segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

UMA IGREJA CRISTÃ LIBERAL E SEUS PRESSUPOSTOS


Eu sou cristão, porque grande parte dos meus valores mais centrais estão construídos sobre os ensinamentos de Jesus Cristo. Mas eu não sigo a Bíblia para além dos evangelhos, porque ela tem muitas coisas que não tem nada a ver com os ensinamentos de Cristo e que, muitas vezes, contradizem esses próprios ensinamentos. Eu também não sigo normas de conduta inventadas pelas igrejas, que não têm nenhuma base nos ensinamentos de Jesus Cristo (como não usar camisinha, ou não escutar funk).

Assim sendo, sou cristão, mas não me adéquo a nenhuma igreja cristã existente. Sei que, assim como eu, muitas pessoas seguem os ensinamentos de Cristo, mas não se identificam com nenhuma igreja pelos mesmos motivos. Resolvi, portanto, imaginar como seria uma igreja onde caberiam essas pessoas (que querem seguir Jesus, mas não os demais ensinamentos bíblicos de outra natureza, nem as regras de comportamento estabelecidas pela tradição nas igrejas).

1. Substituição da Bíblia pelos Evangelhos como texto-base

A Igreja Cristã Liberal seria uma igreja cristã e, como tal, deveria ter como base unicamente a doutrina apresentada por Jesus Cristo. A Bíblia é um livro composto por cerca de 70 livros, escritos em diferentes momentos durante um período de quase 1600 anos, por algo em torno de 40 autores diferentes. Esse livro contém os mitos judeus relacionados ao surgimento e à história de Israel (na parte chamada de Antigo Testamento) e os relatos sobre a vida de Jesus Cristo e de seus discípulos (na parte chamada de Novo Testamento). A forma como Deus é visto no Antigo Testamento não é a mesma forma como Ele é visto por Jesus Cristo. O Deus do Antigo Testamento é o deus da religião judaica. Um deus que incentiva a guerra em nome dos interesses de seu povo. O Deus do Novo Testamento é o deus do amor ao próximo. Esse é o deus do cristianismo. Assim, todos os ensinamentos do Antigo Testamento tornam-se irrelevantes para uma religião que é realmente cristã, e não judaica. Esses textos, portanto, deveriam servir apenas como registro histórico. No Novo Testamento, os ensinamentos de Jesus Cristo, que são os que interessam, aparecem em quatro livros chamados de Evangelhos. O resto do Novo Testamento são relatos sobre o trabalho de evangelização feito pelos discípulos de Cristo após a sua morte. Também esses últimos livros da Bíblia têm uma importância histórica, mas não podem ser a base para uma doutrina realmente cristã. Ora, uma Igreja cristã deveria seguir os ensinamentos de Cristo, e não de Paulo, Pedro, ou qualquer um de seus discípulos, que são pessoas que se esforçaram para difundir os ensinamentos de Cristo, e não para gerar ensinamentos diferentes. E mesmo que sem esse propósito, eles tenham gerado ensinamentos diferentes, não são os ensinamentos deles os alvos de nossa fé, mas sim os de Jesus Cristo. Desse modo, apenas os Evangelhos seriam nosso livro-base.

2. Dízimo optativo, espontâneo e submetido a prestação de contas

Cada membro da Igreja deveria se sentir responsável por contribuir ou não contribuir financeiramente com o sustento da mesma. As formas da igreja se organizar para que isso pudesse acontecer são simples, como disponibilizando uma conta bancária para depósitos e transferências de dinheiro e reservando um espaço nos locais de culto para uma urna onde poderiam ser depositadas cédulas dentro de envelopes encontrados ao lado dela. Não haveria necessidade, nem seria apropriado, falar dessas questões durante o culto, exceto objetivamente na parte de avisos. Do mesmo modo, não haveria motivo, nem seria apropriado, que as doações ocorressem durante uma parte do culto. O objetivo das doações seria manter a igreja funcionando, e não garantir graças ou algum tipo de salvação divina. O uso do dinheiro arrecadado deveria ser discutido com todos os membros da igreja que se interessassem pelo assunto. Não no momento do culto, mas em reuniões marcadas para isso. O comparecimento a tais reuniões deveria ser facultativo, sendo que elas deveriam ser abertas a todos os membros e ocorrer em um horário acessível à maior parte da comunidade, como antes ou após os cultos. Em casos de não se chegar a um consenso sobre qual é a melhor forma de se investir o dinheiro arrecadado, se deveria proceder a votações, em que todos os membros deveriam ter direito a voto, e todos os votos deveriam ter o mesmo peso. A igreja deveria prestar contas para todos os membros de quanto foi arrecadado e em que o dinheiro foi investido. A prestação deveria ocorrer de forma mais acessível possível, com o uso de ferramentas como jornal-mural nos locais de culto e páginas da Internet.

3. Nenhum dos membros possuiria a palavra final sobre o texto dos Evangelhos

Todas as leituras que a Igreja fizesse sobre os ensinamentos de Cristo presentes no Evangelho deveriam ser abertas às diferentes interpretações possíveis delas. Todo texto é marcado por metáforas, pelo contexto sócio-histórico da escrita e pelo estilo do autor que o escreveu. Cabe aos leitores tentar identificar que passagens devem ser adequadamente lidas a partir de seu sentido literal e quais devem ser adequadamente lidas como metáforas, bem como quais seriam os significados de tais metáforas e como os significados, ainda que literais, se inserem no contexto da escrita. Não seria necessário chegar a um consenso sobre qual interpretação é a mais assertiva, mas as discussões que visam esse consenso seriam fundamentais.

4. O único ato condenável seria agir com a intenção de (ou sabendo que existe a possibilidade concreta de) provocar mal ao mundo em que vivemos ou a qualquer um de seus habitantes

A única norma de conduta indicada pela igreja para que seus membros busquem permanentemente cumpri-la seria ser coerente com o valor transversalmente presente nos ensinamentos de Cristo: não realizar ações que façam mal aos outros ou ao mundo em que vivemos (apesar de o texto dos Evangelhos estar aberto a interpretações, a presença desse valor central entre os ensinamentos de Cristo é condição sine qua non para que se busque segui-los, pois é esse o ponto que, desde sua existência, foi considerado distintivo na filosofia de vida proposta por Cristo e sem o qual, portanto, a admiração historicamente construída por ela não se configuraria da forma presente, o que anularia a próprio propósito de segui-la). Todas as demais ações, que não causem mal às pessoas ou ao ambiente, poderiam ser feitas livremente. Que tipo de ações geram mal e que tipo de ações não geram deveria ser uma discussão constante dos membros durante os cultos da igreja. Para muitas ações, poderia não haver consenso alcançado, devendo o membro, nesses casos, guiar-se pela interpretação à qual se afiliaria.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

DECIDI SAIR A FAVOR DE WALCYR CARRASCO!

Eu amo a falta de noção dele e a banana que ele dá pro politicamente correto. Adoro ele tratar do tema da gordura, por exemplo, de um jeito q ninguém nunca teve coragem de tratar numa novela: evidenciando a baixa auto-estima do gordo e o tanto que ele é zuado o tempo todo. O mundo é assim, gente: é trágico, mas também é cômico: rir de como a gente é babaca também pode ser bastante libertador.

É como personagens como a Vera Verão e a Waléria, do Zorra Total. Galera reclama de estereótipo, mas existe gente exatamente com o perfil das personagens na vida. Eu digo porque conheço. E são pessoas com uma personalidade muito engraçada mesmo. Mas eu acho legal a gente rir com e não de. E acho que essas personagens proporcionam isso.

Mais que isso: acho que é isso que as pessoas nas quais esses personagens são inspiradas fazem. Não é à toa a quantidade de gays e travestis engraçadíssimas e gordinh@s super divertidos que existem no mundo: sobra pra eles esse lugar pra serem melhor aceitos.

Encarar isso, mostrar isso e tratar disso com naturalidade, pra mim é um mérito muito maior do que ficar dando lições de moral pra população ou simular um mundo asséptico.

Esse estilo sempre acompanhou o autor, em grandes novelas como Alma Gêmea, por exemplo, quando o pessoal da pensão chamava os negros que frequentavam o local de torradinhos, e eu rachava de rir com isso. Sou racista por causa disso? Eu também morro de rir quando chamam o Félix de bicha, e grande parte do esforço da minha vida é lutar pelos direito das bicha! E sejamos justos: já teve novela que mais conseguiu conscientizar o público a favor das bicha? E isso graças à ~falta de noção~ dele de colocar a bicha como vilã, e não como herói.

É aí que tá: pra mim, há muito potencial em rir de como é retardada a situação em que alguém é descriminado por causa dessas coisas. Isso, pra mim, é positivo. Acho algo completamente diferente um homem branco hétero cis falando mal de bicha, negro e gordo (como stand ups estúpidos q existem) e os negros, as bicha e as gorda sendo mostrados se virando em situações humilhantes, mas engraçadas, que geram ternura, identificação e humanização de forma leve.

E mais: reclamam da construção psicológica de personagens como Amarylis e Eron. Acho, de fato, elas muito mais bem feitas que uma personagem como Santiago, de Avenida Brasil. É claro q elas poderiam ser melhores, mas não vejo motivo pra tanto estardalhaço. E no outro caso, não vi ninguém reclamando.

Ele tem um milhão de núcleos e personagens? Tem. Mas ele consegue cuidar de cada um deles, diferente do q acontecia em Salve Jorge, por exemplo.

Pra mim, os únicos problemas da novela são a repetição sem fim dos mesmo eventos envolvendo os personagens secundários (como os dois casais no motel) e o núcleo do Thales, q se perdeu desde o começo, com a coisa toda do cabelo da atriz. De resto, acho a novela excelente. E, curioso: ao contrário do q elogiam tanto, também não curto nada o exagero da Tatá. Adoro ela, mas ela não sabe o limite entre o engraçado e o ridículo, por isso, oscila demais entre os dois.

É isso. Atirem suas pedras: elas baterão na minha testa e na do Walcyr e voltarão pra de vocês. Bjos.