segunda-feira, 21 de abril de 2014

GAME OF THONES: VIOLÊNCIA, SADISMO E VALORES

Me forcei a ver a primeira temporada inteira de Game of Thrones. Tinha começado a ver, no ano passado, e parado no episódio 4. Mas tanta gente com quem eu convivo e que gosta das mesmas coisas que eu adora tanto a série, que eu me obriguei a ver, pelo menos uma temporada inteira.

Eu tinha parado de ver porque a violência do seriado havia me chocado. Assassinatos e estupros, com todos os requintes de sangue, tripas e crueldade, mostrados sem nenhuma atenuação. Essas coisas ainda me assustam. Como as pessoas podem gostar de ver coisas assim? Eu me forcei a não virar o rosto em nenhuma dessas cenas, e nenhuma delas foi nem um pouco prazerosa, muito antes pelo contrário. Mas ao longo dos episódios, foi ficando menos chocante e mais banal pra mim (o que considero pior ainda).

De qualquer forma, acho muito triste e preocupante que assistir a esse tipo de imagem agrade as pessoas. E continuo não gostando disso na série. Não só do fato de ela mostrar essas imagens, mas de ela ser uma série que gira em torno de tanta crueldade.

Mas, por outro lado, eu consegui entender o que a série tem de bom, pra atrair a admiração de tantas pessoas que gostam das mesmas coisas que eu. O roteiro é incrivelmente bem feito. Os personagens e as situações são muito bem construídas. Gera muita identificação, suspense, torcida pelos desfechos que você gostaria e surpresa em relação ao que realmente acontece.

E acabou que pronto: agora eu também gosto da série e vou continuar assistindo às demais temporadas. Acho uma pena que a condição pra que eu continue acompanhando a história seja continuar acompanhando também as barbaridades que ocorrem nela. E acho uma pena que uma série tão boa se baseie em coisas como essas. Mas acima de tudo acho uma pena que eu seja parte de, provavelmente, apenas uma minoria para a qual a violência atrapalha ao invés de contribuir para o roteiro, visto que não parece haver muita reclamação em torno dessa questão por parte do público.

Mas nem tudo está perdido: eu me identifiquei imensamente com os personagens que mais fogem dessa lógica de violência gratuita e banalizada: Khaleesi, Snow, Arya e Tyrion. E me parece que eles são, também para o público amplo, os favoritos. É um consolo ver que mesmo entre os que gostam de assistir a essas barbaridades, as pessoas se identificam justamente com as personagens mais críticas em relação a elas. O sadismo desse público me parece bem menos pior sob essa luz: ele próprio parece encarar esse alvo de prazer que possui, a violência, como algo que no fim das contas é errado.

No mais, prefiro acreditar que grande parte das pessoas que não se incomodam com essas cenas, também não gostam propriamente de vê-las, mas apenas não ligam pra elas. Talvez, diferente de mim que demorei para achá-las mais banais, muitos já as vejam dessa forma desde o início, o que é também triste, mas talvez pelo menos um pouquinho menos cruel.

sábado, 12 de abril de 2014

EU NÃO NASCI GAY: LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

Eu tenho uma quantidade assustadora de lembranças muito fortes da minha infância. Dizem que muitas das coisas das quais a gente se lembra são, na verdade, imaginações construídas a partir das narrações que os mais velhos nos contam a respeito da gente. Eu tenho imaginações como essas também.

A minha mãe sempre me contou, por exemplo, que, antes de eu aprender a ler, eu fingia que estava lendo as músicas no folheto da missa, enquanto as cantava. Eu tenho uma imagem perfeita de mim fazendo isso. Mas sei que é uma imaginação, porque essa suposta “lembrança” é muito rasa, termina exatamente aí. Só que não é desse tipo de memória que eu estou falando.

Eu tenho lembranças de coisas que ninguém nunca me contou, até porque muitas delas seriam tabus ou interditos. Tenho lembranças de como eu me sentia, do que eu pensava. Tenho lembrança de experiências vividas sem ninguém por perto, de experiências sobre as quais eu nunca comentei com ninguém até me tornar adulto.

As primeiras lembranças que eu tenho são com dois anos de idade. Sei disso não porque me lembro que eu tinha essa idade, mas porque me lembro da casa onde eu morava. E eu morei nessa casa apenas dos meus dois aos meus três anos de idade, segundo a minha mãe, à qual eu perguntei que idade tinha, depois de adulto.

São várias memórias desse local, e eu não sei a ordem cronológica delas. Eu me lembro de uma festa, na qual várias pessoas da minha família (irmãos e sobrinhos da minha mãe) estavam presentes. Meu irmão mais velho e um tio meu conversavam sobre a criação de pombos do meu irmão, e eu soprava bolinhas de sabão. Meu tio pediu o canudinho emprestado e soprou. Eu tive nojo e troquei o lado que ele havia soprado pelo que estava imerso na água com sabão, pra continuar soprando.

Eu me lembro de brincar de carrinho com meu primo numa rampa que dava acesso à minha casa. Lembro da minha mãe me mandando chupar rápido uma bala que ela havia me dado, porque estávamos indo pra casa do meu primo, que era meu vizinho e era um pouco mais novo que eu, e ela argumentava que não tinha outra bala para oferecer a ele, caso ele pedisse.

Nessa época, a minha mãe trabalhava fora, numa padaria, e meu irmão do meio cuidava de mim durante o dia. Eu lembro de um dia em que minha mãe tava saindo pra trabalhar chorando, e eu tava no colo do meu irmão, chorando também. Lembro que eu não queria comer as maçãs que ele me dava, então jogava elas embaixo da cama. Lembro que um dia fui visitar minha mãe no trabalho, e ela me deixou escolher qualquer coisa pra comer. Eu quis um Milkbar, que, na época, vinha com um desenho de uma vaquinha.

Lembro que um dia me deu dor de barriga enquanto meu irmão mais velho tava tomando banho, então eu fiz cocô na sala, vendo TV. Lembro que um dia quis experimentar a hóstia da missa, e minha mãe conversou com o padre depois que a celebração terminou, e ele me deu um pedacinho. Me lembro de simplesmente estar deitado na minha cama tentando dormir.

Depois que eu me mudei desse local, eu morei em outro até os meus seis anos de idade. Como o período de tempo num local só foi maior, eu não sei dizer que idade eu tinha quando cada um das coisas ocorreu enquanto eu morava ali. Mas certamente eu tinha mais de dois e menos de seis anos. As únicas lembranças que eu sei precisar que idade eu tinha são as da pré-escola, porque eu sei que tinha cinco anos quando comecei a estudar. Eu me lembro que lá eu tive meu primeiro interesse amoroso. Foi por uma menina, chamada Laís. Eu me lembro muito bem de como eram o rosto e o jeito dela.

Morando nesse mesmo lugar, eu tive o meu primeiro contato sexual, com um primo. Ele era alguns anos mais velho que eu. Ele me convidou a participar de uma brincadeira: ele ia fechar os olhos, abaixar as calças, e eu ia chupar o pinto dele. Depois a gente invertia. Eu aceitei. Ele fechou os olhos e eu pus o pinto dele na minha boca por alguns segundos. Depois fechei os olhos e senti algo molhado em torno do meu pinto. Eu não me lembro de ter tesão nenhum durante a brincadeira. Tudo isso me parecia apenas uma brincadeira mesmo, sem nenhuma conotação diferente de qualquer outra.

Eu também me lembro que, morando nesse mesmo local, um dia eu peguei uma revista da Avon, ou de algum catálogo de produtos similar, e passei batom na minha boca pra beijar as modelos seminuas das fotos da revista.

Eu me mudei novamente aos seis anos de idade e permaneci nesse novo local até os dezesseis anos. Fiz todo o ensino fundamental lá, numa mesma escola. Nessa escola, eu me lembro de sofrer bullying, devido a minha voz, o meu jeito de me movimentar, a minha sensibilidade e a minha delicadeza, desde, pelo menos, a quarta série, com dez anos de idade.

Eu me lembro que justamente nessa série eu tive meu segundo interesse amoroso, por uma menina super inteligente da minha sala. Na sétima série (treze anos), eu me lembro de ter tido meu terceiro interesse amoroso, também por uma menina da minha sala. Nenhuma dessas três primeiras paixões envolvia um desejo de ordem sexual. Mas envolviam interesses erótico-afetivos. Eu queria abraçá-las, beijá-las, andar de mãos dadas com elas. Apenas não me imaginava fodendo nenhuma delas, nem ficava de pinto duro pensando nelas. Mas não ficava de pinto duro pensando em ninguém até então, nem me imaginava transando com ninguém até então.

Mas o bullying só aumentou desde ele havia começado. Eu me lembro que um menino mais velho sempre me perguntava: “você é homem?”, e eu ficava constrangido demais pra responder qualquer coisa. No final da oitava série (quinze anos), eu cheguei a sofrer uma agressão física (vários socos e pontapés) de um grupo de meninos da escola, na saída da aula.

O meu primeiro beijo foi com uma menina, com doze anos de idade (final da quinta série). Foi ela quem pediu pra ficar comigo. Foi bom, assim como os beijos que eu dei em mais uma meia dúzia de meninas, até os dezesseis, quando fiquei com um rapaz pela primeira vez. Mas eram beijos que não me davam tesão, vontade de fazer mais do que aquilo, eram só uma sensação física e afetiva agradável.

A primeira vez que eu me masturbei foi com dez anos de idade. Foi depois de assistir uma reportagem na TV sobre uma praia de nudismo. Foi a primeira vez que eu me lembro de ter visto a imagem em movimento de mulheres nuas, e aquilo mexeu comigo. Meu pinto endureceu, algo normal pra qualquer menino, porque, afinal, pintos também endurecem várias vezes por motivos que não são sexuais, como quando estamos com muita vontade de fazer xixi.

Mas como eu não estava, achei aquele fenômeno interessante e comecei a mexer no meu pinto. Mexi, mexi, até gozar. Nessa época, quando eu gozava, ainda não ejaculava. Eu nem tinha entrado na puberdade ainda, então nem tinha pelos pubianos, e meu pinto ainda era bem pequeno. Quando eu gozei, estranhei muito aquela sensação e fiquei muito preocupado. Inicialmente eu achei que precisava fazer xixi, mas fui até o banheiro e não estava com vontade. Então achei que tivesse rompido alguma veia ou coisa do tipo, por mexer demais no pinto.

Não demorou muito e eu mexi de novo, e de novo, até que me acostumei com aquela sensação, apesar de não saber o que ela era, nem se outras pessoas também sentiam aquilo. Mas eu nunca pensava em sexo, nem em nudez durante a masturbação. Nesses primeiros momentos, era um ato puramente de estimulação pela sensação física dos espasmos.

E eu só comecei a ter atração sexual por alguém, e consequentemente passei a fantasiar nudez e sexo na minha mente, em algum momento entre os treze e os catorze anos de idade (lembro que foi lá pela metade da sétima série). Foi bem depois do início da minha puberdade, que foi com onze anos (quando começaram a nascer meus pelos pubianos, e eu ejaculei pela primeira vez, também achando aquilo muito esquisito). Foi aí, quando eu comecei a sentir atração sexual, que eu me vi homossexual, pois as atrações surgiram pelos meninos, e não pelas meninas, como eu esperava, afinal, eu jamais havia olhado para outro menino com algum interesse erótico-afetivo.

Eu me lembro exatamente da primeira vez. Foi no recreio, eu estava conversando com meu grupo de amigos, quando um deles se abaixou próximo de mim, flexionado a bunda quase na minha cara. Quando eu olhei por reflexo e reparei na bunda dele, senti uma vertigem, um calafrio, um comichão no pinto. Falei pra mim mesmo: “Opa! Que merda foi essa?”. Essas sensações começaram a ficar cada vez mais frequententes, de forma que acabei entendendo que eu estava a fim de transar com esses caras.

Eu só fui me apaixonar por um homem, ou seja, ter um interesse erótico-afetivo, e não sexual, por outro homem, depois de adulto, com uns vinte e um anos de idade, mais ou menos. Antes disso, eu já havia transado com uns dois ou três caras, sendo que o primeiro foi aos dezoito anos de idade. Mas desde que comecei a me interessar por meninos, eu também nunca mais me apaixonei por outra menina.