terça-feira, 17 de novembro de 2015

JOUT JOUT, XUXA E RIO DOCE

Imagens: Lucas Landau (esqueda), R7 (centro) e Vanrochris Vieira (direita).

Jout Jout

Eis que a Jout Jout Prazer é entrevistada pelo . Eis que o Jô faz uma ~piada~ babaca sobre "cara de puta". Eis que a Folha de S.Paulo publica uma matéria na qual ela diz que se sentiu desconfortável. Eis que dezenas de homens vão aos comentários destilar ódio contra ela. 1. O Jô não sabia o q era sabatista. mas insistiu quatro minutos nesse assunto. 2. O Jô falou que leu o que ela falou, ela corrigiu, e ele mentiu que tinha falado certo. 3. A Jout Jout foi extremamente educada durante toda a entrevista, e também ao falar sobre o ocorrido. 4. Os comentários nesta postagem (a maioria absoluta deles feita por homens, que associam a Jout Jout a uma visão negativa sobre o feminismo que não tem absolutamente nada a ver com ela) mostram o quanto os vídeos dela são importantes. 5. A grande maioria dos comentários ser contra ela, e não contra o Jô, mostra porque a discussões q ela propõe são tão necessárias.

Xuxa

Vi o programa da Xuxa ontem e morri de vergonha alheia. A Anitta tava lá, e eles tavam forçando tanto a barra e pegando tão pesado pra falar da vida sexual dela e insinuar situações sexuais que ela tava quase correndo do palco. Era cheirar o abdômen de homem, encostar vibrador na boca, responder como ela faz sexo, dizer o que ela faria na cama com cada celebridade... Isso tudo chamando os papeis onde estão as perguntas de pergaminhos dos Dez Mandamentos, e com o elenco da novela brincando de sentar no colo de homem na dança das cadeiras. Coerência cadê? Enfim, saudades Banheira do Gugu.

Rio Doce

Acaba de acontecer algo muito bacana: o vídeo que gravei dos peixes agonizando no Rio Doce chegou a um estadunidense que me perguntou o que estava acontecendo. Eu expliquei e pedi que ele compartilhasse com seus amigos, para que mais gente saiba o que está acontecendo. Aqui no Facebook, o vídeo já foi visto quase 1.500 vezes. No Youtube, quase 6 mil vezes. É muito? Provavelmente não. Mas para alguém que tem menos de 500 "amigos" no Facebook, não patrocina seus posts, não tem o apoio de nenhum canal estabelecido ou mídia tradicional, e só tinha uma câmera portátil na mão, é fazer alguma coisa. Vamos continuar fazendo, e cada vez mais? Temos essa e muitas lutas pela frente ainda!

sábado, 14 de novembro de 2015

SOBRE O PODER DE AFETAÇÃO DO ACONTECIMENTO

Fonte: Ocorrências
Uma análise deboísta sobre a treta Paris X Mariana.

O acontecimento cria o seu público, porque ele acontece PARA alguém. Para que um acontecimento afete alguém que não esteve envolvido nele de forma imediata, ele, obviamente, tem que ser mediado. Se foi algo que aconteceu no seu bairro, por exemplo, a mediação pode ser um relato dos seus vizinhos. Mas se foi algo que aconteceu mais longe, tradicionalmente a mediação vem (quando vem) pela grande mídia (jornais, tv, etc), e mais recentemente também pelas redes sociais. Se essa mediação não acontece, então o acontecimento não acontece para a gente (ou se a mediação deixa de acontecer, então ele deixa de acontecer para a gente). Mas se a mediação ocorre de uma maneira intensa, o acontecimento tem uma forte possibilidade de acontecer para a gente. Isso não quer dizer que ele vai de fato acontecer. Depende se ele vai nos afetar ou não. E o que faz com que ele nos afete ou não? Ele mexer com a gente. Com os nossos medos, com os nossos desejos.

Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado nos EUA, houve uma grande mobilização no Brasil, maior do que quando ele foi aprovado aqui. Porque? Porque foi um acontecimento muito mais mediado. As pessoas que se importam com o tema mudaram sua foto de perfil no Facebook porque o próprio Facebook disponibilizou essa opção. Mas o acontecimento é sempre inesperado. A repercussão dessa mudança nas fotos trouxe novas possibilidades: discutiu-se, por exemplo, a invisibilização de trans e lésbicas no movimento LGBT.

Agora, com a afetação supostamente maior gerada pelos atentados na França do que pelo crime ambiental em Minas (a midiatização é claramente maior), questiona-se essa afetação (e não apenas a midiatização). Por que os atentados nos afetam? Por que temos medo. Medo da guerra, medo da morte. Os caminhos que isso pode gerar são interessantes. O questionamento sobre o porquê de os atentados na África não serem midiatizados são um deles.

Uma sugestão: ao invés de criticarmos quem põe um filtro na foto do perfil por uma causa que não nos afeta, por exemplo, talvez devêssemos trabalhar na disponibilização mais fácil, rápida e eficiente de filtros para as nossas causas. É péssimo que os acontecimentos na África, com os indígenas, com travestis, ambientais não gerem a mesma repercussão. Temos que brigar por uma maior midiatização deles. Esse problema tem a ver com algo que me arrepia, os nossos "critérios de noticiabilidade". Tá na hora de tentar mudá-los.

Edit (16/11): Como bem lembrado pela professora Vera França, a questão vai muito além dos critérios de noticiabilidade. Ela só se entrelaça com ele a partir das relações de poder.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

DEZ ESTEREÓTIPOS A RESPEITO DE HOMENS GAYS

Pessoas lindas, é com imenso prazer que eu publico uma lista super divertida feita pela minha grande amiga Luiza Tomagnini, do canal No Mundo da Lu. Eu e ela pensamos juntos nesses estereótipos sobre gays e nos divertimos muito concebendo essa piada muito séria.

Warning: Esse texto tem altas cargas de ironia!

1. São afeminados, os que não são é porque se reprimem. Mas só até soltar a franga. 

Fonte: Espaço Imoral
O gênero pelo qual você sente atração dita todas as suas características, como você age, qualidades, defeitos, gestos. Faz todo sentido isso, sim. Se você gosta de homem, deixa automaticamente de agir como um. Aliás, hoje em dia está bem atrasada essas definições do que é ser/agir como homem ou mulher, não acham não? Vamos combinar de parar com essa bobagem? 


2. Adoram música pop e têm uma diva preferida pela qual até brigam. 

Fonte: Aos Cubos
A orientação sexual de alguém dita o gosto musical também? Gostava de rock, saí do armário e agora amo Beyoncé. Ou melhor, eu só posso gostar de uma coisa ou outra. No estilo, hétero só pode gostar de rock/metal e gay de pop. Se gostar de pop é gay! WTF?


3. São super preocupados com a aparência e querem ficar o mais sarados possível. 

Fonte: Filmes GLS News
Fonte: The Sun via Beleza Sem Tamanho
Claro, claro, sua orientação sexual deixa estampado na sua cara que características, defeitos e qualidades você tem. Não tem um tanto de hétero marombeiro/metrossexual e gay franzino/desleixado por aí não, bobagem.


4. Só têm amigos gays e quando ficam amigos de um homem hétero é porque são secretamente apaixonados por ele.

Fonte: Tudo Se Comenta
Do mesmo jeito que homens e mulheres héteros só tem amigos do mesmo sexo e se for do sexo oposto é porque querem pegar. Alguém tem alguma dúvida?


5. Só têm amigas hétero, porque não se dão bem com lésbicas.

Fonte: HuffPost

Porque escolhemos nossas amizades com base na orientação sexual delas e não pelas afinidades, qualidades, convivência, tudo isso é bobagem. Se for lésbica tá na minha listinha negra! Oi?


6. Adoram fazer compras e entendem tudo de moda e decoração.

Fonte: Jornal Ação Ten
Isso mesmo! Quem mandou sair do armário?! Saiu, agora é obrigado a dar dicas de moda e decoração, mesmo se você for do tipo que nunca usou nada além de calça jeans e camiseta branca.


7. Morrem de medo de ratos, baratas e outros insetos, e dão pinta quando veem um.

Fonte: Sempre existe um lugar onde você pode ser você.

Sim, sim, só gays e mulheres sentem medo, ainda mais medo de inseto, que absurdo!!! Macho que é macho mata com a mão! E se você é mulher ou gay, isso automaticamente faz você ter medo de ratos e insetos. Não tem nenhum furo nesse raciocínio não, né, colega?


8. São “passivas” ou ativos. As passivas dão pinta e os ativos se reprimem.

Fonte: meionorte.com
Porque, em um relacionamento, um dos dois sempre tem que ser a mulher e outro o homem. Pegamos o formato tradicional (e um tanto ultrapassado) de um relacionamento heterossexual e encaixamos o relacionamento homossexual nos mesmos quadradinhos. Aliás, a gente não tinha combinado de parar com essa bobagem lá no item um?


9. Morrem de nojo das partes íntimas femininas.

Fonte: 72DPI
Gay odeia tanto mulher que transa com homem só pra não ter que ver uma pelada, né? Mas, gente, e o amor louco pela Beyoncé estereotipado ali em cima, fica como? Gays não odeiam mulheres (ao menos não por serem gays, afinal, existem misóginos de todos os tipos), eles só não sentem atração por elas. 


10. Adoram pegação, quase nunca querem um relacionamento sério, e quando entram em um, não dura.

Fonte: Clube Metrópole
Fonte: Missionários da Luz
Esse tanto de casamento com filhos e tudo mais que a gente vê por aí é tudo enganação, propaganda da mídia para disseminar essa cultura gay. Claro, tem gente que casa com o único objetivo de querer tornar o mundo inteiro gay! WHAT??? 

sábado, 19 de setembro de 2015

HOMOTOPIA

Como seria o mundo se a ditadura gay se tornasse real?

Romeu é filho de duas mulheres. Estela e Teresa foram obrigadas pelo Estado a se casarem e a gerarem esse jovem por meio de inseminação artificial.

Desde que o ex-deputado gay Adolf Wyllys deu um golpe de Estado com o suporte da comunidade gay e implantou a ideologia de gênero no Brasil, todos passaram a ser obrigados a se casar com pessoas do mesmo sexo. Cada casal de mulheres tem o dever de gerar pelo menos dois filhos, o primeiro a ser criado por elas e o segundo a ser adotado por um casal de homens. As mulheres podem optar por ter mais filhos depois desses, para criá-los ou entregá-los a adoção. Desde que essa lei entrou em vigor, as feministas passaram a fazer oposição ao governo, por considerarem a lei misógina, mas o partido GGG, que passou a ser o único, tem conseguido silenciá-las.

Só que as mães de Romeu são cristãs, e sabem o que é certo. Por mais que o cristianismo tenha sido proibido, e a Igreja da Beyoncé tenha se tornado a religião oficial do país, algumas pessoas permanecem cristãs na ilegalidade. Também o “heterossexualismo” é considerado crime no Brasil. Desde a implementação do regime, milhões de brasileiros têm sido obrigados a reprimir seus desejos heterossexuais e a viver uma vida de pecado. Mas muitos cristãos resistem, vivendo na castidade com suas esposas e esposos, e até mesmo encontrando maneiras de viver relacionamentos heterossexuais na clandestinidade.

Recentemente, Romeu passou dois meses numa instituição socioeducativa por iniciar uma campanha em uma rede social a favor da liberação de beijos héteros nas telenovelas. Ele é apaixonado por Julieta, uma colega de escola. Os dois têm dezesseis anos de idade. Eles planejam se casar com a benção de Teresa, que é a biológica de Romeu e pastora em cultos que ocorrem sob a fachada de serem surubas, para que o Estado não desconfie.

Romeu e Julieta planejam se casar perante o Estado com outros irmãos de fé, que também desejam se casar um com o outro na igreja, para que possam viver sua sexualidade de forma santificada. O plano deles é que cada mulher seja inseminada com o sêmen de seu respectivo marido em Cristo. Apesar de a identidade dos pais biológicos ser oculta pelo Estado, um dos fiéis da mãe de Romeu trabalha em um centro de inseminação e prometeu ajudá-los a burlar o sistema opressor que os impede de viver em santidade.

Imagem retirada do BuzzFeed, que a creditou da seguinte maneira: "Via Twitter: @amandaseixas".

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

VAMOS FALAR SOBRE TRANSTORNO BIPOLAR?

Você sabe o que é o transtorno bipolar? Sabe mesmo?

Existe muito preconceito e ignorância em relação aos transtornos mentais. Muitas pessoas confundem transtorno bipolar e transtorno de dupla personalidade, por exemplo. A novela A Regra do Jogo está fazendo essa mesma confusão. Transtorno bipolar e transtorno de dupla personalidade não são nem de longe a mesma coisa. Os portadores dos dois transtornos merecem todo o respeito, mas não devem ser confundidos, para que não haja ainda mais preconceitos em relação a eles.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

SOBRE O PRIMEIRO CAPÍTULO DE A REGRA DO JOGO

A Regra do Jogo definitivamente não decepcionou.

1. Melhor primeiro episódio.

2. Se fosse série do Netflix, eu veria os duzentos e cinquenta episódios que vai ter (porque com certeza vai ser prolongada) de uma vez só.

3. Eu elogiei Babilônia pela questão social e tal, mas, véi, quem é uma Babilônia na fila do pão perto de uma novela que com um capítulo consegue ter mais roteiro do que a outra inteira.

4. O comendador me fez ir do amor incondicional ao ódio eterno.

5. Giovanna Antonelli P.E.R.F.E.I.T.A: estilo "a loka", com risada e bordão ("nunca pensei") contagiantes.

6. Mocinha ótima.

7. Ele fez o drama dos parentescos, de Avenida, e o de mocinhx virando vilx, de A Favorita, que demoraram meses pra acontecer nas outras novelas, tudo num episódio só.

8. Roteiro muito bom. Eu fiquei tão agoniado com o sequestro que não tava cabendo no sofá.

9. Texto muito bom. Quase chorei com o comendador defendendo o moço.

10. Rosa Chiclete é o primeiro mocinho de novela que tou odiando por ser babaca e não por ser sonso.

Palpite: JEC vai continuar eclodindo o maniqueísmo por dentro, e o comendador pode conseguir dar um passo à frente em relação à Carminha nesse sentido. Ainda não sei como isso vai acontecer, mas o teaser (comendador de blusa preta e calça branca) e a abertura (peão reconstruído com partes pretas brancas) dão a entender que a intenção do JEC é essa. E a Tóia e a Atena parecem ter papel central nisso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

POR QUE BABILÔNIA FOI BOA DEMAIS PRA DAR CERTO



Parte do público pode não ter gostado de Babilônia por achar que a novela não tinha um roteiro consistente. Outra parte pode ter achado que as personagens eram planas demais, sem complexidades emocionais que gerassem identificação da gente com elas. Não discordo de nada disso. Mas o motivo principal de Babilônia não ter dado certo é que ela exagerou a mão na militância. Por paradoxal que seja, digo isso não como uma crítica, mas como um grande elogio.

Babilônia era progressista demais para agradar a maior parte do público. A novela expunha a intolerância e a corrupção que podem existir por trás da religião. Opunha-se ao o racismo, ao machismo,* à homofobia, à lesbofobia e (ainda que timidamente) à transfobia. Até um posicionamento contrário à redução da maioridade penal foi esboçado na trama. É claro que Babilônia não acertou em tudo. Além de ceder às pressões que sofreu, ela também deu algumas bolas fora. Mas o quadro final mostra uma novela mais comprometida com a militância do que nunca.

* A seguir, porém, há ressalvas em relação ao combate ao machismo por parte da novela.

Abaixo listo dez argumentos que sustentam minha perspectiva:

1. Uma família homoafetiva

Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) não só eram um casal de lésbicas, elas eram um casal de lésbicas idosas, que viviam juntas há décadas. Mais ainda: eram um casal de idosas que tinham sexualidade. Logo no primeiro capítulo, elas já se beijaram. Essa foi, aliás, a cena que desencadeou o boicote de parte do público evangélico e conservador à trama. A novela cedeu, e não houve mais cenas de beijo. Mas Teresa continuou sendo o maior exemplo de ética e caráter da novela. Seu casamento com Estela e a forma como criaram Rafael (Chay Suede) foram construídos como o retrato de uma família exemplar. Com essa família, a homossexualidade foi tratada no cerne da novela pelo lado das lésbicas, explicitando a lesbofobia.

2. Uma advogada formada pelo sistema de cotas

Paula (Sheron Menezzes) era uma advogada competente e bem sucedida, negra e nascida na favela. Conseguiu se formar graças ao sistema de cotas, comprar um apartamento no asfalto e viajar para os Estados Unidos. A novela se preocupou não só em retratar a necessidade de se criar espaço para os negros no ensino e no mercado de trabalho, mas também tentou fazer o mesmo: o número de atores negros na trama (ainda que bem menor que o ideal) foi muito superior à média das demais novelas. Antes de Babilônia, só se via tantos negros em seus próprios núcleos e com suas próprias histórias, em novelas que ainda os retratam como escravos. Infelizmente, enquanto a elite ainda é branca, a maior parte da população pobre e de favela é negra. Babilônia teve consciência disso e fez diferente de outras novelas, que mesmo tendo a favela como ambiente fundamental na trama, quase não têm atores negros. Claro, ainda não é o suficiente: se menos da metade da população é branca, os negros deveriam estar muito mais presentes nas faculdades, como Paula, nas novelas e em qualquer outro ambiente em que são marginalizados. Mas Babilônia deu um passo à frente nesse caminho.

3. Independência feminina

Regina (Camila Pitanga) não é uma mocinha frágil e não precisa de um homem para defendê-la. Ela criou a filha sozinha, na favela, sustentando a casa que, além das duas, era ocupada pela mãe e pelo irmão mais novo. Trabalhava pesado como barraqueira para isso, mas teve competência e garra para conquistar espaços e se empoderar. A personagem Alice (Sophie Charlotte) também era outra que se recusava a depender do dinheiro de um homem.

4. O proselitismo religioso

Aderbal (Marcos Palmeira) justificava seu machismo e sua homofobia através de sua religião. Mas ignorava os preceitos dela em relação a tudo o que lhe convinha: criava esquemas de corrupção para desviar dinheiro público para seu bolso, traía sua esposa, fez com que sua amante abortasse quando ela engravidou dele.* Como agradar ao público conservador retratando um líder evangélico como um canalha e lésbicas como heroínas? Ao opor a fé de Laís (Luisa Arraes) à de seu pai, a novela demonstrou que ter uma religião e ser intolerante são coisas muito diferentes. Através do namorado dela, Rafael, mostrou também que não se precisa ter religião para ser ético. Por meio desse relacionamento, Babilônia retratou a possibilidade de convivência entre os universos aparentemente tão distintos de evangélicos e homossexuais.

*É importante lembrar que o aborto ainda é visto de forma muito negativa, e a novela não avançou muito em relação a isso. Quando Cris (Tainá Müller) engravidou de Vinícius (Thiago Fragoso), entretanto, o mocinho disse que a decisão de ter ou não o filho era dela, porque o corpo é dela.

5. Os adolescentes e a criminalidade

Wolnei (Peter Brandão) foi cooptado pelo crime durante toda a novela, e durante a maior parte dela entrou nesse barco. Mas o que o tirou desse caminho não foi a prisão, e sim a educação, o afeto e as oportunidades que lhe foram dados pelos familiares e amigos, que não desistiram dele. A novela foi completamente antenada com as discussões e problemas atuais do país, como o envolvimento das empreiteiras com a corrupção, no caso de Aderbal, e a redução da maioridade penal, no caso de Wolnei.

6. A beleza dos cabelos crespos

Júlia (Sabrina Nonata) sofria bullying na escola por causa de seus cabelos crespos. Mas a mãe lhe ensinou a ter orgulho de sua raça e a se lembrar da força de gerações que já tinham sofrido antes dela. Regina ensinou Júlia a se sentir linda por ter cabelos crespos. Paula também adorava seus cabelos assim, usava turbantes e outros acessórios que reforçavam sua matriz africana, e se recusava a alisá-los. Ivete (Mary Sheila) passou a trama renegando o visual e alisando os cabelos, até se render a ele no final, transformando-se enfim numa mulher confiante de sua beleza.

7. A masculinidade, a homossexualidade e o armário

Sérgio (Cláudio Lins) não era um personagem previsto no início da trama. O par romântico de Ivan (Marcello Melo Jr.) seria Carlos Alberto (Marcos Pasquim). A história foi alterada, mais uma vez, para ceder às pressões do público, que não queriam ver o ator que fez tantos papeis de pegador vivendo um gay no armário. Mas a trama foi contada de qualquer maneira, e as correntes que o armário impõe a quem está nele e a quem gosta de quem está nele não deixaram de ser abordadas.

8. A identidade de gênero de uma mulher trans

Úrsula (Rogéria) era a avó de Gabi (Kizi Vaz). Alguns personagens estranhavam e tinham dificuldade de lidar com isso. Mas era algo imposto, não havia espaço para justificar a negação. Ela era a avó e pronto. Os ultrapassados que lidassem com isso.

9. A sexualidade feminina

Esse é um ponto muito complicado. A novela começou tendo a possibilidade de dar um passo à frente, mas cedeu às pressões do público e acabou dando dois passos para trás. A sexualidade feminina assusta. Uma mulher que adora transar, que vê um homem gostoso e quer comê-lo no primeiro banheiro que encontra, é um absurdo no nosso sistema de valores. Assim era Beatriz no início da trama.

A dicotomia mocinha exemplar e vilã toda-errada já tornava essa estratégia ambígua. Seria mais fácil aceitar esse tipo de comportamento da vilã do que da mocinha: imagina se fosse Regina quem gostasse de fazer sexo livremente dessa forma?* Caracterizar a vilã assim poderia reafirmar a inadequação desse comportamento... Mas as vilãs têm se tornado tão carismáticas e o público tem se identificado tanto com elas... Para o bem ou para o mal, Beatriz fez o público encarar essa possibilidade.

No entanto, mesmo partindo da vilã, a sexualidade exacerbada não foi aceita, e Beatriz foi transformada em uma mulher apaixonada por Diogo (Thiago Martins), que chegou a dopar o gato do Pedro (André Bankoff) para não ter que transar com ele, e a negar investidas do deuso Murilo (Bruno Gagliasso). Uma mulher pegadora foi demais para a cabeça do público, que não estava disposto a lidar com o tema, nem que fosse para reafirmar sua inadequação: a sexualidade feminina é algo que grande parte das pessoas sequer deseja pensar que existe.

* Regina foi caracterizada, em grande parte da trama, como uma mulher romântica e quase sem desejo sexual.

10. Namorados e maridos também estupram

Quando Guto (Bruno Gissoni) tentou forçar a namorada Laís a transar com ele, a cena foi adequadamente lida pelas demais personagens como tentativa de estupro. O corpo da mulher não é público, nem pertence ao homem. Levar a namorada ou a esposa a transar contra sua vontade é completamente inadmissível. Estupros não são cometidos apenas por estranhos. Laís sentiu vergonha e quis esconder o fato. Muitas mulheres passam pelo mesmo. Mas a personagem conseguiu perceber que quem deveria estar envergonhado era ele e denunciou publicamente o ocorrido (ainda que não criminalmente, como seria o ideal).

Porém nem tudo foram acertos. É preciso lembrar que a novela, desde o começo, deu uma grande mancada em relação a Beatriz: culpabilizar a adolescente pelos assédios do pai de Inês (Adriana Esteves). Ainda que a moça incentivasse as investidas, não se pode responsabilizar a menor: o adulto é quem tinha condições de avaliar se aquilo era certo ou errado.

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Edição: 29/08/15 13:14

Minha amiga Mariana me lembrou de uma ressalva importante em relação à questão dos cabelos crespos: durante a transformação que marcou a ascensão social da mocinha Regina, momento comum na narrativa de grande parte das novelas, a principal marca da melhoria de vida da mãe de Júla foi o alisamento de seus cabelos.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

DRAG DUBLA HINO GOSPEL EM PARADA LGBT DE BH

A apresentação da drag queen Layla Vougue ocorreu durante a concentração da 18ª Parada do Orgulho LGBT de Belo Horizonte, neste domingo, 19 de julho. Em meio a apresentações de dança e covers de Beyoncé, Britney Spears, Anitta e Ludimilla, a transformista subiu ao palco para dublar o hino evangélico "Raridade", de Anderson Freire. Dezenas de milhares de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros assistiram com atenção à apresentação. Quando a música acabou, ela foi ovacionada. Depois da performance, procurei Layla para conversarmos. Em suas palavras:

"Creio demais em Deus. Se eu respiro, se eu como, se eu me levanto, tudo o que eu faço é graças a Ele. Ele é tudo pra mim. Quis fazer a performance porque faço parte do Levante Popular da Juventude e isso é algo que impacta. Quis mostrar que Deus também está com quem está aqui, os LGBT, e não só com quem não está. Não frequento nenhuma igreja, acho que se você está com Deus, Ele está com você. Se você não está, Ele também não está."

Em determinado momento da performace, Layla voltou para o público um espelho com um crucifixo no centro, sendo muito aplaudida. A música dizia: "Você é um espelho que reflete a imagem do Senhor".

Quando a transexual Viviany fez a performance da crucificação em São Paulo, as reações de muitos cristãos me fizeram refletir. Esses religiosos não pensam que LGBTs também podem ser cristãos, eles acham que cristianismo é exclusividade de heterossexual cisgênero, e que os LGBTs são incompatíveis com a religião. Acham que se um LGBT fala sobre cristianismo, é para zombar, e não para expressar a sua fé. A performance de Layla e suas palavras deixam claro que esses cristãos estão entendendo tudo errado. A ideia é sim impactar, mas para gerar diálogo, entendimento e inclusão em relação ao cristianismo e não para zombar dele.




sábado, 27 de junho de 2015

COMO É O PANORAMA DOS DIREITOS LGBT NO MUNDO?

É inegável a revolução que tem ocorrido no mundo no início deste século, em relação aos direitos de LGBTs. Nesse processo, Brasil e Estados Unidos não são os mais adiantados. Eis a lista dos vinte e um países que já aprovaram o casamento civil igualitário:

Holanda (2001)
Bélgica (2003)
Canadá e Espanha (2005)
África do Sul (2006)
Noruega e Suécia (2009)
Argentina, Islândia e Portugal (2010)
Dinamarca (2012) Brasil, França, Nova Zelândia e Uruguai (2013)
Escócia, Inglaterra, Luxemburgo e País de Gales (2014)
Irlanda e Estados Unidos (2015).

Tanto nos EUA como no Brasil, quem garantiu esse direito foi o judiciário. Mas lá, esse poder tem um peso maior sobre a constituição do que aqui. Portanto, ainda é necessário pressionar o legislativo para que o direito vire lei no Brasil. Não só em relação ao casamento. O direito à adoção também está garantido nesse mesmo esquema. É importante lembrar que tanto aqui, quanto lá, ainda há muitos reacionários

Ainda há muito o que se alcançar no mundo. A homossexualidade ainda é proibida em 75 países, especialmente na África e na Ásia, sendo punida com pena de morte em dez deles.

A decisão nos EUA é muito importante porque o país costuma servir de paradigma para diversas outras democracias, e porque as decisões ocorridas lá entram para os livros de história como marcos dessas revoluções.

É interessante notar como essas mudanças nos direitos civis são acompanhadas por mudanças nas representações. Aqui, Amor à Vida e Babilônia. Lá, Modern Family e Orange is The New Black.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO "VIVENDO NO FRONT"

Clique aqui para ver o trabalho em PDF.

Este é o post de nº 100 do Apontamentos Desapontados! É com alegria que eu chego a esse número no blog (depois de mais de quatro anos de existência dele) e também à conclusão da minha pesquisa de mestrado. Portanto, é muito significativo que este post seja sobre ela.

A minha dissertação de mestrado, intitulada "Vivendo no front: discursos acionados por sujeitos na fronteira entre perspectivas LGBTs e evangélicas" está disponível para visualização e download. Eis o resumo dela:

Como os sujeitos na fronteira entre perspectivas evangélicas e LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) sobre sexualidade lidam com as contradições existentes entre elas a fim de dar sentido às suas experiências e subjetividades? Através de uma etnografia multissituada, quatro grupos de Belo Horizonte foram investigados para o encontro de sujeitos nessa situação: o Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais (Cellos), a Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), a Igreja Cristã Contemporânea (ICC) e a Igreja Batista da Lagoinha (IBL). Os sujeitos analisados são gays evangélicos, de igrejas inclusivas ou não, sendo alguns deles militantes LGBT. Os discursos evocados na IBL giram em torno de um “acolhimento” de sujeitos com experiências sexuais desviantes em relação à heteronormatividade, com a intenção de se promover uma “cura” dos mesmos. Os discursos presentes na ICC dizem de uma regulação das homossexualidades e transexualidades para adequá-las a um padrão similar ao da família nuclear tradicional, sendo o afastamento desse padrão relacionado ao “mundo”, que estaria em oposição à “igreja”. Os discursos em circulação na ICM apontam uma desnormatização das experiências sexuais, a fim de se buscar um afastamento do “fundamentalismo religioso” e uma defesa dos “Direitos Humanos”. Os discursos encontrados no Cellos indicam uma defesa do “Estado Laico”, que estaria sendo ameaçado pela “bancada evangélica” na Câmera Federal. Para dialogar com as teorias nativas, trago discussões teóricas sobre heteronormatividade (Prado; Junqueira), interação (Mead), conflito (Simmel), definição da situação (Thomas), discursos sociais (Bakhtin) e poder (Foucault). Durante o trabalho de campo, realizei também incursões em dezesseis outras igrejas e grupos de militância LGBT.

domingo, 21 de junho de 2015

TOP 10 CLIPES DE CHIQUITITAS (ANOS 90)


A primeira versão brasileira de Chiquititas estreou em 1997 e teve cinco temporadas. Atores como Débora Falabella, Bruno Gagliasso, Fernanda Souza e Jonatas Faro fizeram a novela quando ainda eram novinhos. A novela, que era um musical, lançou cinco trilhas sonoras e um álbum de natal. Entremeio as cenas, eram exibidos os clipes das músicas. A seguir, fiz um top 10 dos melhores!



10 - LIBERDADE

Talvez você não se lembre dessa música, porque ela é do último álbum, mas ela merece ser revista mesmo assim, simplesmente porque tem a Débora Falabella cantando! rs



9 - AMIGAS

Essa música do segundo álbum traz três atrizes que fizeram sucesso na Globo depois de Chiquititas: Carla Diaz (a Khadija de "O clone"), Gisele Frade (a Drica, de "Malhação") e Fernanda Souza, que dispensa apresentações.



8 - REMEXE

Remexe era a música de abertura da primeira temporada. Contava apenas com as chiquititas originais: Mili, Pata, Tati, Bia, Vivi, Cris, Ana e Dani. O "mexe, mexe, mexe com as mãos" era um vício.



7 - O CHEFE CHICO

Música animadíssima e conhecidíssima do segundo álbum. Os efeitos especiais são mara! rs



6 - MENTIRINHAS

Mentirinhas é a música mais triste de todas. Quem nunca derramou uma lágrima com a Tati cantando "Não me diga mentirinhas dói demais, eu sei que estou sozinha sem meus pais" que faça o primeiro comentário. A Mili, personagem da Fernanda Souza, também cantava essa música.



5 - APAIXONADA POR TODOS

A sofrida Tati cresceu e virou uma piriguete. rs No terceiro álbum, ela canta essa música com clip hilário, no qual ela deixa todos os meninos babando (incluindo o Jonatas Faro), e depois dispensa eles. Revendo, achei vulgar, sem ser sexy, a levantadinha no vestido pra seduzir os boy.



4 - O QUE VOCÊ FEZ?

Essa música foi lançada no especial de Natal, entre o segundo e o terceiro álbuns. O clipe é ótimo, e imita "Summer nights", de "Grease". Destaque no vídeo para a presença de Marian, melhor personagem de todas! Uma bitch que deixava a Hannelore, personagem da Sthefany Brito, no chinelo. rs Quem canta é o lindinho Jonatas Faro.



3 - PENSO EM TI 

No quarto álbum, o Jonatas Faro canta essa música ma-ra-vi-lho-sa. O clipe imita "Lagoa azul" e é com o par romântico dele, a Fran. Eu quase choro, por motivos de que eu queria ser a Fran quando eu era pequeno! ahahhah Ela era minha personagem favorita! Prepare você também o seu lencinho, porque o clipe é muito romântico!



2 - PASSARINHO

Brasil, olha como o Fran era deusa: depois do Jonatas Faro, ela se enfiou num triângulo amoroso com ninguém menos que Bruno Gagliasso e o lindo-maravilhoso Yuri, pelo qual eu era apaixonado. ahahah A Fran e o Yuri, por motivos óbvios, eram o casal que eu mais shippava na novela. É impagável ver o Gagliasso cantando essa música do último álbum.



1 - CORAÇÃO COM BURAQUINHOS

Música do segundo álbum, "Coração com buraquinhos" é provavelmente a mais conhecida e lembrada de todas. Amo/sou e com muita frequência ela ainda vem à minha cabeça, e do nada eu começo a cantar ela no chuveiro. Hahahah <3



BONUS TRACK 1  - CRESCER

Hhahaha Não resisti a por esse outro aqui da princesa Disney Fran. Na verdade, tirei ele do top dez porque a Franzinha é hors concours e já tava estrelando alguns outros clipes melhores lá em cima.



BONUS TRACK 2 - ADOLESCENTES

Música do último álbum, "Adolescentes" já não tem mais um clima muito "chiquititas", porque elas já cresceram, ao final da novela. Mas o clipe é excelente, e conta com Débora Falabella e Bruno Gagliasso arrasando na dancinha.

sábado, 20 de junho de 2015

TRANSRACIALIDADE?

Uma mulher trans negra dizendo que uma "negra trans" é uma impostora. Alguns dos argumentos:

1. Quando uma mulher trans se identifica como mulher, isso não é algo que ela escolheu, é algo que ela constatou. Quando uma "negra trans" se identifica como negra, isso é algo que ela escolheu.

2. A "negra trans" pode tirar a maquiagem e lavar o cabelo, e vai voltar a ser branca. A mulher trans não pode voltar a ser homem.

3. O gênero não tem base biológica (porque sexo não determina gênero), mas a raça tem base biológica.

4. Uma negra não pode escolher ser branca. Mesmo que ela se diga branca, não será aceita como tal. 

5. As experiências de vida de uma "negra trans" não são as mesmas de uma mulher que "nasceu negra".

6. A mulher trans está vivendo a sua verdade, a "negra trans" está vivendo uma mentira.

Bom, acho essa argumentação bastante incoerente.

1. Quando uma "negra trans" olha pro seu cabelo liso, pra sua pele clara e fala: "eu não gosto assim, eu gosto de cabelo crespo e pele morena", ela não está constatando que ela não se sente bem com os fenótipos que ela tem? Se ela continuar com o cabelo liso e a pele clara, ela não vai continuar se sentindo mal por não querer ter aquela aparência? Então é mesmo uma simples questão de escolha? Será que a mulher trans já nasce se sentindo mulher? Simone de Beauvoir tava errada então ao dizer que ninguém nasce mulher? Ou será que ela vai se identificando com o feminino à medida que o conhece e não se identificando com o masculino à medida que o conhece? Não é isso o que acontece também com uma "negra trans"?

2. Se a "negra trans" tirar a maquiagem e lavar o cabelo, ela vai se sentir branca? Ou ela vai estar se violentando fortemente por estar se despindo da aparência que ela deseja ter? Não é o mesmo que achar que se uma mulher trans cortar o cabelo e tirar a maquiagem vai voltar a ser homem? Se a "negra trans" não consegue se despir dessa aparência, e sofre preconceito e violência devido a essa aparência, ela não sofre racismo? Ela não tem, devido a isso, experiência do que é ser negra?

3. A diferença entre sexo e gênero é um artifício de linguagem, pra separar o que é biológico do que é social. Não existe esse artifício em relação a raça. Mas se a gente falar de raça e "identidade racial", a identidade racial também não é determinada pela raça, é?

4. Não tem um monte de mulheres negras que alisam o cabelo, afinam o nariz, etc, por se identificaram com um fenótipo diferente do que têm? À "negra trans" também não tá sendo negado ser negra?

5. As experiências de uma mulher trans não são diferentes de um sujeito que "nasce mulher"?

6. Peraí, não é isso que mulheres cis transfóbicas falam de mulheres trans?

Uma mulher trans sofre ainda mais, a meu ver, que uma mulher cis. Acredito que em relação a raça seja diferente, a "negra cis" deve sofrer muito mais. Mas eu não acho que seja um campeonato de quem sofre mais.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

FEMINISTA, AFINAL

Sim, eu sou feminista, porque essa é uma perspectiva ideológica, e ninguém, além de mim, pode definir como eu devo ou não pensar.

Isso significa, basicamente, que eu concordo que o patriarcado, a dominação masculina, a misoginia, o machismo, são todos sistemas que precisam ser combatidos. Significa que eu acredito que o feminino não é, sob nenhum aspecto, inferior ao masculino. Que mulheres não são, sob nenhuma dimensão, inferiores aos homens. Que mulheres não devem ser tratadas, sob nenhuma circunstância, como propriedade masculina. Que mulheres não devem, em nenhum momento, ser subjugadas por homens. Que homens, mulheres e quaisquer pessoas devem ser livres para ser como quiserem e puderem ser, sem expectativas e cobranças que os limitem e os reprimam.

Não, eu não sou militante feminista, porque as mulheres têm toda a capacidade e direito de tocar essa militância sem interferência, e isso é muito bom. Não, eu não sou homem. Você pode me designar assim, a sociedade me designou assim quando eu nasci. Mas eu não me designo assim.

Não, eu não sou mulher. Eu sou um sujeito não-binário. Não me identifico com nenhum dos dois papéis/lugares/designações. Me identifico sem hierarquias com aspectos do masculino e com aspectos do feminino, e tô muito bem resolvido e feliz assim.

Se você não é capaz de entender isso, por favor, tente se esforçar para fazê-lo ao invés de negar essa possibilidade (eu também não era capaz há algum tempo e sofria muito por não conseguir me definir).

A minha perspectiva é construída em torno do feminismo liberal. Eu acho o feminismo radical um movimento autoritário e intolerante. Acho feministas radicais sujeitos que não sabem lidar bem com a alteridade, tanto quanto cristãos fundamentalistas.

Como eu não sou mulher, tem coisas das experiências de ser mulher que eu não domino bem. Eu tento usar a empatia para entender, mas nem sempre consigo. Por isso, eu agradeço às mulheres que demonstram boa vontade para apontar equívocos nos meus posicionamentos, afinal nenhuma mulher é obrigada a me dar essa ajuda.

Quando eu me equivoco, minha intenção não é impor meus pensamentos ou silenciar uma mulher. Minha intenção é sempre debater com pessoas (homens, mulheres ou não) sobre assuntos que despertam nosso interesse, mas às vezes eu apresento posicionamentos machistas e tenho atitudes misóginas. Todos nós (homens, mulheres ou não) somos, em algum grau, machistas e misóginos, porque a linguagem, as instituições, a cultura, tudo é assim, e a gente não é nunca completamente consciente dessas coisas. Mas claro, como sou designado como homem existem assimetrias de poder legitimadas socialmente nessas interações, o que exige que o meu cuidado tenha que ser redobrado para não fazer algo opressivo. Mas o mais importante, a meu ver, é ter a boa vontade de aprender.

Nem todos os meus posicionamentos divergentes se devem ao fato de eu não ser mulher. Mulheres diferentes também têm posicionamentos diferentes. Além disso, eu tenho uma formação acadêmica e uma bagagem de leitura que me faz ver os fenômenos em geral, e não só os relacionados ao feminismo, de determinado lugar diferente do de outras pessoas.

Mas ultimamente, eu tenho estado tão envolto nessas discussões, que nada mais tem me trago diversão. Facebook, televisão, cinema, tudo eu tenho transformado em discussão sobre feminismo, e isso tá me fazendo muito mal.

Quando eu era pequeno, eu chorava quase todos os dias porque os meninos diziam que eu não era homem. Ultimamente, eu tenho chorado quase todos os dias porque as meninas dizem eu sou. Então parei com isso, pelo menos por enquanto.

Saí dos grupos em que eu discutia esse assunto, parei de seguir as páginas sobre esse assunto no Facebook, mudei o meu projeto de pesquisa do doutorado pra pesquisar outra coisa.

Esse é o último post que eu pretendo fazer sobre essa problemática por um longo período (tomara que eu consiga). Quis fazê-lo como um fechamento, uma conclusão dos meus pensamentos até aqui, antes de me sentir à vontade para debatê-los de novo.

domingo, 14 de junho de 2015

GLOBO ABRINDO MÃO DOS CONSERVADORES?

Desde o polêmico beijo de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, Babilônia está tendo a pior média da história das novelas das vinte e uma horas da Rede Globo.

Aí, já vem casal de lésbicas e gay enrustido na próxima novela das nove. A impressão que eu tenho é que a Globo tá ligando o foda-se pro público conservador mesmo: "Vá com Deus para a Record".

O sonho da TV aberta de atingir a população ampla acabou com o advento da Internet, da TV a cabo, do DVD. Parece que a Globo, esperta como sempre foi (não é a toa que é a líder de audiência há tantas décadas), está percebendo que segmentar é a solução.

E se não dá pra brigar com a Record pelo público conservador, então vamo ficar com o seu oponente direto, nesse FlaXFlu que tem virado a sociedade brasileira.

domingo, 10 de maio de 2015

OS ATORES NEGROS E AS TELENOVELAS

Em Babilônia, a protagonista é Camila Pitanga (Regina). Há outros treze personagens negros. Dois deles bastante importantes no enredo: a de Sheron Menezzes (Paula), que é uma advogada bem sucedida, formada pelo sistema de cotas, e o de Thiago Martins (Diogo), ator que eu não sei se se identifica como negro, mas dentro da novela é visto como tal.

Os outros são: Marcello Melo (Ivan), Virginia Rosa (Dora), Val Perré (Cristóvão), Cesar Mello (Tadeu), Sabrina Nonata (Júlia), Marysheila (Ivete), Kizi Vaz (Gabi), Juliana Alves (Valeska), Cauê Campos (Carlinhos), Viviane Porto (Cilene) e Peter Brandão (Wolnei).

São quatorze personagens, num total de cinquenta e três que a novela tem. Menos de um terço, mas muito mais do que nas novelas em geral. O padrão da maioria absoluta das novelas é de pouquíssimos negros. Amor à Vida, por exemplo, tinha quatro, nenhum deles de destaque, num universo de noventa. Apesar de personagens bem sucedidos como os de Camila Pitanga (Carol) e Lazaro Ramos (André), em Insensato Coração, a maior parte dos personagens continua associada a serviços domésticos ou à favela. Em Babilônia, quase todos moram em uma.

Taís Araújo foi a primeira atriz negra a protagonizar uma novela brasileira (Xica da Silva - 1996). Antes disso, mesmo em novela sobre escravidão, como Sinhá Moça e Escrava Isaura, a protagonista era branca, mesmo que ela própria fosse escrava. Taís Araújo foi também a primeira protagonista negra de uma novela da Globo (Da Cor do Pecado - 2004), e depois de uma das vinte e uma horas (Viver a Vida - 2009). Só ela (quatro vezes) e Camila Pitanga (três vezes) já conseguiram esse feito.

Temos falado muito sobre a representação de LGBTs nas novelas, mas não podemos esquecer que outros grupos historicamente sub-representados continuam sendo...

sábado, 9 de maio de 2015

É MESMO ERRADO MUDAR A TRAMA DE BABILÔNIA?

Depois de um beijão entre duas das maiores atrizes brasileiras, idosas, no seu primeiro capítulo, Babilônia (Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga) vai eliminar a trama em que Marcos Pasquim revela-se gay. Os ânimos estão exaltados na militância online. Fala-se em boicote dos LGBTs à novela, assim como os evangélicos resolveram boicotá-la depois do beijo entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg.

A telenovela é um produto formado por uma tensão constante entre autor, público e emissora. Na história dos folhetins, essa tensão já gerou muitos resultados bons e ruins. Em Torre de Babel (1998-1999), as personagens de Silvia Phipher e Christiane Torloni, criadas por Sílvio de Abreu, foram mortas na explosão de um shopping, por determinação da Globo, depois de uma má aceitação delas por parte do público. Em América (2005), de Glória Perez, uma cena de beijo entre Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro chegou a ser gravada, mas a emissora, em meio a um público dividido, não permitiu que ela fosse ao ar. Em Amor à Vida (2013-2014), foi o público, através das redes sociais e até de telefonemas para a emissora, quem fez com que a Globo permitisse a cena de beijo entre Thiago Fragoso e Mateus Solano, escrita por Walcyr Carrasco.

Dez anos depois da proibição do beijo no último capítulo de América e dois anos depois da permissão do beijo no último capítulo de Viver a Vida, um beijo foi permitido no primeiro capítulo de Babilônia. É curioso que Torre de Babel e Babilônia façam referência a passagens bíblicas relacionadas ao pecado. De Torre de Babel, com a morte de duas lésbicas, para Babilônia, com o beijo entre elas logo de cara, passaram-se dezessete anos. As relações entre autor, público e emissora mudaram progressivamente nesse período.

Nos últimos anos, a problematização do preconceito e violência contra LGBTs tem estado sempre presente nas telenovelas. No horário das vinte e uma horas especialmente. Salve Jorge (2012-2013, Glória Perez) teve o tráfico de uma transexual brasileira para a Turquia, interpretada por uma atriz trans. Depois veio Amor à Vida. Em Família (2014, Manoel Carlos) teve o primeiro beijo entre duas lésbicas nessas novelas. Império (2014-2015 Aguinaldo Silva) teve a personagem queer Xana Summer.

A emissora Globo não é militante LGBT. Mas os autores de suas telenovelas são. A emissora está preocupada com a audiência, o que é normal e esperado. Ela é uma empresa, com fins lucrativos. Mas os autores estão preocupados em contribuir para a conquista de direitos e reconhecimentos de LGBTs. Em todas as disputas entre os dois, quem faz com que a coisa tenda para um lado ou para o outro é o público. Uma emissora de TV, que conta com uma concessão pública, deve ser socialmente responsável. A Globo não é uma heroína, mas tem proporcionado uma contribuição importante nas conquistas de reconhecimento de LGBTs nos últimos anos, apesar das limitações de alcance estabelecidas.

Nem Babilônia, nem seus autores, nem a Globo, devem ser vistos como monstros por eliminarem a homossexualidade do personagem de Marcos Pasquim. É uma pena que isso tenha acontecido, mas foi um ajuste razoável para conter os ânimos. Adianta forçar pela goela do público conservador um número saturado de tramas sobre essa questão? Isso faz com que esse público deixe de assistir o produto, deixando também de ser atingido por ele. Faz com que esse público se organize contra esse produto, reforçando seu próprio ódio e oposição aos direitos de LGBTs. Um equilíbrio tem que ser alcançado, para que esse público seja atingido positivamente, e com isso repense o ódio e a oposição que tem exercido. É preciso pensar de forma estratégica e não apenas emocional.

quinta-feira, 26 de março de 2015

INCESTO E TELENOVELA - SETE VIDAS VAI INOVAR?

Pedro e Júlia, os irmãos biológicos protagonistas da atual novela das seis (Sete Vidas) são apaixonados um pelo outro desde o início da trama. Hoje eles deram o seu primeiro beijo. Estou shippando esse casal desde o anúncio da novela. No início porque o nome dos dois me remeteu melancolicamente à época em que eu, ainda adolescente, não perdia um episódio de Malhação. O casal homônimo vivido por Henri Castelli e Juliana Silveira, protagonizou uma das melhores temporadas da novela teen. Entretanto, eu não esperava uma atuação muito convincente por parte de Isabelle Drummond e Jayme Matarazzo, dois atores frequentemente apáticos em seus papéis. Mas os dois me surpreenderam e apresentaram uma química muito boa.

A promissora autora de Sete Vidas, Lícia Manzo, que arrasou em A Vida da Gente, escolheu muito bem a forma como está tratando desse que é o tabu mais inabalado de todos os tempos: o incesto. Ao discutir a possibilidade de dois irmãos se envolverem sexualmente, ela escolheu tratar de irmãos biológicos por parte de pai (um doador de esperma que eles nem sequer conheceram) que só vieram a saber da existência um do outro depois de adultos. É uma forma muito marginal de abordar o problema. Foge da ideia de dois irmãos que cresceram juntos, filhos da mesma mãe, que se envolvem um com o outro. Essa possibilidade é abordada de forma escancarada, por exemplo, no filme brasileiro do Começo ao Fim e na série Game of Thrones. Mas nas novelas, os programas de maior visibilidade da televisão brasileira, tidos como crônicas de nossa sociedade, reflexo dos valores contemporâneos e fortes formadores de opinião, a história é outra. Vide a cena de beijo entre Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, em Babilônia, que gerou uma reação extremamente negativa na semana passada.

Os autores de novelas parecem estar, na última década, procurando de todas as formas minar os valores tradicionais relacionados a família e sexualidade, o que eu, pessoalmente, acho ótimo. Após o beijo de Pedro e Júlia, não aguentei e soltei um “chupa, família mineira!” rs A impressão que eu tenho, porém, é que a autora guarda na manga uma saída manjada: revelar, no fim da trama, que os dois não são irmãos como pensavam. Uma cena que já foi ao ar indica isso: ao ouvir Júlia confessando esse sentimento para a prima, a tia da garota diz para si mesma que acha uma pena que duas pessoas que se gostam como eles não possam ficar juntas por um capricho. Ela pode estar falando de um capricho do destino, mas também pode estar falando da mãe de Julia, uma mulher manipuladora que controla a todos da família. Imagino que a mãe de Júlia possa estar mentindo sobre a origem da garota por algum motivo, como para encobrir uma possível traição cometida por ela quando casada com o pai de criação de Júlia.

O tema já foi abordado outras vezes. Em Cobras e Lagartos, os personagens de Cléo Pires e Carmo dalla Vecchia, namoravam até descobrirem que eram irmãos. Se separaram, mas continuaram apaixonados. No fim, descobriram que não eram irmãos de verdade e terminaram juntos. Em Viver a Vida (mesma novela que conseguiu emplacar o primeiro beijo entre dois homens no horário das nove horas da Globo), houve um caso de paixão entre possíveis pai e filha, vividos por Carolina Kasting e José Wilker. No final, fica ambíguo se eles são mesmo pai e filha ou não. Explicitamente, é dito que não, mas a mãe da moça diz, numa das últimas cenas, que precisa contar a verdade sobre o caso para seu filho mais velho, sem que a cena prossiga depois disso. Os dois, de qualquer forma, não terminam juntos. Na minissérie Os Maias, o casal vivido por Fábio Assunção e Ana Paula Arósio descobriram, sem refutação, que eram irmãos. Ele continuou se relacionando com ela mesmo depois de saber disso, mas os dois se separaram quando ele lhe contou a verdade. A licença poética aqui, porém, se dá pelo fato de que a minissérie é baseada na obra literária homônima de Eça de Queirós. A novela Mandala também foi inspirada num clássico. Aliás, a narrativa fundadora de toda essa leva: a tragédia grega Édipo Rei. Os personagens de Vera Fischer e Felipe Camargo chegam a dar um beijo, mas não ficam juntos depois que descobrem seu parentesco.

Em Sete Vidas, antes do beijo, Pedro explicou para seu irmão mais novo sobre o tabu do incesto, dizendo que ele é basicamente uma proibição moral. O envolvimento entre parentes de sangue que não se conheciam até se tornarem adultos é uma realidade relativamente comum, inclusive entre pais que deram os filhos para adoção e esses últimos. Um número relativamente grande de casais como esses já vieram a público, ainda que muitas vezes tendo sua identidade resguardada, afirmar que a atração entre eles foi extremamente grande. A ciência tenta explicar a situação a chamando de Atração Sexual Genética (GSA). O incesto, porém, tem arestas perversas, que se encontram na pedofilia, através do abuso sexual sofrido por muitas crianças dentro de suas casas.

Nas novelas, o tema difere do GSA porque a atração surge antes de os personagens descobrirem que são parentes. Na vida real, esses casos também acontecem volta e meia, alguns causando a separação do casal, outros não. Aqui entra a ideia de destino, fortemente presente nas novelas. Pedro e Júlia também se apaixonaram à primeira vista, antes de saberem que eram irmãos. A impressão que eu tenho é que Lícia Manzo está testando o público. Se ele shippar o casal, ela deixa que eles sejam irmãos. Senão, ela revela que eles não são. Aqui em casa, a minha mãe, que é especialista em novelas e um ótimo termômetro, está dividida. Ela não considera que os dois sejam irmão apenas porque seus materiais genéticos provêm do mesmo doador. Mas ela diz que se um dos dois fosse filho dela, ficaria muito incomodada. É aquela mesma história de “tudo bem ser gay, mas meu filho não” rs. Quando disse a ela que acho que a autora está testando a reação do público, ela me garantiu que a trama não será aceita como está. Perguntei a ela porque ela achava isso se ela estava aceitando.

A visão de que os outros não sabem ler a novela de forma adequada e que eu sei é extremamente comum. O que mais ouço são pessoas dizendo que a novela ensina os outros a fazerem coisas erradas. Mas ensina aos outros, não a quem está falando, que sabe não se influenciar por ela. É comum o argumento ridículo de que as crianças que estão assistindo não sabem discernir e acham que tudo o que passa é certo. Olha, novela não é um produto destinado a crianças. Se você pensa assim, não deixe seus filhos assistirem... O pior argumento é de que as crianças vão, por exemplo, virar gays por verem um beijo gay na novela. Olha, eu cresci vendo beijo hétero na novela e nem por isso... rs Os autores de Babilônia riem dessa perspectiva através da personagem de Arlete Salles, que adora dizer que tudo se aprende nas novelas, que elas são educativas. Mas minha mãe acha que o público nunca vai aceitar o incesto na novela. Mas gente, o suposto inadmissível há algumas décadas não aconteceu: o famigerado beijo gay? Vamos ver!

POR QUE O BEIJO GAY NÃO COLOU DESTA VEZ?

Quem me conhece sabe que mais do que uma indignação por causa das reações negativas à novela Babilônia por parte de perspectivas evangélicas, o que eu estou sentindo é uma profunda tristeza pelo aumento da rivalidade entre grupos que acontecimentos como esse provocam. O que eu gostaria não é calar a boca dos evangélicos. O que eu gostaria é que isso não incomodasse tanto.

Mas como conseguir avanços políticos sem incomodar? Em alguns momentos, esfregar uma realidade diferente na cara de alguém é necessário para se impor, para mostrar que os seus direitos são maiores e mais importantes que os valores dos outros. Mas quais as consequências dessa estratégia?

Para os sujeitos diretamente implicados, isso significa um aumento muito grande na auto-estima deles. Homens e mulheres homossexuais passam a se sentir muito mais seguros para dar beijos em público depois que personagens da novela das nove fazem isso em frente a todo o país. Por muito tempo prevaleceu a lógica do armário para a homoafetividade: "Se quer fazer sem-vergonhices, que seja entre quatro paredes e não na frente dos outros". É a lógica da tolerância ao invés do respeito, em que os tolerantes ditam os limites aos tolerados. Mas na novela, não tem quatro paredes: os ambientes privados dos personagens são públicos para todos.

Para os sujeitos com perspectivas fortemente contrárias, a reação é de indignação. Antes de contribuir para a aceitação da homossexualidade por parte desses sujeitos, a exposição de um beijo no primeiro capítulo de uma novela das nove entre duas senhoras, sendo uma delas a atriz mais reconhecida do país, é um combustível potente para alimentar o ódio.

Para sujeitos com posicionamentos pouco inflamados em relação ao tema, a maré é quem vai conduzindo as leituras. O esperado beijo entre Félix e Niko, em Amor à Vida, foi inevitavelmente visto com maus olhos por grupos evangélicos. Mas eu pessoalmente presenciei brilhos nos olhos e sorrisos nos lábios de sujeitos não-LGBTs durante a cena. Do ponto de vista de estratégias comunicativas, aquele momento foi sem dúvida uma vitória sem precedentes.

O beijo entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg teve uma natureza bem diferente. Veio antes das personagens, se impôs de forma muito menos digestível e palatável. Desceu amargo. Causou refluxo. Gerou uma sensação de se querer fazer descer algo pela guela do outro. Aí foi a indignação de grupos evangélicos e não a legitimidade do amor entre dois sujeitos quaisquer o que gritou e tocou o público amplo. A meu ver, demos um tiro no pé.

Supostamente, o beijo entre as personagens deveria expressar a naturalidade do afeto entre pessoas do mesmo sexo. Mas foi por isso mesmo que aquele beijo foi colocado ali? Ou a intenção era outra: causar a partir da não-naturalidade do proposto natural?

Acho que o momento é propício para que repensemos nossas estratégias de ação. Para termos reconhecimento público não temos que recrudescer inimigos, temos que conquistar e fortalecer aliados. Nem hoje, nem amanhã vamos conseguir que Silas Malafaia e sua trupe nos reconheçam. Quem temos que ganhar são os sujeitos não-LGBTs e não-evangélicos e os evangélicos não-fundamentalistas. É trazendo esses para o nosso lado e não dando a faca e o queijo na mão de Silas para levá-los para o lado de lá, é que vamos enfraquecer essa perspectiva.

Isso não significa voltar atrás nas conquistas. Parar os beijos. Significa pensar em como fazê-los de maneira mais estratégica.

terça-feira, 10 de março de 2015

ENCONTRE O ERRO - IMPÉRIO

Sim, isto é uma cópia descarada do “Encontre o erro” do Morri de Sunga Branca. Esse site fazia zuações hilárias com as novelas, antes de se vender para a Globo, por um canalzinho de vídeos chinfrim no GShow. O auge foi durante a novela Salve Jorge, com a saudosa Vôtevingájéssica.


Império tem tantos ou mais erros do que Salve Jorge tinha. Então fiquei com saudade dessas zuações e resolvi reavivá-las hoje, depois de uma das cenas mais mexicanas da nossa dramaturgia, envolvendo os queridos odiados personagens Maria Chefeira, Vicenbonete e Crissonsa.


Só que o meu blog é classe c e minha internet custa 2,99 cada 50MB, então não vou encher o post de prints da novela igual o Morri fazia, pq não sou pago pra isso. Enfim, se alguém quiser me mandar os prints, depois eu acrescento.

Então. Na infância, Crissonga dispensava Johnson’s Baby e já tomava banho usando Vicenbonete. 


Aí veio o primeiro governo Lula, a família do Vicenbonete começou a receber Bolsa Família e pôde voltar a criar ele no sertão.

Um dia Vicenbonete voltou pra Santa Tereza e. como 80% do elenco da novela, foi morar na casa do Xana Vera Verão Summer.


Crissonsa largou o namorado advogado do diabo pra poder voltar a se ensaboar com as fragrâncias de Jequiti de Vicenbonete.


Um dia, o moço todo fofo chama Crissonsa e o irmão figurante e a tia pentelha, todo mundo para jantar no Vicenbonete (o restaurante que têm o nome do chefe, e que antes era Enricomofóbico). Ela, do nada, dá um chilique e fala: “Você é o amor da minha vida e paga janta pra minha tia pentelha, então eu vou terminar com você”

Maria Chefeira, que havia sido abandonada por Enricomofóbico, não consegue controlar sua atração fatal por chefes cujos restaurantes têm o nome deles, e aproveita para levar Vicenbonete para o seu banheiro.


Maria Chefeira passa a dar uma média de um chilique por capítulo, em alguns deles chegando a dar três e pedir música no Fantástico. A cada chilique, Vicenbonete fica mais apaixonado e pede ela em casamento.

Maria Chefeira então, começa a preparar o casamento. A primeira coisa a decidir é quem contratar para organizar o evento. O que fazer nessa hora?

a) Ligar pra Fernanda Souza e perguntar: “Miga, quem organizou seu casamento com o Thiaginho?” 
b) Procurar um buffet no Google
c) Contratar os pais do seu ex que te largou no altar.


A segunda decisão importante é quem chamar para ser sua madrinha:

a) Sua BFF da escola.
b) Uma figurante qualquer que passar pela rua.
c) A ex do seu futuro marido que também é o amor da vida dele.

A terceira decisão é decidir que função sua madrinha vai ter no seu casamento:

a) Levar as alianças.
b) Ficar quietinha no altar e assinar um papel no fim da cerimônia.
c) Te vestir de noiva.

A quarta e não menos importante decisão é o vestido da madrinha.

a) Um pretinho básico.
b) Um terninho em tons pasteis à la esposa da Claudete Hétera.
c) O vestido branco e dourado/preto e azul
d) Um vestido mega vermelho cor-de-cabelo-de-Duda realçado com marca texto.


O que a ex fala como resposta a todas essas decisões?

a) Cê tá louca, minha fia? Eu vou te manda praquela clínica que o Pavão Misterioso ficou internado na novela das sete!
b) Olha, estou lisonjeada com o convite, mas tenho um exame de fezes inadiável marcado para o mesmo dia.
c) Claro, miga, vamos dar as mãos e ser felizes no mundo da imaginação!

Aí, enquanto a ex do seu bofe tá te vestindo, sobre o que você fala?

a) E essa crise da água, hein, menina?
b) Ontem eu gastei minhas Tramontina fazeno panelaço contra aquela brega.
c) Quantas vez por dia cê dava pro meu noivo? Era gostoso?


Depois desse diálogo surreal, Crissonsa e Maria Chefeira começam a briga mais emocionante da hizzzzZzz Z ZZZ...

Ops, cochilei cinco minutos e até agora nem um tapinha, acordei assustado achando que tinha deitado no controle remoto e ido sem querer pra um programa de lesco-lesco lésbico.


De repente elas param de se engalfinhar e começam a rir alegremente da situação, como boas migas que são.

AI, MIGA, COMO VOCÊ É DIVERTIDA! POR ISSO Q TE CHAMEI PRA SER MINHA MADRINHA, SÒ VC PRA RASGAR MEU VESTIDO E ME BATER NO DIA DO MEU CASAMENTO, TE AMO S2 S2 S2 Ó, TIVE UMA IDEIA, CASA COM ELE NO MEU LUGAR, MIGA, EU SOU FILANTRÓPICA E QUERO DOAR MEU NOIVO PRA ALGUÈM DA CLASSE C

Aí a Crissonsa fala: AH, TÔ FAZENO NADA, VAMO CASAR, ENTÂO, NÉ...


Aí chega uma costureira que não só não tem falas como também não tem uma atriz escalada para fazê-la, leva uns cinco pano de prato da casa dela, remenda o vestido da Maria Chefeira pra caber na Crissonsa e ele fica lindo como novo.


Ela passa num antiquário no caminho e compra o véu que a Isis Valverde usava em Sinhá Moça pra fazer mais mistério quando chegá.


Aí, sem proclames, sem documentação necessária, sem ninguém achar estranho, sem a mãe da noiva fazer barraco, sem Vicenbonete se importar com quem tá casando, ocorre uma cena chatíssima de flashbacks que dura uns quarenta minutos.


Tá vendo, Dilma, onde o país tá chegando, até rodízio de noiva a gente já tá teno que implantá.

Olha, só acho que esse sabonete já esfregou corpos melhores.


Edit: O Morri de Sunga resolveu ressuscitar e publicou um Encontre o Erro de Império também! \o/