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domingo, 26 de agosto de 2018

quarta-feira, 17 de maio de 2017

DIA DE COMBATE À LGBTFOBIA

17 de maio é o Dia de Combate à LGBTfobia!

Ué, mas não era à Homofobia?

Muita gente muito bacana e que super ajuda a combater à LGBTfobia, ainda não sabe a importância de se preferir o termo LGBTfobia ao invés de homofobia.

LGBT signigica Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Dentro da comunidade LGBT, as diversas identidades que compõe essas letrinhas foram historicamente eclipsadas pela visibilidade dada aos homens homossexuais.

No início, ao invés dessa sigla, se usava o termo "comunidade gay". Daí dá pra ver como, de um ponto de vista histórico, os homens homossexuais sempre tiveram uma visibilidade muito maior no movimento. Ainda hoje, muitas pessoas continuam a usar o termo "Parada Gay", ao invés de "Parada LGBT", por exemplo.

Depois, a sigla usada pra designar a comunidade era GLBT. O L, que significa Lésbicas, foi para frente para indicar a necessidade de se pensar e de se tomar atitudes para contornar esse problema.

Com o termo homofobia não foi diferente: as diversas identidades LGBT passaram a questionar o termo por focar apenas nos problemas e dificuldades enfrentados pelos homens gays.

Daí surgiram termos específicos para designar os preconceitos existentes contra cada identidade. A lesbofobia, por exemplo, está ligada a "estupros corretivos" e fetichização. A bifobia, ao apagamento desse grupo e à crença equivocada de que bissexuais são, na verdade, gays ou lésbicas enrustidos. A transfobia está ligada às violências e a negação de direitos sofridos pelas pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele que lhes foi designado quando nasceram.

Então começaram a surgir termos para tentar evidenciar a existência desses múltiplos preconceitos. Inicialmente, experimentou-se homolesbotransfobia. Grande e confuso. Chegou-se, então, ao simples, mas muito mais representativo, LGBTfobia.

Prefira esse termo! Utilizar os termos mais representativos é um jeito simples e prático de ajudar na luta contra a LGBTfobia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

DEZ ESTEREÓTIPOS A RESPEITO DE HOMENS GAYS

Pessoas lindas, é com imenso prazer que eu publico uma lista super divertida feita pela minha grande amiga Luiza Tomagnini, do canal No Mundo da Lu. Eu e ela pensamos juntos nesses estereótipos sobre gays e nos divertimos muito concebendo essa piada muito séria.

Warning: Esse texto tem altas cargas de ironia!

1. São afeminados, os que não são é porque se reprimem. Mas só até soltar a franga. 

Fonte: Espaço Imoral
O gênero pelo qual você sente atração dita todas as suas características, como você age, qualidades, defeitos, gestos. Faz todo sentido isso, sim. Se você gosta de homem, deixa automaticamente de agir como um. Aliás, hoje em dia está bem atrasada essas definições do que é ser/agir como homem ou mulher, não acham não? Vamos combinar de parar com essa bobagem? 


2. Adoram música pop e têm uma diva preferida pela qual até brigam. 

Fonte: Aos Cubos
A orientação sexual de alguém dita o gosto musical também? Gostava de rock, saí do armário e agora amo Beyoncé. Ou melhor, eu só posso gostar de uma coisa ou outra. No estilo, hétero só pode gostar de rock/metal e gay de pop. Se gostar de pop é gay! WTF?


3. São super preocupados com a aparência e querem ficar o mais sarados possível. 

Fonte: Filmes GLS News
Fonte: The Sun via Beleza Sem Tamanho
Claro, claro, sua orientação sexual deixa estampado na sua cara que características, defeitos e qualidades você tem. Não tem um tanto de hétero marombeiro/metrossexual e gay franzino/desleixado por aí não, bobagem.


4. Só têm amigos gays e quando ficam amigos de um homem hétero é porque são secretamente apaixonados por ele.

Fonte: Tudo Se Comenta
Do mesmo jeito que homens e mulheres héteros só tem amigos do mesmo sexo e se for do sexo oposto é porque querem pegar. Alguém tem alguma dúvida?


5. Só têm amigas hétero, porque não se dão bem com lésbicas.

Fonte: HuffPost

Porque escolhemos nossas amizades com base na orientação sexual delas e não pelas afinidades, qualidades, convivência, tudo isso é bobagem. Se for lésbica tá na minha listinha negra! Oi?


6. Adoram fazer compras e entendem tudo de moda e decoração.

Fonte: Jornal Ação Ten
Isso mesmo! Quem mandou sair do armário?! Saiu, agora é obrigado a dar dicas de moda e decoração, mesmo se você for do tipo que nunca usou nada além de calça jeans e camiseta branca.


7. Morrem de medo de ratos, baratas e outros insetos, e dão pinta quando veem um.

Fonte: Sempre existe um lugar onde você pode ser você.

Sim, sim, só gays e mulheres sentem medo, ainda mais medo de inseto, que absurdo!!! Macho que é macho mata com a mão! E se você é mulher ou gay, isso automaticamente faz você ter medo de ratos e insetos. Não tem nenhum furo nesse raciocínio não, né, colega?


8. São “passivas” ou ativos. As passivas dão pinta e os ativos se reprimem.

Fonte: meionorte.com
Porque, em um relacionamento, um dos dois sempre tem que ser a mulher e outro o homem. Pegamos o formato tradicional (e um tanto ultrapassado) de um relacionamento heterossexual e encaixamos o relacionamento homossexual nos mesmos quadradinhos. Aliás, a gente não tinha combinado de parar com essa bobagem lá no item um?


9. Morrem de nojo das partes íntimas femininas.

Fonte: 72DPI
Gay odeia tanto mulher que transa com homem só pra não ter que ver uma pelada, né? Mas, gente, e o amor louco pela Beyoncé estereotipado ali em cima, fica como? Gays não odeiam mulheres (ao menos não por serem gays, afinal, existem misóginos de todos os tipos), eles só não sentem atração por elas. 


10. Adoram pegação, quase nunca querem um relacionamento sério, e quando entram em um, não dura.

Fonte: Clube Metrópole
Fonte: Missionários da Luz
Esse tanto de casamento com filhos e tudo mais que a gente vê por aí é tudo enganação, propaganda da mídia para disseminar essa cultura gay. Claro, tem gente que casa com o único objetivo de querer tornar o mundo inteiro gay! WHAT??? 

sábado, 19 de setembro de 2015

HOMOTOPIA

Como seria o mundo se a ditadura gay se tornasse real?

Romeu é filho de duas mulheres. Estela e Teresa foram obrigadas pelo Estado a se casarem e a gerarem esse jovem por meio de inseminação artificial.

Desde que o ex-deputado gay Adolf Wyllys deu um golpe de Estado com o suporte da comunidade gay e implantou a ideologia de gênero no Brasil, todos passaram a ser obrigados a se casar com pessoas do mesmo sexo. Cada casal de mulheres tem o dever de gerar pelo menos dois filhos, o primeiro a ser criado por elas e o segundo a ser adotado por um casal de homens. As mulheres podem optar por ter mais filhos depois desses, para criá-los ou entregá-los a adoção. Desde que essa lei entrou em vigor, as feministas passaram a fazer oposição ao governo, por considerarem a lei misógina, mas o partido GGG, que passou a ser o único, tem conseguido silenciá-las.

Só que as mães de Romeu são cristãs, e sabem o que é certo. Por mais que o cristianismo tenha sido proibido, e a Igreja da Beyoncé tenha se tornado a religião oficial do país, algumas pessoas permanecem cristãs na ilegalidade. Também o “heterossexualismo” é considerado crime no Brasil. Desde a implementação do regime, milhões de brasileiros têm sido obrigados a reprimir seus desejos heterossexuais e a viver uma vida de pecado. Mas muitos cristãos resistem, vivendo na castidade com suas esposas e esposos, e até mesmo encontrando maneiras de viver relacionamentos heterossexuais na clandestinidade.

Recentemente, Romeu passou dois meses numa instituição socioeducativa por iniciar uma campanha em uma rede social a favor da liberação de beijos héteros nas telenovelas. Ele é apaixonado por Julieta, uma colega de escola. Os dois têm dezesseis anos de idade. Eles planejam se casar com a benção de Teresa, que é a biológica de Romeu e pastora em cultos que ocorrem sob a fachada de serem surubas, para que o Estado não desconfie.

Romeu e Julieta planejam se casar perante o Estado com outros irmãos de fé, que também desejam se casar um com o outro na igreja, para que possam viver sua sexualidade de forma santificada. O plano deles é que cada mulher seja inseminada com o sêmen de seu respectivo marido em Cristo. Apesar de a identidade dos pais biológicos ser oculta pelo Estado, um dos fiéis da mãe de Romeu trabalha em um centro de inseminação e prometeu ajudá-los a burlar o sistema opressor que os impede de viver em santidade.

Imagem retirada do BuzzFeed, que a creditou da seguinte maneira: "Via Twitter: @amandaseixas".

quinta-feira, 26 de março de 2015

POR QUE O BEIJO GAY NÃO COLOU DESTA VEZ?

Quem me conhece sabe que mais do que uma indignação por causa das reações negativas à novela Babilônia por parte de perspectivas evangélicas, o que eu estou sentindo é uma profunda tristeza pelo aumento da rivalidade entre grupos que acontecimentos como esse provocam. O que eu gostaria não é calar a boca dos evangélicos. O que eu gostaria é que isso não incomodasse tanto.

Mas como conseguir avanços políticos sem incomodar? Em alguns momentos, esfregar uma realidade diferente na cara de alguém é necessário para se impor, para mostrar que os seus direitos são maiores e mais importantes que os valores dos outros. Mas quais as consequências dessa estratégia?

Para os sujeitos diretamente implicados, isso significa um aumento muito grande na auto-estima deles. Homens e mulheres homossexuais passam a se sentir muito mais seguros para dar beijos em público depois que personagens da novela das nove fazem isso em frente a todo o país. Por muito tempo prevaleceu a lógica do armário para a homoafetividade: "Se quer fazer sem-vergonhices, que seja entre quatro paredes e não na frente dos outros". É a lógica da tolerância ao invés do respeito, em que os tolerantes ditam os limites aos tolerados. Mas na novela, não tem quatro paredes: os ambientes privados dos personagens são públicos para todos.

Para os sujeitos com perspectivas fortemente contrárias, a reação é de indignação. Antes de contribuir para a aceitação da homossexualidade por parte desses sujeitos, a exposição de um beijo no primeiro capítulo de uma novela das nove entre duas senhoras, sendo uma delas a atriz mais reconhecida do país, é um combustível potente para alimentar o ódio.

Para sujeitos com posicionamentos pouco inflamados em relação ao tema, a maré é quem vai conduzindo as leituras. O esperado beijo entre Félix e Niko, em Amor à Vida, foi inevitavelmente visto com maus olhos por grupos evangélicos. Mas eu pessoalmente presenciei brilhos nos olhos e sorrisos nos lábios de sujeitos não-LGBTs durante a cena. Do ponto de vista de estratégias comunicativas, aquele momento foi sem dúvida uma vitória sem precedentes.

O beijo entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg teve uma natureza bem diferente. Veio antes das personagens, se impôs de forma muito menos digestível e palatável. Desceu amargo. Causou refluxo. Gerou uma sensação de se querer fazer descer algo pela guela do outro. Aí foi a indignação de grupos evangélicos e não a legitimidade do amor entre dois sujeitos quaisquer o que gritou e tocou o público amplo. A meu ver, demos um tiro no pé.

Supostamente, o beijo entre as personagens deveria expressar a naturalidade do afeto entre pessoas do mesmo sexo. Mas foi por isso mesmo que aquele beijo foi colocado ali? Ou a intenção era outra: causar a partir da não-naturalidade do proposto natural?

Acho que o momento é propício para que repensemos nossas estratégias de ação. Para termos reconhecimento público não temos que recrudescer inimigos, temos que conquistar e fortalecer aliados. Nem hoje, nem amanhã vamos conseguir que Silas Malafaia e sua trupe nos reconheçam. Quem temos que ganhar são os sujeitos não-LGBTs e não-evangélicos e os evangélicos não-fundamentalistas. É trazendo esses para o nosso lado e não dando a faca e o queijo na mão de Silas para levá-los para o lado de lá, é que vamos enfraquecer essa perspectiva.

Isso não significa voltar atrás nas conquistas. Parar os beijos. Significa pensar em como fazê-los de maneira mais estratégica.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

ARMÁRIO: O MELHOR DE DOIS MUNDOS!

Socialmente falando, todo mundo nasce hétero, ou melhor, todo mundo é hétero até que se insinue o contrário. Quando um menino nasce, seus pais conjecturam sobre suas futuras namoradas. Quando ele se torna adolescente e chega em casa acompanhado de uma namorada, a situação transcorre naturalmente. Ninguém conta para os pais que é hétero. Ninguém se pergunta se o filho é hétero. As pessoas contam para os pais é que são gays, e é isso o que os pais se perguntam caso pareça que o filho não esteja seguindo o caminho “natural”, caso desconfiem que é filho é “diferente dos outros”.

Por tudo isso, o armário é inevitável. Todo gay já nasce dentro do armário e pode ou não continuar dentro dele. Mas se quiser sair, tem que fazer um esforço, porque praticamente ninguém que se importa com ele quer vê-lo do lado de fora. É bem verdade que ficar do lado de dentro também requer esforço, porque tem gente babaca que quer abrir a porta do seu armário só para te expor, para te “sacanear”, para ver você “se ferrar”. Além disso, manter-se intencionalmente no armário custa boas doses de mentira e omissão.

Para alguns é mais fácil se manter dentro do armário do que para outros. É certo que nem todo menino “afeminado” é gay, e nem todo menino gay é “afeminado”. Mas para o senso comum, as duas características são quase sempre sinônimas. Assim, se um gay é “afeminado”, se é um “viadinho”, uma “bichinha”, o que mais var ter é gente tentando tirar ele do armário antes mesmo de ele saber que está lá dentro.

Quando um menino é “afeminado”, ele é “xingado” de “mulherzinha”. O feminino é geralmente visto como índice de desvalorização, de humilhação, e o alvo dos “xingamentos” logo percebe isso e interioriza a “culpa”, a “vergonha” por ser “afeminado”, “viadinho”, “bichinha”. Nem sempre esse menino é gay, mas é ele quem paga o pato. Às vezes, um ou outro entre os meninos que estão “xingando” é que são gays, mas por serem másculos, ninguém desconfia disso. Às vezes, eles “xingam” o “afeminado” justamente para encobrirem seu próprio desejo. Mesmo quando um gay não é “afeminado”, mas também não hostiliza quem é, ele vê como o “afeminado” é tratado e sente medo, com razão, de ser tratado da mesma forma caso seja descoberto.

Na verdade, o próprio gay tem que se descobrir primeiro. Assim como os outros não sabem que ele é gay, ele também não sabe a princípio. Em algum momento, ele percebe que sente desejo por outros meninos, aí é que ele percebe que é gay. Geralmente, a tendência é de reprimir o desejo, já que ele é apontado como errado, como antinatural. Mas com o tempo, o menino se vê obrigado a perceber que não adianta tentar reprimi-lo.

Quando a gente é criança ou adolescente, muitas vezes a gente não está preparado para desagradar os outros, para desafiá-los. A gente é muito dependente da aprovação dos outros. Por isso, a gente costuma mentir muito para encobrir tudo o que a gente faz que é considerado errado, que os outros não querem que a gente faça. Daí quando a gente faz “arte”, faz bagunça, a gente fala que foi o irmão mais novo, que não sabe de nada, nega até a morte. A gente não quer o castigo, a gente não quer apanhar, o que é muito natural.

Em muitos momentos, a gente quer o melhor dos dois mundos: poder fazer a “arte”, o errado, o proibido, e não arcar com as consequências disso, sendo visto como o bom menino, e recebendo as recompensas que isso traz. Quando a gente vira adulto, tem gente que muda, e tem gente que não. Tem gente que passa a achar necessário ser responsável pelo que faz. Que passa a achar correto assumir suas próprias ações, impô-las aos outros e dar a cara a tapa, arcando com as consequências disso. Tem gente que continua pensando como uma criança ou um adolescente que tem medo de ser castigado.

Quando uma pessoa capaz de escolher como se portar esconde algo que faz, em algum lugar dentro dela, ela concorda que não deveria estar fazendo isso, que o que ela está fazendo é errado. Se ela tem certeza de que o que ela está fazendo é o certo, ela quer convencer as pessoas disso, ela não abaixa a cabeça quando elas falam para ela não fazer isso.

Assim é o armário. Quando uma pessoa escolhe continuar dentro dele, ela pode não admitir, mas ela acha, ou pelo menos tem dúvidas a respeito, que sentir desejo por pessoas do mesmo gênero é errado. Ela tem medo da desaprovação dos outros, das consequências que isso irá trazer para ela. Ela quer o melhor dos dois mundos: poder continuar fazendo o errado e poder continuar sendo visto como o bom moço e colhendo os privilégios que isso traz.

Não é fácil sair do armário. As pessoas choram, ficam decepcionadas, se afastam de você, te veem com maus olhos. Mesmo para quem está convicto de que vai sair, o medo e a vacilação na hora de fazer isso são inevitáveis. É bastante compreensível que alguém queira se manter dentro do armário. Mas ao mesmo tempo é indicativo de uma fraqueza, de uma falta de coragem e responsabilidade. 

Minha opinião é difícil de se escutar para quem está no armário, machuca, mas é uma dor que pode libertar... Eu não admiro quem escolhe ficar dentro do armário. Pelo contrário, eu acho que essa pessoa está sendo fraca...

Alguém poderia argumentar que não sai do armário para os pais para evitar causar-lhes uma dor, um sofrimento "desnecessário". Eu entendo esse argumento, e inclusive respeito, apesar de não concordar com ele. Acho que tentar evitar que o outro cresça, que se torne alguém melhor, que deixe de fazer ou de pensar algo errado, violento, de sentir ódio, é também estar sendo fraco. Apesar de uma possível sincera boa intenção, é preciso força para saber que o outro precisa passar por aquilo.

Além disso, quem escolhe ficar dentro do armário arrasta um monte de pessoas para dentro do armário junto consigo. As pessoas que sabem, mas não podem revelar isso a ninguém, as pessoas que se tornam cúmplices do armário do outro, mesmo sem desejar.

Eu escolhi não ficar dentro do meu armário. Eu não tive uma margem de escolha larga, uma vez que sempre fui apontado como o “viadinho”, a “bichinha”, o “afeminado”. Mas mesmo pessoas como eu, precisam sair do armário, caso desejem fazer isso. É preciso abrir o jogo para os pais, ter coragem para levar o namorado na festa da família, para apresentá-lo aos familiares como tal, para andar de mãos dadas na rua.

Mesmo quando quase todo mundo já sabe que você é gay, quase todos que se importam com você não querem que você revele isso, porque assim como quem escolhe ficar no armário, quem se importa com você geralmente tem medo das consequências que você vai sofrer por sair dele.

Mas você não escolhe sair do armário dos outros. Só do seu próprio. Sair do armário é uma prerrogativa de quem é dono dele. Mesmo que alguém conte para os outros que você é gay, você só sai do armário quando confirma isso. Porém as consequências do armário não recaem apenas sobre quem é o dono dele, mas também sobre todo mundo que ele leva para o lado de dentro.

As consequências do armário existem, assim como as consequências de se estar do lado de fora. A consequência de se estar do lado de dentro é ter que mentir, que omitir, que se esconder, que viver na clandestinidade, nas sombras, nos guetos.

Quando alguém está no armário e namora, ele e o namorado precisam fingir que são só amigos. Os amigos dos dois também tem que fingir o mesmo. Para tanto, muitas vezes é preciso não só omitir, mas também mentir. É preciso inventar desculpas, dizer que se está num lugar quando se está em outro, que se está fazendo alguma coisa quando se está fazendo outra. E não só os dois precisam fazer isso, mas frequentemente também os amigos, que se veem obrigados a confirmar essas histórias.

Eu escolhi viver fora do armário. Fora do meu armário. Mas eu não posso escolher viver fora do armário dos outros. Sejam os outros um namorado ou um amigo.

É importante para mim viver fora do armário, porque é importante para mim que eu próprio me veja e veja as minhas ações como naturais, como corretas, como algo que não precisa ser escondido. Se eu gosto de andar de mãos dadas na rua, não é para que os outros vejam, é para que eu sinta que o meu relacionamento é tão normal e tão correto quanto qualquer outro.

Se eu não posso andar de mãos dadas por escolha do outro, eu me sinto mal, porque eu sinto que o outro vê aquela ação como errada, ou pelo menos que tem medo de estar comigo, e eu não gosto e não desejo que alguém que esteja comigo veja o que nós dois temos como algo errado, nem que tenha medo de estar comigo.

Eu já apanhei na rua por ser gay. Eu sei que isso pode acontecer de novo. Mas eu faço questão de me impor, porque eu sei que o correto sou eu, e não os outros.

Se alguém que eu gosto está no armário e me leva para o armário dele junto consigo, eu me sinto mal. Porque eu sinto que ele vê o que eu sou, o que eu faço, como algo errado. E eu não quero que as pessoas que eu gosto tenham vergonha de mim, que eles não me deem apoio, suporte para ser quem eu sou. Mas não tem jeito. Querendo ou não eu tenho que ficar dentro do armário dessas pessoas.

Eu não cobro, nem pressiono para que ninguém saia do seu armário. Cada um sabe de si. Cada um sabe do que é capaz, do que consegue, pode e quer fazer. Mas eu também não finjo que isso não me incomoda. Todo mundo que está no armário e convive comigo sabe que eu não gosto de ser carregado para lá.

O que eu posso fazer, e faço, é passar o menor tempo possível dentro do armário deles. Eu me nego a ser apresentado à família de alguém como amigo, quando não é essa a relação que eu tenho com a pessoa. Se não dá para me apresentar como namorado, então eu não quero ser apresentado. Isso tem consequências. A consequência de sentir que o outro tem vergonha de você, ou pelo menos medo de estar com você, a consequência de ser privado do espaço íntimo dessa pessoa, a consequência de que o outro te veja como intolerante.

Eu me nego a contar uma mentira para ajudar uma pessoa que quer ficar no armário. Eu posso omitir, e omito, mas mentir não. Está fora do que eu consigo moralmente fazer. Eu não vou mentir para que alguém continue fingindo não ser aquilo que eu sou. É humilhante demais, e se essas pessoas não conseguem respeitar completamente como eu e elas somos, elas deveriam ao menos respeitar como eu me sinto em relação a isso...

Em alguns países, ser gay é crime, dá cadeia e até pena de morte. Se essa fosse a nossa situação, eu não só mentiria para manter as pessoas dentro do armário, como eu também estaria lá. Mas não é assim para a gente. Na maior parte das vezes, sair do armário só rende caras feias...

Obviamente, em qualquer contexto, inclusive no nosso, existem crianças e adolescentes submetidos ao risco de violência doméstica por parte dos pais. Nesses casos, elas ficarem no armário não é só fácil de se compreender, como também é o melhor a se fazer, uma vez que ainda não existe a possibilidade de se alcançar a autonomia necessária para se libertar dessa situação. Mas a coisa muda de figura quando estamos falando de adultos.

Tem pessoas que não entendem a forma como eu ajo em relação a isso, que me acham muito radical, que acham que eu tenho a obrigação de mentir por elas. Eu explico, e se elas quiserem e conseguirem entender, ótimo. Senão, o descontentamento delas não faz com que eu me sinta mal. Pelo contrário, só me mostra que eu estou fazendo algo a favor de quem eu e ela somos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MESMO AMOR


Nos últimos meses, tenho ouvido cada vez mais que branco não entende o problema de preto, que homem não entendo o problema de mulher, que cis não entende o problema de trans. Aí por que eu sou homem cis e branco, eu não sei nada sobre o que as mulheres, os negros e os trans passam.

Eu não sou nada disso. Mas sou gay. E eu sei muito bem o que um gay passa. E eu digo, sem medo de errar, que quem descreveu melhor isso até hoje, de todos as descrições que eu já vi, foi um hétero. Então, se eu tenho propriedade pra dizer isso, eu digo: héteros, eu acredito que vocês possam entender perfeitamente o que nós passamos.

Eu choro sempre com essa música. Aliás, chorei litros fazendo essa tradução:


Mesmo amor

Quando eu tava na terceira série, eu achava que eu era gay
Porque eu sabia desenhar, meu tio era
E eu mantinha meu quarto arrumado
Eu disse pra minha mãe
Lágrimas escorrendo pelo meu rosto
Ela, tipo: "Ben, você ama garotas desde antes da pré-escola, cê tá enganado..."
É, acho que ela tinha razão, né?
Um monte de estereótipos, tudo na minha cabeça
Eu me lembro de fazer contas do tipo
"É, eu sou bom no campeonato infantil"
Uma ideia preconcebida do que tudo isso significava
Pros que gostam do mesmo sexo
Ter certas características
Os conservadores da direita acham que é uma escolha
E que cê pode ser curado por algum tratamento ou religião
Uma mudança duma predisposição, feita pelo ser humano
Brincando de Deus
Ah, nem... aqui vamos nós
América, os fodões ainda têm medo do que a gente não entende
E "Deus ama todos os seus filhos"
É esquecido de algum jeito
Mas a gente parafraseia um livro
Escrito três mil anos atrás
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor

Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Se eu fosse gay, acho que o hip hop ia me odiar
Cê tem lido os comentários do Youtube ultimamente?
"Cara, isso é gay": tem um monte disso todo dia
A gente se tornou tão insensível com o que a gente tá dizendo
Uma cultura fundada na opressão
A gente ainda não aceita eles
Chamamos uns aos outros de bichas pelas costas
Num quadro de mensagens
Uma mensagem enraizada no ódio
Nosso gênero ainda assim ignora isso
Gay é sinônimo de inferioridade
Esse é o mesmo ódio que causa guerras religiosas
De gênero a cor de pele, a aparência do seu pigmento
A mesma briga que leva as pessoas a se manifestarem e insistirem
São direitos humanos pra todo mundo, não tem diferença!
Toque a vida e seja você mesmo
Quando eu tava na igreja me ensinaram outra coisa
Se você pregar ódio no culto
Essa palavras não são abençoadas
E a água benta que você asperge se torna envenenada
Enquanto todo mundo está mais confortável
Permanecendo calado
Ao invés de lutar pelos direitos humanos
Que tiveram seus direitos roubados
Eu posso não ser do mesmo jeito, mas isso não é importante
Não há liberdade enquanto a gente não for igual, eu defendo isso pra caramba
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

A gente aperta play, não apeta pause
Progresso, marche pra frente
Com o véu sobre nossos olhos
Nós viramos nossas costas para a causa
Até o dia em que meus tios possam ser unidos pela lei
Enquanto crianças estiverem andando por aí
Andando pelos corredores atormentados pela dor em seus corações
Em mundo tão cheio de ódio que alguns preferem morrer
A ser quem eles são
E um certificado no papel não vai resolver isso tudo
Mas é um lugar muito bom pra começar
Nenhuma lei vai mudar a gente
A gente tem que mudar a gente
Qualquer Deus em que você acredite
A gente veio do mesmo
Jogue fora o medo
Por baixo de tudo isso é o mesmo amor
Já é hora da gente se levantar

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Amor é paciente
Amor é bom
Amor é paciente 
Amor é bom 
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Eu não vou chorar aos domingos)
Amor é paciente
Amor é bom

(Tradução livre de "Same Love", de Macklemore & Ryan Lewis)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"LET IT GO" COMO METÁFORA PARA ACEITAR-SE GAY


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
A noite está relacionada à escuridão e ao frio. É o momento em que a homossexualidade causa desconforto e desorientação. A montanha está relacionada à escalada que leva ao topo. É o difícil caminho que se percorre em direção à auto aceitação. A neve é algo que encobre o chão, dificultando o deslocamento. São as dificuldades que atrapalham o caminho em direção à auto aceitação.


Não há pegadas a serem seguidas.
Refere-se à dificuldade de se encontrar modelos, exemplos de homossexuais que já trilharam esse caminho de forma bem sucedida.

Eu sou a rainha de um reino de solidão.
Refere-se à sensação de que ninguém está ao seu lado, e à de que você é o único que tem que enfrentar esse tipo de "problema".

O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
O vento é aquilo que atrapalha a caminhada. São as dificuldades enfrentadas em direção à auto aceitação. A tempestade dentro do homossexual é a inquietude, a confusão interna.

Não pude contê-la. Deus sabe que eu tentei!
Muitas vezes o que atrapalha a auto aceitação do homossexual é a crença de que a homosexualidade é um pecado.

Não deixe que vejam o que há em você. Seja uma boa garota. Controle-se. Não sinta. Não deixe que saibam.
São frases que o homossexual se diz constantemente, interiorizando a heteronormatividade.

Bom, agora já sabem...
Houve pra o homosseual uma saída do armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Não tem mais nada que eu possa fazer. Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.
É o momento em que o homossexual percebe que não adianta mais tentar esconder seus desejos das pessoas.

Não me importa o que vão dizer. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
O tempo fechado é a reação negativa das pessoas, a raiva e o não entendimento delas. O frio é a reação de afastamento das pessoas, que ao invés apoiarem o homossexual, tornam-se frias com ele. 

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Ao ver a situação de uma outra perspectiva, o homossexual vê que o que ele enxergava como um grande problema, não é nada.

Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
Ele vence a visão negativa que tem de si mesmo, e o medo de ser mal visto pelos outros.

É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los. Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas. Eu estou livre!
O homossexual resolve experimentar sua sexualidade, liberar os seus desejos, sem ligar pras normas que o coíbem.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou ser abraçado pelo vento.
O homossexual entrega-se à situação e vê onde ela pode levá-lo.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vocês não vão me ver chorar.
Ele para de sofrer por causa de sua homossexualidade.

Aqui estou eu e aqui vou ficar. Deixa o tempo fechar!
Ele firma seu posicionamento.

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Ele percebe que pode ser homossexual e vivencia isso amplamente.

Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
As dificuldades internas são superadas.

Ideias novas logo vão se cristalizar.
Uma nova forma de ver as coisas se estabelece.

Não vou voltar jamais. O passado ficou pra trás.
Ele se recusa a voltar ao armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.
Ele ergue a cabeça e luta pelo seu direito de ser como é.

Deixá pra lá! Deixá pra lá! A garota perfeita já era.
Ele deixa de fingir que é o que não é.

Aqui estou eu, à luz do sol. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
A luz do sol representa a visibilidade. Poder ser homossexual no espaço público, na frente dos outros.


Bônus: a família de Oaken.

O personagem Oaken chama de "família" esses cinco personagens que se encontram na sauna. Aparentemente trata-se de um pai e quatro filhos. A "família" pode ser entendida como "minha família" (a família de Oaken) ou como "uma família".
Fica a interpretação possível de que Oaken é um personagem homossexual, que possui uma família homoafetiva.


Bônus: poderes de Elsa

Ao longo do filme, descobrimos que Elsa congela quando sente medo, e aquece quando sente amor. A mensagem que fica é que o medo congela e o amor aquece. Pesando nessa metáfora, o medo da auto aceitação congela, e o amor (homoafetivo, no caso) aquece.


DEIXA PRA LÁ


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
Não há pegadas a serem seguidas.
Eu sou o rei de um reino de solidão.


O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
Não pude contê-la.
Deus sabe que eu tentei!

Não deixe que vejam o que há em você.
Seja um bom garoto.
Controle-se. Não sinta.
Não deixe que saibam.

Bom, agora já sabem...

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Não tem mais nada que eu possa fazer.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.

Não me importa o que vão dizer.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los.
Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas.

Eu estou livre!

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou ser abraçado pelo vento.

Deixa pra lá
Deixa pra lá!
Vocês não vão me ver chorar.

Aqui estou eu e aqui vou ficar.
Deixa o tempo fechar!

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
Ideias novas logo vão se cristalizar.

Não vou voltar jamais.
O passado ficou pra trás.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.

Deixá pra lá!
Deixá pra lá!
O garoto perfeito já era.

Aqui estou eu, à luz do sol.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

(Tradução livre de "Let it go", do filme Frozen)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O ARMÁRIO PERSISTE ENTRE OS ATORES BRASILEIROS

O que estes oito atores brasileiros têm em comum? Todos eles negam boatos que correm na Internet de que seriam gays ou bissexuais...

Bom, vamos deixar claro o que eu estou falando e o que eu não estou falando neste post, bem como qual é a intenção dele. Eu não estou sugerindo que nenhum desses atores seja de fato gay ou bissexual. Primeiro porque eu não sei se eles são ou se não são, segundo porque pouco me interessa se de fato eles são ou se não são. O que eu estou afirmando neste post é que há boatos na Internet apontando esses atores como gays ou bissexuais. Como eu sei disso? Eu pesquisei sobre esse tipo de boato para escrever este post. Não vou colocar aqui as fontes de cada boato, porque se são boatos, e não notícias, é claro que nenhuma dessas fontes é segura.

Então para quê eu estou falando disso? Não é para ser vigia da sexualidade de ninguém, mas para falar de uma questão mais ampla do que cada um desses boatos, que é a forma como o armário ainda impera no Brasil. Para mim, não importa se esses atores alvos dos boatos é que são gays ou bissexuais, ou se outros atores brasileiros é que são. O que importa é que é muito improvável que quase nenhum ator brasileiro seja, apesar do número quase inexistente de atores brasileiros assumidos.

Portanto, não me venham dizer que segundo o blogueiro Vanrochris Vieira tais atores são gays, ou que o blogueiro Vanrochris Vieira publicou uma lista de atores gays. Eu não estou fazendo isso neste post, nem em lugar nenhum. Eu estou sim apontando quais atores são alvos de boatos desse tipo na Internet. Para confirmar a existência de tais boatos, basta fazer uma rápida pesquisa.

Esses oito atores não são os únicos alvos de boatos. Mas os boatos em torno de cada um deles e a forma como os envolvidos reagiram tornam seus casos os mais interessantes para essa discussão.

Leonardo Vieira teria virado alvo de boatos depois de divulgar centenas de fotos em um fotolog ao lado de um designer, algumas delas com legendas insinuantes, como "Romance in São Paulo". O ator e o designer entraram com ação contra um jornal que teria feito "acusações" sobre isso.

Rodrigo Simas e Marco Pigossi viraram alvo de suspeitas quando o jornalista Leo Dias publicou uma notícia cifrada sobre um casal de jovens atores da novela Fina Estampa que estariam namorando. Posteriormente, a jornalista Fabiola Reipert publicou outra notícia cifrada sobre um jovem ator global que teria se assumido para a família, e os boatos apontaram novamente para Rodrigo Simas.

Reynaldo Giannecchini é alvo desde o fim do término de seu relacionamento com Marília Gabriela, pois dizem que ele teria se envolvido com o filho da entrevistadora. Posteriormente, um ex-empresário dele veio a público dizendo que os dois haviam tido um caso.

Henry Castelli e Julio Rocha são ambos apontados por boatos como ficantes do diretor Wolf Maia. Este inclusive entrou com processo contra Leo Dias devido a uma notícia de que ele havia dado um carro para Caio Castro.

Os boatos em torno de Carmo Dalla Vecchia apontam um relacionamento entre ele e o escritor João Emanuel Carneiro. 

Já Vitor Fasano já processou IstoÉ e Veja por insinuações feitas pelas revistas.

Na contramão dos atores que negam os boatos, há pouquíssimos que não negam. O caso mais proeminente é o de Jesuíta Barbosa, que foi recentemente apontado como namorado do ator Fabio Audi, um dos protagonistas do Filme Hoje eu quero voltar sozinho. Mas apesar de não negar, Jesuíta Barbosa também não fala publicamente sobre o tema. O único ator brasileiro que realmente se assumiu até hoje foi Marco Nanini.


Para muitos, a explicação para que os atores não se assumam está na suposição de que isso tornaria sua credibilidade como galãs comprometida junto ao público. Mas a lógica do armário também impera entre os cantores e apresentadores brasileiros. Quanto aos cantores, é apontado também que sair do armário diminuiria o número de fãs mulheres, que nutrem amores platônicos por eles. Mas e entre os apresentadores? Nesse caso, a única explicação é que se assumir prejudicaria a imagem pública dos mesmos.

Temos comemorado os avanços na representação dos homossexuais no país, mas a prevalência da lógica do armário entre os atores mostra que ainda há muitos passos para se dar nesse sentido.

segunda-feira, 24 de março de 2014

SIM, ESSA IGREJA EXISTE

Uma igreja que tem como princípio fundamental a luta pelos direitos humanos, que estimula o desenvolvimento do senso crítico de seus fiéis e que crê num Deus que nunca condena.

O meu primeiro contato com essa igreja, a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), foi através do Facebook. Nele, a igreja divulga eventos produzidos pelo Nuh, o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT, da UFMG, e muitos outros relacionados à militância LGBT.

Ontem fui à ICM pela primeira vez. Não haveria nenhum culto, mas sim a exibição comentada de um filme: The Falls (Jon Garcia, Canadá, 2012). O filme trata de dois homens mórmons que se apaixonam um pelo outro. Numa peça divulgada no Facebook, através da qual eu fiquei sabendo dessa exibição, havia a frase: “nossa sexualidade é um paraíso e não um pecado”.

Logo que entrei na igreja, me deparei com uma série de cartazes que explicavam sua proposta. A ICM foi fundada nos EUA, em 1968, e tem como um princípio fundamental a luta pelos direitos humanos. Com sedes em diversos países, mais de 50% de seu corpo de clérigos é composto por mulheres. No Brasil, ela existe desde 2004, e em Belo Horizonte, desde 2006.

Dentre todos os cartazes que ali estavam, o que mais me chamou a atenção continha o seguinte texto: “’As vadias vos precederão no reino de Deus’ Mateus 21:31 – Mulheres lésbicas, bissexuais e heterossexuais unidas pelo direito da mulher usar o corpo como quiser”.

Depois que o filme acabou, o pastor fez comentários afirmando como o senso crítico é importante para qualquer pessoa, inclusive as religiosas, e como os dogmas e doutrinas das igrejas são excludentes e prejudiciais à fé. O que mais me chamou a atenção em sua fala foi ele ter dito que acreditava que a parte do filme na qual Deus se fazia mais presente era numa cena em que os dois personagens se libertavam de todos os seus dogmas, vivendo experiências leves e prazerosas na companhia de um homem não religioso que eles haviam conhecido (na cena, os dois se permitem ter experiências como fumar maconha pela primeira vez, por exemplo).

Os demais presentes foram chamados a participar da discussão e houve debate sobre temas como o preconceito contra homens “passivos” entre os próprios homossexuais, a possibilidade de o novo papa estar realmente preocupado com os fiéis gays (ou simplesmente estar tendo posicionamentos liberais por estar preocupado com a queda do número de fiéis católicos), a positividade de ter havido um personagem gay vilão numa novela das nove (para mostrar que gays são pessoas como quaisquer outras, e não apenas pessoas que se resumem a serem gays), a dificuldade de se levar essas temáticas para as escolas (vista no cancelamento da circulação do chamado “kit gay”) e o fato de a ICM não ser uma “igreja gay”, mas uma igreja para qualquer pessoa, inclusive gays.

Hoje, eu voltei à ICM para um assistir a um culto. Ouvi primeiramente a uma explanação do pastor sobre um texto do evangelho de João. Ele se preocupou em dar muitas referências sobre o contexto no qual Jesus vivia, para que o texto pudesse ser interpretado a partir disso. A passagem era sobre uma samaritana para quem Jesus pede água, em um poço.

O pastor explicou que, geralmente, o fato de Jesus ter dito a ela que ela já tinha tido seis maridos é visto como um “puxão de orelha” dado por ele. Mas o pastor acredita que o que Jesus estava fazendo ao dizer isso é, na verdade, apontar para a força dessa mulher que quebrou com as regras de sua época para lutar por sua realização amorosa. Ele defendeu que Jesus nunca foi moralista, e que o que ele queria dizer é que dogmas e doutrinas promovem um contato muito superficial e externo com Deus, e o contato verdadeiro seria de outra natureza. Por fim, ele defendeu que Deus é sempre amor, misericórdia e salvação, e nunca condenação.

Posteriormente, houve a oração do “creio”, que, na versão da ICM, reafirma a crença nos direitos humanos e na não violência. Depois, as ofertas foram precedidas de um discurso que o pastor chamou de “lavagem cerebral” (devido ao fato de ele repeti-lo toda semana), mas necessário para quebrar com os dogmas existentes: ele afirmou que não há na ICM cobrança de dízimo, mas sim pedido de oferta, de qualquer valor e não obrigatória. Lembrou também que quem doasse deveria fazer isso sem esperar nada em troca de Deus, porque Deus não faz barganha. Em seguida, houve uma comunhão à qual todos foram convidados a participar. Nos avisos, a lembrança de que na próxima semana, como em toda última semana do mês, seriam apenas as mulheres da comunidade quem preparariam e conduziriam o culto.


A busca por uma igreja diferente

Desde que comecei o mestrado, há um ano, eu tento entender quais são as disputas e vínculos que unem LGBTs e evangélicos na contemporaneidade. Nesse processo, eu já entrei em contato com 12 igrejas evangélicas diferentes. Cada uma com seu perfil próprio em relação a esse tema e a diversas outras questões.

Desde o começo, eu descartei completamente a possibilidade de fazer uma separação maniqueísta entre evangélicos e LGBTs, de forma a considerá-los grupos isolados em que um era o mal e o algoz, e o outro era o bem e a vítima.

No começo, eu defendi a importância de se investigar maneiras através das quais LGBTs e evangélicos pudessem superar seus conflitos a fim de gerarem vínculos de outra natureza que não a do combate, que eu já sabia que iria encontrar.

Nessa busca, cheguei a uma igreja inclusiva de Belo Horizonte. E, dentre todas as igrejas que conheci, continuei frequentando duas: uma com um discurso fortemente demonizador em relação à homossexualidade a essa igreja inclusiva.

Para ela, a homossexualidade e a transexualidade não são pecados, mas, todas as demais proibições correntes nas igrejas evangélicas em geral fazem-se igualmente presentes nela. Por exemplo: não se pode ouvir música que não seja gospel, nem usar álcool, nem ter experiências sexuais de forma livre.

Nesta semana, eu conheci outra igreja inclusiva, a ICM, que apresenta uma proposta de vínculo entre LGBTs e evangélicos completamente diferente das demais.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O PERIGO DO FASCISMO GAYZISTA

Na imagem, deputada e travesti Marquete Feliciana pedindo contribuições para a sua boate gay.

Eu sou evangélico e resolvi escrever um texto para demonstrar minha indignação. Acho incrível que depois de tudo o que passamos por conta dos gays, eles ainda tenham a coragem de nos acusar de intolerância. 

Todos os anos, cerca de 300 evangélicos são mortos no Brasil, apenas por serem evangélicos. Até o ano passado, nós não tínhamos o direito ao casamento civil, e ainda continuamos sem ter o direito de celebrar nossos casamentos em boates gays. E o pior: ainda não estamos seguros para nos expressar livremente nos espaços públicos. Os gays acham que seus filhos se tornarão evangélicos caso nos vejam “dando pinta de crente” nas ruas ou na televisão.

Eu me lembro quando contei para meus pais que eu era evangélico. Foi muito doloroso, porque eles reagiram muito mal. Tão dolorosa quanto foi a vez em que eu fui espancado na saída da escola, apenas por ser evangélico. Todos nós evangélicos passamos por coisas horríveis como essa. Por isso, muitos de nós ficamos na “arca”, ou seja, não contamos para ninguém sobre a nossa religião.

Os gays dizem que queremos privilégios. Não queremos, queremos apenas ter os meus direitos que eles têm. Por isso, queremos uma lei que proíba agressões evangelicofóbicas, mas eles estão tomando conta do Congresso (são mais de 70 deputados gays contra apenas um evangélico) e derrubaram esse projeto. Eles chegaram ao absurdo de tomarem a Comissão de Direitos Humanos, apenas para impedir que conseguíssemos avanços na militância PPNA (Protestantes, Pentecostais, Neopentecostais e Adventistas). 

Nas boates gays, as travestis ensinam que ser evangélico é errado, que gay evangélico não vai pra dark room. Elas chegam ao absurdo de argumentar que se todas as pessoas se tornarem evangélicas, a humanidade vai acabar, porque, segundo elas, nós consideramos o sexo algo errado.

A verdade é que nem eu, nem ninguém escolhe ser evangélico. Por isso não é uma opção religiosa, e sim uma orientação religiosa. Eles insistem em usar o termo evangelismo para designar nossa religião. Mas esse termo é muito pejorativo, pois remete a um momento histórico no qual a evangelidade era considerada uma doença.

Por isso, eu advirto vocês, irmãos, tomem cuidado com discursos de ódio como o da deputada travesti Marquete Feliciana, ou da travesti Silete Malafaioca.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

TATUAGEM

Esse rabisco, em breve, vai estampar meu braço para sempre.

Cis- é o contrário de trans-. Cis-tema é um trocadilho que indica o sistema cis-, ou seja, o conjunto de normas relacionados à heteronormatividade e à naturalização das construções de gênero a ela relacionadas. 

A ideia da tatuagem partiu de uma campanha estadunidense que está estampada na camiseta da foto abaixo. A minha tentativa foi adaptá-la para que ela ficasse mais parecida com um manifesto, como nas pixações políticas (já que a frase me chamou atenção justamente em forma de pixação, numa parede da Fafich).

Os dois símbolos de masculino intercalados remetem à homossexualidade entre homens, e o símbolo misto de masculino e feminino remete a performances de gênero masculinas não normativas, dentro da lógica cis-têmica (chamadas pejorativamente de "afeminação"). 


domingo, 17 de novembro de 2013

PEQUENO GLOSSÁRIO SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL

Tenho visto cada vez mais o quanto é importante fazermos uma separação entre “sexo biológico”, “identidade de gênero”, “performance de gênero” e “orientação sexual”, porque cada uma dessas categorias se refere a um aspecto diferente da questão da diversidade sexual.

As sexualidades das pessoas são como palavras de um texto: cada uma tem uma fonte, um tamanho, uma cor, e uma formatação (negrito, itálico, etc.), e cada uma dessas características é independente das demais.

O “sexo biológico” define com que características relacionadas ao dimorfismo sexual da espécie humana o indivíduo nasceu. Esse dimorfismo está relacionado à cadeia cromossômica do indivíduo. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “macho”, “fêmea” ou “intersexual”. “Macho” é a pessoa que nasceu com um pênis padrão. Essa pessoa tem um cromossomo X e um cromossomo Y. “Fêmea” é a pessoa que nasceu com uma vulva padrão. Essa pessoa tem dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y. “Interssexual” é a pessoa que nasceu com um pênis fora do padrão, ou com uma vulva fora do padrão. Essa pessoa nasceu com um clitóris muito grande em relação aos clitóris padrão (no caso de pessoas com dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y), ou com um pênis muito pequeno em relação aos pênis padrão (no caso de pessoas com um cromossomo X e um cromossomo Y), ou com um pênis e uma vulva (no caso de cadeias cromossômicas com características que não se inserem em nenhum dos dois tipos de padrão).

A “identidade de gênero” define como a pessoa se autoidentifica. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “mulher”, “homem” ou “neutra”. “Mulher” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como mulheres. “Homem” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como homens. “Neutra” é a pessoa que normalmente não se autoidentifica a partir de categorias de gênero

A “performance de gênero” define como uma pessoa se comporta e que tipo de aparência ela apresenta. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “feminina”, “masculina”, “queer”, ou “andrógina”. “Feminina” é ê pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de feminilidade. “Masculina” é a pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de masculinidade. “Queer” é a pessoa que normalmente aproxima alguns elementos de sua aparência e de seus comportamentos de um ideal de feminilidade e outros de um ideal de masculinidade. “Andrógina” é a pessoa cuja aparência e comportamentos normalmente não se aproximam de nenhum desses ideais.

A “orientação sexual” define por que tipo de pessoas o indivíduo se sente sexualmente atraído. Ela tem a ver com a “performance de gênero” dessas pessoas. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “homossexual”, “heterossexual”, “bissexual” ou “pansexual”. “Homossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “masculinas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “femininas”. “Heterossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “femininas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “masculinas”. “Bissexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída tanto por pessoas “masculinas” quanto por pessoas “femininas”. “Pansexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída por outras pessoas, independentemente de sua “performance de gênero”.

Ademais, há duas relações entre essas categorias que também precisam ser entendidas. A relação entre “sexo biológico” e “identidade de gênero” e a relação entre “sexo biológico” e “performance de gênero”. Quando um “macho” se autoidentifica como “mulher”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “homem”, essa pessoa é “transsexual”. Quando um “macho” se autoidentifica como “homem”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “mulher”, essa pessoa é “cissexual”. Quando um “macho” é “feminino”, ou quando uma “fêmea” é “masculina”, essa pessoa é “transgênero”. Quando um “macho” é “masculino”, ou quando uma “fêmea” é “feminina”, essa pessoa é “cisgênero”.

Há denominações alternativas que, no entanto, carregam uma carga grande de preconceito. Uma delas é a de “travesti”, que se refere aos machos transgêneros. Outra é “afeminado”, que se refere aos machos femininos (e, portanto, transgêneros) ou queers. Essa denominação é especialmente problemática por que aponta a feminilidade como algo desviante para o macho. Ainda mais uma é “hermafrodita”, que se refere aos interssexuais que nasceram com um pênis e uma vulva. Outras denominações alternativas não carregam a mesma carga de preconceito, como os termos “gay”, para se referir a homens homossexuais, e “lésbica”, para se referir a mulheres homossexuais. Já os termos “viado” e “sapatão”, que têm a mesma finalidade, também carregam grande carga de preconceito.