terça-feira, 25 de novembro de 2014

ESPANCAMENTOS AO AR LIVRE


Minha cunhada foi a São Paulo na semana passada, fazer compras. Ela me contou que estava no Brás, quando viu um cara correndo perto de onde ela estava, fugindo de alguns outros caras. Ela percebeu em alguns instantes que ele havia roubado alguma coisa e que tinha sido flagrado pelos vendedores.


Assim como ela, muitos perceberam o que estava acontecendo. Um cara estendeu a perna na frente do ladrão, e ele caiu. Quando ele se levantou, um dos vendedores que o perseguiam saiu correndo em sua direção e deu uma voadora no peito dele. Ele bateu com força em um carro e caiu de novo no chão.

Depois disso, uma centena de pessoas se juntaram ao redor dele e, enquanto a maioria gritava coisas como "Bate mesmo, ele merece!", umas trinta pessoas se revesavam para bater nele com pontapés. Ele começou a sangrar rosto a fora. A confusão foi tão grande que as pessoas começaram a bater umas nas outras por acidente e depois pra tirar satisfação. Ela gritou "Para, gente, pelo amor de Deus". Algumas pessoas olharam pra ela com cara de "cala a boca" e ela então foi pra dentro de uma loja. Ela não viu mais ninguém se manifestando contra o espancamento. Ela estava acompanhada da minha sobrinha adolescente, que teve uma crise de choro dentro da loja. Mais tarde, ela ouviu um lojista comentando que tinham matado um ladrão por ali naquele dia. Ela não viu nenhum policial por perto durante o ocorrido.

Você ficou sabendo dessa história? Pois é, ela assuntou e parece que isso acontece volta e meia por lá. Como ela disse quando me contou a história, "Deus tem que acabar com esse mundo mesmo, porque o ódio e a vontade de matar do ser humano não acabam não".

ABAIXO O CIS-TEMA

CIS-TEMA, s.m. 1. conjunto de normas e valores relacionados à heteronormatividade. 2. crença de que o sexo biológico de um indivíduo deve determinar sua identidade de gênero, sua expressão de gênero e sua orientação sexual. 3. sistema que determina os tipos de comportamento esperados para homens e mulheres. 4. crença de que o indivíduo deve ser heterossexual e cissexual (ver CIS*), além de masculino se for homem e feminino se for mulher.

CIS*, prefixo. 1. contrário de trans*. 2. identidade de gênero em conformidade com a esperada para o sexo biológico (fêmeas mulheres e machos homens). 3. cissexual.

domingo, 23 de novembro de 2014

OS SUPER-HERÓIS TÊM SE TORNADO PRÍNCIPES?


Hoje o Domingo Show (Rede Record) apresentou a história de um menino pobre que aprarece num desses vídeos bonitinhos da Internet, mostrando ser um grande fã do Hulk. Dentro da lógica cis-têmica, os meninos são incentivados a ser tornarem fãs de super-heróis, como Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Batman. Já as meninas são incentivadas a se tornarem fãs de princesas, como Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e Elsa.

Esses modelos de masculinidade e feminilidade oferecidos às crianças são muito significativos. A figura do super-herói tradicionalmente representa a força, a coragem e a virilidade. Já a princesa tradicionalmente representa a beleza, a doçura e a fragilidade.

O feminismo, principalmente a partir da década de 1960, tem lutado para que as mulheres sejam representadas de uma forma diferente. E essa luta tem alcançado grandes avanços. Hoje as princesas não seguem mais o modelo tradicional. Elas estão se tornando também super-heroínas. Rapunzel e Elsa, apesar da beleza e da doçura, não são nada frágeis, mas sim donas de superpoderes. Merida, além de não ser frágil, também não é doce e nem liga para beleza. Apesar de não ter super-poderes, ela é uma grande arqueira. Há modelos fortes tanto para meninas que se identificam com os ideais de beleza e doçura, quanto para as que não se identificam com nada disso.

Mas e no caso dos meninos? Há mudanças na forma como os modelos de masculinidade têm aparecido? Os heróis tem se tornado também príncipes? Elementos como a doçura e a fragilidade têm entrado na constituição desses personagens? Os meninos que se vêem frágeis e doces, e não fortes e viris, têm encontrado modelos a partir dos quais possam se identificar? Curiosamente, o Hulk, com sua força descomunal, é um bom exemplo de que as coisas também estão começando a mudar desse lado. A caracterização do personagem nos novos filmes da Marvel tem explorado bastante o lado sensível e frágil do herói.

Parte do movimento feminista tem defendido que não adianta apenas alterar os ideias de feminilidade, sem fazer o mesmo com os de masculinidade. Nesse entendimento, para que o machismo acabe, não é necessário apenas que as mulheres possam se ver como fortes, mas também que os homens possam se ver como frágeis.

Apesar dos homens se beneficiarem da dominação masculina, o machismo também os afeta. Todo homem passa por intensas torturas psicológicas e conflitos internos por ter que ser o tempo todo forte, corajoso e viril. Os que não conseguem se adequar a esses ideias sofrem desprezo, violência psicológica e, às vezes, física ao longo de toda a vida.

Sem ideais de masculinidade diferentes para os meninos, não só esses desviantes se sentem perdidos e sozinhos, como os outros continuam os vendo como desviantes e, por isso, sentindo-se superiores a eles.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DISCRIMINAÇÃO E CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA


Ontem à noite, eu e outro homem estávamos juntos num bar no Centro de Betim (Gira Sol, ótima batata recheada, por sinal). Nos sentamos um perto do outro, trocamos não mais do que meia dúzia de selinhos, e ele fez um cafuné no meu cabelo. Nada que qualquer casal hétero não faça na frente de seus filhos e de seus pais, ou no banco da igreja. Um garçom se aproximou.

Garçom: "Por favor, o gerente pediu que eu pedisse a vocês que não ficassem juntos demais, pois há famílias com crianças aqui. Não é nada contra vocês, não temos preconceito, mas vocês sabem, tem gente que tem."

Eu: "Ok. Mas no momento a gente tá junto demais?"

Garçom: "Bom, ele só pediu pra evitarem de ficar muito juntos."

Eu: "Mas o que é ficar muito junto? Só pra saber, porque quero entender se a gente já fez alguma coisa indevida até agora ou não."

Garçom: "Bom, só estou transmitindo o recado."

O outro homem que estava comigo, para o garçom: "Tudo bem, não tem problema."

Eu, para o garçom: "Bom, tem problema sim. Mas a gente já entendeu o que você queria falar." 

Continuamos próximos, mas sem clima pra selinhos ou cafunés. No final, depois de conversar com o outro homem que estava comigo, chamei o garçom.

Eu: "Você é um excelente garçom, nos serviu muito bem. Mas não vamos pagar a taxa de serviço, porque fomos desrespeitados pelo estabelecimento. Não fizemos nada demais e vocês nos repreenderam mesmo assim."

Garçom: "Tudo bem. Mas só falamos para evitar constrangimentos. Tem gente que poderia reclamar."

Eu: "Alguém reclamou?"

Garçom: "Não."

Eu: "Vocês vão à mesa de casais héteros falar essas coisas com eles?"

Garçom: "Se eles estiverem passando dos limites, sim."

Eu: "Nós estávamos passando dos limites?"

Garçom: "Bom, a intenção era só evitar constrangimentos."

Eu: "Pois o que vocês fizeram foi criar um constrangimento. Nós havíamos pensado em ir conversar com o gerente, mas como ele também não veio conversar com a gente e pediu pra você transmitir o recado, também pedimos a você que transfira o nosso recado a ele."

Quando estávamos saindo, vimos um casal hétero em outra mesa dando um beijão de língua. Fiz questão de ir ao garçom mais uma vez.

Eu: "Olha, tem um casal hétero ali dando um beijão de língua, coisa que nós dois não fizemos em nenhum momento em que estivemos aqui."
Ele: "Ok."

Compartilhei o caso num grupo LGBT do Facebook, acreditando que ia encontrar alguma compreensão e suporte. Galera foi tosquíssima comigo, me dizendo que eu era culpado pela agressão, por não ter exigido uma retratação do gerente e não ter ido a uma delegacia prestar queixa. Como se sofrer preconceito não fosse ruim o bastante, ainda somos por vezes culpabilizados pelos preconceitos que sofremos. Como se eu fosse obrigado a terminar uma noite que era pra ser perfeita e que já havia sido bastante afetada, me desgastando ainda mais em uma delegacia, acabando de vez com o resto da alegria que ainda me sobrava, pela companhia com quem eu estava. Palmas pra quem tem ânimo pra fazer isso. Eu, além desse preconceito, tenho que enfrentar um transtorno bipolar que me deixa extremamente vulnerável a tudo isso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A EMANCIPAÇÃO FEMININA DAS PRINCESAS DISNEY

As princesas dos primeiros filmes da Disney não conduziam a ação de suas próprias narrativas. Submissas, elas eram alvo das ações de vilãs femininas e salvas por personagens masculinos. Sua felicidade estava relacionada à aparição de um príncipe encantado em suas vidas. Posteriormente, elas foram se tornando cada vez mais independentes e ativas, até chegarem a se tornar heroínas. Algumas delas não precisam mais de um príncipe em suas vidas, trabalham e fogem aos padrões de beleza tradicionais. Esse processo não foi linear, houve a cada novo filme avanços e retrocessos, mas as mudanças alcançadas ao longo do tempo são incrivelmente significativas. Entretanto, todas ainda são cis e heterossexuais (ou não oficialmente homossexuais ou bissexuais)...

Na imagem, da esquerda para a direita, Anna, Jasmine, Rapunzel, Branca de Neve, Mulan, Aurora, Cinderela, Pocahontas, Tiana, Bela, Ariel, Merida e Elsa.

Branca de Neve (Branca de Neve e os Sete Anões, 1937) fica nas mãos de sua terrível madrasta depois da morte de seu pai, o homem que mantinha as mulheres sob controle. Contando com a misericórdia de um caçador, com o auxílio de sete anões e com o beijo de um príncipe, ela finalmente alcança seu final feliz. Enquanto o mal é encarnado na mulher ativa que conduz a narrativa, e inveja Branca por sua beleza, o bem é encarnado na mulher passiva que sofre as consequências. Branca de Neve é sempre salva por personagens masculinos, todos bons. Os anões a acolhem desde que ela cuide dos afazeres domésticos que se acumulavam na casa deles, sem uma mulher que os fizessem. O "beijo de amor verdadeiro" que seu príncipe lhe dá ocorre após ele vê-la pela primeira vez, supostamente morta. Toda essa narrativa ocorre quando Branca de Neve tem apenas 14 anos de idade.

Cinderela (Cinderela, 1950) também fica nas mãos de sua madrasta (e de suas irmãs de criação) após a morte de seu pai. Ela era forçada a fazer os trabalhos domésticos da casa. Sua vida muda quando o rei convoca todas as moças do reino para um baile onde seu filho escolheria sua futura esposa, como que avaliando as opções de carne disponíveis num açougue. Há nesse filme a primeira personagem feminina boa a ativa, sua fada madrinha. Com sua ajuda, Cinderela consegue ir atrás do príncipe. Mas depois é ele quem manda percorrerem o reino em busca dela, salvando-a de sua madrasta. Ela, portanto, não se torna princesa por nascimento, mas pelo casamento.

Aurora (A Bela Adormecida, 1959) é prometida em casamento a um príncipe no dia de seu batizado. Nessa ocasião, a terrível Malévola lança um feitiço que faz com ela entre num sono profundo no seu aniversário de 16 anos. O príncipe a qual ela havia sido prometida, assim como em Branca de Neve e os Sete Anões, salva Aurora com um "beijo de amor verdadeiro". Antes de saber quem era o príncipe, ela o havia conhecido e se apaixonado por ele, mas havia sido forçada a esquecê-lo, devido ao acordo que seus pais haviam feito sobre seu destino.

Ariel (A Pequena Sereia, 1989) abandona sua voz e sua própria identidade para correr atrás de um príncipe que acabou de conhecer. Diferente das princesas anteriores, ela é independente, rebelde e ativa. Ela até salva o príncipe da morte. Mas tem como ideal de felicidade abrir mão de tudo por um homem. Também é feminina a personagem malvada que lhe tira a voz e transforma sua calda em pernas. Ela disputa o príncipe com Ariel, tentando "roubar" o amor do homem pelo qual ela é apaixonada. Ariel tem apenas 16 anos.

Bela (A Bela e a Fera, 1991) gosta de ler e sacrifica heroicamente sua liberdade para libertar seu pai. Ela recusa os galanteios de Gaston, por considerá-lo machista e rude. Mas apaixona-se por um personagem masculino que lhe mantém prisioneira (e que ainda assim é o mocinho), depois que ele a salva de um ataque de lobos. Ele era um príncipe, mas fora transformado em fera por uma personagem feminina. Gaston é o primeiro vilão masculino nos filmes de princesa da Disney. Ele tenta matar a fera e obrigar Bela a se casar com ele. Nesse filme, é o amor da princesa que salva o príncipe, e não o contrário.

Jasmine (Aladdin, 1992) é uma princesa árabe. Ela é a única princesa que não é a protagonista de seu próprio filme. Ela se apaixona por um plebeu e se recusa a se casar com um príncipe que seu pai arranja, mas depois ela descobre que os dois são a mesma pessoa. Jasmine seduz o vilão do filme para enganá-lo. Ela tem apenas 15 anos.

Pocahontas (Pocahontas, 1995) é uma princesa indígena. Ela se apaixona por um inglês que está em guerra contra seu povo. Pocahontas arrisca sua vida para impedir que ele seja executado, e posteriormente ele quase morre para salvar o pai da garota. Por fim, ele volta para a Inglaterra.

Mulan (Mulan, 1998) é uma princesa asiática. Considerada inapta para o casamento (que ela deveria arranjar), ela resolve se passar por um homem para ir à guerra no lugar de seu pai. Ela alcança incrível sucesso no exército, tornando-se um dos principais soldados. Mesmo depois de descoberta e expulsa do exército, ela continua lutando contra os inimigos de seu país, tendo de enfrentar o preconceito de todos por ser mulher. Ela derrota o líder do exército rival, dando a vitória à China, e o imperador reconhece seu heroísmo. No final, entretanto, ela recusa um cargo oferecido a ela pelo imperador para voltar à sua casa. E isso tudo com apenas 16 anos. Ela tem um interesse amoroso, o general que a comandava. O final do filme mostra os dois se aproximando após a guerra, mas ainda sem concretizarem a relação.

Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009) é uma princesa ambiciosa, que pretende ter um restaurante e trabalha muito para conseguir isso. Ela é a única princesa negra. Tiana não liga para os homens, e sim para seus objetivos de vida. Mas ela apaixona-se por um príncipe e percebe que sua vida não estaria completa sem amor e apenas com sucesso profissional. No fim, ela consegue abrir seu restaurante com seu próprio esforço. É no mínimo curioso que o seu príncipe também seja (o único) negro.

Rapunzel (Enrolados, 2010) é submissa por ter sido criada enclausurada por sua sequestradora. Ela é a primeira princesa com superpoderes, podendo curar e rejuvenescer seres vivos com os seus cabelos. Apesar de sua submissão, ela tem muita vontade de sair de sua torre e faz isso com a ajuda de um ladrão, que ela rende ao tentar invadir sua casa. Dividida entre o remorso por estar abandonando aquela que acredita ser sua mãe e o desejo de conhecer o mundo para além de sua casa, ela consegue amolecer o coração de bandidos conversando com eles e salva da morte o ladrão que está lhe ajudando. No final, ela resolve sacrificar sua liberdade para salvá-lo novamente, mas ele não permite que ela faça isso, cortando seus cabelos. Entretanto, uma lágrima sua o salva.

Merida (Valente, 2012) recusa-se a se casar e não tem nenhum envolvimento amoroso. Ela adora praticar arco e flecha, e entra num campeonato desse esporte onde o ganhador se casaria com ela para ganhar e não ter que se casar com ninguém. Heroína da narrativa, ela não é vaidosa, deixando seus cabelos rebeldes sem se preocupar com isso. Posteriormente, ela luta não contra alguém, mas contra as consequências de suas próprias escolhas equivocadas

Anna e Elsa (Frozen: Uma Aventura Congelante, 2013) trazem para os filmes de princesa uma narrativa em que o amor fraternal, e não por um homem, é quem as salva. Elsa é a primeira princesa que se torna rainha e também possui superpoderes. Entretanto, ela sofre por não ser valorizada como é e passa por um processo difícil de autoaceitação. Ana, por outro lado, resolve se casar com um príncipe que acabou de conhecer, apesar de Elsa lhe advertir que ela não poderia fazer isso. Quando ela está prestes a morrer, ela acredita que um beijo dele é um ato de amor verdadeiro capaz de salvá-la, mas ele se revela um psicopata cruel, que a abandona para morrer e tenta matar também Elsa. O ato de amor verdadeiro que Ana faz é sacrificar sua própria vida para salvar a de Elsa, o que também a salva. Assim como Merida, Elsa também não tem um interesse amoroso. Já Ana acaba com um outro homem que conheceu ao ir atrás de Elsa para ajudá-la a salvar o reino. Elsa é a princesa mais velha de todas, com 21 anos.

Moana (Moana, 2016) será a próxima. Ela será polinésia. Há pouco sobre ela informado. Mas ela certamente será uma heroína, pois sairá "numa épica jornada para ajudar sua família". Ela terá apenas 14 anos, e é descrita como corajosa e independente.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MESMO AMOR


Nos últimos meses, tenho ouvido cada vez mais que branco não entende o problema de preto, que homem não entendo o problema de mulher, que cis não entende o problema de trans. Aí por que eu sou homem cis e branco, eu não sei nada sobre o que as mulheres, os negros e os trans passam.

Eu não sou nada disso. Mas sou gay. E eu sei muito bem o que um gay passa. E eu digo, sem medo de errar, que quem descreveu melhor isso até hoje, de todos as descrições que eu já vi, foi um hétero. Então, se eu tenho propriedade pra dizer isso, eu digo: héteros, eu acredito que vocês possam entender perfeitamente o que nós passamos.

Eu choro sempre com essa música. Aliás, chorei litros fazendo essa tradução:


Mesmo amor

Quando eu tava na terceira série, eu achava que eu era gay
Porque eu sabia desenhar, meu tio era
E eu mantinha meu quarto arrumado
Eu disse pra minha mãe
Lágrimas escorrendo pelo meu rosto
Ela, tipo: "Ben, você ama garotas desde antes da pré-escola, cê tá enganado..."
É, acho que ela tinha razão, né?
Um monte de estereótipos, tudo na minha cabeça
Eu me lembro de fazer contas do tipo
"É, eu sou bom no campeonato infantil"
Uma ideia preconcebida do que tudo isso significava
Pros que gostam do mesmo sexo
Ter certas características
Os conservadores da direita acham que é uma escolha
E que cê pode ser curado por algum tratamento ou religião
Uma mudança duma predisposição, feita pelo ser humano
Brincando de Deus
Ah, nem... aqui vamos nós
América, os fodões ainda têm medo do que a gente não entende
E "Deus ama todos os seus filhos"
É esquecido de algum jeito
Mas a gente parafraseia um livro
Escrito três mil anos atrás
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor

Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Se eu fosse gay, acho que o hip hop ia me odiar
Cê tem lido os comentários do Youtube ultimamente?
"Cara, isso é gay": tem um monte disso todo dia
A gente se tornou tão insensível com o que a gente tá dizendo
Uma cultura fundada na opressão
A gente ainda não aceita eles
Chamamos uns aos outros de bichas pelas costas
Num quadro de mensagens
Uma mensagem enraizada no ódio
Nosso gênero ainda assim ignora isso
Gay é sinônimo de inferioridade
Esse é o mesmo ódio que causa guerras religiosas
De gênero a cor de pele, a aparência do seu pigmento
A mesma briga que leva as pessoas a se manifestarem e insistirem
São direitos humanos pra todo mundo, não tem diferença!
Toque a vida e seja você mesmo
Quando eu tava na igreja me ensinaram outra coisa
Se você pregar ódio no culto
Essa palavras não são abençoadas
E a água benta que você asperge se torna envenenada
Enquanto todo mundo está mais confortável
Permanecendo calado
Ao invés de lutar pelos direitos humanos
Que tiveram seus direitos roubados
Eu posso não ser do mesmo jeito, mas isso não é importante
Não há liberdade enquanto a gente não for igual, eu defendo isso pra caramba
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

A gente aperta play, não apeta pause
Progresso, marche pra frente
Com o véu sobre nossos olhos
Nós viramos nossas costas para a causa
Até o dia em que meus tios possam ser unidos pela lei
Enquanto crianças estiverem andando por aí
Andando pelos corredores atormentados pela dor em seus corações
Em mundo tão cheio de ódio que alguns preferem morrer
A ser quem eles são
E um certificado no papel não vai resolver isso tudo
Mas é um lugar muito bom pra começar
Nenhuma lei vai mudar a gente
A gente tem que mudar a gente
Qualquer Deus em que você acredite
A gente veio do mesmo
Jogue fora o medo
Por baixo de tudo isso é o mesmo amor
Já é hora da gente se levantar

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Amor é paciente
Amor é bom
Amor é paciente 
Amor é bom 
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Eu não vou chorar aos domingos)
Amor é paciente
Amor é bom

(Tradução livre de "Same Love", de Macklemore & Ryan Lewis)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"LET IT GO" COMO METÁFORA PARA ACEITAR-SE GAY


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
A noite está relacionada à escuridão e ao frio. É o momento em que a homossexualidade causa desconforto e desorientação. A montanha está relacionada à escalada que leva ao topo. É o difícil caminho que se percorre em direção à auto aceitação. A neve é algo que encobre o chão, dificultando o deslocamento. São as dificuldades que atrapalham o caminho em direção à auto aceitação.


Não há pegadas a serem seguidas.
Refere-se à dificuldade de se encontrar modelos, exemplos de homossexuais que já trilharam esse caminho de forma bem sucedida.

Eu sou a rainha de um reino de solidão.
Refere-se à sensação de que ninguém está ao seu lado, e à de que você é o único que tem que enfrentar esse tipo de "problema".

O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
O vento é aquilo que atrapalha a caminhada. São as dificuldades enfrentadas em direção à auto aceitação. A tempestade dentro do homossexual é a inquietude, a confusão interna.

Não pude contê-la. Deus sabe que eu tentei!
Muitas vezes o que atrapalha a auto aceitação do homossexual é a crença de que a homosexualidade é um pecado.

Não deixe que vejam o que há em você. Seja uma boa garota. Controle-se. Não sinta. Não deixe que saibam.
São frases que o homossexual se diz constantemente, interiorizando a heteronormatividade.

Bom, agora já sabem...
Houve pra o homosseual uma saída do armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Não tem mais nada que eu possa fazer. Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.
É o momento em que o homossexual percebe que não adianta mais tentar esconder seus desejos das pessoas.

Não me importa o que vão dizer. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
O tempo fechado é a reação negativa das pessoas, a raiva e o não entendimento delas. O frio é a reação de afastamento das pessoas, que ao invés apoiarem o homossexual, tornam-se frias com ele. 

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Ao ver a situação de uma outra perspectiva, o homossexual vê que o que ele enxergava como um grande problema, não é nada.

Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
Ele vence a visão negativa que tem de si mesmo, e o medo de ser mal visto pelos outros.

É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los. Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas. Eu estou livre!
O homossexual resolve experimentar sua sexualidade, liberar os seus desejos, sem ligar pras normas que o coíbem.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou ser abraçado pelo vento.
O homossexual entrega-se à situação e vê onde ela pode levá-lo.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vocês não vão me ver chorar.
Ele para de sofrer por causa de sua homossexualidade.

Aqui estou eu e aqui vou ficar. Deixa o tempo fechar!
Ele firma seu posicionamento.

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Ele percebe que pode ser homossexual e vivencia isso amplamente.

Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
As dificuldades internas são superadas.

Ideias novas logo vão se cristalizar.
Uma nova forma de ver as coisas se estabelece.

Não vou voltar jamais. O passado ficou pra trás.
Ele se recusa a voltar ao armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.
Ele ergue a cabeça e luta pelo seu direito de ser como é.

Deixá pra lá! Deixá pra lá! A garota perfeita já era.
Ele deixa de fingir que é o que não é.

Aqui estou eu, à luz do sol. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
A luz do sol representa a visibilidade. Poder ser homossexual no espaço público, na frente dos outros.


Bônus: a família de Oaken.

O personagem Oaken chama de "família" esses cinco personagens que se encontram na sauna. Aparentemente trata-se de um pai e quatro filhos. A "família" pode ser entendida como "minha família" (a família de Oaken) ou como "uma família".
Fica a interpretação possível de que Oaken é um personagem homossexual, que possui uma família homoafetiva.


Bônus: poderes de Elsa

Ao longo do filme, descobrimos que Elsa congela quando sente medo, e aquece quando sente amor. A mensagem que fica é que o medo congela e o amor aquece. Pesando nessa metáfora, o medo da auto aceitação congela, e o amor (homoafetivo, no caso) aquece.


DEIXA PRA LÁ


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
Não há pegadas a serem seguidas.
Eu sou o rei de um reino de solidão.


O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
Não pude contê-la.
Deus sabe que eu tentei!

Não deixe que vejam o que há em você.
Seja um bom garoto.
Controle-se. Não sinta.
Não deixe que saibam.

Bom, agora já sabem...

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Não tem mais nada que eu possa fazer.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.

Não me importa o que vão dizer.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los.
Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas.

Eu estou livre!

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou ser abraçado pelo vento.

Deixa pra lá
Deixa pra lá!
Vocês não vão me ver chorar.

Aqui estou eu e aqui vou ficar.
Deixa o tempo fechar!

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
Ideias novas logo vão se cristalizar.

Não vou voltar jamais.
O passado ficou pra trás.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.

Deixá pra lá!
Deixá pra lá!
O garoto perfeito já era.

Aqui estou eu, à luz do sol.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

(Tradução livre de "Let it go", do filme Frozen)

domingo, 9 de novembro de 2014

"MISANDRIA NÃO É REAL"


As feministas chamadas de misândricas afirmam que "misandria não é real". Será? Ou será que apenas não é sistêmica e institucionalizada? Porque são duas coisas diferentes... Discursos formam sujeitos e subjetividades. Eles criam realidades. Se eu defendo um discurso de ódio como estratégia, que consequências isso traz? Questiono isso como alguém que se interessa pelo feminismo (e que é pró-feminismo), e não mais como um pretenso feminista.

SOBRE O ÓDIO QUE RETORNA

Entender as razões que levam alguém a fazer algo não significa concordar que esse alguém está certo. Há pessoas que se tornam amargas e cruéis com os outros, porque os outros foram amargos e cruéis com elas (não necessariamente os mesmos outros). Eu entendo a razão que as leva a ficar assim, mas não concordo que por causa disso todo mundo tem que aceitar esse ódio sem questioná-lo. 

Recentemente, uma garota com quem tentei estabelecer um diálogo, com toda educação e cordialidade possível, e, tenho certeza, sem usar nenhum argumento ou palavra misógina - pois ela mesma, ao "apontar o dedo na minha cara", não apresentou esse como um dos pretensos motivos dessa reação - me tratou como um opressor, argumentando apenas que eu era "um homem tentando falar por ela", uma vez que eu me apresentei falando das minhas pesquisas sobre masculinidade, e argumentando que questionar os ideias de masculinidade era um caminho importante pra que mulheres, gays, travestis e transexuais sejam cada vez menos oprimidos.

A interação foi online. Primeiro num post da linha do tempo dela. No qual ela deslegitimou de forma abrupta e violenta meu trabalho de pesquisa sem me conhecer e sem conhecê-lo. Então mandei uma mensagem privada para ela, tentando contar um pouco sobre meu trabalho. Ela respondeu de forma extremamente grossa e me bloqueou imediatamente. Depois disso, ainda tentei um último contato online, alguns meses depois, mandando uma mensagem para ela via outro canal, falando que nós tínhamos nos desentendido e que eu gostaria de conversar um pouco com ela pra conhecer melhor os motivos dela. Ela (que nem se lembrava mais do caso) simplesmente respondeu que não tinha interesse nenhum de conversar comigo.

Eu me sinto muito, muito mal toda vez que vejo algo a respeito dela (temos amigos e fazemos parte de universos comuns). Nessas ocasiões, eu sempre a elogio, porque reconheço que ela tem um trabalho muito importante dentro do feminismo.

Não sou a vítima. Mas também busco não ser opressor. Queria apenas que fosse possível não ser visto sempre dessa forma.

RELATIVISMO, EVOLUCIONISMO E VITIMIZAÇÃO

Na faculdade, a gente é doutrinado o tempo inteiro. Doutrinado a ser de esquerda ou de direita. Doutrinado a ser construtivista ou evolucionista. Doutrinado a ser relativista ou determinista. A cabeça da gente começa a funcionar de um jeito, que a gente passa a repetir igual a um robozinho tudo o que nos ensinaram.

A gente acha que tem um pensamento crítico, porque quem nos ensinou disse que o que nos foi ensinado é algo muito crítico. A gente aprende até mesmo a criar os nossos próprios argumentos para responder aos argumentos dos outros, que a gente escuta, mas não para de verdade pra considerar, porque já tem as respostas prontas contra eles.

Recentemente, eu tenho tentado me libertar dos dogmas acadêmicos que eu tive em minha formação. Fui ensinado, por exemplo, que a vertente dos estudos de gênero que aponta como o machismo faz mal aos homens, e não apenas às mulheres, é "vitimista", porque os homens são privilegiados e as mulheres desprivilegiadas dentro do sistema da dominação masculina. Ok, isso é verdade. Mas isso anula o argumento dessa vertente? Ela diz que não é assim? Não. Eu aprendi a concordar que sim, apesar de o homem ser privilegiado, o machismo faz sim mal pra ele. Todos somos vítimas do machismo, em maior ou menor grau. As mulheres são as vítimas mais diretas, com uma intensidade de sofrimentos maiores, mas isso não quer dizer que os homens também não sofram.

Eu e a minha amiga Leslie temos conversado muito sobre essas questões. Nós havíamos sido doutrinados para sermos relativistas e construtivistas. Mas começamos a perceber que o buraco é mais em baixo. Quanto ao relativismo, passamos a nos questionar se os valores de quem corta o clitóris das mulheres de uma comunidade não eram piores dos que os dos que lutam contra eles. E chegamos à conclusão que sim. Há sim valores melhores e piores. Melhores e piores para a sociedade como um todo, e para cada um de seus indivíduos. Valores que auxiliam a nossa saúde e não a nossa auto destruição. Quanto ao evolucionismo, que descartávamos, passamos a nos questionar se a sociedade realmente não se torna melhor com o tempo e com as mudanças que se sucedem. E chegamos à conclusão que sim, a sociedade caminha para uma melhora progressiva. Isso porque a pressão dos indivíduos para que ela melhore sempre vai gerando novas soluções que vão sendo testadas e aprimoradas, de forma a gerar um resultado cada vez melhor.

Mas percebemos que essas dicotomias entre formas de ver o mundo são, muitas vezes, tão bobas quanto brigas de criança. Não é necessário jogar o bebê fora com a água do banho. Quanto ao relativismo, por exemplo, concordamos que há uma diferença entre o funcionamento e o estilo da sociedade. Se o funcionamento da sociedade - a saúde e não a auto destruição - não é relativo, o estilo dela é. E por estilo, estamos entendendo questões como a arte, a arquitetura, a moda, o entretenimento, o idioma, as comemorações - como os aniversários ou o Natal - e os modos de vida - como morar ou não com os pais depois da maioridade ou dar três beijinhos ao nos cumprimentarmos. Não existe, de fato, um estilo musical melhor do que o outro. A música que vai haver daqui a dois séculos, não será melhor do que a de hoje. As diferenças aqui não podem ser medidas em termos de melhor ou pior.

Vejo, na academia, uma necessidade de escolher entre a perspectiva desse ou daquele autor, de forma que abandonamos os bons argumentos de quem pensa diferente. Mas, gente, a ideia não é somar as boas ideias, as boas explicações, para chegar num entendimento cada vez maior? Eu preciso concordar com tudo o que o fulano fala pra usar uma ideia específica dele? Qual a lógica desse preciosismo, desse protecionismo intelectual?

PRECONCEITO LINGUÍSTICO E ENSINO DA LÍNGUA

Escrever "nós fizemos tb" não é erro, é estilo.

Escrever "nós fez também" não é erro, é coloquialidade.

Mas escrever "nós fiswmos tamb´rm" é erro de digitação.

Escrever "nós fisemos tanbém" é erro de ortografia.

Erro é tentar se comunicar de um jeito e não conseguir fazer isso adequadamente, não é se comunicar de um jeito que não seja o padrão. Além disso, continua sendo dever da escola ensinar a forma padrão pra que o aluno esteja preparado para situações em que somos obrigados a usá-la. Pois é erro também usar uma forma que não pode ser aplicada a determinada situação. Logo, não ter preconceito linguístico no ensino de língua não quer dizer que não tenha mais escrita errada.

#FikDik