quinta-feira, 26 de março de 2015

INCESTO E TELENOVELA - SETE VIDAS VAI INOVAR?

Pedro e Júlia, os irmãos biológicos protagonistas da atual novela das seis (Sete Vidas) são apaixonados um pelo outro desde o início da trama. Hoje eles deram o seu primeiro beijo. Estou shippando esse casal desde o anúncio da novela. No início porque o nome dos dois me remeteu melancolicamente à época em que eu, ainda adolescente, não perdia um episódio de Malhação. O casal homônimo vivido por Henri Castelli e Juliana Silveira, protagonizou uma das melhores temporadas da novela teen. Entretanto, eu não esperava uma atuação muito convincente por parte de Isabelle Drummond e Jayme Matarazzo, dois atores frequentemente apáticos em seus papéis. Mas os dois me surpreenderam e apresentaram uma química muito boa.

A promissora autora de Sete Vidas, Lícia Manzo, que arrasou em A Vida da Gente, escolheu muito bem a forma como está tratando desse que é o tabu mais inabalado de todos os tempos: o incesto. Ao discutir a possibilidade de dois irmãos se envolverem sexualmente, ela escolheu tratar de irmãos biológicos por parte de pai (um doador de esperma que eles nem sequer conheceram) que só vieram a saber da existência um do outro depois de adultos. É uma forma muito marginal de abordar o problema. Foge da ideia de dois irmãos que cresceram juntos, filhos da mesma mãe, que se envolvem um com o outro. Essa possibilidade é abordada de forma escancarada, por exemplo, no filme brasileiro do Começo ao Fim e na série Game of Thrones. Mas nas novelas, os programas de maior visibilidade da televisão brasileira, tidos como crônicas de nossa sociedade, reflexo dos valores contemporâneos e fortes formadores de opinião, a história é outra. Vide a cena de beijo entre Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, em Babilônia, que gerou uma reação extremamente negativa na semana passada.

Os autores de novelas parecem estar, na última década, procurando de todas as formas minar os valores tradicionais relacionados a família e sexualidade, o que eu, pessoalmente, acho ótimo. Após o beijo de Pedro e Júlia, não aguentei e soltei um “chupa, família mineira!” rs A impressão que eu tenho, porém, é que a autora guarda na manga uma saída manjada: revelar, no fim da trama, que os dois não são irmãos como pensavam. Uma cena que já foi ao ar indica isso: ao ouvir Júlia confessando esse sentimento para a prima, a tia da garota diz para si mesma que acha uma pena que duas pessoas que se gostam como eles não possam ficar juntas por um capricho. Ela pode estar falando de um capricho do destino, mas também pode estar falando da mãe de Julia, uma mulher manipuladora que controla a todos da família. Imagino que a mãe de Júlia possa estar mentindo sobre a origem da garota por algum motivo, como para encobrir uma possível traição cometida por ela quando casada com o pai de criação de Júlia.

O tema já foi abordado outras vezes. Em Cobras e Lagartos, os personagens de Cléo Pires e Carmo dalla Vecchia, namoravam até descobrirem que eram irmãos. Se separaram, mas continuaram apaixonados. No fim, descobriram que não eram irmãos de verdade e terminaram juntos. Em Viver a Vida (mesma novela que conseguiu emplacar o primeiro beijo entre dois homens no horário das nove horas da Globo), houve um caso de paixão entre possíveis pai e filha, vividos por Carolina Kasting e José Wilker. No final, fica ambíguo se eles são mesmo pai e filha ou não. Explicitamente, é dito que não, mas a mãe da moça diz, numa das últimas cenas, que precisa contar a verdade sobre o caso para seu filho mais velho, sem que a cena prossiga depois disso. Os dois, de qualquer forma, não terminam juntos. Na minissérie Os Maias, o casal vivido por Fábio Assunção e Ana Paula Arósio descobriram, sem refutação, que eram irmãos. Ele continuou se relacionando com ela mesmo depois de saber disso, mas os dois se separaram quando ele lhe contou a verdade. A licença poética aqui, porém, se dá pelo fato de que a minissérie é baseada na obra literária homônima de Eça de Queirós. A novela Mandala também foi inspirada num clássico. Aliás, a narrativa fundadora de toda essa leva: a tragédia grega Édipo Rei. Os personagens de Vera Fischer e Felipe Camargo chegam a dar um beijo, mas não ficam juntos depois que descobrem seu parentesco.

Em Sete Vidas, antes do beijo, Pedro explicou para seu irmão mais novo sobre o tabu do incesto, dizendo que ele é basicamente uma proibição moral. O envolvimento entre parentes de sangue que não se conheciam até se tornarem adultos é uma realidade relativamente comum, inclusive entre pais que deram os filhos para adoção e esses últimos. Um número relativamente grande de casais como esses já vieram a público, ainda que muitas vezes tendo sua identidade resguardada, afirmar que a atração entre eles foi extremamente grande. A ciência tenta explicar a situação a chamando de Atração Sexual Genética (GSA). O incesto, porém, tem arestas perversas, que se encontram na pedofilia, através do abuso sexual sofrido por muitas crianças dentro de suas casas.

Nas novelas, o tema difere do GSA porque a atração surge antes de os personagens descobrirem que são parentes. Na vida real, esses casos também acontecem volta e meia, alguns causando a separação do casal, outros não. Aqui entra a ideia de destino, fortemente presente nas novelas. Pedro e Júlia também se apaixonaram à primeira vista, antes de saberem que eram irmãos. A impressão que eu tenho é que Lícia Manzo está testando o público. Se ele shippar o casal, ela deixa que eles sejam irmãos. Senão, ela revela que eles não são. Aqui em casa, a minha mãe, que é especialista em novelas e um ótimo termômetro, está dividida. Ela não considera que os dois sejam irmão apenas porque seus materiais genéticos provêm do mesmo doador. Mas ela diz que se um dos dois fosse filho dela, ficaria muito incomodada. É aquela mesma história de “tudo bem ser gay, mas meu filho não” rs. Quando disse a ela que acho que a autora está testando a reação do público, ela me garantiu que a trama não será aceita como está. Perguntei a ela porque ela achava isso se ela estava aceitando.

A visão de que os outros não sabem ler a novela de forma adequada e que eu sei é extremamente comum. O que mais ouço são pessoas dizendo que a novela ensina os outros a fazerem coisas erradas. Mas ensina aos outros, não a quem está falando, que sabe não se influenciar por ela. É comum o argumento ridículo de que as crianças que estão assistindo não sabem discernir e acham que tudo o que passa é certo. Olha, novela não é um produto destinado a crianças. Se você pensa assim, não deixe seus filhos assistirem... O pior argumento é de que as crianças vão, por exemplo, virar gays por verem um beijo gay na novela. Olha, eu cresci vendo beijo hétero na novela e nem por isso... rs Os autores de Babilônia riem dessa perspectiva através da personagem de Arlete Salles, que adora dizer que tudo se aprende nas novelas, que elas são educativas. Mas minha mãe acha que o público nunca vai aceitar o incesto na novela. Mas gente, o suposto inadmissível há algumas décadas não aconteceu: o famigerado beijo gay? Vamos ver!

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