terça-feira, 30 de agosto de 2016

UM GOLPE FANTASIADO DE DEMOCRACIA

Imagem: Carcará
Porque é golpe se todos os ritos do impeachment foram seguidos?

1. Porque uma prática recorrentemente realizada e entendida como constitucional foi enquadrada convenientemente como crime.

2. Porque a motivação para o processo de impedimento não foi o suposto crime.

3. Porque a motivação para o processo de impedimento foi impedir que os crimes cometidos por quem está julgando continuassem a ser investigados.

4. Porque o resultado do julgamento já estava dado antes de ele começar.

O golpe começou a ser tramado no momento em que o resultado das eleições foi divulgado. Ele foi concretizado para impedir as investigações contra a nova república velha, mas teve seu embrião em uma mobilização revanchista e elitista.

Um fator decisivo para que ele fosse visto como legítimo por grande parte da população foi a insatisfação com o segundo mandato da presidenta, gerada um pouco por fatores contingenciais enquadrados pela oposição como culpa do governo, em expressiva quantidade pelas decisões equivocadas do próprio governo, mas em grande parte pela falta de governabilidade causada pela própria nova república velha que o concretizou.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O GOLPE ASSUMIDO PELOS PRÓPRIOS GOLPISTAS

Resumo da conversa que comprova o interesse de políticos no afastamento de Dilma para contenção da  Lava Jato e aponta o envolvimento de Aécio em esquemas de corrupção

Imagem: Revista Fórum
Para quem não está por dentro ou ainda não entendeu o imenso escândalo político que está acontecendo no momento sem a cobertura minimamente adequada da mídia, aí vai um resumo:

A Folha de São Paulo divulgou uma conversa entre o atual ministro do Planejamento Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro (empresa controlada pela Petrobras) Sérgio Machado, ocorrida em março. Na conversa:

1. Eles escancaram o planejamento de um golpe, com a finalidade de barrar a Lava Jato:

MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer] [...] É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.

MACHADO - Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ - É. Delimitava onde está, pronto. [...] [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem "ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca". Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

2. Apontam a participação de Aécio nos esquemas de corrupção:

MACHADO - A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado...

JUCÁ - Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...

MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.

JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].

MACHADO - Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?

JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido. [...]

MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio. [...] Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande. É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...

JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.

MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...

JUCÁ - É, a gente viveu tudo. [...]

Mais sobre o diálogo aqui: http://www.valor.com.br/politica/4573901/leia-trechos-dos-dialogos-entre-romero-juca-e-sergio-machado

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Teve golpe!

Foto: Politize
17 de abril de 2014.

A Câmara dos Deputados aprova o processo de impeachment contra Dilma.

Fogos de artifício, buzinaço, gritos de comemoração. Parabéns ao envolvidos.

Uma mulher grita à minha janela: "Dilma vagabunda, vaca". Que dia.

Por que foi um golpe? Porque não havia motivo constitucional para a aprovação desse processo. Dilma não é acusada de nenhum crime. A desculpa das "pedaladas fiscais" foi uma saída discursiva, vazia. O motivo disso é político. É uma bancada corrupta que já não está mais sendo privilegiada dentro do governo atual. É uma parcela da população que não aceitou o fato de seu candidato ter perdido as eleições. A Constituição foi desrespeitada porque os motivos que levaram ao prosseguimento desse processo não são os previstos nela. A democracia foi desrespeitada porque não se aceitou o resultado das eleições. Por isso, o que ocorreu hoje foi um golpe.

A linha sucessória de Dilma é marcada por pessoas atoladas na lama da corrupção. Pra quem é a favor do impeachment, como pensar isso de maneira prática? A lógica vai ser o "rouba, mas faz" ou uma série de impeachments? Esta última opção me apavora ainda mais agudamente: o que vai ser de uma república na qual no mês seguinte a um impeachment começa a se aventar outro? Que democracia resiste a isso?

sábado, 16 de abril de 2016

O discurso de Cunha CONTRA o golpe

Imagem: Pragmatismo Político

Então, para a minha surpresa, eu encontrei até agora um dos melhores discursos contra o impeachment sendo proferido POR CUNHA!

No ano passado:

"Nós não podemos transformar a discussão sobre o impedimento de um presidente da república numa forma de discussão política, porque ele não é. O impedimento tem as suas previsões constitucionais pros casos específicos aos quais, no meu entender, não está se aplicado, então, consequentemente, eu não posso querer dar curso, pra resolver uma crise política, achar que a gente vai virar uma republiqueta, e vai arrancar o presidente fora que foi legitimamente eleito. Nós não concordamos com essa forma. Eu acho que é preciso ter um pouco de responsabilidade. Se houvesse motivação dentro do parâmetro constitucional, seria outra coisa. Eu não tenho a visão disso nesse momento."

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A Inês e o Brasil

Imagem: Fofoca de Reality
Inês surgiu há alguns anos como uma personagem caricata que parecia ter saído de alguma esquete do Zorra Total.

Inês não parecia ser alguém para se levar a sério, porque seu comportamento em relação à sexualidade não condizia com seu comportamento em relação à religiosidade.

Riram de Inês porque diziam que ela "parecia uma travesti". (O que se passa na cabeça de uma pessoa que acredita que se parecer uma travesti é algo depreciativo?)

Riram de Inês porque diziam que ela era burra (Como se inteligência fosse sinônimo de educação formal.)

Inês é mulher, negra e foi prostituta.

Inês não sumiu depois da aparição repentina, porque se tornou uma referência no meio gay. No começo, a identificação parecia brincadeira, mas a brincadeira, pra muita gente, virou admiração de verdade.

Inês é alguém difícil de engolir.

Inês é alguém que quanto mais se conhece mais se mostra o oposto de uma caricatura.

Inês, conhecendo-a pouco ou muito, é difícil de não se admirar.