sem uma mulher que os fizessem. O "beijo de amor verdadeiro" que seu príncipe lhe dá ocorre após ele vê-la pela primeira vez, supostamente morta. Toda essa narrativa ocorre quando Branca de Neve tem apenas 14 anos de idade.

Cinderela (Cinderela, 1950) também fica nas mãos de sua madrasta (e de suas irmãs de criação) após a morte de seu pai. Ela era forçada a fazer os trabalhos domésticos da casa. Sua vida muda quando o rei convoca todas as moças do reino para um baile onde seu filho escolheria sua futura esposa, como que avaliando as opções de carne disponíveis num açougue. Há nesse filme a primeira personagem feminina boa a ativa, sua fada madrinha. Com sua ajuda, Cinderela consegue ir atrás do príncipe. Mas depois é ele quem manda percorrerem o reino em busca dela, salvando-a de sua madrasta. Ela, portanto, não se torna princesa por nascimento, mas pelo casamento.

Aurora (A Bela Adormecida, 1959) é prometida em casamento a um príncipe no dia de seu batizado. Nessa ocasião, a terrível Malévola lança um feitiço que faz com ela entre num sono profundo no seu aniversário de 16 anos. O príncipe a qual ela havia sido prometida, assim como em Branca de Neve e os Sete Anões, salva Aurora com um "beijo de amor verdadeiro". Antes de saber quem era o príncipe, ela o havia conhecido e se apaixonado por ele, mas havia sido forçada a esquecê-lo, devido ao acordo que seus pais haviam feito sobre seu destino.

Ariel (A Pequena Sereia, 1989) abandona sua voz e sua própria identidade para correr atrás de um príncipe que acabou de conhecer. Diferente das princesas anteriores, ela é independente, rebelde e ativa. Ela até salva o príncipe da morte. Mas tem como ideal de felicidade abrir mão de tudo por um homem. Também é feminina a personagem malvada que lhe tira a voz e transforma sua calda em pernas. Ela disputa o príncipe com Ariel, tentando "roubar" o amor do homem pelo qual ela é apaixonada. Ariel tem apenas 16 anos.

Bela (A Bela e a Fera, 1991) gosta de ler e sacrifica heroicamente sua liberdade para libertar seu pai. Ela recusa os galanteios de Gaston, por considerá-lo machista e rude. Mas apaixona-se por um personagem masculino que lhe mantém prisioneira (e que ainda assim é o mocinho), depois que ele a salva de um ataque de lobos. Ele era um príncipe, mas fora transformado em fera por uma personagem feminina. Gaston é o primeiro vilão masculino nos filmes de princesa da Disney. Ele tenta matar a fera e obrigar Bela a se casar com ele. Nesse filme, é o amor da princesa que salva o príncipe, e não o contrário.

Jasmine (Aladdin, 1992) é uma princesa árabe. Ela é a única princesa que não é a protagonista de seu próprio filme. Ela se apaixona por um plebeu e se recusa a se casar com um príncipe que seu pai arranja, mas depois ela descobre que os dois são a mesma pessoa. Jasmine seduz o vilão do filme para enganá-lo. Ela tem apenas 15 anos.

Pocahontas (Pocahontas, 1995) é uma princesa indígena. Ela se apaixona por um inglês que está em guerra contra seu povo. Pocahontas arrisca sua vida para impedir que ele seja executado, e posteriormente ele quase morre para salvar o pai da garota. Por fim, ele volta para a Inglaterra.

Mulan (Mulan, 1998) é uma princesa asiática. Considerada inapta para o casamento (que ela deveria arranjar), ela resolve se passar por um homem para ir à guerra no lugar de seu pai. Ela alcança incrível sucesso no exército, tornando-se um dos principais soldados. Mesmo depois de descoberta e expulsa do exército, ela continua lutando contra os inimigos de seu país, tendo de enfrentar o preconceito de todos por ser mulher. Ela derrota o líder do exército rival, dando a vitória à China, e o imperador reconhece seu heroísmo. No final, entretanto, ela recusa um cargo oferecido a ela pelo imperador para voltar à sua casa. E isso tudo com apenas 16 anos. Ela tem um interesse amoroso, o general que a comandava. O final do filme mostra os dois se aproximando após a guerra, mas ainda sem concretizarem a relação.

Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009) é uma princesa ambiciosa, que pretende ter um restaurante e trabalha muito para conseguir isso. Ela é a única princesa negra. Tiana não liga para os homens, e sim para seus objetivos de vida. Mas ela apaixona-se por um príncipe e percebe que sua vida não estaria completa sem amor e apenas com sucesso profissional. No fim, ela consegue abrir seu restaurante com seu próprio esforço. É no mínimo curioso que o seu príncipe também seja (o único) negro.

Rapunzel (Enrolados, 2010) é submissa por ter sido criada enclausurada por sua sequestradora. Ela é a primeira princesa com superpoderes, podendo curar e rejuvenescer seres vivos com os seus cabelos. Apesar de sua submissão, ela tem muita vontade de sair de sua torre e faz isso com a ajuda de um ladrão, que ela rende ao tentar invadir sua casa. Dividida entre o remorso por estar abandonando aquela que acredita ser sua mãe e o desejo de conhecer o mundo para além de sua casa, ela consegue amolecer o coração de bandidos conversando com eles e salva da morte o ladrão que está lhe ajudando. No final, ela resolve sacrificar sua liberdade para salvá-lo novamente, mas ele não permite que ela faça isso, cortando seus cabelos. Entretanto, uma lágrima sua o salva.

Merida (Valente, 2012) recusa-se a se casar e não tem nenhum envolvimento amoroso. Ela adora praticar arco e flecha, e entra num campeonato desse esporte onde o ganhador se casaria com ela para ganhar e não ter que se casar com ninguém. Heroína da narrativa, ela não é vaidosa, deixando seus cabelos rebeldes sem se preocupar com isso. Posteriormente, ela luta não contra alguém, mas contra as consequências de suas próprias escolhas equivocadas

Anna e Elsa (Frozen: Uma Aventura Congelante, 2013) trazem para os filmes de princesa uma narrativa em que o amor fraternal, e não por um homem, é quem as salva. Elsa é a primeira princesa que se torna rainha e também possui superpoderes. Entretanto, ela sofre por não ser valorizada como é e passa por um processo difícil de autoaceitação. Ana, por outro lado, resolve se casar com um príncipe que acabou de conhecer, apesar de Elsa lhe advertir que ela não poderia fazer isso. Quando ela está prestes a morrer, ela acredita que um beijo dele é um ato de amor verdadeiro capaz de salvá-la, mas ele se revela um psicopata cruel, que a abandona para morrer e tenta matar também Elsa. O ato de amor verdadeiro que Ana faz é sacrificar sua própria vida para salvar a de Elsa, o que também a salva. Assim como Merida, Elsa também não tem um interesse amoroso. Já Ana acaba com um outro homem que conheceu ao ir atrás de Elsa para ajudá-la a salvar o reino. Elsa é a princesa mais velha de todas, com 21 anos.

Moana (Moana, 2016) será a próxima. Ela será polinésia. Há pouco sobre ela informado. Mas ela certamente será uma heroína, pois sairá "numa épica jornada para ajudar sua família". Ela terá apenas 14 anos, e é descrita como corajosa e independente.

domingo, 9 de novembro de 2014

SOBRE O ÓDIO QUE RETORNA

Entender as razões que levam alguém a fazer algo não significa concordar que esse alguém está certo. Há pessoas que se tornam amargas e cruéis com os outros, porque os outros foram amargos e cruéis com elas (não necessariamente os mesmos outros). Eu entendo a razão que as leva a ficar assim, mas não concordo que por causa disso todo mundo tem que aceitar esse ódio sem questioná-lo. 

Recentemente, uma garota com quem tentei estabelecer um diálogo, com toda educação e cordialidade possível, e, tenho certeza, sem usar nenhum argumento ou palavra misógina - pois ela mesma, ao "apontar o dedo na minha cara", não apresentou esse como um dos pretensos motivos dessa reação - me tratou como um opressor, argumentando apenas que eu era "um homem tentando falar por ela", uma vez que eu me apresentei falando das minhas pesquisas sobre masculinidade, e argumentando que questionar os ideias de masculinidade era um caminho importante pra que mulheres, gays, travestis e transexuais sejam cada vez menos oprimidos.

A interação foi online. Primeiro num post da linha do tempo dela. No qual ela deslegitimou de forma abrupta e violenta meu trabalho de pesquisa sem me conhecer e sem conhecê-lo. Então mandei uma mensagem privada para ela, tentando contar um pouco sobre meu trabalho. Ela respondeu de forma extremamente grossa e me bloqueou imediatamente. Depois disso, ainda tentei um último contato online, alguns meses depois, mandando uma mensagem para ela via outro canal, falando que nós tínhamos nos desentendido e que eu gostaria de conversar um pouco com ela pra conhecer melhor os motivos dela. Ela (que nem se lembrava mais do caso) simplesmente respondeu que não tinha interesse nenhum de conversar comigo.

Eu me sinto muito, muito mal toda vez que vejo algo a respeito dela (temos amigos e fazemos parte de universos comuns). Nessas ocasiões, eu sempre a elogio, porque reconheço que ela tem um trabalho muito importante dentro do feminismo.

Não sou a vítima. Mas também busco não ser opressor. Queria apenas que fosse possível não ser visto sempre dessa forma.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

SOBRE HOMENS FEMINISTAS


Em 1990, uma das principais estudiosas de gênero de todos os tempos, Judith Butler, já se questionava, em Problemas de Gênero, se considerar as mulheres o sujeito do feminismo não seria reforçar as dicotomias de gênero que o próprio feminismo procura enfraquecer: "Seria a construção da categoria das mulheres como sujeito coerente e estável uma regulação e reificação inconsciente das relações de gênero? E não seria essa reificação precisamente o contrário dos objetivos feministas?"

A música "***Flawless", de Beyoncé, é intermediada por uma fala da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, na qual ela diz: "Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos". A frase é de um discurso chamado "Todos nós deveríamos ser feministas", proferido por ela no TED, uma fundação estadunidense conhecida por suas conferências. Mas essa definição apontada por Chimamanda é, segundo ela, como o termo "feminista" aparece nos dicionários. Ela própria define feminista como "um homem ou uma mulher que diz: 'Sim, há um problema com os gêneros como eles são hoje, e nós devemos consertar isso, nós devemos fazer melhor'".

A atriz britânica Emma Watson, neste ano, também fez um discurso sobre igualdade de gênero nas Nações Unidas, para a campanha HeForShe (ElePorEla), no qual ela disse: "Homens, eu gostaria de usar esta oportunidade para estender o convite formal feito a vocês. Igualdade de gênero é seu problema também. [...] Homens também não têm o benefício da igualdade. Nós não costumamos falar sobre homens sendo aprisionados pelos estereótipos de gênero, mas eu posso ver que eles são, e quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tiverem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a ser submissas. Se homens não tiverem a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem fortes". O discurso da atriz foi fortemente criticado por parte das feministas.

Muitas feministas apontam que há limites na experiência de homens e mulheres que não permite a eles entender como elas se sentem. Concordo plenamente. Mas entre as próprias mulheres, há uma série de diferentes experiências. Uma mulher negra e uma branca, uma rica e uma pobre, uma cristã e uma ateia, uma homossexual e uma heterossexual, uma cis e uma trans, uma nordestina e uma paulista têm experiências como mulher muito distintas. Da mesma forma, há diferentes experiências entre os homens. Um homem cis e um trans, um heterossexual e um homossexual possuem status muito diferenciados dento do sistema de gênero. Um homem trans foi socializado na infância com sendo mulher e tem que enfrentar a dificuldade constante de deixar de ser visto como uma (o que faz com que ele sejam, em geral, bem aceitos no movimento). Um homem homossexual passa boa parte da vida sendo chamado de "mulherzinha" e sofrendo violência física e psicológica. Entre eles, reproduz-se esses mesmos padrões de gênero entre ativos e passivos, discretos e afeminados. E mesmo o homem cis e hétero, como apontado por Emma Watson, têm que se submeter a uma vigília constante em relação à sua masculinidade. Não obstante, é óbvio que esse sistema dá vantagem aos homens em relação às mulheres.

Algumas feministas mais radicais costumam chamar os homens que se denominam feministas de feministos, como uma forma de desvalorização. Qualquer argumento de que o machismo traz prejuízos também a homens é chamado por elas de "male tears" (lágrimas masculinas) e ignorado. Segundo essas feministas, elas não têm obrigação de ensinar homem nenhum. Concordo. Mas se as feministas não ensinarem, então quem vai? Uma coisa é não ter, outra é não conseguir (muitas vítimas de abuso não conseguem ser didáticas com quem as oprimiu), outra diferente é não querer. Muitas das feministas que possuem esse perfil apresentam uma misandria (ódio contra o masculino) em resposta à misoginia (ódio contra o feminino) que domina em nossa sociedade. Mas essa é uma resposta saudável?

Eu não vou responder se homens podem ou não ser feministas. Também vou continuar não me denominando feminista em respeito às feministas que se sentem desconfortáveis com isso. Mas ficam as considerações.