quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

EU TENHO FOBIA DE HOMENS HÉTEROS CISGÊNERO

Sabe esses caras que coçam o saco, cospem no chão e riem alto comentando sobre a beleza de alguma mulher? Sabe esses caras que gritam sem camisa o nome do time de futebol e ficam zuando expansivamente um ao outro por causa do time para o qual o outro torce? Pois é, eu não gosto desses caras. Eu olho pra eles e meu estômago embrulha. Eu me sinto com raiva, com vontade de sair de perto.

Eu nunca matei nenhum homem hétero cisgênero, nem tenho vontade de fazer isso. Eu nunca agredi nenhum homem hétero cisgênero, nem tenho vontade de fazer isso. Eu nunca quis impor a qualquer homem hétero cisgênero que se comporte de uma maneira diferente, mas eu sempre desejei que eles se comportassem.

Eu sei bem de onde vem essa fobia. Vem do fato de homens como esses já terem me agredido psicologica e fisicamente, de homens como esses terem me torturado ou simplesmente me desprezado durante toda a minha infância e adolescência por eu não ser como eles. Mas vem também justamente do fato de eu ter falhado na tentativa de ser como eles.

Portanto, eu entendo exatamente como a maior parte das pessoas se sente em relação aos homossexuais. Assim como eu me sinto em relação aos homens héteros cisgênero, elas se sentem em relação a homens como eu, com uma performance de gênero tida como "afeminada".

Assim como eu me incomodo quando o cara coça o saco e cospe no chão, elas se incomodam quando caras como eu falam com voz aguda e rebolam ao andar. Assim como eu sinto o estômago embrulhando quando vejo os caras rindo ao comentar sobre a beleza de uma mulher, elas sentem quando vêem caras como eu beijando outros caras. Assim como eu gostaria que esses caras se comportassem de forma diferente, elas também gostariam que nós nos comportássemos.

Os motivos delas são outros: o medo de ser assim, de ter um filho assim, de sofrer as sanções que pessoas assim sofrem. O principal motivo da homofobia da minha mãe era o medo de eu ser agredido na rua. Ela não queria que eu fosse gay para que isso não acontecesse.

A verdade é que todos nós somos homofóbicos em algum grau. Eu mesmo me incomodo quando vejo dois homens de mãos dadas num lugar muito movimentado. Sinto como se algo estivesse errado. É claro, aprendemos desde sempre que isso é errado e essas coisas não saem da gente assim tão fácil. 

Nenhum de nós tem a obrigação de ser um ser magnânimo. Todos temos o direito de sermos pessoas que possuem também sentimentos ruins. Mas podemos alimentar esses sentimentos, ou tentar fazer alguma coisa para superá-los.

Eu não alimento minha fobia por homens héteros cisgênero. Não faço campanha para que eles mudem seu comportamento, nem defendo que minha aversão a esse comportamento é natural e que não precisa ser trabalhada. Pelo contrário, eu procuro, dentro dos meu limites, olhar pra eles com a maior complacência possível e me esforçar para achar normal o jeito deles se comportarem.

Quem tem alguma aversão por homossexuais também deveria procurar superar isso, e não defender ou alimentar tal aversão.

Agora, assim como eu não mato, agrido ou luto contra o direito à livre expressão dos homens héteros cisgênero, ninguém tem o direito de fazer essas coisas em relação a homossexuais.

Mas sejamos tolerantes como defendemos que os outros sejam. Se o fulano quer continuar cultivando seus sentimentos ruins, desde que ele não faça nada dessas coisas que nos afligem objetivamente, ele tem todo o direito. Eles não podem mandar no que sentimos, nós não podemos mandar no que eles sentem. Vamos todos nos respeitar, e ser intolerantes apenas com atos objetivos de intolerância?

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