terça-feira, 31 de dezembro de 2013

POR QUÊ, DIABOS, A GENTE AMA O FÉLIX?

09/01: Atualizações em verde.
01/02: Atualizações em roxo.

Há cerca de um ano atrás, escrevi duas análise a respeito de Carminha, de Avenida Brasil (elas estão aqui e aqui). O fascínio do público por uma vilã tão forte me intrigou e me fez refletir o motivo de tanta adoração. Este ano, um fenômeno parecido se repete com o gosto do público por Félix. Mas Félix e Carminha, apesar de ambos serem vilões, são personagens com perfis muito diferentes. Dessa forma, mais uma vez eu precisei refletir muito para conseguir pistas sobre os motivos dessa nova identificação. Amor à Vida ainda não terminou, mas me arrisco, desta vez, a construir uma análise no calor do acontecimento, mesmo que ela tenha que ser revista depois.

Comparando Félix com Carminha, evidencia-se claramente uma diferença básica. Carminha não tinha um perfil de psicopata: ela sofria constantemente por culpa e remorso em relação às maldades que cometia e não tinha o sangue frio necessário para matar seus inimigos. Félix, por outro lado, foi capaz de abandonar à morte uma criança recém-nascida, sem nenhuma dificuldade e sem remorsos posteriores.

A figura do psicopata, no discurso médico, é a pessoa que, devido a um transtorno mental, não possui a capacidade de processar sensações como a culpa, o remorso e a empatia (colocar-se no lugar dos outros). Na novela, ela aparece, em uma discussão entre Bernarda e Pilar, como a pessoa que, devido a uma doença mental, é absolutamente malvada. Bernarda não acredita que o neto seja um psicopata, mas sim que apresenta um perfil psicológico parecido com o de um psicopata, devido a uma “falta de amor”.

O caminho encontrado por Walcyr Carrasco para salvar Félix foi similar ao de João Emanuel Carneiro para salvar Carminha: transferir o vilão. Walcyr, além de conduzir melhor essa transferência (afinal, ele já tinha o exemplo da pioneira, mas abrupta forma encontrada por João Emanuel Carneiro), o fez de forma mais pulverizada. No caso de Carminha, toda a maldade recaiu sobre seu pai, Santiago. Para aliviar a barra de Félix, a vilania do roteiro foi transferida primeiramente para César, mas depois para Amarylis e Aline. Por hora, vejamos apenas a situação de César.

Félix teria se tornado uma pessoa com “um perfil próximo ao de um psicopata” devido à “falta de amor” relegada a ele por César, graças à sua “afeminação” e à culpa que o pai lhe atribuía pela morte do irmão mais velho, Cristiano. Dessa forma, assim como Carminha se inocentou da responsabilidade por sua maldade devido ao fato de ela ter sofrido duramente durante a infância, também Félix torna-se isento de sua responsabilidade devido ao fato de ter adquirido seu perfil psicológico graças à forma como seu pai lhe tratara.

Bernarda acredita que Félix possa ser capaz de mudar seu perfil psicológico ao receber o amor que sempre lhe faltou, ao entrar em contato com a alma de um anjo (metáfora criada por Niko). É isso o que acontece com ele quando o vilão passa a viver com Márcia e torna-se próximo a Niko. A sacada é antiga: a narrativa da redenção por meio do amor sempre foi uma das bases dos enredos das telenovelas. Márcia e Niko seriam os anjos da metáfora, capazes de transformar Félix.

Mas para o discurso médico, a psicopatia é algo irreversível, apesar da crença recorrente das pessoas próximas ao psicopata de que ela seria possível. O posicionamento de Bernarda, ao não enquadrar o neto como psicopata, mas sim como alguém que tenha adquirido um “perfil parecido com o de um psicopata” vai nessa direção: tenta tirar da visão que se tem do neto a impossibilidade de mudança, ao negar-lhe esse rótulo. Ora, qual seria a diferença entre um psicopata e alguém com o “perfil parecido com o de um psicopata” senão, justamente, a possibilidade de reversão desse quadro?

Mesmo assim, Walcyr tinha um grande pepino em suas mãos: como transformar Félix em uma pessoa melhor sem negar o perfil psicológico que ele próprio construiu para a personagem? Félix, em nenhum momento mostrou, de fato, remorso ou culpa pelos atos que cometeu. Pelo contrário, conversando com Márcia, ele disse aos risos: “Eu? Ficar cuidando da Marijeyne? Não, não, não! Não suporto criança! Já joguei uma na caçamba, posso jogar ela também. Você não tem medo disso?”. Entretanto, logo na sequência, vendo-se obrigado a cuidar da criança, ele aprendeu, com essa experiência, que uma situação que ele considerava ruim (o convívio com crianças) pode ser, na verdade, muito boa.

É também pela experiência que ele aprendeu porque determinadas ações não devem ser feitas, como o ato de abandonar uma criança à morte. Afinal, tal ação foi o que fez com que ele passasse por várias experiências negativas, como perder o status social e econômico que ele possuía. Ao invés de sofrer de remorso por ter cometido as coisas que cometeu, Félix foi condicionado, pela experiência, a considerar um erro realizar ações como essas. 

Acima de tudo, Félix aprendeu que há outras formas, outros meios para se conquistar as coisas na vida. Enquanto a forma que ele usava funcionava (ou pelo menos parecia que iria funcionar), ele continuou com ela, mas quando ela falhou, ele viu que a cooperação pode funcionar melhor. Esperto como é, adaptou-se e aprendeu a jogar o jogo da vida com cartas novas.

Outra característica do perfil psicopático que Félix apresenta é fazer-se o tempo todo de vítima, com seus bordões do tipo “Eu devo ter salgado a santa ceia para merecer” isso ou aquilo. Mas, o próprio discurso médico aponta que a psicopatia manifesta-se em diferentes graus. Félix mostrou-se capaz de apresentar empatia por pessoas que lhe ajudaram em momentos de dificuldade, ou seja, Márcia e Niko. Inclusive, dando para Márcia metade de seu rendimento mensal. Mostrou empatia também pelo filho de Aline e César, ao vê-lo abandonado como antes ele abandonara Paulinha. 

Numa segunda fase, Amarylis aparece como a vilã à qual Félix se opõe como herói para salvar Niko. Posteriormente é Aline que ele combate para salvar César. E é isso o que proporciona sua reconciliação com Paloma, e depois também com Paulinha. É a partir dessa reconciliação que fica evidente o quanto ele mudou: não aceita um cargo de presidência no hospital, que antes era seu objetivo, porque agora tem outros planos de vida.

Mas Félix não mudou assim da água para o vinho, e isso aponta uma coerência da personagem, que faz com que sua trajetória não fique agarrada na goela dos telespectadores, mas desça, ganhando a confiança deles de que ela, por ser verossímil, parece verdadeira. O "ato de generosidade" que realizou ao entregar o pendrive de Mariah a Paloma, relevou ele no dia seguinte à sua Mami Poderosa, foi, antes de mais nada, uma estratégia para distrair Bruno e Paloma e sair ileso depois de toda a confissão, que só ocorreu por pressão de Pilar, que ameaçava tirar-lhe os luxos reconquistados.

Depois da sessão de revelações, Félix foi até a casa de Niko se esforçando pra sentir dor e arrependimento pelas coisas que fez e que, agora com seu novo julgamento à respeito de como é e como não é adequado agir, considera erradas. Mas o esforço imenso pra se atingir um sofrimento raso e efêmero é de dar pena (não do ator, como sempre ótimo, mas da personagem).
Também quando Paloma se reconcilia com ele, ele não chora, apenas se emocionando quando ela lhe oferece um cargo no hospital. Mas consegue se emocionar de fato ao receber do pai o reconhecimento que sempre lhe faltara.

Passar toda a verdade a limpo foi algo importante para a trajetória da personagem. Assim como também foi importante ele ter recebido uns tabefes de Paloma, afinal, o público de novela já demonstrou que gosta de uma boa vingança, e que ela ajuda muito a deixar as personagens quites (vide Carminha e Nina de Avenida Brasil).

Pagar pelos seus atos também é algo que João e Walcyr usaram para redimir seus vilões. Carminha pagou indo morar no lixão com Lucinda. Félix iniciou seu pagamento tendo que vender hot dog ao lado de Márcia. Respeitando o seu “perfil próximo ao de um psicopata”, Félix adaptou-se rapidamente à sua nova realidade, autointitulando-se o “rei do hot dog”. No fim, ele e César pagaram mutuamente: tendo que conviver um com o outro, com suas diferenças e dificuldades.

Algo que sempre me incomodou nos discursos sobre a psicopatia é a crueldade com que se condena o psicopata ao isolamento social. O psicopata, ou alguém “com o perfil parecido com o de um psicopata”, como quer Bernarda (afinal, o que é esse termo além de um rótulo dado às pessoas com esse perfil pela medicina?), não é responsável por sua incapacidade de sentir culpa e empatia, que é o que o leva a ser capaz de cometer atos prejudiciais aos outros com tanta naturalidade. Não havendo a possibilidade de reverter essa incapacidade, não haveria nenhuma outra forma de condicionar o psicopata ao bom convívio social? Félix é a visão esperançosa de que sim, por isso é uma personagem tão conquistadora.

É claro que esse é apenas um dos elementos que fazem com que a personagem seja tão querida. Há outros mais evidentes, e talvez mais fortes, mas que, acredito eu, não seriam capazes de gerar tamanha identificação sem o complexo esquema que analisamos até então.

Esses elementos evidentes são parecidos com os que possuía Carminha. Félix, além de ser bem construído pelo autor, é interpretado por um ótimo ator. O vilão é carismático devido ao seu bom-humor e sua autenticidade. Ele é uma personagem única, forte e impositiva, que acredita no que diz (ele não cansa de dizer que é mal) e no que faz. Apesar das encenações de falsidade em relação a outras personagens, sua real face foi apresentada para nós desde o começo, o que adiciona o elemento da cumplicidade que sentimos em relação a ele, e não a Amarylis e Aline, por exemplo.

Não é à toa que o final da novela foi focado na relação dele com seu pai. Não é a toa que essa personagem deu o primeiro beijo gay da nossa teledramaturgia. O beijo e o tão sonhado "eu te amo" vindo de César foram os pagamentos recebidos por ele por ter sido tão amado pelo público.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

DIGA NÃO AO PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Eis uma luta que eu não canso nunca de lutar!

Se você se incomoda que os outros escrevam "mais" no lugar de "mas", "agente" no lugar de "a gente", "menas" no lugar de "menos", você é um tanto quanto ignorante.

Calma, você não é ignorante no sentido de "burro", você é ignorante no sentido de "alguém que ignora alguma coisa". Mas como você entende muito sobre o português padrão, deve saber bem qual é o sentido denotativo dessa palavra.

Entretanto, deve ter pensando primeiro no seu uso mais corrente (com o sentido de "burro"). Por que será? Porque ao contrário da forma como você vê a língua, ela não é um sistema fechado, mas algo vivo em contínua mutação. Assim, não só os sentidos das palavras mudam com o tempo, de forma natural, mas também a grafia delas. É isso o que você ignora. Eu era exatamente igual a você até perceber isso.

Se as palavras não mudassem, ainda usaríamos "vossa mercê", no lugar de "você", e "o que é de", no lugar de "cadê". Essas mudanças que você considera erros são a língua se desenvolvendo.

Portanto, em 2014, vamos ser menos reacionários e mais abertos às mudanças, que são o que fazem a vida ter graça, pfvr?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

TATUAGEM

Esse rabisco, em breve, vai estampar meu braço para sempre.

Cis- é o contrário de trans-. Cis-tema é um trocadilho que indica o sistema cis-, ou seja, o conjunto de normas relacionados à heteronormatividade e à naturalização das construções de gênero a ela relacionadas. 

A ideia da tatuagem partiu de uma campanha estadunidense que está estampada na camiseta da foto abaixo. A minha tentativa foi adaptá-la para que ela ficasse mais parecida com um manifesto, como nas pixações políticas (já que a frase me chamou atenção justamente em forma de pixação, numa parede da Fafich).

Os dois símbolos de masculino intercalados remetem à homossexualidade entre homens, e o símbolo misto de masculino e feminino remete a performances de gênero masculinas não normativas, dentro da lógica cis-têmica (chamadas pejorativamente de "afeminação"). 


sábado, 14 de dezembro de 2013

TERAPIA EM FORMA DE REVOLUÇÃO POP

Com o lançamento do álbum Beyoncé na madrugada de ontem, Queen B imprimiu uma marca forte na história da música pop. Ela teve uma idéia muito simples, do ponto de vista conceitual, mas, ao mesmo tempo, muito complicada do ponto de vista de sua execução. Beyoncé erigiu um novo formato, completamente diferente, de álbum musical. Um “álbum visual”, nas suas próprias palavras. Ao invés de um álbum composto de canções, um álbum composto de videoclipes. Abaixo, segue uma análise de cada um dos vídeos do projeto, no qual a cantora enfrenta seus fantasmas.

Pretty hurts: Uma das qualidades mais destacadas de Beyoncé é sua beleza. Mas o preço caro que se paga para tê-la é o tema do primeiro vídeo do álbum. Nele, Beyoncé é uma candidata a miss que se força a vomitar, sofrer humilhações calada, ingerir drogas, entre outras coisas tão degradantes quanto em nome de um padrão de beleza extremamente difícil de se alcançar. A letra da música fala de uma menina que cresceu ouvindo que o importante é a aparência, e não o que se “tem na cabeça”. No entanto, quando ela é questionada sobre o que a move, um vazio aparece, e ela se depara com a contradição de sua própria resposta: “ser feliz”. Apesar de todo o esforço, ela perde o concurso, de forma que todo o sofrimento se mostra em vão. No final do vídeo, um registro pessoal de Beyoncé participando de um concurso quando criança evidencia a dimensão biográfica da história.

Ghost: A questão do sentimento de vazio em relação à vida volta no segundo vídeo, no qual uma fantasmagórica Beyoncé se pergunta qual é a razão para se trabalhar tanto, se é tudo tão entediante, apenas manter-se vivo?

Haunted: Um vídeo que me lembrou muito Justify Your Love, da Madonna. Beyoncé circula pelos corredores de uma mansão em que cada quarto guarda personagens bizarros, entre eles, uma família convencional, que, no entanto, não tem a vida que os demais possuem, pois é representada por manequins ao invés de pessoas. As demais figuras podem ser assustadoras em suas excentricidades, mas elas são autênticas, e é isso o que lhes dá vida. O início do vídeo tem um diálogo forte com a vídeo-arte. 

Drunk in Love: Uma Beyoncé linda e sensual, mas que se sente como um troféu. Enquanto ela canta apaixonada para Jay-Z, ele adota uma posição indiferente em relação a ela. Atrás da aparente realização dela com o relacionamento dos dois, e do sorriso que parece tão legítimo, um quê de artificialidade paira sobre eles.

Blow: Um quê de Nicki Minaj, em Super Bass. Essa é a minha grande aposta para estourar nas pistas. Uma música bastante comercial e com clima de sensualidade e festa.

No Angel: Um subúrbio negro estadunidense. Valorizado em sua estética e sistemas de legitimação próprios: a ostentação, com carros, motos e até mulheres, a fumaça do fumo, o estilo gangstar dos homens. Apesar das críticas à aparência “embranquecida” de Beyoncé, uma negra loira de cabelos alisados, ela nunca se distanciou de seu posicionamento enquanto negra, algo que está presente na sonoridade e no estilo de todos os seus álbuns. 

Yoncé: Beyoncé ostentação. Esfregando na cara da sociedade que é rica, famosa, invejada e modelo para uma legião de mulheres, e as recalcadas que se mudem.

Particion: Uma Beyoncé que adora e que quer ser desejada. “Homens acham que as feministas detestam o sexo, mas é uma atividade muito estimulante e natural, que as mulheres adoram”. Outra crítica que Beyoncé recebe frequentemente é a de como ela se diz feminista se coloca seu corpo como um objeto de desejo sexual. Mas Beyoncé propõe uma forma de emancipação feminina que não nega os papeis de gênero vigentes, mas usa os elementos que submetem a feminilidade à dominação masculina, como a sensualidade e o corpo, como armas para subvertê-la.

Jealous: Uma continuação do vídeo anterior. Cansada de não ser valorizada, ela vai buscar na rua o reconhecimento que não encontra em sua relação. Mas não encontra ali também o reconhecimento que busca, e então resolve voltar para o aconchego que a relação que possui pode lhe oferecer. Seria uma metáfora de sua relação com Jay-Z? Uma vida tão perfeita aos olhos do público, beleza, família, carreira de sucesso, o que pode estar escondendo de dor e sofrimento interno? Não seria a primeira vez que Beyoncé desabafa sofre uma relação pessoal difícil através de uma música. Ela fez isso em Listen, falando sobre a decisão de cortar seu pai de sua vida profissional.

Rocket: Beyoncé sendo incrivelmente gostosa. Seu corpo é um universo de prazeres. A fotografia e a direção de arte desse vídeo são simplesmente sensacionais. O significado mais puro de ser “sexy sem ser vulgar”.

Mine: o vídeo mais empolgante do álbum. Começa com o clima fantasmagórico de Ghost, com Beyoncé segurando um ser desfalecido e uma máscara, como se simbolizassem seu cansaço e a preocupação constante com a aparência. Ela fala de uma possível separação, que estaria sendo pauta de conversas que estaria tendo, e de não estar se sentindo a mesma desde o “bebê”, em uma aparente clara referência a Jay-Z e Blue Ivy. Mas o clima evolui de uma forma tão natural que se toma um susto quando se percebe onde ele vai parar: o clima de morte e vazio é substituído por outro de celebração, vida e amor. Ela diz que quer acreditar que deveria estar casada e pede uma contrapartida. Precisa esclarecer mais do que ela está falando?

XO: Beyoncé sendo feliz. Entrando em contato com seu público, que é algo que parece alimentar a alma da cantora. Ela é uma fofa, e dá prova disso a cada show, participando do FaceTime de um fã, fazendo Photobomb na foto de outra, pedindo para os seguranças não agredirem o fã que pulou em cima dela e quase a derrubou, no Brasil.

***Fawless: imagens de Beyoncé adolescente competindo com as amigas em um concurso de calouros, e perdendo para um grupo masculino, são intermediadas por “bow down, bitches”. Beyoncé coloca @s inimig@s no lugar e esfrega na cara del@s tudo o que conseguiu. Um texto falado trata da igualdade de gêneros que não existe, desde a educação que se dá a meninos e meninas, e o feminismo é conceitualizado como a tentativa de alcançá-la.

Superpower: um vídeo motivacional sobre o poder de mudar o mundo que temos quando nos unimos em torno de nossas causas. Vários amigos e companheiros de vida de Beyoncé fazem parte do vídeo.

Heaven: “O paraíso não poderia esperar por você”. Antes de Blue Ivy, Beyoncé sofreu um aborto espontâneo, que foi algo muito doloroso para ela e Jay-Z. Ele também já fez uma música sobre esse tema. No seu documentário “Life is but a dream”, ela também trata desse tema delicado e muito triste. Clipe muito sensível, com ótima direção de arte.

Blue: Em seguida ao vídeo sobre a perda, o vídeo sobre a filha. No Rio de Janeiro, com favela contendo muito criança feliz, jogando bola e dançando o passinho, que parece ter encantado a cantora. Essas crianças parecem ser o link que fez com que Beyoncé escolhesse esse cenário para homenagear a filha. A cidade é retratada com muita poesia e beleza própria, dando muito orgulho para mim, enquanto brasileiro. No final, Blue diz algumas palavras, da forma mais fofa do mundo.

Grown Woman: Eu sei o que estou fazendo, a vida é minha, não enche. Essa é a mensagem desse vídeo, que mescla arquivos pessoais de todas as fases da vida da cantora com remontagens deles com ela no presente. A família da cantora está muito presente no clipe. As imagens mostram como ela é treinada para ser a estrela que é desde pequena. Em algumas cenas, ela criança parece estar cantando com uma perfeição espantosa a música da Beyoncé crescida.

domingo, 17 de novembro de 2013

PEQUENO GLOSSÁRIO SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL

Tenho visto cada vez mais o quanto é importante fazermos uma separação entre “sexo biológico”, “identidade de gênero”, “performance de gênero” e “orientação sexual”, porque cada uma dessas categorias se refere a um aspecto diferente da questão da diversidade sexual.

As sexualidades das pessoas são como palavras de um texto: cada uma tem uma fonte, um tamanho, uma cor, e uma formatação (negrito, itálico, etc.), e cada uma dessas características é independente das demais.

O “sexo biológico” define com que características relacionadas ao dimorfismo sexual da espécie humana o indivíduo nasceu. Esse dimorfismo está relacionado à cadeia cromossômica do indivíduo. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “macho”, “fêmea” ou “intersexual”. “Macho” é a pessoa que nasceu com um pênis padrão. Essa pessoa tem um cromossomo X e um cromossomo Y. “Fêmea” é a pessoa que nasceu com uma vulva padrão. Essa pessoa tem dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y. “Interssexual” é a pessoa que nasceu com um pênis fora do padrão, ou com uma vulva fora do padrão. Essa pessoa nasceu com um clitóris muito grande em relação aos clitóris padrão (no caso de pessoas com dois cromossomos X e nenhum cromossomo Y), ou com um pênis muito pequeno em relação aos pênis padrão (no caso de pessoas com um cromossomo X e um cromossomo Y), ou com um pênis e uma vulva (no caso de cadeias cromossômicas com características que não se inserem em nenhum dos dois tipos de padrão).

A “identidade de gênero” define como a pessoa se autoidentifica. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “mulher”, “homem” ou “neutra”. “Mulher” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como mulheres. “Homem” é a pessoa que normalmente se sente pertencente à mesma categoria das outras pessoas que se apresentam como homens. “Neutra” é a pessoa que normalmente não se autoidentifica a partir de categorias de gênero

A “performance de gênero” define como uma pessoa se comporta e que tipo de aparência ela apresenta. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “feminina”, “masculina”, “queer”, ou “andrógina”. “Feminina” é ê pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de feminilidade. “Masculina” é a pessoa que normalmente aproxima sua aparência e seus comportamentos de um ideal de masculinidade. “Queer” é a pessoa que normalmente aproxima alguns elementos de sua aparência e de seus comportamentos de um ideal de feminilidade e outros de um ideal de masculinidade. “Andrógina” é a pessoa cuja aparência e comportamentos normalmente não se aproximam de nenhum desses ideais.

A “orientação sexual” define por que tipo de pessoas o indivíduo se sente sexualmente atraído. Ela tem a ver com a “performance de gênero” dessas pessoas. Nesse sentido, uma pessoa pode ser “homossexual”, “heterossexual”, “bissexual” ou “pansexual”. “Homossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “masculinas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “femininas”. “Heterossexual” é o “homem” que normalmente se sente sexualmente atraído por pessoas “femininas” e também a “mulher” que normalmente se sente sexualmente atraída por pessoas “masculinas”. “Bissexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída tanto por pessoas “masculinas” quanto por pessoas “femininas”. “Pansexual” é a pessoa que normalmente se sente sexualmente atraída por outras pessoas, independentemente de sua “performance de gênero”.

Ademais, há duas relações entre essas categorias que também precisam ser entendidas. A relação entre “sexo biológico” e “identidade de gênero” e a relação entre “sexo biológico” e “performance de gênero”. Quando um “macho” se autoidentifica como “mulher”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “homem”, essa pessoa é “transsexual”. Quando um “macho” se autoidentifica como “homem”, ou quando uma “fêmea” se autoidentifica como “mulher”, essa pessoa é “cissexual”. Quando um “macho” é “feminino”, ou quando uma “fêmea” é “masculina”, essa pessoa é “transgênero”. Quando um “macho” é “masculino”, ou quando uma “fêmea” é “feminina”, essa pessoa é “cisgênero”.

Há denominações alternativas que, no entanto, carregam uma carga grande de preconceito. Uma delas é a de “travesti”, que se refere aos machos transgêneros. Outra é “afeminado”, que se refere aos machos femininos (e, portanto, transgêneros) ou queers. Essa denominação é especialmente problemática por que aponta a feminilidade como algo desviante para o macho. Ainda mais uma é “hermafrodita”, que se refere aos interssexuais que nasceram com um pênis e uma vulva. Outras denominações alternativas não carregam a mesma carga de preconceito, como os termos “gay”, para se referir a homens homossexuais, e “lésbica”, para se referir a mulheres homossexuais. Já os termos “viado” e “sapatão”, que têm a mesma finalidade, também carregam grande carga de preconceito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MEUS CHOQUES AO PESQUISAR O DISCURSO EVANGÉLICO

Na semana passada, comecei a fazer minha pesquisa de campo sobre os embates discursivos entre evangélicos e LGBTs em torno de questões ligadas à masculinidade, para o mestrado. O meu primeiro contato com o campo foi na Igreja Batista da Lagoinha, onde fui a uma palestra sobre a homossexualidade. 

O discurso da palestrante foi de que os homossexuais devem ser acolhidos pela igreja, apesar de a homossexualidade ser um pecado, não ser natural e ser resultado de uma “disfuncionalidade” no processo de socialização do indivíduo. A igreja teria que dar instrução e apoio para que o indivíduo consiga deixar de ser homossexual. Ela argumentou também que o pecado da homossexualidade não é mais grave que nenhum outro pecado ligado à sexualidade, e que esses, por sua vez, não são mais graves que outros pecados quaisquer.

Eu fiquei surpreso com o fato de os argumentos apresentados contra a homossexualidade por esse discurso não serem tão radicais quanto eu esperava e terem, até mesmo, um grau consideravelmente alto de defensabilidade. A minha primeira grande dificuldade, portanto, foi aceitar como razoável o fato de um grupo não considerar a homossexualidade uma característica legítima.

A palestrante excluiu a possibilidade de se considerar a causa da homossexualidade como sendo biológica (nenhum cientista jamais conseguiu isolar um gene responsável pela homossexualidade e, se a causa fosse hormonal, a aplicação de hormônios “adequados” “resolveria o problema”), nem espiritual (mesmo que um homossexual esteja possuído, sua libertação não é capaz de alterar seu desejo sexual) ou voluntária (ninguém é capaz de definir por quem se sente atraído, e o homossexual, geralmente, quando se percebe como tal, tenta reprimir e converter seu desejo sem sucesso).

Ela aponta, então, como causa, uma “disfuncionalidade” no processo de socialização, cuja origem estaria no ambiente familiar. No caso da homossexualidade masculina, o menino não encontra uma figura masculina próxima que lhe sirva como modelo, podendo não ser submetido a dinâmicas de incentivo e reconhecimento em torno de seu papel de gênero “natural”. Por exemplo: um homem cujo pai foi ausente e que conviveu na infância basicamente com a mãe, não teve um modelo de masculinidade para seguir, e, por isso, pode não ter sido inserido em atividades tipicamente masculinas, como “jogar bola”. Entretanto, pode ter passado a adquirir reconhecimento, a partir da mãe, em torno de atividades tipicamente femininas, como a limpeza dos utensílios domésticos.

Na escola, o “problema” se agravaria: o menino chega com um padrão de comportamento feminino e não é aceito pelos demais, mas, por outro lado, é acolhido pelas meninas, tendo ainda mais dificuldade para desenvolver sua masculinidade.

Por fim, ocorreria um processo chamado pela palestrante de “busca reparativa”. O homossexual passaria a buscar no outro aquilo que ele acha que não é (masculino) ou não tem (uma figura masculina próxima). É isso o que geraria no indivíduo a atração por pessoas do mesmo sexo.

A forma de “reverter” o processo seria oferecendo a esse homem modelos “adequados” para que ele pudesse segui-los, de forma que a sensação de não ter figuras masculinas próximas e de não ser masculino se dissipasse, e com isso a atração por pessoas do mesmo sexo.

Honestamente, eu me identifiquei profundamente com alguns dos processos apontados pela palestrante. E isso me deixou extremamente acuado. Como eu poderia me posicionar criticamente frente a um discurso que fazia todo o sentido em relação à minha própria biografia? No momento, eu tentei elaborar mentalmente contra-argumentos e não consegui. Senti muita vontade de me levantar e ir embora, por não querer aceitar a precisão daquele discurso contrário ao meu. Senti um ímpeto de apelar, por não saber responder à altura. 

Eu sempre defendi, e ainda defendo, que performance de gênero e orientação sexual são coisas distintas. Isso significa que um homem pode ser “afeminado” e, “mesmo assim”, ser genuinamente heterossexual. Assim como um homem homossexual pode ser bastante másculo. Entretanto, sempre me incomodou o fato de identificar que muitos homens homossexuais são “afeminados” e que muitos homens “afeminados” são homossexuais. Assim sendo, acredito que apesar de distintas, as duas características possuem alguma ligação entre si, mesmo que ela não seja de codeterminação.

Nessa direção, a teoria apresentada pela palestrante faz todo o sentido, até porque a tal "busca reparativa" explicaria também o caso dos homossexuais que, apesar da ausência do pai, não se tornaram "afeminados" (por terem sido, apesar disso, "devidamente" expostos a dinâmicas de incentivo e reconhecimento em torno de atividades tipicamente masculinas), já que ela também está relacionada ao sentimento de não ter um figura masculina próxima. Mas como eu poderia aceitar o potencial de esclarecimento desse discurso sobre o fenômeno sem concordar que a homossexualidade não é algo legítimo?

Uma grande fragilidade que eu encontrei no discurso da palestrante foi o fato de enxergar a heterossexualidade como uma prática natural, que não depende de um processo de socialização específico. Ora, se o processo de socialização “disfuncional” descrito por ela faz com que um homem torne-se “afeminado” e homossexual, para mim está claro que outro processo de socialização faz com que um homem torne-se másculo e heterossexual. E esse processo não tem nada de natural, pois se baseia na reafirmação de um sistema binário de gênero construído socialmente.

Homens e mulheres são indiscutivelmente seres biologicamente diferentes. Mas eles só se tornam seres socialmente diferentes a partir das normas e valores vigentes. Assim, aproximar-se de um modelo de performance de gênero ou de outro é aproximar-se de um modelo construído socialmente, seja ele o modelo considerado adequado ou não para o sexo do indivíduo. É claro, porém, que este é um ponto no qual são as minhas convicções e crenças como cientista social que batem de frente com as convicções e crenças presentes no discurso evangélico da palestrante.

Outra fragilidade é desconsiderar os fatores biológicos apenas por que eles não são determinantes. Até por que o modelo explicativo apresentado também não é determinante, já que nem todos os meninos sem pais presentes se tornam homossexuais. Em casos complexos como esse, em que nenhum fator aparece como determinante, pensar na possibilidade de existirem diferentes causas possíveis e de haver sobreposição de fatores afins geralmente é mais elucidativo.

A palestrante não indicou que a homossexualidade feminina ocorreria, similarmente ao caso da masculina, quando há a ausência de um modelo de conduta feminina "adequado". Ela apontou que os homens homossexuais vêm as mulheres como "divas", já que elas são seus modelos de conduta (o que também faz muito sentido pra mim), mas que as mulheres homossexuais, por outro lado, têm certa raiva dos homens em geral. Logo, apesar de não ter ficado claro, pareceu-me que a homossexualidade feminina estaria necessariamente ligada também a um "problema" de socialização relacionado a figuras masculinas, e não o contrário.

Ela chegou a dar como exemplo um caso de uma mulher que havia sido estuprada pelos primos na infância, e por isso desenvolveu um bloqueio em relação às figuras masculinas. Mas ela não afirmou, e me pareceria muito radical afirmar, que esse é o modelo-padrão de socialização "disfuncional" para as mulheres. Outro exemplo dado por ela foi o de uma menina que cresceu ouvindo dizer que o pai queria ter tido um menino. Parece-me que, diferente do caso dos homens homossexuais, ela não conseguiu apontar uma causa padrão para a "disfuncionalidade" da socialização feminina (o que pode ser visto como algo até mais sensato, já que as generalizações são geralmente equivocadas).

Para ela, a forma de reverter a homossexualidade feminina seria também dando bons exemplos de conduta masculina, que dissipariam a raiva que a mulher sente pelos homens, permitindo-lhe desenvolver atração por eles. Diferente da "busca reparativa" dos homens homossexuais, elas se interessariam por mulheres por achar que essas poderiam lhe dar o carinho que os homens não poderiam. Nessa parte específica, ela me pareceu bastante machista, ao dar como exemplo um homem que carrega um caixote pesado para uma lésbica, e ela se sente bem tratada por causa disso. O modelo da palestrante parece, portanto, estar completamente centrado na presença ou ausência de modelos de conduta masculina "adequados".

É claro que seria possível partir dessas explicações distintas que ela faz para o o caso de homens e mulheres homossexuais e tentar expandir para um quadro mais geral que incluísse ambos os grupos e que entendesse que tanto o caso da ausência de uma figura próxima do mesmo sexo, quanto o bloqueio em relação ao sexo oposto causado por uma experiência ruim, ou ainda o caso de achar que os pais gostariam que você fosse do sexo oposto poderiam ser vistos como fatores que levam à homossexualidade e ao comportamento de gênero desviante, tanto para homens quanto para mulheres. Mas essa é apenas uma viagem minha a partir das diferentes coisas que ela disse, já que achei que muitas das ideias trazidas por ela fazem sentido.

De qualquer forma, o discurso religioso tem todo o direito de considerar a homossexualidade um pecado. Pecado, como aprendi na forte formação cristã que tive, é tudo aquilo que nos afasta de Deus. O que é considerado pecado, para os cristãos, está indicado na Bíblia, o livro sagrado que eles acreditam ter sido escrito sob a inspiração divina. A leitura que se faz dos textos da Bíblia varia. Há quem leia os textos que condenariam a homossexualidade e faça a interpretação de que a condenação valia para as práticas homossexuais que eram realizadas na época, que tinham uma configuração muito diferente das contemporâneas. Entretanto é legítima a leitura que considera que qualquer prática homossexual está listada ali como um pecado.

Mas o discurso religioso não tem a prerrogativa de definir se um comportamento é baseado ou não numa irregularidade psicológica. Isso cabe à psicologia. Entretanto, não podemos ser cegos em relação a teorias fortes que surgem dentro do discurso religioso e que podem ser discutidas e verificadas pelo discurso científico. Pessoalmente, eu acredito que a orientação sexual de algumas pessoas até possa mudar ao longo da vida. Não a de todas as pessoas, mas a de algumas, talvez. Que variáveis poderiam fazer com que um caso seja passível de alteração ou não, eu não saberia apontar... Mas creio que, na maior parte dos casos, a alteração da orientação sexual provavelmente não seria possível, e a tentativa seria apenas um sofrimento imenso sem resultado algum. E mesmo para os casos em que poderia haver algum resultado, valeria a pena passar por esse sofrimento? De qualquer maneira, é óbvio que forçar alguém a passar por qualquer procedimento dessa natureza seria sempre inaceitável.

Uma certeza eu tenho: eu não gostaria de mudar minha orientação sexual, mesmo que isso fosse possível. E isso, porque eu não acho, diferentemente do discurso religioso, que a homossexualidade seja algo “disfuncional” ou “antinatural”. Acho tão funcional e tão natural e social quanto a heterossexualidade. E é aí que eu consigo aceitar que o discurso dessa palestrante é, para mim, elucidativo em relação a alguns casos de homossexualidade, como o meu próprio, mas não em relação à valoração que ela faz dessa característica. 

Mesmo que todos os meninos tivessem um pai presente, muitos deles poderiam, mesmo assim, identificar-se mais com modelos femininos que possuíssem e, dessa forma, desenvolver sua performance de gênero a partir deles. E isso de fato acontece. O problema não é esse processo, não é ele que é disfuncional, mas sim o preconceito, a intolerância e a violência contra esses indivíduos.

Do meu ponto de vista religioso pessoal, eu também não acho que a homossexualidade seja pecado. Primeiro porque a leitura que eu faço da Bíblia é essa de que as referências ali presentes não se aplicam aos formatos de relação homossexuais contemporâneos. Segundo, porque sou crítico em relação ao conteúdo dela: há muitas contradições entre o Novo e o Velho Testamento e muito dos valores pessoais dos indivíduos que a escreveram. Terceiro, porque para mim o essencial são os ensinamentos básicos de Cristo, que giram em torno apenas do amor e do respeito. E o que são os relacionamentos homossexuais contemporâneos senão uma forma de amor assim como as demais? Não acho que a homossexualidade afaste alguém de Deus, a intolerância a ela acho que sim.

Mas para os fiéis dessa igreja, que compartilham e são persuadidos por esse discurso a compartilhar da valoração que a palestrante faz da homossexualidade como algo "disfuncional" ou "antinatural", o sofrimento causado por ele pode ser imenso, e eles podem se forçar a tentar processos dolorosos de alteração de suas orientações sexuais sem resultado algum.

Termino o post com um elogio ao discurso da palestrante no que tange às palavras usadas por ela. Em nenhum momento ela disse “opção sexual” ou “homossexualismo”.

Quem deu a palestra foi Andréa Vargas, que é membro da Igreja Missionária Unida do Brasil (Ji-Paraná/RO), missionária em tempo Integral na Missão Avalanche (Vitória/ES), formada em Administração de Empresas com ênfase em Mercadologia (ESPM/SP) e em Estudos Bíblicos (Living Faith Bible College - Canadá) e especializada em Aconselhamento Cristão (SETEBES/ES). 

domingo, 15 de setembro de 2013

25 ANOS DE MIM MESMO

Viver é compulsório. Quando se dá conta, já se está vivo.
Tempo é imposição. Ora acelerado demais, ora lento demais.
Muitos parâmetros. Corpo, sociedade, universo.
Achar sentido. Ou passar a vida à procura dele?
Uma briga constante contra si mesmo.

[Contra minha aparência]
[ Contra minhas necessidades ]
[. Contra meu sentimento de solidão .]
[ . Contra minha sexualidade . ]
[. . Contra meus limites . .]

Já conquistei muito, mas...
Me sinto desgastado, desgostoso, desiludido.
Uma mola que se esticou demais e perdeu sua elasticidade.
E ainda é apenas o começo...

Pokémon, novela, seriados, sexo, afeto, amigos, família.
Dinheiro, beleza, masculinidade, prazos, saúde.
Tentando equilibrar a balança.
Até encontrar o fim de tudo isso.

sábado, 24 de agosto de 2013

COMO SOBREVIVER EM SALAS DE BATE-PAPO GAY

Pergunta: "idade"


Tradução: Qual é a sua idade?


Análise: O interlocutor quer saber qual é a sua idade. Algumas pessoas já indicam a idade no nick.


Possíveis problemas: Você pode achar ríspida uma pergunta no estilo “bate-bola” logo de cara. O interlocutor pode estar buscando apenas pessoas numa certa faixa etária.


Resposta: Diga sua idade.


Pergunta: “tc de onde?”

Tradução: Tecla de onde?

Análise: O interlocutor quer saber em que bairro você mora. Se o interesse envolvido é estritamente um encontro sexual, a proximidade irá afetar positivamente. Algumas pessoas já indicam o bairro ou a região no nick.

Possíveis problemas: Pode ser que o interlocutor esteja procurando apenas pessoas geograficamente próximas a ele.

Resposta: Diga seu bairro.


Pergunta: “atv ou pas?”, ou “o q curte?”

Tradução: Você gosta de introduzir o seu pênis no ânus do seu parceiro sexual (“ativo”) ou de que ele introduza o pênis dele no seu ânus (“passivo”)?

Análise: A pergunta pressupõe que existam apenas dois tipos de gays. Os que gostam de “dar o cu” e os que gostam de “comer cus”. Ou seja: além de ter que gostar de introduzir o seu pênis no ânus de alguém ou de ter um pênis introduzido no seu ânus, você tem que gostar de apenas uma dessas opções.

Possíveis problemas: Se você não gosta de introduzir o seu pênis no ânus do seu parceiro sexual, nem de ter o pênis dele introduzido no seu ânus (prática conhecida como penetração), você possivelmente terá dificuldade em encontrar um parceiro que se disponha a ter relações sexuais com você. Se você gosta de introduzir seu pênis no ânus do seu parceiro e também de que ele introduza o pênis dele no seu ânus, você possivelmente terá que se contentar em ter uma dessas experiências por vez, dependendo do parceiro que encontrar. Se para você isso é algo que depende do parceiro, você possivelmente terá dificuldade em encontrar alguém que tope pagar para ver. Se você ainda tem pouca experiência sexual, pode ser que você ainda não saiba do que gosta.

Resposta: Se você gosta de introduzir o seu pênis no ânus do seu parceiro sexual e também que ele introduza o pênis no seu ânus, diga que você é “versátil”. É uma variação mais rara, mas inteligível e aceita. Entretanto, pode ser que o interlocutor não se interesse em transar com você, por acreditar que você poderá insistir para que seja realizada entre vocês a prática que ele não gosta (penetrar, no caso de "passivos", ser penetrado, no caso de "ativos"). Se você não gosta de introduzir seu pênis no ânus de alguém, nem de ter um pênis introduzido no seu ânus, diga que você gosta apenas de “sarro” (prática em que ocorrem carícias entre os corpos, mas nenhum pênis se insere em nenhum orifício do corpo de ninguém) e/ou de sexo oral. Se você ainda não sabe se gosta ou não de penetração, diga que você até hoje só tirou “sarro” e/ou fez sexo oral com seus namorados e/ou ficantes (ou que você é virgem, se for o caso). Se para você é algo que depende do parceiro, diga que é “versátil”, mas prefere ser “ativo” ou “passivo”, e que tem vezes em que gosta mais de tirar “sarro” e/ou fazer sexo oral.


Pergunta: “como vc é?”

Tradução: Qual é a sua altura, quanto você pesa, como é o seu corpo, qual é a cor da sua pele, quantos centímetros tem o seu pênis?

Análise: As opções possíveis para “como é o seu corpo” costumam ser “gordo”, “magro”, “sarado” ou “normal” (que significa "nenhuma dos anteriores"). Geralmente também se diz se o corpo é “lisinho”, ou seja, sem pelos, ou “peludo”. Pela cor da pele, o interlocutor costuma se designar como “branco” se for branco ou pardo de pele clara,“moreno claro” se for pardo e tiver a pele em uma tonalidade média entre o preto e branco, “moreno escuro” se  for pardo e tiver a pele escura, ou “negro” se for preto.

Possíveis problemas: Você pode achar muito invasivo dar essas informações em um primeiro momento, ou se chatear pela relevância que elas assumem nesse tipo de interação.

Resposta: Você pode omitir o peso, a altura e sua quantidade de pelos, e falar apenas que é “magro”, “alto”, “gordo”, “baixo”, etc (mas nem sempre o interlocutor vai ficar satisfeito e pode pedir suas medidas). Você pode omitir as informações sobre seu pênis (pode ser, entretanto, que elas sejam perguntadas diretamente). Mesmo que você não concorde que “moreno” seja uma cor de pele, use esse termo para tornar-se inteligível (não use-o para cor de cabelo, ou você será mal entendido, aliás, você só precisa dizer a cor do cabelo se for ruivo, loiro ou grisalho).


Pergunta: “o q procura?”

Tradução: Você entrou na sala de bate-papo em busca de sexo casual, namoro e/ou para fazer amizades?  

Análise: Sim, aparentemente há pessoa que entram em salas de bate-papo gay para fazer amizades, mesmo quando o tema da sala é “sexo”. Sim, há pessoas que entram em salas de bate-papo gay buscando namoro, apesar de a maior parte delas ter “sexo” como tema. É que muitas vezes não há salas gays como o tema “namoro” que sejam divididas por cidade. Aí fica difícil encontrar alguém da sua própria cidade para namorar e se entra com essa finalidade na sala sobre sexo. Há quem coloque a palavra “namoro” no nick, para deixar suas intenções claras. Há os que colocam a palavra enigmática “sério”, que pode ou não indicar interesse em namoro (às vezes indica que a pessoa não é assumida e quer discrição, às vezes indica que a pessoa é assumida e quer alguém que tenha a homo-orientação bem definida, ou seja, pode indicar quase tudo). Há quem coloque “local” ou “s/ local” no nome. Esses querem sexo apenas.

Possíveis problemas: Se você procura namoro em uma sala de sexo, vai ser difícil encontrar alguém compatível. Se procura amizade, pior ainda.

Resposta: Apenas diga o que você procura.


Pergunta: “vc é discreto?”

Tradução: Pode significar “Você é assumido?” ou, por mais diferente que seja, “Você é ‘afeminado’?”.

Análise: A pergunta é confusa.

Possíveis problemas: Se você for “afeminado”, possivelmente terá problemas em encontrar parceiros interessados em ter relações sexuais com você (como sabemos, há uma desvalorização dessa característica, que significa não se adequar aos padrões de masculinidade). Se seu interlocutor procura namoro ou exige que seus parceiros tenham sua homo-orientação bem definida, não ser assumido pode ser um entrave. Se ele quer sigilo, ser assumido pode ser o entrave.

Resposta: Diga que é assumido ou não. Se a pessoa quiser saber, na verdade, se você é "afeminado" ou não, ela perguntará. Se você acha que é, acredito que seja melhor dizer que é “um pouco”.


Pergunta: “MSN”

Tradução: O interlocutor gostaria de manter contato com você via messenger.

Análise: Quem usa MSN ainda? Ele não acabou?

Possíveis problemas: Muitas pessoas não gostam de conversar pela sala de bate-papo, e entram apenas parar trocar nicks em messengers com possíveis parceiros. Possivelmente você terá problemas para manter conversas se não tiver um nick no Skype.

Resposta: Se não tiver um Skype, faça um. Diga que tem Skype (alguns mais contemporâneos já pedem por ele) e passe seu nick para a pessoa te adicionar. Se não der em nada, você pode removê-lo posteriormente da sua lista de contatos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CORREÇÕES: MANIFESTAÇÃO CONTRA LACERDA

Devido a problemas ocorridos na apuração que fiz durante a manifestação contra Lacerda em Diamantina, a matéria publicada neste blog estava com os seguintes erros, que já foram devidamente corrigidos:

1. Não são os bares da Rua da Quintana que contratam a vesperata. É a Prefeitura de Diamantina quem a produz, e os bares, por sua vez, apenas servem os clientes que compraram as mesas. Portanto, o montante arrecadado com a venda das mesas não vai para os bares, mas é usado pela Prefeitura para cobrir os custos do evento. Os bares lucram apenas com o consumo daqueles que compraram as mesas.

2. Como o evento é produzido, e não contratado, não é possível definir custos fixos para ele (anteriormente havia sido apontado um custo de 19 mil reais).

3. O custo de cada mesa é de 130 reais, e não de 400 reais, como apontado anteriormente.

Sento muito pelos erros de apuração ocorridos e peço perdão a todos pelos equívocos causados.

sábado, 27 de julho de 2013

MANIFESTAÇÃO CONTRA LACERDA EM DIAMANTINA

Eu (Vanrochris Vieira) estava ontem em Diamantina por causa do Festival de Inverno da UFMG, do qual sou um dos jornalistas.


Neste ano, paralelamente ao Festival de Inverno da UFMG, aconteceu em Diamantina o Encontro de Prefeitos de Minas Gerais.


Uma edição da vesperata, evento tradicional de Diamantina em que músicos tocam das janelas do segundo andar dos sobrados da esquina mais movimentada da cidade, foi organizada exclusivamente para esse Encontro.

Durante as vesperatas, a rua é fechada com uma corda e, nas edições oficiais, cobra-se 130 reais por cada mesa posta dentro dela.

Lacerda era um dos prefeitos que estavam no evento. Quando alguns jovens de Belo Horizonte que estavam na cidade por causa do Festival o viram, começaram a vaiá-lo e a gritar:

– Fora Lacerda!

– Hey, Lacerda, seu governo é uma merda!

O mestre de cerimônias do evento, então, disse:


– O Brasil tem vivido um momento  de descontentamento dos jovens, que, insatisfeitos, têm feito manifestações. Coincidência ou não, o Papa Francisco, em sua primeira viagem internacional, veio ao Brasil pedir aos jovens mais paz e tolerância.


Depois de um tempinho, os gritos dos manifestantes começaram novamente.

Em um momento no qual eu não estava entre eles (segundo diversos relatos de colegas meus que estavam lá), um homem chegou tentando lhes empurrar para longe dali, jogando-se para cima deles.

Segundo os relatos, uma das minhas colegas jogou um copo de quentão no rosto dele, e ele partiu para cima dela. O pessoal defendeu minha colega e mandou ele ir pra longe.

Depois, teria vindo mais um cara segurando um volume na cintura e mandando os manifestantes se dispersarem. Mas a polícia militar, que havia chegado pouco depois das primeiras vaias e estava circulando pelo local, teria se aproximado no momento e contido esse segundo homem. Tudo indica que ele seria um segurança de Lacerda ou de Paulo Célio, o prefeito de Diamantina.

A manifestação prosseguiu, a partir de então com a polícia por perto. O pessoal que estava do lado de dentro da corda começou a chamar os manifestantes de vagabundos, dizer que aquilo era uma falta de respeito e a vaiá-los. Nós (eu incluso entre os manifestantes a partir de então) revidamos:

– Vagabundo é o Lacerda!

O mestre de cerimônias:

– Juscelino era democrata e, como ele, respeitamos todas as manifestações. Mas este é apenas um evento musical.

Mas muitos outros gritos foram ouvidos na sequência, como:

– Começa com M, termina com “erda”, advinha o que é? É o Márcio Lacerda!

– Ele pisca quando mente. Ele mente quando pisca!

– Se o Lacerda não vazar, oh lê, oh lê, oh lá, não vai parar!

– Chegou em Diamantina a revolta do busão!

– Diamantina sem catraca!

O Festival de Inverno da UFMG, desde a edição passada, tem como uma de suas atividades o Tarifa Zero: ônibus da Universidade circulam com entrada gratuita por Diamantina durante o Festival. Apesar dos problemas de execução da atividade nesta edição (demora, procura maior do que oferta, alguns motoristas mal humorados e grossos, ausência de ônibus no horário noturno), a ideia é belíssima.

Uma senhora que estava dentro da corda disse:

– É isso que Diamantina merece, abrindo espaço pra vagabundo.

Ela provavelmente se referia às mudanças que ocorreram no Festival de Inverno nas últimas duas edições. Ele deixou de focar em artistas renomados e apresentações elitizadas, e passou a investir nas manifestações culturais marginalizadas, atingindo e abrindo espaço para moradores das periferias de Diamantina e Belo Horizonte.

Nas ruas, a maior parte das pessoas era contra os protestos, assim como os que estavam dentro da corda.

Exceto pelos jovens do bairro da Palha, periferia de Diamantina, que estavam por ali e se juntaram aos manifestantes, e por um ou outro mais.

Uma mulher disse, apontando para a corda:

– Eu sou filha de Diamantina e eu não concordo com isso! Eu tenho liberdade de passar de um lado pro outro!

Os manifestantes então gritaram:

– Tira a corda!

Algumas pessoas afirmaram ter visto o jornalista Paulo Navarro no local, e alguns manifestantes começaram a gritar contra ele também.

O mestre de cerimônias da vesperata interviu várias vezes dizendo coisas como:

– A vesperata é um evento muito importante para a cidade. Nós de Diamantina sempre acolhemos a todos de braços abertos, por isso, em troca, pedimos que façam o mesmo.

– Nós vamos parar a vesperata por cinco minutos para vocês fazerem o show de vocês. Se vocês pensam que têm o direito de fazer qualquer coisa, se enganam, o direito de vocês termina onde o dos outros começa.

E a gente respondeu:

– Quer me calar, não pode não! Artigo Quinto da Constituição!

– Hey, prefeitura ingrata, você não vive só de vesperata!

– Paulo Célio e Lacerda é tudo a mesma merda!

Em dois momentos da manifestação, eu lavei minha alma em relação à homofobia que sempre se vê nos gritos da galera. Na primeira vez, o pessoal começou a gritar:

– Hey, Paulo Célio, vai tomar no cu!

E na segunda, alguém sugeriu:

– Tem que tocar no brio do Lacerda, vamo chamar ele de viado!

Em ambas as vezes, eu gritei:

– Sem homofobia!

Da segunda vez, a pessoa que havia feito a sugestão respondeu:

– O povo, às vezes, é muito moralista!

E eu, então:

– Não, o povo, às vezes, é gay, e merece respeito!

Lacerda permaneceu o tempo todo imóvel, com cara de paisagem, ignorando a manifestação. Sua esposa, pelo contrário, ficou muito nervosa. Lá pelas tantas, eles acabaram mudando de mesa e indo para a do prefeito da cidade.

Quando o pessoal da vesperata desceu, foi aplaudido pelos manifestantes, que lhes gritaram parabéns.

No final, um dos manifestantes pediu para que uma moça que estava do lado de dentro da corda entregasse uma flor a Lacerda.

Ele acenou para os manifestantes com a flor, foi vaiado, e vaiou de volta os manifestantes, indo embora logo depois.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O PROBLEMA DO SEXISMO NOS BANHEIROS

Eu resolvi inventar um jeito de ser mais feminista nos meus textos feministas. Me lembrei da palavra “menine”, que se usa na Internet pra falar sobre um jovem andrógeno. Então pensei em usar o E como terminação em todas as palavras marcadas pelo gênero a partir do A ou do O. No artigo, para não confundir com a conjunção, vou usar o U. Este texto vai funcionar como um teste para ver se essa ideia gera algo legível. Assim sendo, por favor, me deem retorno depois de lerem, amigues!

Nosse sociedade é sexista du ponta du cabelo au dedão du pé. Nosse gênero é imposte a nós assim que nosses órgãos sexuais começam a se formar, ainda durante u gestação. E isse é tudo que importa: se temos buceta ou pinto. Se temos buceta, vamos gostar de cor-de-rosa, de brincar de boneque e de cozinhar. Vamos ser vaidoses, sensíveis e delicades. Se temos pinto, vamos gostar de azul, de brincar de carrinho e de jogar futebol. Vamos ser fortes, violentes e objetives.

Depois desse socialização primárie, u história continua nu escola. Lá tem um fila para menines com pinto e outra para menines com buceta. Us banheiros também são diferentes para cada um dus dois grupos. Afinal, seria um absurde menines com pinto frequentarem u mesme banheiro que menines com buceta. Primeire porque us menines com pinto são potenciais estupradores por natureza. Se eles verem um buceta nu frente deles, vão imediatamente querer colocar seus pintos dentro. Então é melhor evitar qualquer situação nu qual esse possibilidade exista, pelu menos estando eles desacompanhades de adultes. Segunde porque menines com buceta são naturalmente atraídes sexualmente por menines com pinto, e não com buceta como eles, e vice-versa. Obviamente, us dois argumentos que apresentei são irôniques.

Primeire, quando um pessoa vai au banheiro, ele não tem u mínime necessidade de ficar nu em frente aus outres. Mesme em vestiários, existe sempre u possibilidade de construirmos cabines de banho individuais, onde us pessoas possam se lavar, se secar e se vestir sem entrar em contato com ninguém. E u espaço necessárie para isse é pouco maior que u de vestiários coletives. Basta fazer corredores grandes, com cabines fines, e colocar dentro de cada um deles um chuveiro separade du resto du espaço por um box, além de um banquinho e ganchos du outre lado. U caso de cabines individuais para necessidades fisioloques é ainda mais fácil de resolver, basta eliminar us mictórios.

Segunde, cerca de dez por cento dus pessoas se sentem atraídes sexualmente por pessoas que tenham u mesme órgão sexual que eles, logo, segundo u lógica anteriormente empregade de forma irônique, banheiros dividides pelu órgão sexual dus pessoas favoreceriam u desenvolvimento du homossexualidade. Portanto, a fim de evitar qualquer contato sexual entre us crianças, de qualquer maneira se faria necessárie construir cabines individuais, tanto para necessidades fisiológiques quanto para banhos. No mais, poderíamos discutir se deveríamos ou não tolher u sexualidade dus crianças desse maneira, mas, para efeitos pratiques, nos limitemos aqui a aceitar esse pressuposto.

U divisão du banheiro pelu órgão sexual du usuárie tem ainda outre problema série: como adequar us banheiros para u uso pelus travestis e transexuais? Afinal, eles se comportam como se tivessem buceta quando na verdade têm pinto, ou vice-vera. Eliminar esse divisão simplesmente resolveria mais esse problema.

É claro que fazer esse mudança seria problemátique devido au fato de alguns pessoas não se sentirem confortáveis com ele. Mas não precisaria ser algo feite de um vez só. Poderíamos começar criando banheiros úniques au lado dus banheiros tradicionais, antes de us substituir de vez. Também poderíamos começar a fazer isso em ambientes frequentades por adultes, já totalmente responsáveis por seus ações, que não precisam ser vigiades, como nas faculdades.

Eu sou um pessoa com pinto, atraíde sexualmente por outrus pessoas com pinto, e um dus meus maiores sonhos é viver em um mundo cada vez menos sexiste.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O DIFÍCIL PROCESSO DE ACEIRAR-SE BONITO


Não é novidade que grupos desvalorizados têm muita dificuldade em aceitar sua própria aparência, já que não se adequam ao padrão normativo. Por isso, há mulheres negras que preferem alisar os cabelos ao invés de usar o black power. Mulheres endomorfas que lutam contra a balança durante toda a vida, e homens ectomorfos que apelam para tudo, a fim de ganharem peso.
Segundo seu biotipo, as pessoas podem ser endomorfas (estrutura óssea larga, tendência ao ganho de peso), ectomorfas (corpo delgado, tendência a não ganhar peso) ou mesomorfas (corpo musculoso, facilidade para desenvolvimento de massa muscular). 
A mesma escala de legitimidade estética que, infelizmente, ainda se aplica frequentemente à raça ou mesmo, de forma muito amplamente aceita, ao biotipo, não se aplica, por exemplo, à cor dos cabelos. Preferências à parte, ninguém é mais ou menos bonito à priori por ser moreno, loiro ou ruivo.

Mas para uma mulher negra ou endomorfa ou para um homem ectomorfo, entre outros tantos indivíduos de aparência socialmente deslegitimada, é muito difícil enxergar-se a si próprio como alguém bonito.

Outro dia, acordei deprimido, olhei para o meu próprio corpo e mais uma vez identifiquei nele uma série de traços que costumam me causar insatisfação: ossos bem demarcados sobre a pele, pouco tecido muscular. Resolvi fazer um autorretrato para tentar objetivar essa minha visão negativa em relação ao meu próprio corpo.

Qual foi a minha surpresa ao me satisfazer esteticamente com o resultado do autorretrato? Vendo meu corpo objetivado fora de mim, pude ter a consciência crítica de que é possível admirar a estética dele pelo lado de fora dos padrões de beleza normativos.


Certamente imagino que muitos não verão no painel montado nenhuma beleza. Mas tenho tentado me libertar da ideia fixa de que não haveria aqueles que poderiam achar.

Tenho publicizado questões pessoais consideradas na nossa época temas privados: o corpo fora dos padrões, a performance de gênero fora da normatividade, a depressão. Meu objetivo não é, entretanto, de forma alguma narcisístico. Pelo contrário, é sempre um processo difícil e complicado para mim expor tais questões.

Contudo, acredito no potencial político das ações cotidianas dos indivíduos comuns, como eu. O que desejo é, acima de tudo, contribuir, ainda que de forma limitada em termos de alcance, mas ainda sim da maneira mais forte que eu puder, para o enfraquecimento do sexismo, dos padrões rígidos de beleza e do estigma que a depressão, enquanto doença, carregam em nosso meio.

Em uma época de valorização da autenticidade, esse termo significando "ser idêntico a si mesmo", eu não estaria fazendo jus ao meu tempo e às possibilidades de ação política que ele me coloca se eu me recusasse a me usar enquanto ferramenta discursiva e política.

Ficam ainda muitas limitações: o painel original que compõe esse autorretrato tem uma foto de nu frontal, mas disponibilizar publicamente essa versão é algo que provavelmente nunca terei a audácia de fazer. Afinal, até onde podemos ser rebeldes em relação ao estabelecido?

quinta-feira, 21 de março de 2013

Viado, afeminado, feio e baixo astral

Sim, Brasil: eu, Vanrochris Vieira, sou homossexual (no vocabulário corrente, sou "viado"), minha performance de gênero não se adequa ao padrão de masculinidade ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "afeminado"), minha aparência não se adequa ao padrão de beleza ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "feio") e, para completar, tenho depressão (no vocabulário corrente, sou "baixo astral").

Antes de eu ser concebido, esse era o meu quadro familiar: meu pai era alcoólatra e batia na minha mãe. Por isso, ela teve depressão durante toda a gravidez. Apanhou dele enquanto me esperava e durante toda a minha primeira infância. Eles se divorciaram quando eu tinha dois anos, depois disso, só fui vê-lo novamente por volta dos seis. Ao longo da vida, vi ele uma dúzia de vezes. Na vez mais longa, apenas por três dias. Ele morreu quando eu tinha dezessete anos. Fazia três anos que eu não o via.

Quando eles se separaram, um dos meus irmãos tinha doze anos e o outro catorze. O mais velho passou a trabalhar fora, assim como minha mãe. O outro cuidava de mim. Ele não tinha preparo, nem paciência para isso. O mais velho assumiu para si o papel de provedor da família e pai, em relação a mim. Papel para o qual ele, obviamente, também não estava preparado. Os dois, em ambas as atividades, me tratavam com muita rispidez e falta de paciência.

Quando eu tinha seis anos, meu irmão do meio foi assassinado. Ele tinha dezesseis anos. A polícia não investigou o crime, e o assassino não foi encontrado, nem o motivo do assassinato foi descoberto. Minha mãe não tratou da depressão dela e, nessa fase, ela piorou muito, ficando fortemente mal por alguns anos. Depois disso, ela se tornou bastante controladora e superprotetora em relação a mim.

Nosso quadro econômico era bastante ruim. Chegamos a não ter dinheiro para comprar alimentos básicos. Mas contamos com a ajuda dos meu avós para que eles não faltassem.

Nunca me adequei ao padrão de comportamento socialmente estabelecido para os meninos: não gostava de esportes, era sensível e delicado, introspectivo e gostava de atividades artísticas, como teatro e desenho. Sempre sofri bullying na escola. Sempre fui apontado como "viadinho" e "bicha", mesmo antes de sentir atração sexual por qualquer pessoa. Cheguei a sofrer agressão física por duas vezes. Minha família é muito católica, e eu também era. Neguei minha atração por pessoas do mesmo sexo e me puni por isso por vários anos. 

Para compensar minhas frustrações na infância, eu me tornei viciado em estudar. Queria ser o melhor, o primeiro em tudo. Queria saber tudo e não errar nunca.

Quando bebê, eu era bem gordinho. Mas tive duas anemias sucessivas, ainda nos primeiros anos de vida, e perdi muito peso. Na adolescência, ao crescer rapidamente, fiquei extremamente magro, e nunca mais consegui ganhar peso.

Sempre tive muita dificuldade para conseguir parceiros para relações afetivo-sexuais. Tinha dezesseis anos quando beijei um garoto pela primeira vez. O próximo cara com quem fiquei, foi o primeiro com quem transei, aos dezoito. Os dois foram encontros episódicos, proporcionados por um site de bate-papo.

Me apaixonei quatro ou cinco vezes até hoje. Todas elas foram frustradas, porque os caras não tinham interesse em ficar comigo. Namorei uma única vez, mas não gostava do cara, e, por isso, foi uma relação bem breve e desagradável. Transei com três caras até hoje: o primeiro, outro que também encontrei a partir de um bate-papo (e com quem também tive apenas um encontro episódico) e o cara com quem namorei. Nenhuma das vezes foi boa.

Há cerca de três anos, eu tinha um grande amigo pelo qual eu era apaixonado. Descobri, porém, que ele era alguém completamente diferente do que eu imaginava, mantendo uma vida dupla que incobria ações e características desvalorizadas cuja responsabilidade ele não queria assumir. Foi um golpe duro na minha confiança nas pessoas e na minha esperança em relação à vida. Foi aí que minha depressão se manifestou.

Não me entendam mal: não tenho e não quero, em hipótese alguma, que alguém tenha pena de mim. Nem só de elementos ruins é composta minha vida. Tenho uma família que me ama e me apóia e amigos super legais e presentes. Me formei em um excelente colégio técnico e em uma excelente universidade públicos. Morei seis meses na Europa (estudando com bolsa do governo federal).

A única coisa que demando é que eu deixe de ser punido e discirminado por ser "viado", "afeminado", "feio" e "baixo astral". Não sou culpado por nenhuma dessas características, porque nenhuma delas é um crime passível de culpa. Simplesmente é assim que eu sou. Já me envergonhei muito de tudo isso. Quero, agora, ter orgulho de quem eu sou.