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sábado, 14 de novembro de 2015

SOBRE O PODER DE AFETAÇÃO DO ACONTECIMENTO

Fonte: Ocorrências
Uma análise deboísta sobre a treta Paris X Mariana.

O acontecimento cria o seu público, porque ele acontece PARA alguém. Para que um acontecimento afete alguém que não esteve envolvido nele de forma imediata, ele, obviamente, tem que ser mediado. Se foi algo que aconteceu no seu bairro, por exemplo, a mediação pode ser um relato dos seus vizinhos. Mas se foi algo que aconteceu mais longe, tradicionalmente a mediação vem (quando vem) pela grande mídia (jornais, tv, etc), e mais recentemente também pelas redes sociais. Se essa mediação não acontece, então o acontecimento não acontece para a gente (ou se a mediação deixa de acontecer, então ele deixa de acontecer para a gente). Mas se a mediação ocorre de uma maneira intensa, o acontecimento tem uma forte possibilidade de acontecer para a gente. Isso não quer dizer que ele vai de fato acontecer. Depende se ele vai nos afetar ou não. E o que faz com que ele nos afete ou não? Ele mexer com a gente. Com os nossos medos, com os nossos desejos.

Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado nos EUA, houve uma grande mobilização no Brasil, maior do que quando ele foi aprovado aqui. Porque? Porque foi um acontecimento muito mais mediado. As pessoas que se importam com o tema mudaram sua foto de perfil no Facebook porque o próprio Facebook disponibilizou essa opção. Mas o acontecimento é sempre inesperado. A repercussão dessa mudança nas fotos trouxe novas possibilidades: discutiu-se, por exemplo, a invisibilização de trans e lésbicas no movimento LGBT.

Agora, com a afetação supostamente maior gerada pelos atentados na França do que pelo crime ambiental em Minas (a midiatização é claramente maior), questiona-se essa afetação (e não apenas a midiatização). Por que os atentados nos afetam? Por que temos medo. Medo da guerra, medo da morte. Os caminhos que isso pode gerar são interessantes. O questionamento sobre o porquê de os atentados na África não serem midiatizados são um deles.

Uma sugestão: ao invés de criticarmos quem põe um filtro na foto do perfil por uma causa que não nos afeta, por exemplo, talvez devêssemos trabalhar na disponibilização mais fácil, rápida e eficiente de filtros para as nossas causas. É péssimo que os acontecimentos na África, com os indígenas, com travestis, ambientais não gerem a mesma repercussão. Temos que brigar por uma maior midiatização deles. Esse problema tem a ver com algo que me arrepia, os nossos "critérios de noticiabilidade". Tá na hora de tentar mudá-los.

Edit (16/11): Como bem lembrado pela professora Vera França, a questão vai muito além dos critérios de noticiabilidade. Ela só se entrelaça com ele a partir das relações de poder.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO "VIVENDO NO FRONT"

Clique aqui para ver o trabalho em PDF.

Este é o post de nº 100 do Apontamentos Desapontados! É com alegria que eu chego a esse número no blog (depois de mais de quatro anos de existência dele) e também à conclusão da minha pesquisa de mestrado. Portanto, é muito significativo que este post seja sobre ela.

A minha dissertação de mestrado, intitulada "Vivendo no front: discursos acionados por sujeitos na fronteira entre perspectivas LGBTs e evangélicas" está disponível para visualização e download. Eis o resumo dela:

Como os sujeitos na fronteira entre perspectivas evangélicas e LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) sobre sexualidade lidam com as contradições existentes entre elas a fim de dar sentido às suas experiências e subjetividades? Através de uma etnografia multissituada, quatro grupos de Belo Horizonte foram investigados para o encontro de sujeitos nessa situação: o Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais (Cellos), a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), a Igreja Cristã Contemporânea (ICC) e a Igreja Batista da Lagoinha (IBL). Os sujeitos analisados são gays evangélicos, de igrejas inclusivas ou não, sendo alguns deles militantes LGBT. Os discursos evocados na IBL giram em torno de um “acolhimento” de sujeitos com experiências sexuais desviantes em relação à heteronormatividade, com a intenção de se promover uma “cura” dos mesmos. Os discursos presentes na ICC dizem de uma regulação das homossexualidades e transexualidades para adequá-las a um padrão similar ao da família nuclear tradicional, sendo o afastamento desse padrão relacionado ao “mundo”, que estaria em oposição à “igreja”. Os discursos em circulação na ICM apontam uma desnormatização das experiências sexuais, a fim de se buscar um afastamento do “fundamentalismo religioso” e uma defesa dos “Direitos Humanos”. Os discursos encontrados no Cellos indicam uma defesa do “Estado Laico”, que estaria sendo ameaçado pela “bancada evangélica” na Câmera Federal. Para dialogar com as teorias nativas, trago discussões teóricas sobre heteronormatividade (Prado; Junqueira), interação (Mead), conflito (Simmel), definição da situação (Thomas), discursos sociais (Bakhtin) e poder (Foucault). Durante o trabalho de campo, realizei também incursões em dezesseis outras igrejas e grupos de militância LGBT.

domingo, 9 de novembro de 2014

RELATIVISMO, EVOLUCIONISMO E VITIMIZAÇÃO

Na faculdade, a gente é doutrinado o tempo inteiro. Doutrinado a ser de esquerda ou de direita. Doutrinado a ser construtivista ou evolucionista. Doutrinado a ser relativista ou determinista. A cabeça da gente começa a funcionar de um jeito, que a gente passa a repetir igual a um robozinho tudo o que nos ensinaram.

A gente acha que tem um pensamento crítico, porque quem nos ensinou disse que o que nos foi ensinado é algo muito crítico. A gente aprende até mesmo a criar os nossos próprios argumentos para responder aos argumentos dos outros, que a gente escuta, mas não para de verdade pra considerar, porque já tem as respostas prontas contra eles.

Recentemente, eu tenho tentado me libertar dos dogmas acadêmicos que eu tive em minha formação. Fui ensinado, por exemplo, que a vertente dos estudos de gênero que aponta como o machismo faz mal aos homens, e não apenas às mulheres, é "vitimista", porque os homens são privilegiados e as mulheres desprivilegiadas dentro do sistema da dominação masculina. Ok, isso é verdade. Mas isso anula o argumento dessa vertente? Ela diz que não é assim? Não. Eu aprendi a concordar que sim, apesar de o homem ser privilegiado, o machismo faz sim mal pra ele. Todos somos vítimas do machismo, em maior ou menor grau. As mulheres são as vítimas mais diretas, com uma intensidade de sofrimentos maiores, mas isso não quer dizer que os homens também não sofram.

Eu e a minha amiga Leslie temos conversado muito sobre essas questões. Nós havíamos sido doutrinados para sermos relativistas e construtivistas. Mas começamos a perceber que o buraco é mais em baixo. Quanto ao relativismo, passamos a nos questionar se os valores de quem corta o clitóris das mulheres de uma comunidade não eram piores dos que os dos que lutam contra eles. E chegamos à conclusão que sim. Há sim valores melhores e piores. Melhores e piores para a sociedade como um todo, e para cada um de seus indivíduos. Valores que auxiliam a nossa saúde e não a nossa auto destruição. Quanto ao evolucionismo, que descartávamos, passamos a nos questionar se a sociedade realmente não se torna melhor com o tempo e com as mudanças que se sucedem. E chegamos à conclusão que sim, a sociedade caminha para uma melhora progressiva. Isso porque a pressão dos indivíduos para que ela melhore sempre vai gerando novas soluções que vão sendo testadas e aprimoradas, de forma a gerar um resultado cada vez melhor.

Mas percebemos que essas dicotomias entre formas de ver o mundo são, muitas vezes, tão bobas quanto brigas de criança. Não é necessário jogar o bebê fora com a água do banho. Quanto ao relativismo, por exemplo, concordamos que há uma diferença entre o funcionamento e o estilo da sociedade. Se o funcionamento da sociedade - a saúde e não a auto destruição - não é relativo, o estilo dela é. E por estilo, estamos entendendo questões como a arte, a arquitetura, a moda, o entretenimento, o idioma, as comemorações - como os aniversários ou o Natal - e os modos de vida - como morar ou não com os pais depois da maioridade ou dar três beijinhos ao nos cumprimentarmos. Não existe, de fato, um estilo musical melhor do que o outro. A música que vai haver daqui a dois séculos, não será melhor do que a de hoje. As diferenças aqui não podem ser medidas em termos de melhor ou pior.

Vejo, na academia, uma necessidade de escolher entre a perspectiva desse ou daquele autor, de forma que abandonamos os bons argumentos de quem pensa diferente. Mas, gente, a ideia não é somar as boas ideias, as boas explicações, para chegar num entendimento cada vez maior? Eu preciso concordar com tudo o que o fulano fala pra usar uma ideia específica dele? Qual a lógica desse preciosismo, desse protecionismo intelectual?