terça-feira, 31 de dezembro de 2013

POR QUÊ, DIABOS, A GENTE AMA O FÉLIX?

09/01: Atualizações em verde.
01/02: Atualizações em roxo.

Há cerca de um ano atrás, escrevi duas análise a respeito de Carminha, de Avenida Brasil (elas estão aqui e aqui). O fascínio do público por uma vilã tão forte me intrigou e me fez refletir o motivo de tanta adoração. Este ano, um fenômeno parecido se repete com o gosto do público por Félix. Mas Félix e Carminha, apesar de ambos serem vilões, são personagens com perfis muito diferentes. Dessa forma, mais uma vez eu precisei refletir muito para conseguir pistas sobre os motivos dessa nova identificação. Amor à Vida ainda não terminou, mas me arrisco, desta vez, a construir uma análise no calor do acontecimento, mesmo que ela tenha que ser revista depois.

Comparando Félix com Carminha, evidencia-se claramente uma diferença básica. Carminha não tinha um perfil de psicopata: ela sofria constantemente por culpa e remorso em relação às maldades que cometia e não tinha o sangue frio necessário para matar seus inimigos. Félix, por outro lado, foi capaz de abandonar à morte uma criança recém-nascida, sem nenhuma dificuldade e sem remorsos posteriores.

A figura do psicopata, no discurso médico, é a pessoa que, devido a um transtorno mental, não possui a capacidade de processar sensações como a culpa, o remorso e a empatia (colocar-se no lugar dos outros). Na novela, ela aparece, em uma discussão entre Bernarda e Pilar, como a pessoa que, devido a uma doença mental, é absolutamente malvada. Bernarda não acredita que o neto seja um psicopata, mas sim que apresenta um perfil psicológico parecido com o de um psicopata, devido a uma “falta de amor”.

O caminho encontrado por Walcyr Carrasco para salvar Félix foi similar ao de João Emanuel Carneiro para salvar Carminha: transferir o vilão. Walcyr, além de conduzir melhor essa transferência (afinal, ele já tinha o exemplo da pioneira, mas abrupta forma encontrada por João Emanuel Carneiro), o fez de forma mais pulverizada. No caso de Carminha, toda a maldade recaiu sobre seu pai, Santiago. Para aliviar a barra de Félix, a vilania do roteiro foi transferida primeiramente para César, mas depois para Amarylis e Aline. Por hora, vejamos apenas a situação de César.

Félix teria se tornado uma pessoa com “um perfil próximo ao de um psicopata” devido à “falta de amor” relegada a ele por César, graças à sua “afeminação” e à culpa que o pai lhe atribuía pela morte do irmão mais velho, Cristiano. Dessa forma, assim como Carminha se inocentou da responsabilidade por sua maldade devido ao fato de ela ter sofrido duramente durante a infância, também Félix torna-se isento de sua responsabilidade devido ao fato de ter adquirido seu perfil psicológico graças à forma como seu pai lhe tratara.

Bernarda acredita que Félix possa ser capaz de mudar seu perfil psicológico ao receber o amor que sempre lhe faltou, ao entrar em contato com a alma de um anjo (metáfora criada por Niko). É isso o que acontece com ele quando o vilão passa a viver com Márcia e torna-se próximo a Niko. A sacada é antiga: a narrativa da redenção por meio do amor sempre foi uma das bases dos enredos das telenovelas. Márcia e Niko seriam os anjos da metáfora, capazes de transformar Félix.

Mas para o discurso médico, a psicopatia é algo irreversível, apesar da crença recorrente das pessoas próximas ao psicopata de que ela seria possível. O posicionamento de Bernarda, ao não enquadrar o neto como psicopata, mas sim como alguém que tenha adquirido um “perfil parecido com o de um psicopata” vai nessa direção: tenta tirar da visão que se tem do neto a impossibilidade de mudança, ao negar-lhe esse rótulo. Ora, qual seria a diferença entre um psicopata e alguém com o “perfil parecido com o de um psicopata” senão, justamente, a possibilidade de reversão desse quadro?

Mesmo assim, Walcyr tinha um grande pepino em suas mãos: como transformar Félix em uma pessoa melhor sem negar o perfil psicológico que ele próprio construiu para a personagem? Félix, em nenhum momento mostrou, de fato, remorso ou culpa pelos atos que cometeu. Pelo contrário, conversando com Márcia, ele disse aos risos: “Eu? Ficar cuidando da Marijeyne? Não, não, não! Não suporto criança! Já joguei uma na caçamba, posso jogar ela também. Você não tem medo disso?”. Entretanto, logo na sequência, vendo-se obrigado a cuidar da criança, ele aprendeu, com essa experiência, que uma situação que ele considerava ruim (o convívio com crianças) pode ser, na verdade, muito boa.

É também pela experiência que ele aprendeu porque determinadas ações não devem ser feitas, como o ato de abandonar uma criança à morte. Afinal, tal ação foi o que fez com que ele passasse por várias experiências negativas, como perder o status social e econômico que ele possuía. Ao invés de sofrer de remorso por ter cometido as coisas que cometeu, Félix foi condicionado, pela experiência, a considerar um erro realizar ações como essas. 

Acima de tudo, Félix aprendeu que há outras formas, outros meios para se conquistar as coisas na vida. Enquanto a forma que ele usava funcionava (ou pelo menos parecia que iria funcionar), ele continuou com ela, mas quando ela falhou, ele viu que a cooperação pode funcionar melhor. Esperto como é, adaptou-se e aprendeu a jogar o jogo da vida com cartas novas.

Outra característica do perfil psicopático que Félix apresenta é fazer-se o tempo todo de vítima, com seus bordões do tipo “Eu devo ter salgado a santa ceia para merecer” isso ou aquilo. Mas, o próprio discurso médico aponta que a psicopatia manifesta-se em diferentes graus. Félix mostrou-se capaz de apresentar empatia por pessoas que lhe ajudaram em momentos de dificuldade, ou seja, Márcia e Niko. Inclusive, dando para Márcia metade de seu rendimento mensal. Mostrou empatia também pelo filho de Aline e César, ao vê-lo abandonado como antes ele abandonara Paulinha. 

Numa segunda fase, Amarylis aparece como a vilã à qual Félix se opõe como herói para salvar Niko. Posteriormente é Aline que ele combate para salvar César. E é isso o que proporciona sua reconciliação com Paloma, e depois também com Paulinha. É a partir dessa reconciliação que fica evidente o quanto ele mudou: não aceita um cargo de presidência no hospital, que antes era seu objetivo, porque agora tem outros planos de vida.

Mas Félix não mudou assim da água para o vinho, e isso aponta uma coerência da personagem, que faz com que sua trajetória não fique agarrada na goela dos telespectadores, mas desça, ganhando a confiança deles de que ela, por ser verossímil, parece verdadeira. O "ato de generosidade" que realizou ao entregar o pendrive de Mariah a Paloma, relevou ele no dia seguinte à sua Mami Poderosa, foi, antes de mais nada, uma estratégia para distrair Bruno e Paloma e sair ileso depois de toda a confissão, que só ocorreu por pressão de Pilar, que ameaçava tirar-lhe os luxos reconquistados.

Depois da sessão de revelações, Félix foi até a casa de Niko se esforçando pra sentir dor e arrependimento pelas coisas que fez e que, agora com seu novo julgamento à respeito de como é e como não é adequado agir, considera erradas. Mas o esforço imenso pra se atingir um sofrimento raso e efêmero é de dar pena (não do ator, como sempre ótimo, mas da personagem).
Também quando Paloma se reconcilia com ele, ele não chora, apenas se emocionando quando ela lhe oferece um cargo no hospital. Mas consegue se emocionar de fato ao receber do pai o reconhecimento que sempre lhe faltara.

Passar toda a verdade a limpo foi algo importante para a trajetória da personagem. Assim como também foi importante ele ter recebido uns tabefes de Paloma, afinal, o público de novela já demonstrou que gosta de uma boa vingança, e que ela ajuda muito a deixar as personagens quites (vide Carminha e Nina de Avenida Brasil).

Pagar pelos seus atos também é algo que João e Walcyr usaram para redimir seus vilões. Carminha pagou indo morar no lixão com Lucinda. Félix iniciou seu pagamento tendo que vender hot dog ao lado de Márcia. Respeitando o seu “perfil próximo ao de um psicopata”, Félix adaptou-se rapidamente à sua nova realidade, autointitulando-se o “rei do hot dog”. No fim, ele e César pagaram mutuamente: tendo que conviver um com o outro, com suas diferenças e dificuldades.

Algo que sempre me incomodou nos discursos sobre a psicopatia é a crueldade com que se condena o psicopata ao isolamento social. O psicopata, ou alguém “com o perfil parecido com o de um psicopata”, como quer Bernarda (afinal, o que é esse termo além de um rótulo dado às pessoas com esse perfil pela medicina?), não é responsável por sua incapacidade de sentir culpa e empatia, que é o que o leva a ser capaz de cometer atos prejudiciais aos outros com tanta naturalidade. Não havendo a possibilidade de reverter essa incapacidade, não haveria nenhuma outra forma de condicionar o psicopata ao bom convívio social? Félix é a visão esperançosa de que sim, por isso é uma personagem tão conquistadora.

É claro que esse é apenas um dos elementos que fazem com que a personagem seja tão querida. Há outros mais evidentes, e talvez mais fortes, mas que, acredito eu, não seriam capazes de gerar tamanha identificação sem o complexo esquema que analisamos até então.

Esses elementos evidentes são parecidos com os que possuía Carminha. Félix, além de ser bem construído pelo autor, é interpretado por um ótimo ator. O vilão é carismático devido ao seu bom-humor e sua autenticidade. Ele é uma personagem única, forte e impositiva, que acredita no que diz (ele não cansa de dizer que é mal) e no que faz. Apesar das encenações de falsidade em relação a outras personagens, sua real face foi apresentada para nós desde o começo, o que adiciona o elemento da cumplicidade que sentimos em relação a ele, e não a Amarylis e Aline, por exemplo.

Não é à toa que o final da novela foi focado na relação dele com seu pai. Não é a toa que essa personagem deu o primeiro beijo gay da nossa teledramaturgia. O beijo e o tão sonhado "eu te amo" vindo de César foram os pagamentos recebidos por ele por ter sido tão amado pelo público.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

DIGA NÃO AO PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Eis uma luta que eu não canso nunca de lutar!

Se você se incomoda que os outros escrevam "mais" no lugar de "mas", "agente" no lugar de "a gente", "menas" no lugar de "menos", você é um tanto quanto ignorante.

Calma, você não é ignorante no sentido de "burro", você é ignorante no sentido de "alguém que ignora alguma coisa". Mas como você entende muito sobre o português padrão, deve saber bem qual é o sentido denotativo dessa palavra.

Entretanto, deve ter pensando primeiro no seu uso mais corrente (com o sentido de "burro"). Por que será? Porque ao contrário da forma como você vê a língua, ela não é um sistema fechado, mas algo vivo em contínua mutação. Assim, não só os sentidos das palavras mudam com o tempo, de forma natural, mas também a grafia delas. É isso o que você ignora. Eu era exatamente igual a você até perceber isso.

Se as palavras não mudassem, ainda usaríamos "vossa mercê", no lugar de "você", e "o que é de", no lugar de "cadê". Essas mudanças que você considera erros são a língua se desenvolvendo.

Portanto, em 2014, vamos ser menos reacionários e mais abertos às mudanças, que são o que fazem a vida ter graça, pfvr?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

TATUAGEM

Esse rabisco, em breve, vai estampar meu braço para sempre.

Cis- é o contrário de trans-. Cis-tema é um trocadilho que indica o sistema cis-, ou seja, o conjunto de normas relacionados à heteronormatividade e à naturalização das construções de gênero a ela relacionadas. 

A ideia da tatuagem partiu de uma campanha estadunidense que está estampada na camiseta da foto abaixo. A minha tentativa foi adaptá-la para que ela ficasse mais parecida com um manifesto, como nas pixações políticas (já que a frase me chamou atenção justamente em forma de pixação, numa parede da Fafich).

Os dois símbolos de masculino intercalados remetem à homossexualidade entre homens, e o símbolo misto de masculino e feminino remete a performances de gênero masculinas não normativas, dentro da lógica cis-têmica (chamadas pejorativamente de "afeminação"). 


sábado, 14 de dezembro de 2013

TERAPIA EM FORMA DE REVOLUÇÃO POP

Com o lançamento do álbum Beyoncé na madrugada de ontem, Queen B imprimiu uma marca forte na história da música pop. Ela teve uma idéia muito simples, do ponto de vista conceitual, mas, ao mesmo tempo, muito complicada do ponto de vista de sua execução. Beyoncé erigiu um novo formato, completamente diferente, de álbum musical. Um “álbum visual”, nas suas próprias palavras. Ao invés de um álbum composto de canções, um álbum composto de videoclipes. Abaixo, segue uma análise de cada um dos vídeos do projeto, no qual a cantora enfrenta seus fantasmas.

Pretty hurts: Uma das qualidades mais destacadas de Beyoncé é sua beleza. Mas o preço caro que se paga para tê-la é o tema do primeiro vídeo do álbum. Nele, Beyoncé é uma candidata a miss que se força a vomitar, sofrer humilhações calada, ingerir drogas, entre outras coisas tão degradantes quanto em nome de um padrão de beleza extremamente difícil de se alcançar. A letra da música fala de uma menina que cresceu ouvindo que o importante é a aparência, e não o que se “tem na cabeça”. No entanto, quando ela é questionada sobre o que a move, um vazio aparece, e ela se depara com a contradição de sua própria resposta: “ser feliz”. Apesar de todo o esforço, ela perde o concurso, de forma que todo o sofrimento se mostra em vão. No final do vídeo, um registro pessoal de Beyoncé participando de um concurso quando criança evidencia a dimensão biográfica da história.

Ghost: A questão do sentimento de vazio em relação à vida volta no segundo vídeo, no qual uma fantasmagórica Beyoncé se pergunta qual é a razão para se trabalhar tanto, se é tudo tão entediante, apenas manter-se vivo?

Haunted: Um vídeo que me lembrou muito Justify Your Love, da Madonna. Beyoncé circula pelos corredores de uma mansão em que cada quarto guarda personagens bizarros, entre eles, uma família convencional, que, no entanto, não tem a vida que os demais possuem, pois é representada por manequins ao invés de pessoas. As demais figuras podem ser assustadoras em suas excentricidades, mas elas são autênticas, e é isso o que lhes dá vida. O início do vídeo tem um diálogo forte com a vídeo-arte. 

Drunk in Love: Uma Beyoncé linda e sensual, mas que se sente como um troféu. Enquanto ela canta apaixonada para Jay-Z, ele adota uma posição indiferente em relação a ela. Atrás da aparente realização dela com o relacionamento dos dois, e do sorriso que parece tão legítimo, um quê de artificialidade paira sobre eles.

Blow: Um quê de Nicki Minaj, em Super Bass. Essa é a minha grande aposta para estourar nas pistas. Uma música bastante comercial e com clima de sensualidade e festa.

No Angel: Um subúrbio negro estadunidense. Valorizado em sua estética e sistemas de legitimação próprios: a ostentação, com carros, motos e até mulheres, a fumaça do fumo, o estilo gangstar dos homens. Apesar das críticas à aparência “embranquecida” de Beyoncé, uma negra loira de cabelos alisados, ela nunca se distanciou de seu posicionamento enquanto negra, algo que está presente na sonoridade e no estilo de todos os seus álbuns. 

Yoncé: Beyoncé ostentação. Esfregando na cara da sociedade que é rica, famosa, invejada e modelo para uma legião de mulheres, e as recalcadas que se mudem.

Particion: Uma Beyoncé que adora e que quer ser desejada. “Homens acham que as feministas detestam o sexo, mas é uma atividade muito estimulante e natural, que as mulheres adoram”. Outra crítica que Beyoncé recebe frequentemente é a de como ela se diz feminista se coloca seu corpo como um objeto de desejo sexual. Mas Beyoncé propõe uma forma de emancipação feminina que não nega os papeis de gênero vigentes, mas usa os elementos que submetem a feminilidade à dominação masculina, como a sensualidade e o corpo, como armas para subvertê-la.

Jealous: Uma continuação do vídeo anterior. Cansada de não ser valorizada, ela vai buscar na rua o reconhecimento que não encontra em sua relação. Mas não encontra ali também o reconhecimento que busca, e então resolve voltar para o aconchego que a relação que possui pode lhe oferecer. Seria uma metáfora de sua relação com Jay-Z? Uma vida tão perfeita aos olhos do público, beleza, família, carreira de sucesso, o que pode estar escondendo de dor e sofrimento interno? Não seria a primeira vez que Beyoncé desabafa sofre uma relação pessoal difícil através de uma música. Ela fez isso em Listen, falando sobre a decisão de cortar seu pai de sua vida profissional.

Rocket: Beyoncé sendo incrivelmente gostosa. Seu corpo é um universo de prazeres. A fotografia e a direção de arte desse vídeo são simplesmente sensacionais. O significado mais puro de ser “sexy sem ser vulgar”.

Mine: o vídeo mais empolgante do álbum. Começa com o clima fantasmagórico de Ghost, com Beyoncé segurando um ser desfalecido e uma máscara, como se simbolizassem seu cansaço e a preocupação constante com a aparência. Ela fala de uma possível separação, que estaria sendo pauta de conversas que estaria tendo, e de não estar se sentindo a mesma desde o “bebê”, em uma aparente clara referência a Jay-Z e Blue Ivy. Mas o clima evolui de uma forma tão natural que se toma um susto quando se percebe onde ele vai parar: o clima de morte e vazio é substituído por outro de celebração, vida e amor. Ela diz que quer acreditar que deveria estar casada e pede uma contrapartida. Precisa esclarecer mais do que ela está falando?

XO: Beyoncé sendo feliz. Entrando em contato com seu público, que é algo que parece alimentar a alma da cantora. Ela é uma fofa, e dá prova disso a cada show, participando do FaceTime de um fã, fazendo Photobomb na foto de outra, pedindo para os seguranças não agredirem o fã que pulou em cima dela e quase a derrubou, no Brasil.

***Fawless: imagens de Beyoncé adolescente competindo com as amigas em um concurso de calouros, e perdendo para um grupo masculino, são intermediadas por “bow down, bitches”. Beyoncé coloca @s inimig@s no lugar e esfrega na cara del@s tudo o que conseguiu. Um texto falado trata da igualdade de gêneros que não existe, desde a educação que se dá a meninos e meninas, e o feminismo é conceitualizado como a tentativa de alcançá-la.

Superpower: um vídeo motivacional sobre o poder de mudar o mundo que temos quando nos unimos em torno de nossas causas. Vários amigos e companheiros de vida de Beyoncé fazem parte do vídeo.

Heaven: “O paraíso não poderia esperar por você”. Antes de Blue Ivy, Beyoncé sofreu um aborto espontâneo, que foi algo muito doloroso para ela e Jay-Z. Ele também já fez uma música sobre esse tema. No seu documentário “Life is but a dream”, ela também trata desse tema delicado e muito triste. Clipe muito sensível, com ótima direção de arte.

Blue: Em seguida ao vídeo sobre a perda, o vídeo sobre a filha. No Rio de Janeiro, com favela contendo muito criança feliz, jogando bola e dançando o passinho, que parece ter encantado a cantora. Essas crianças parecem ser o link que fez com que Beyoncé escolhesse esse cenário para homenagear a filha. A cidade é retratada com muita poesia e beleza própria, dando muito orgulho para mim, enquanto brasileiro. No final, Blue diz algumas palavras, da forma mais fofa do mundo.

Grown Woman: Eu sei o que estou fazendo, a vida é minha, não enche. Essa é a mensagem desse vídeo, que mescla arquivos pessoais de todas as fases da vida da cantora com remontagens deles com ela no presente. A família da cantora está muito presente no clipe. As imagens mostram como ela é treinada para ser a estrela que é desde pequena. Em algumas cenas, ela criança parece estar cantando com uma perfeição espantosa a música da Beyoncé crescida.

domingo, 17 de novembro de 2013

PEQUENO GLOSSÁRIO SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL

Tenho visto cada vez mais o quanto é importante fazermos uma separação entre “sexo biológico”, “identidade de gênero”, “performance de gênero” e “orientação sexual”, porque cada uma dessas categorias se refere a um aspecto diferente da questão da diversidade sexual.

As sexualidades das pessoas são como palavras de um texto: cada uma tem uma fonte, um tamanho, uma cor, e uma formatação (negrito, itálico, etc.), e cada uma dessas características é independente das demais.

O “sexo biológico” define com que características relacionadas ao dimorfismo sexual da espécie humana o indivíduo nasceu. Esse dimorfismo está relacionado à cadeia cromossômica do indivíduo. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “macho”, “fêmea” ou “intersexual”. “Macho” é a pessoa que nasceu com um pênis padrão. Essa pessoa tem um cromossomo X e um cromossomo Y. “Fêmea” é a pessoa que nasceu com uma vulva padrão. Essa pessoa tem dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y. “Interssexual” é a pessoa que nasceu com um pênis fora do padrão, ou com uma vulva fora do padrão. Essa pessoa nasceu com um clitóris muito grande em relação aos clitóris padrão (no caso de pessoas com dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y), ou com um pênis muito pequeno em relação aos pênis padrão (no caso de pessoas com um cromossomo X e um cromossomo Y), ou com um pênis e uma vulva (no caso de cadeias cromossômicas com características que não se inserem em nenhum dos dois tipos de padrão).

A “identidade de gênero” define como a pessoa se autoidentifica. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “mulher”, “homem” ou “neutra”. “Mulher” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como mulheres. “Homem” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como homens. “Neutra” é a pessoa que normalmente não se autoidentifica a partir de categorias de gênero

A “performance de gênero” define como uma pessoa se comporta e que tipo de aparência ela apresenta. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “feminina”, “masculina”, “queer”, ou “andrógina”. “Feminina” é ê pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de feminilidade. “Masculina” é a pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de masculinidade. “Queer” é a pessoa que normalmente aproxima alguns elementos de sua aparência e de seus comportamentos de um ideal de feminilidade e outros de um ideal de masculinidade. “Andrógina” é a pessoa cuja aparência e comportamentos normalmente não se aproximam de nenhum desses ideais.

A “orientação sexual” define por que tipo de pessoas o indivíduo se sente sexualmente atraído. Ela tem a ver com a “performance de gênero” dessas pessoas. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “homossexual”, “heterossexual”, “bissexual” ou “pansexual”. “Homossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “masculinas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “femininas”. “Heterossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “femininas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “masculinas”. “Bissexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída tanto por pessoas “masculinas” quanto por pessoas “femininas”. “Pansexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída por outras pessoas, independentemente de sua “performance de gênero”.

Ademais, há duas relações entre essas categorias que também precisam ser entendidas. A relação entre “sexo biológico” e “identidade de gênero” e a relação entre “sexo biológico” e “performance de gênero”. Quando um “macho” se autoidentifica como “mulher”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “homem”, essa pessoa é “transsexual”. Quando um “macho” se autoidentifica como “homem”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “mulher”, essa pessoa é “cissexual”. Quando um “macho” é “feminino”, ou quando uma “fêmea” é “masculina”, essa pessoa é “transgênero”. Quando um “macho” é “masculino”, ou quando uma “fêmea” é “feminina”, essa pessoa é “cisgênero”.

Há denominações alternativas que, no entanto, carregam uma carga grande de preconceito. Uma delas é a de “travesti”, que se refere aos machos transgêneros. Outra é “afeminado”, que se refere aos machos femininos (e, portanto, transgêneros) ou queers. Essa denominação é especialmente problemática por que aponta a feminilidade como algo desviante para o macho. Ainda mais uma é “hermafrodita”, que se refere aos interssexuais que nasceram com um pênis e uma vulva. Outras denominações alternativas não carregam a mesma carga de preconceito, como os termos “gay”, para se referir a homens homossexuais, e “lésbica”, para se referir a mulheres homossexuais. Já os termos “viado” e “sapatão”, que têm a mesma finalidade, também carregam grande carga de preconceito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MEUS CHOQUES AO PESQUISAR O DISCURSO EVANGÉLICO

Na semana passada, comecei a fazer minha pesquisa de campo sobre os embates discursivos entre evangélicos e LGBTs em torno de questões ligadas à masculinidade, para o mestrado. O meu primeiro contato com o campo foi na Igreja Batista da Lagoinha, onde fui a uma palestra sobre a homossexualidade. 

O discurso da palestrante foi de que os homossexuais devem ser acolhidos pela igreja, apesar de a homossexualidade ser um pecado, não ser natural e ser resultado de uma “disfuncionalidade” no processo de socialização do indivíduo. A igreja teria que dar instrução e apoio para que o indivíduo consiga deixar de ser homossexual. Ela argumentou também que o pecado da homossexualidade não é mais grave que nenhum outro pecado ligado à sexualidade, e que esses, por sua vez, não são mais graves que outros pecados quaisquer.

Eu fiquei surpreso com o fato de os argumentos apresentados contra a homossexualidade por esse discurso não serem tão radicais quanto eu esperava e terem, até mesmo, um grau consideravelmente alto de defensabilidade. A minha primeira grande dificuldade, portanto, foi aceitar como razoável o fato de um grupo não considerar a homossexualidade uma característica legítima.

A palestrante excluiu a possibilidade de se considerar a causa da homossexualidade como sendo biológica (nenhum cientista jamais conseguiu isolar um gene responsável pela homossexualidade e, se a causa fosse hormonal, a aplicação de hormônios “adequados” “resolveria o problema”), nem espiritual (mesmo que um homossexual esteja possuído, sua libertação não é capaz de alterar seu desejo sexual) ou voluntária (ninguém é capaz de definir por quem se sente atraído, e o homossexual, geralmente, quando se percebe como tal, tenta reprimir e converter seu desejo sem sucesso).

Ela aponta, então, como causa, uma “disfuncionalidade” no processo de socialização, cuja origem estaria no ambiente familiar. No caso da homossexualidade masculina, o menino não encontra uma figura masculina próxima que lhe sirva como modelo, podendo não ser submetido a dinâmicas de incentivo e reconhecimento em torno de seu papel de gênero “natural”. Por exemplo: um homem cujo pai foi ausente e que conviveu na infância basicamente com a mãe, não teve um modelo de masculinidade para seguir, e, por isso, pode não ter sido inserido em atividades tipicamente masculinas, como “jogar bola”. Entretanto, pode ter passado a adquirir reconhecimento, a partir da mãe, em torno de atividades tipicamente femininas, como a limpeza dos utensílios domésticos.

Na escola, o “problema” se agravaria: o menino chega com um padrão de comportamento feminino e não é aceito pelos demais, mas, por outro lado, é acolhido pelas meninas, tendo ainda mais dificuldade para desenvolver sua masculinidade.

Por fim, ocorreria um processo chamado pela palestrante de “busca reparativa”. O homossexual passaria a buscar no outro aquilo que ele acha que não é (masculino) ou não tem (uma figura masculina próxima). É isso o que geraria no indivíduo a atração por pessoas do mesmo sexo.

A forma de “reverter” o processo seria oferecendo a esse homem modelos “adequados” para que ele pudesse segui-los, de forma que a sensação de não ter figuras masculinas próximas e de não ser masculino se dissipasse, e com isso a atração por pessoas do mesmo sexo.

Honestamente, eu me identifiquei profundamente com alguns dos processos apontados pela palestrante. E isso me deixou extremamente acuado. Como eu poderia me posicionar criticamente frente a um discurso que fazia todo o sentido em relação à minha própria biografia? No momento, eu tentei elaborar mentalmente contra-argumentos e não consegui. Senti muita vontade de me levantar e ir embora, por não querer aceitar a precisão daquele discurso contrário ao meu. Senti um ímpeto de apelar, por não saber responder à altura. 

Eu sempre defendi, e ainda defendo, que performance de gênero e orientação sexual são coisas distintas. Isso significa que um homem pode ser “afeminado” e, “mesmo assim”, ser genuinamente heterossexual. Assim como um homem homossexual pode ser bastante másculo. Entretanto, sempre me incomodou o fato de identificar que muitos homens homossexuais são “afeminados” e que muitos homens “afeminados” são homossexuais. Assim sendo, acredito que apesar de distintas, as duas características possuem alguma ligação entre si, mesmo que ela não seja de codeterminação.

Nessa direção, a teoria apresentada pela palestrante faz todo o sentido, até porque a tal "busca reparativa" explicaria também o caso dos homossexuais que, apesar da ausência do pai, não se tornaram "afeminados" (por terem sido, apesar disso, "devidamente" expostos a dinâmicas de incentivo e reconhecimento em torno de atividades tipicamente masculinas), já que ela também está relacionada ao sentimento de não ter um figura masculina próxima. Mas como eu poderia aceitar o potencial de esclarecimento desse discurso sobre o fenômeno sem concordar que a homossexualidade não é algo legítimo?

Uma grande fragilidade que eu encontrei no discurso da palestrante foi o fato de enxergar a heterossexualidade como uma prática natural, que não depende de um processo de socialização específico. Ora, se o processo de socialização “disfuncional” descrito por ela faz com que um homem torne-se “afeminado” e homossexual, para mim está claro que outro processo de socialização faz com que um homem torne-se másculo e heterossexual. E esse processo não tem nada de natural, pois se baseia na reafirmação de um sistema binário de gênero construído socialmente.

Homens e mulheres são indiscutivelmente seres biologicamente diferentes. Mas eles só se tornam seres socialmente diferentes a partir das normas e valores vigentes. Assim, aproximar-se de um modelo de performance de gênero ou de outro é aproximar-se de um modelo construído socialmente, seja ele o modelo considerado adequado ou não para o sexo do indivíduo. É claro, porém, que este é um ponto no qual são as minhas convicções e crenças como cientista social que batem de frente com as convicções e crenças presentes no discurso evangélico da palestrante.

Outra fragilidade é desconsiderar os fatores biológicos apenas por que eles não são determinantes. Até por que o modelo explicativo apresentado também não é determinante, já que nem todos os meninos sem pais presentes se tornam homossexuais. Em casos complexos como esse, em que nenhum fator aparece como determinante, pensar na possibilidade de existirem diferentes causas possíveis e de haver sobreposição de fatores afins geralmente é mais elucidativo.

A palestrante não indicou que a homossexualidade feminina ocorreria, similarmente ao caso da masculina, quando há a ausência de um modelo de conduta feminina "adequado". Ela apontou que os homens homossexuais vêm as mulheres como "divas", já que elas são seus modelos de conduta (o que também faz muito sentido pra mim), mas que as mulheres homossexuais, por outro lado, têm certa raiva dos homens em geral. Logo, apesar de não ter ficado claro, pareceu-me que a homossexualidade feminina estaria necessariamente ligada também a um "problema" de socialização relacionado a figuras masculinas, e não o contrário.

Ela chegou a dar como exemplo um caso de uma mulher que havia sido estuprada pelos primos na infância, e por isso desenvolveu um bloqueio em relação às figuras masculinas. Mas ela não afirmou, e me pareceria muito radical afirmar, que esse é o modelo-padrão de socialização "disfuncional" para as mulheres. Outro exemplo dado por ela foi o de uma menina que cresceu ouvindo dizer que o pai queria ter tido um menino. Parece-me que, diferente do caso dos homens homossexuais, ela não conseguiu apontar uma causa padrão para a "disfuncionalidade" da socialização feminina (o que pode ser visto como algo até mais sensato, já que as generalizações são geralmente equivocadas).

Para ela, a forma de reverter a homossexualidade feminina seria também dando bons exemplos de conduta masculina, que dissipariam a raiva que a mulher sente pelos homens, permitindo-lhe desenvolver atração por eles. Diferente da "busca reparativa" dos homens homossexuais, elas se interessariam por mulheres por achar que essas poderiam lhe dar o carinho que os homens não poderiam. Nessa parte específica, ela me pareceu bastante machista, ao dar como exemplo um homem que carrega um caixote pesado para uma lésbica, e ela se sente bem tratada por causa disso. O modelo da palestrante parece, portanto, estar completamente centrado na presença ou ausência de modelos de conduta masculina "adequados".

É claro que seria possível partir dessas explicações distintas que ela faz para o o caso de homens e mulheres homossexuais e tentar expandir para um quadro mais geral que incluísse ambos os grupos e que entendesse que tanto o caso da ausência de uma figura próxima do mesmo sexo, quanto o bloqueio em relação ao sexo oposto causado por uma experiência ruim, ou ainda o caso de achar que os pais gostariam que você fosse do sexo oposto poderiam ser vistos como fatores que levam à homossexualidade e ao comportamento de gênero desviante, tanto para homens quanto para mulheres. Mas essa é apenas uma viagem minha a partir das diferentes coisas que ela disse, já que achei que muitas das ideias trazidas por ela fazem sentido.

De qualquer forma, o discurso religioso tem todo o direito de considerar a homossexualidade um pecado. Pecado, como aprendi na forte formação cristã que tive, é tudo aquilo que nos afasta de Deus. O que é considerado pecado, para os cristãos, está indicado na Bíblia, o livro sagrado que eles acreditam ter sido escrito sob a inspiração divina. A leitura que se faz dos textos da Bíblia varia. Há quem leia os textos que condenariam a homossexualidade e faça a interpretação de que a condenação valia para as práticas homossexuais que eram realizadas na época, que tinham uma configuração muito diferente das contemporâneas. Entretanto é legítima a leitura que considera que qualquer prática homossexual está listada ali como um pecado.

Mas o discurso religioso não tem a prerrogativa de definir se um comportamento é baseado ou não numa irregularidade psicológica. Isso cabe à psicologia. Entretanto, não podemos ser cegos em relação a teorias fortes que surgem dentro do discurso religioso e que podem ser discutidas e verificadas pelo discurso científico. Pessoalmente, eu acredito que a orientação sexual de algumas pessoas até possa mudar ao longo da vida. Não a de todas as pessoas, mas a de algumas, talvez. Que variáveis poderiam fazer com que um caso seja passível de alteração ou não, eu não saberia apontar... Mas creio que, na maior parte dos casos, a alteração da orientação sexual provavelmente não seria possível, e a tentativa seria apenas um sofrimento imenso sem resultado algum. E mesmo para os casos em que poderia haver algum resultado, valeria a pena passar por esse sofrimento? De qualquer maneira, é óbvio que forçar alguém a passar por qualquer procedimento dessa natureza seria sempre inaceitável.

Uma certeza eu tenho: eu não gostaria de mudar minha orientação sexual, mesmo que isso fosse possível. E isso, porque eu não acho, diferentemente do discurso religioso, que a homossexualidade seja algo “disfuncional” ou “antinatural”. Acho tão funcional e tão natural e social quanto a heterossexualidade. E é aí que eu consigo aceitar que o discurso dessa palestrante é, para mim, elucidativo em relação a alguns casos de homossexualidade, como o meu próprio, mas não em relação à valoração que ela faz dessa característica. 

Mesmo que todos os meninos tivessem um pai presente, muitos deles poderiam, mesmo assim, identificar-se mais com modelos femininos que possuíssem e, dessa forma, desenvolver sua performance de gênero a partir deles. E isso de fato acontece. O problema não é esse processo, não é ele que é disfuncional, mas sim o preconceito, a intolerância e a violência contra esses indivíduos.

Do meu ponto de vista religioso pessoal, eu também não acho que a homossexualidade seja pecado. Primeiro porque a leitura que eu faço da Bíblia é essa de que as referências ali presentes não se aplicam aos formatos de relação homossexuais contemporâneos. Segundo, porque sou crítico em relação ao conteúdo dela: há muitas contradições entre o Novo e o Velho Testamento e muito dos valores pessoais dos indivíduos que a escreveram. Terceiro, porque para mim o essencial são os ensinamentos básicos de Cristo, que giram em torno apenas do amor e do respeito. E o que são os relacionamentos homossexuais contemporâneos senão uma forma de amor assim como as demais? Não acho que a homossexualidade afaste alguém de Deus, a intolerância a ela acho que sim.

Mas para os fiéis dessa igreja, que compartilham e são persuadidos por esse discurso a compartilhar da valoração que a palestrante faz da homossexualidade como algo "disfuncional" ou "antinatural", o sofrimento causado por ele pode ser imenso, e eles podem se forçar a tentar processos dolorosos de alteração de suas orientações sexuais sem resultado algum.

Termino o post com um elogio ao discurso da palestrante no que tange às palavras usadas por ela. Em nenhum momento ela disse “opção sexual” ou “homossexualismo”.

Quem deu a palestra foi Andréa Vargas, que é membro da Igreja Missionária Unida do Brasil (Ji-Paraná/RO), missionária em tempo Integral na Missão Avalanche (Vitória/ES), formada em Administração de Empresas com ênfase em Mercadologia (ESPM/SP) e em Estudos Bíblicos (Living Faith Bible College - Canadá) e especializada em Aconselhamento Cristão (SETEBES/ES). 

domingo, 15 de setembro de 2013

25 ANOS DE MIM MESMO

Viver é compulsório. Quando se dá conta, já se está vivo.
Tempo é imposição. Ora acelerado demais, ora lento demais.
Muitos parâmetros. Corpo, sociedade, universo.
Achar sentido. Ou passar a vida à procura dele?
Uma briga constante contra si mesmo.

[Contra minha aparência]
[ Contra minhas necessidades ]
[. Contra meu sentimento de solidão .]
[ . Contra minha sexualidade . ]
[. . Contra meus limites . .]

Já conquistei muito, mas...
Me sinto desgastado, desgostoso, desiludido.
Uma mola que se esticou demais e perdeu sua elasticidade.
E ainda é apenas o começo...

Pokémon, novela, seriados, sexo, afeto, amigos, família.
Dinheiro, beleza, masculinidade, prazos, saúde.
Tentando equilibrar a balança.
Até encontrar o fim de tudo isso.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CORREÇÕES: MANIFESTAÇÃO CONTRA LACERDA

Devido a problemas ocorridos na apuração que fiz durante a manifestação contra Lacerda em Diamantina, a matéria publicada neste blog estava com os seguintes erros, que já foram devidamente corrigidos:

1. Não são os bares da Rua da Quintana que contratam a vesperata. É a Prefeitura de Diamantina quem a produz, e os bares, por sua vez, apenas servem os clientes que compraram as mesas. Portanto, o montante arrecadado com a venda das mesas não vai para os bares, mas é usado pela Prefeitura para cobrir os custos do evento. Os bares lucram apenas com o consumo daqueles que compraram as mesas.

2. Como o evento é produzido, e não contratado, não é possível definir custos fixos para ele (anteriormente havia sido apontado um custo de 19 mil reais).

3. O custo de cada mesa é de 130 reais, e não de 400 reais, como apontado anteriormente.

Sento muito pelos erros de apuração ocorridos e peço perdão a todos pelos equívocos causados.

sábado, 27 de julho de 2013

MANIFESTAÇÃO CONTRA LACERDA EM DIAMANTINA

Eu (Vanrochris Vieira) estava ontem em Diamantina por causa do Festival de Inverno da UFMG, do qual sou um dos jornalistas.


Neste ano, paralelamente ao Festival de Inverno da UFMG, aconteceu em Diamantina o Encontro de Prefeitos de Minas Gerais.


Uma edição da vesperata, evento tradicional de Diamantina em que músicos tocam das janelas do segundo andar dos sobrados da esquina mais movimentada da cidade, foi organizada exclusivamente para esse Encontro.

Durante as vesperatas, a rua é fechada com uma corda e, nas edições oficiais, cobra-se 130 reais por cada mesa posta dentro dela.

Lacerda era um dos prefeitos que estavam no evento. Quando alguns jovens de Belo Horizonte que estavam na cidade por causa do Festival o viram, começaram a vaiá-lo e a gritar:

– Fora Lacerda!

– Hey, Lacerda, seu governo é uma merda!

O mestre de cerimônias do evento, então, disse:


– O Brasil tem vivido um momento  de descontentamento dos jovens, que, insatisfeitos, têm feito manifestações. Coincidência ou não, o Papa Francisco, em sua primeira viagem internacional, veio ao Brasil pedir aos jovens mais paz e tolerância.


Depois de um tempinho, os gritos dos manifestantes começaram novamente.

Em um momento no qual eu não estava entre eles (segundo diversos relatos de colegas meus que estavam lá), um homem chegou tentando lhes empurrar para longe dali, jogando-se para cima deles.

Segundo os relatos, uma das minhas colegas jogou um copo de quentão no rosto dele, e ele partiu para cima dela. O pessoal defendeu minha colega e mandou ele ir pra longe.

Depois, teria vindo mais um cara segurando um volume na cintura e mandando os manifestantes se dispersarem. Mas a polícia militar, que havia chegado pouco depois das primeiras vaias e estava circulando pelo local, teria se aproximado no momento e contido esse segundo homem. Tudo indica que ele seria um segurança de Lacerda ou de Paulo Célio, o prefeito de Diamantina.

A manifestação prosseguiu, a partir de então com a polícia por perto. O pessoal que estava do lado de dentro da corda começou a chamar os manifestantes de vagabundos, dizer que aquilo era uma falta de respeito e a vaiá-los. Nós (eu incluso entre os manifestantes a partir de então) revidamos:

– Vagabundo é o Lacerda!

O mestre de cerimônias:

– Juscelino era democrata e, como ele, respeitamos todas as manifestações. Mas este é apenas um evento musical.

Mas muitos outros gritos foram ouvidos na sequência, como:

– Começa com M, termina com “erda”, advinha o que é? É o Márcio Lacerda!

– Ele pisca quando mente. Ele mente quando pisca!

– Se o Lacerda não vazar, oh lê, oh lê, oh lá, não vai parar!

– Chegou em Diamantina a revolta do busão!

– Diamantina sem catraca!

O Festival de Inverno da UFMG, desde a edição passada, tem como uma de suas atividades o Tarifa Zero: ônibus da Universidade circulam com entrada gratuita por Diamantina durante o Festival. Apesar dos problemas de execução da atividade nesta edição (demora, procura maior do que oferta, alguns motoristas mal humorados e grossos, ausência de ônibus no horário noturno), a ideia é belíssima.

Uma senhora que estava dentro da corda disse:

– É isso que Diamantina merece, abrindo espaço pra vagabundo.

Ela provavelmente se referia às mudanças que ocorreram no Festival de Inverno nas últimas duas edições. Ele deixou de focar em artistas renomados e apresentações elitizadas, e passou a investir nas manifestações culturais marginalizadas, atingindo e abrindo espaço para moradores das periferias de Diamantina e Belo Horizonte.

Nas ruas, a maior parte das pessoas era contra os protestos, assim como os que estavam dentro da corda.

Exceto pelos jovens do bairro da Palha, periferia de Diamantina, que estavam por ali e se juntaram aos manifestantes, e por um ou outro mais.

Uma mulher disse, apontando para a corda:

– Eu sou filha de Diamantina e eu não concordo com isso! Eu tenho liberdade de passar de um lado pro outro!

Os manifestantes então gritaram:

– Tira a corda!

Algumas pessoas afirmaram ter visto o jornalista Paulo Navarro no local, e alguns manifestantes começaram a gritar contra ele também.

O mestre de cerimônias da vesperata interviu várias vezes dizendo coisas como:

– A vesperata é um evento muito importante para a cidade. Nós de Diamantina sempre acolhemos a todos de braços abertos, por isso, em troca, pedimos que façam o mesmo.

– Nós vamos parar a vesperata por cinco minutos para vocês fazerem o show de vocês. Se vocês pensam que têm o direito de fazer qualquer coisa, se enganam, o direito de vocês termina onde o dos outros começa.

E a gente respondeu:

– Quer me calar, não pode não! Artigo Quinto da Constituição!

– Hey, prefeitura ingrata, você não vive só de vesperata!

– Paulo Célio e Lacerda é tudo a mesma merda!

Em dois momentos da manifestação, eu lavei minha alma em relação à homofobia que sempre se vê nos gritos da galera. Na primeira vez, o pessoal começou a gritar:

– Hey, Paulo Célio, vai tomar no cu!

E na segunda, alguém sugeriu:

– Tem que tocar no brio do Lacerda, vamo chamar ele de viado!

Em ambas as vezes, eu gritei:

– Sem homofobia!

Da segunda vez, a pessoa que havia feito a sugestão respondeu:

– O povo, às vezes, é muito moralista!

E eu, então:

– Não, o povo, às vezes, é gay, e merece respeito!

Lacerda permaneceu o tempo todo imóvel, com cara de paisagem, ignorando a manifestação. Sua esposa, pelo contrário, ficou muito nervosa. Lá pelas tantas, eles acabaram mudando de mesa e indo para a do prefeito da cidade.

Quando o pessoal da vesperata desceu, foi aplaudido pelos manifestantes, que lhes gritaram parabéns.

No final, um dos manifestantes pediu para que uma moça que estava do lado de dentro da corda entregasse uma flor a Lacerda.

Ele acenou para os manifestantes com a flor, foi vaiado, e vaiou de volta os manifestantes, indo embora logo depois.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O PROBLEMA DO SEXISMO NOS BANHEIROS

Eu resolvi inventar um jeito de ser mais feminista nos meus textos feministas. Me lembrei da palavra “menine”, que se usa na Internet pra falar sobre um jovem andrógeno. Então pensei em usar o E como terminação em todas as palavras marcadas pelo gênero a partir do A ou do O. No artigo, para não confundir com a conjunção, vou usar o U. Este texto vai funcionar como um teste para ver se essa ideia gera algo legível. Assim sendo, por favor, me deem retorno depois de lerem, amigues!

Nosse sociedade é sexista du ponta du cabelo au dedão du pé. Nosse gênero é imposte a nós assim que nosses órgãos sexuais começam a se formar, ainda durante u gestação. E isse é tudo que importa: se temos buceta ou pinto. Se temos buceta, vamos gostar de cor-de-rosa, de brincar de boneque e de cozinhar. Vamos ser vaidoses, sensíveis e delicades. Se temos pinto, vamos gostar de azul, de brincar de carrinho e de jogar futebol. Vamos ser fortes, violentes e objetives.

Depois desse socialização primárie, u história continua nu escola. Lá tem um fila para menines com pinto e outra para menines com buceta. Us banheiros também são diferentes para cada um dus dois grupos. Afinal, seria um absurde menines com pinto frequentarem u mesme banheiro que menines com buceta. Primeire porque us menines com pinto são potenciais estupradores por natureza. Se eles verem um buceta nu frente deles, vão imediatamente querer colocar seus pintos dentro. Então é melhor evitar qualquer situação nu qual esse possibilidade exista, pelu menos estando eles desacompanhades de adultes. Segunde porque menines com buceta são naturalmente atraídes sexualmente por menines com pinto, e não com buceta como eles, e vice-versa. Obviamente, us dois argumentos que apresentei são irôniques.

Primeire, quando um pessoa vai au banheiro, ele não tem u mínime necessidade de ficar nu em frente aus outres. Mesme em vestiários, existe sempre u possibilidade de construirmos cabines de banho individuais, onde us pessoas possam se lavar, se secar e se vestir sem entrar em contato com ninguém. E u espaço necessárie para isse é pouco maior que u de vestiários coletives. Basta fazer corredores grandes, com cabines fines, e colocar dentro de cada um deles um chuveiro separade du resto du espaço por um box, além de um banquinho e ganchos du outre lado. U caso de cabines individuais para necessidades fisioloques é ainda mais fácil de resolver, basta eliminar us mictórios.

Segunde, cerca de dez por cento dus pessoas se sentem atraídes sexualmente por pessoas que tenham u mesme órgão sexual que eles, logo, segundo u lógica anteriormente empregade de forma irônique, banheiros dividides pelu órgão sexual dus pessoas favoreceriam u desenvolvimento du homossexualidade. Portanto, a fim de evitar qualquer contato sexual entre us crianças, de qualquer maneira se faria necessárie construir cabines individuais, tanto para necessidades fisiológiques quanto para banhos. No mais, poderíamos discutir se deveríamos ou não tolher u sexualidade dus crianças desse maneira, mas, para efeitos pratiques, nos limitemos aqui a aceitar esse pressuposto.

U divisão du banheiro pelu órgão sexual du usuárie tem ainda outre problema série: como adequar us banheiros para u uso pelus travestis e transexuais? Afinal, eles se comportam como se tivessem buceta quando na verdade têm pinto, ou vice-vera. Eliminar esse divisão simplesmente resolveria mais esse problema.

É claro que fazer esse mudança seria problemátique devido au fato de alguns pessoas não se sentirem confortáveis com ele. Mas não precisaria ser algo feite de um vez só. Poderíamos começar criando banheiros úniques au lado dus banheiros tradicionais, antes de us substituir de vez. Também poderíamos começar a fazer isso em ambientes frequentades por adultes, já totalmente responsáveis por seus ações, que não precisam ser vigiades, como nas faculdades.

Eu sou um pessoa com pinto, atraíde sexualmente por outrus pessoas com pinto, e um dus meus maiores sonhos é viver em um mundo cada vez menos sexiste.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Viado, afeminado, feio e baixo astral

Sim, Brasil: eu, Vanrochris Vieira, sou homossexual (no vocabulário corrente, sou "viado"), minha performance de gênero não se adequa ao padrão de masculinidade ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "afeminado"), minha aparência não se adequa ao padrão de beleza ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "feio") e, para completar, tenho depressão (no vocabulário corrente, sou "baixo astral").

Antes de eu ser concebido, esse era o meu quadro familiar: meu pai era alcoólatra e batia na minha mãe. Por isso, ela teve depressão durante toda a gravidez. Apanhou dele enquanto me esperava e durante toda a minha primeira infância. Eles se divorciaram quando eu tinha dois anos, depois disso, só fui vê-lo novamente por volta dos seis. Ao longo da vida, vi ele uma dúzia de vezes. Na vez mais longa, apenas por três dias. Ele morreu quando eu tinha dezessete anos. Fazia três anos que eu não o via.

Quando eles se separaram, um dos meus irmãos tinha doze anos e o outro catorze. O mais velho passou a trabalhar fora, assim como minha mãe. O outro cuidava de mim. Ele não tinha preparo, nem paciência para isso. O mais velho assumiu para si o papel de provedor da família e pai, em relação a mim. Papel para o qual ele, obviamente, também não estava preparado. Os dois, em ambas as atividades, me tratavam com muita rispidez e falta de paciência.

Quando eu tinha seis anos, meu irmão do meio foi assassinado. Ele tinha dezesseis anos. A polícia não investigou o crime, e o assassino não foi encontrado, nem o motivo do assassinato foi descoberto. Minha mãe não tratou da depressão dela e, nessa fase, ela piorou muito, ficando fortemente mal por alguns anos. Depois disso, ela se tornou bastante controladora e superprotetora em relação a mim.

Nosso quadro econômico era bastante ruim. Chegamos a não ter dinheiro para comprar alimentos básicos. Mas contamos com a ajuda dos meu avós para que eles não faltassem.

Nunca me adequei ao padrão de comportamento socialmente estabelecido para os meninos: não gostava de esportes, era sensível e delicado, introspectivo e gostava de atividades artísticas, como teatro e desenho. Sempre sofri bullying na escola. Sempre fui apontado como "viadinho" e "bicha", mesmo antes de sentir atração sexual por qualquer pessoa. Cheguei a sofrer agressão física por duas vezes. Minha família é muito católica, e eu também era. Neguei minha atração por pessoas do mesmo sexo e me puni por isso por vários anos. 

Para compensar minhas frustrações na infância, eu me tornei viciado em estudar. Queria ser o melhor, o primeiro em tudo. Queria saber tudo e não errar nunca.

Quando bebê, eu era bem gordinho. Mas tive duas anemias sucessivas, ainda nos primeiros anos de vida, e perdi muito peso. Na adolescência, ao crescer rapidamente, fiquei extremamente magro, e nunca mais consegui ganhar peso.

Sempre tive muita dificuldade para conseguir parceiros para relações afetivo-sexuais. Tinha dezesseis anos quando beijei um garoto pela primeira vez. O próximo cara com quem fiquei, foi o primeiro com quem transei, aos dezoito. Os dois foram encontros episódicos, proporcionados por um site de bate-papo.

Me apaixonei quatro ou cinco vezes até hoje. Todas elas foram frustradas, porque os caras não tinham interesse em ficar comigo. Namorei uma única vez, mas não gostava do cara, e, por isso, foi uma relação bem breve e desagradável. Transei com três caras até hoje: o primeiro, outro que também encontrei a partir de um bate-papo (e com quem também tive apenas um encontro episódico) e o cara com quem namorei. Nenhuma das vezes foi boa.

Há cerca de três anos, eu tinha um grande amigo pelo qual eu era apaixonado. Descobri, porém, que ele era alguém completamente diferente do que eu imaginava, mantendo uma vida dupla que incobria ações e características desvalorizadas cuja responsabilidade ele não queria assumir. Foi um golpe duro na minha confiança nas pessoas e na minha esperança em relação à vida. Foi aí que minha depressão se manifestou.

Não me entendam mal: não tenho e não quero, em hipótese alguma, que alguém tenha pena de mim. Nem só de elementos ruins é composta minha vida. Tenho uma família que me ama e me apóia e amigos super legais e presentes. Me formei em um excelente colégio técnico e em uma excelente universidade públicos. Morei seis meses na Europa (estudando com bolsa do governo federal).

A única coisa que demando é que eu deixe de ser punido e discirminado por ser "viado", "afeminado", "feio" e "baixo astral". Não sou culpado por nenhuma dessas características, porque nenhuma delas é um crime passível de culpa. Simplesmente é assim que eu sou. Já me envergonhei muito de tudo isso. Quero, agora, ter orgulho de quem eu sou.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tudo na realidade me incomoda

Nossa realidade social é um cu! Até mesmo nossa linguagem. Por exemplo: para expressar minha indignação, eu acabo de ser obrigado a recorrer a uma ideia pejorativa do ânus, que reforça a misoginia e a homofobia das quais eu sou apenas uma das inúmeras vítimas.

Esse cu em que vivemos mostra suas merdas (recorrendo agora à tendência higienista existente em relação às palavras de indignação) sempre e em todo lugar. Na Avenida Antônio Carlos, aqui em Belo Horizonte, por exemplo. Ao esperar um ônibus numa das pistas centrais, o que vemos, de um lado, são carros (projetados para carregar cinco pessoas) ocupados apenas pelo motorista, e, do outro, ônibus (que cabem menos de 40 pessoas sentadas) levando 80 ou 90 pessoas exprimidas como sardinhas enlatadas. É a versão moderna do navio negreiro. Aliás, a versão contemporânea (até quando vamos continuar achando que o adjetivo “moderno” carrega alguma novidade, se já deixamos a modernidade para trás há pelo menos meio século?). 

Ontem vi um anúncio de emprego para balconista. “Feminino”, ele dizia. Hoje vi outro para ajudante, em uma obra. “Masculino”, ele restringia. O Kinder Ovo acaba de lançar uma versão para meninos, com carrinhos e soldados de brinde. Outra versão para meninas, com princesas e maquiagens nas surpresas. Até quando, Jesus? Até quando continuaremos impondo às nossas crianças uma performance de gênero específica, por causa do órgão sexual que elas têm? Eu vendo sapatinhos de criança na Feira da Afonso Pena. A fabricante os faz para meninos (em cores sóbrias e sem detalhes) e para meninas (cor-de-rosa, florido, com lacinho). Que dor no meu coração quando chega uma grávida e eu tenho que perguntar se “vai ser menino ou menina”. Que dor no meu estômago quando um menino pega um cor-de-rosa, e a mãe xinga dizendo que aquele não é para ele.

Aliás, ter Jesus como vocativo no parágrafo anterior foi oportuno: até quando, Jesus, as igrejas pentecostais vão continuar espalhando o ódio contra as minorias e levando todo o dinheiro dos fiéis sem pagar impostos, e, ainda por cima, conseguindo todo o poder no Congresso?

Outro dia fui a um condomínio em Nova Lima, uma cidade vizinha de Belo Horizonte onde parte da elite econômica da cidade reside. Quanto conforto eles têm por lá! Mais carros do que moradores. Piscinas. Eletrodomésticos de última geração. Closets. Arquitetura ~moderna~. Obras de arte. Aí, voltando para casa, passei ao lado de uma favela. Passo por ela sempre, mas nesse dia, em especial, eu a olhei mais atentamente. Casas sem reboco e sem muro, nem cerca, empoleiradas uma em cima da outra. Telha de amianto. Três ou quatro pessoas dividindo o mesmo quarto. Às vezes ele é a sala também.

Eu moro bem, não passo fome. Mas isso é o suficiente? Quantas vezes eu já fiquei com vontade de comer alguma coisa e não tive dinheiro para pagar? Quantas vezes eu já quis ir a algum lugar (balada, exposição, cidade) e não tive dinheiro para a passagem ou para a entrada? Ai, que pobrezinho de mim... Pobrezinho de mim o caralho! Pobrezinho de todos nós que não moramos em Nova Lima (nem no Mangabeiras, ou no Belvedere, ou em qualquer outro bairro de elite). Principalmente aqueles que estão lá na favela. Entendam: eu não quero aqui apontar vilões e mocinhos, porque eles não existem. Podem acreditar: se eu tivesse grana suficiente era eu quem estaria morando em Nova Lima! E sabe esses conselhos do tipo: “Quando você estiver triste porque não tem dinheiro pra balada, lembra que tem gente sem dinheiro pra comer”. Vá se fuder! (Ê homofobia/misoginia nossa de cada dia!) Não é porque os outros tão muito mais ferrados do que eu, que eu vou ficar menos triste! Muito antes pelo contrário! Mais um motivo (e ainda mais forte) pra indignação!

Fico muito, mas muito triste que haja pessoas passando fome. Mas fico muito triste também quando penso que, provavelmente, minha mãe nunca conhecerá Paris. Assim como fico triste ao saber que muitas pessoas nunca vão transar com alguém gostoso na vida (a não ser que paguem por isso, o que é, talvez, ainda mais triste). Ou que muitos não vão ter uma única relação amorosa gratificante. Já disse outras vezes que penso que boa parte das causas da ~concentração de beleza~ são sociais. Mas até a realidade natural do nosso mundo me incomoda! Minha vó tem Alzheimer e não consegue lembrar mais o nome dos netos. Hoje vi nos olhos dela o sofrimento que isso lhe causa, e não pude fazer nada para ajudá-la. Pessoas doentes do corpo e da alma, sem tratamento. Que raiva da realidade social, mas também que raiva da objetividade do mundo!

Hoje sonhei que pintava um rio de roxo com lápis de cor. Mas acordei, em seguida, nesse mesmo mundo em que, todos os dias, temos que ser nós mesmos, até esperarmos a morte, pela velhice, ou pela doença. E, ainda por cima, tendo que jogar um jogo injusto demais!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Depressão não é tristeza

É uma doença, que caracteriza-se por:
  • Diminuição do nível de serotonina (neurotransmissor) no cérebro
  • Apatia (falta de emoção e entusiasmo)
  • Anedonia (forte diminuição da capacidade de sentir prazer)
  • Alterações de humor (momentos súbitos de raiva e tristeza)
  • Alterações cognitivas (diminuição da capacidade de raciocínio e de decisão)
  • Alterações psicomotoras (lentidão e fadiga)
  • Alterações no sono (hipersonolência ou insônia)
  • Alterações no apetite (perda ou aumento)
  • Alterações no ritmo circadiano (relação entre as horas do dia e as ações fisiológicas do corpo, como dormir e se alimentar)
  • Retraimento social e diminuição do rendimento profissional 
É isso! Beijos.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Viajando na viagem no tempo

Peço licença a todos os físicos, aos quais eu respeito e admiro muito, para viajar na maionese em relação à vigem no tempo (assim como já fiz em relação à evolução, sem pedir a devida licença aos biólogos). Meu objetivo em nenhum dos dois posts foi me mostrar sabichão em relação às duas disciplinas, mas sim, apresentar ideias que tive pesquisando e estudando temas específicos que cabe a essas disciplinas, tanto no ensino médio, quanto lendo artigos e discussões ou assistindo documentários e entrevistas por conta própria. No caso da física, ademais, conta pra essa minha inquietação intrometida um curso de extensão de um semestre em física moderna que fiz na UFMG. Meu propósito não é brigar com qualquer físico ou biólogo (que obviamente tem muito mais knowledge que eu) em relação a eu estar certo ou errado. Continuem, portanto, a acreditar neles, e não em mim! Mas viagem comigo primeiro! =D



Caso você, assim como eu, se interesse por física, mas seja leigo, fikdik deste artigo que explica de forma acessível o que é a Teoria das Cordas. Eu adoro Big Bang Theory, e o Sheldon vive falando dessa teoria, porque ele trabalha nela. Então fui pesquisar pra entender melhor (meu conhecimento era extremamente superficial, sabia apenas, por alto, da ideia das 26 dimensões, da proposição de que toda matéria é composta por "cordinhas" e da pretensão de unir a física quântica à relatividade, mas esse link me ensinou bastantes detalhes interessantes), e ler esse artigo foi o q, posteriormente, me instigou a publicar este post!

PS: Como última provocação, fica o teaser: Será q procurar certas coisas na ciência (ou no q temos chamado de ciência) não é procurá-las no lugar errado? Será q o q chamamos de "espiritualidade" não é o caminho ~ cientificamente ~ correto? Pense nas premonições, telepatias, "coincidências"...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os pokémon de Ash ao longo das temporadas do anime

Resolvi assumir as férias e começar a fazer coisas retardadas e relaxantes, porém ainda nerds, como sempre, rs.

No meu primeiro post nesta fase, resolvi fazer algo bastante retardado: um review dos pokémon do Ash através das temporadas do anime de Pokémon.

Então vamos lá:

PRIMEIRA GERAÇÃO: KANTO

Essa foi a região em que Ash começou sua jornada e de onde ele é natural (cidade de Pallet). Nessa região, viajaram, com Ash, Misty e Brock.


PIKACHU foi o primeiro pokémon de Ash, dado a ele pelo Professor Carvalho. O protagonista deveria escolher entre um Bulbasaur, um Charmander ou um Squirtle, mas como chegou atrasado na distribuição, só lhe sobrou o rato elétrico. Pikachu não gostava de Ash no começo, mas depois que o menino tentou salvar o pokémon de um ataque de Spearows selvagens, eles se tornaram melhores amigos. Pikachu já poderia ter evoluído com o uso de uma Pedra do Trovão dada a Ash pela enfermeira Joy da cidade de Vermilion, mas ele preferiu continuar em sua fase intermediária. Uma das peculiaridades de Pikachu é que ele não fica na sua pokébola. Ele é o único pokémon que acompanha Ash ininterruptamente até hoje.

BUTTERFREE foi capturado por Ash quando ainda era um Caterpie. Rapidamente ele evoluiu para Metapod e depois para o estágio final. Ele foi libertado por Ash quando se apaixonou por uma butterfree shiny selvagem.


PIDGEOT foi capturado por Ash em sua fase anterior, ou seja, como Pidgeotto. Ele foi libertado pelo treinador assim que evoluiu, pois desejava ficar com um grupo de Pidgeys selvagens, afim de protegê-los contra um grupo de Spearows rivais, que eram comandados por um Fearow que Ash havia tentado capturar enquanto ainda era um Spearow.

BULBASAUR era o guardião de uma instituição que cuidava de pokémon abandonados. Ele não confiava em nenhum treinador, até conhecer Ash. Ele já poderia ter evoluído, num ritual em que os Bulbasaurs se reúnem num jardim secreto com essa finalidade. Mas ele preferiu continuar no atual estágio. Atualmente, ele vive no laboratório do Professor Carvalho, onde lidera os outros pokémon de Ash.


SQUIRTLE fazia parte de um "esquadrão" de squirtles bagunceiros, quando ele decidiu seguir com Ash. Atualmente, ele lidera novamente o Esquadrão Squirtle, na cidade de Vermilion. mas ainda pertence ao treinador. Agora o Esquadrão Squirtle funciona como os bombeiros da cidade. Ele usa sunglasses quando está no Esquadrão.

CHARIZARD é um dos pokémon mais queridos pelos fãs do anime. Ele decidiu se juntar a Ash quando ainda era um Charmander, depois de ser abandonado por seu antigo treinador. Ao evoluir para Charmeleon deixou de obedecer Ash, adotando uma atitude arrogante e encrenqueira, o que continuou ao evoluir para Charizard. Só depois de muito tempo ele passou a reconhecer a força e a capacidade de Ash e tornou-se novamente leal a ele. Atualmente, Charizard está no Vale Charicific, sendo treinado por Liza, junto de outros Charizards, mas ainda continua sendo de Ash.


PRIMEAPE é outro pokémon que não obedecia Ash até reconhecer sua força. Atualmente, está sendo treinado por um especialista em competições de pokémon lutadores chamado Anthony, mas ainda pertence ao protagonista.

KINGLER foi capturado quando era um Krabby. Foi o primeiro pokémon que Ash enviou para o laboratório do Professor Carvalho, por ter excedido o limite de seis pokémon. Ele evoluiu para Kingler durante a Liga Pokémon de Kanto. Hoje ele continua no laboratório.


MUK é um pokémon bastante afetuoso, que desde que foi capturado vive no laboratório do Professor Carvalho.

TAUROS, no plural, porque Ash tem trinta deles! Todos foram capturados na Zona do Safári de Kanto e ficam no laboratório do Carvalho. Não era intenção de Ash capturar tantos, mas a cada vez que ele tentava capturar um pokémon diferente, ele acidentalmente capturava um novo Tauros.


HAUNTER é um dos pokémon que Ash nunca chegou a capturar oficialmente, ou seja, com uma pokébola. Entretanto, ele foi treinado pelo garoto por um pequeno espaço de tempo até ser dado para a líder de ginásio de Saffron, Sabrina.

RATICATE é um dos pokémon de Ash menos notáveis, pois o treinador o teve por apenas poucos instantes. Ele havia sido trocado por Butterfree, mas Ash se arrependeu logo depois e o destrocou.


PRIMEIRA GERAÇÃO: ARQUIPÉLAGO LARANJA

Ash foi para o Arquipélago Laranja, competir na Liga Laranja, depois de participar da Liga de Kanto. Nesse período, o acompanharam Misty e Tracey.


LAPRAS foi um pokémon filhote perdido que Ash resolveu levar consigo para ajudá-lo a encontrar seu bando. Quando isso aconteceu, ele foi libertado.

SNORLAX é o pokémon mais preguiçoso e comelão de Ash. Atualmente, ele vive no laboratório do Professor Carvalho.


SEGUNDA GERAÇÃO: JOHTO

O segundo continente que Ash percorreu foi Johto, que fica no mesmo bloco continental que Kanto. Nessa jornada, Misty continuou o acompanhando e Brock voltou a viajar com ele.


HERACROSS é o primeiro pokémon que Ash capturou em Johto. Ele foi quem resolveu acompanhar o treinador após conhecê-lo. Atualmente vive no laboratório do Professor Carvalho, onde gosta de sugar o néctar do bulbo de Bulbasaur.

BAYLEEF é um dos pokémon que mais venera Ash. Ela foi capturada enquanto Chikorita, evoluindo posteriormente. Agora vive no laboratório do Professor Carvalho.


QUILAVA só foi evoluir durante a Liga de Sinnoh. Ele foi capturado quando ainda era um Cyndaquil. Mora agora com os outros pokémon de Ash que são cuidados pelo Professor Carvalho.

TOTODILE foi disputado por Ash e Misty, sendo capturado pelo primeiro. Vive atualmente no laboratório do Carvalho.


NOCTOWL é o único pokémon shiny capturado por Ash. Vive hoje no laboratório do Carvalho.

DONPHAN foi criado por Ash desde que era apenas um ovo que ele ganhou. Do ovo nasceu Phanpy, que foi deixado no laboratório do Carvalho quando Ash foi para Hoenn. Depois que ele voltou para Kanto, no entanto, tornou a treiná-lo, e ele evoluiu para Donphan. Agora ele fica com o professor Carvalho, em seu laboratório.


LARVITAR foi, como Haunter, um pokémon não oficial de Ash. O treinador recebeu um ovo para ser entregue ao Professor Elm, mas ele eclodiu antes disso. Larvitar seguiu, então, sendo criado por Ash até que encontrou sua mãe, sendo deixado por ele com ela.

BEEDRILL é, como Raticate, um dos pokémon mais irrelevantes de Ash. Ganhado numa competição de caçar insetos, ele foi dado em seguida para Casey.



TERCEIRA GERAÇÃO: HOENN

Quando partiu para Hoenn, Ash só levou Pikachu consigo. Acompanharam-no, nessa fase, Brock, May e Max.


SWELLOW foi o primeiro pokémon de Ash em Hoenn. Foi capturado quando era um Taillow. Atualmente fica no laboratório do Professor Carvalho.

SCEPTILE foi capturado quando ainda era um Treecko, tendo evoluído posteriormente para Grovyle e depois para o estágio final. Agora mora no laboratório do Carvalho.


CORPHISH agora vive também no laboratório do Professor Carvalho.

TORKOAL é, talvez, o pokémon mais sentimental de Ash. Ele aceitou o convite de Ash para acompanhá-lo, após ser resgatado de ataques de pokémon selvagens. Agora mora também com os outros pokémon cuidados por Carvalho.


GLALIE foi capturado quando ainda era um Snorunt. Hoje vive no laboratório do Carvalho.


TERCEIRA GERAÇÃO: KANTO

Depois de concorrer na Liga de Hoenn, Ash voltou para Kanto, acompanhado de Max, May e Brock, para participar da Batalha da Fronteira.


AIPOM só foi capturada por Ash depois de ficar um bom tempo o perseguindo e roubando o seu boné. Posteriormente ela foi trocada por Buizel, com Dawn.


QUARTA GERAÇÃO: SINNOH

Para esse continente, Ash levou apenas Pikachu e Aipom. Acompanharam-no Dawn e Brock.


STARAPTOR foi capturado quando ainda era um Starly, evoluindo depois para Staravia e para a fase final. Hoje habita o laboratório do Professor Carvalho.

TORTERRA foi capturado quando Turtwig, tendo, obviamente, passado pelo estágio de Grotle.


INFERNAPE é um dos pokémon de Ash com uma das histórias mais tocantes. Quando ainda era um Chimchar, ele pertencia a Paul, que o maltratava para que ele desenvolvesse sua habilidade Blaze. Após ser abandonado por ele, Ash o convidou para se juntar ao seu time. Depois disso, ele evoluiu para Monferno enquanto Ash o usava numa batalha contra Paul. Quando já havia se tornado um Infernape, ele foi usado por Ash contra Paul na Liga de Sinnoh, sendo o responsável pela vitória de seu treinador. Hoje habita o laboratório do Carvalho.

BUIZEL pertencia inicialmente a Down, mas foi trocado com Ash por Aipom. Hoje ele habita junto com os outros pokémon cuidados por Carvalho.


GLISCOR decidiu seguir Ash quando ainda era um Gligar. Durante um tempo, ele foi deixado por Ash com McCann, um treinador que domina mais que ele as técnicas de treinamento de pokémon voadores. Agora não é certo se ele está no laboratório do Carvalho ou se retornou para o treinamento com McCain.

GIBLE é um dos pokémon mais hilários de Ash. Foi ele quem decidiu segui-lo. Quando estava aprendendo a usar Draco Meteor, sempre acertava sem querer a cabeça do Piplup da Dawn. Agora está no laboratório do Professor Carvalho.


QUINTA GERAÇÃO: UNOVA

Em Unova, Cilan e Iris acompanham Ash. O único pokémon que o treinador levou para o continente e carrega consigo permanentemente desde então é Pikachu. Os demais pokémon capturados em Unova ficam sendo revesados pelo treinador. Quando não estão com ele, permanecem no laboratório da Professora Juniper.


UNFEZANT foi, seguindo a tradição dos pokémon voador/normal de cada geração, o primeiro pokémon capturado por Ash em Unova, quando ainda era uma Pidove. Passou, obviamente, pela fase de Tranquill.

OSHAWOTT decidiu seguir Ash. Ele não era selvagem, mas um dos pokémon que estavam no laboratório da Professora Juniper para serem distribuídos para os novos treinadores. É um dos pokémon mais divertidos de Ash.


PIGNITE recusou-se a ser capturado por Iris e quis seguir com Ash quando era um Tepig. Ele havia sido abandonado por seu treinador anterior.

SNIVY é arrogante como Charizard e Primeape, mas diferente deles nunca deixou de obedecer Ash, desde que foi capturada.


SCRAGGY está com Ash desde que era um ovo, que ele ganhou.

LEAVANNY resolveu seguir Ash quando era um Sewaddle, passando também pelo estágio de Swadloon.


PALPITOAD foi capturado por Ash, enquanto seu amigo Stunfisk foi capturado por Cilan.

BOLDORE foi capturado quando era um Roggenrola.


KROOKODILE persegue Ash desde que era um Sandile. Ele, no entanto, só foi capturado após evoluir para Krokorok. Ele usa sunglasses.