terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A BÍBLIA, COMO ELA É

Deus criou um homem chamado Adão à sua imagem e semelhança. Depois lhe tirou uma de suas costelas e criou para ele uma mulher chamada Eva. Aos olhos de Deus, o homem é um ser semelhante a Ele, enquanto a mulher é um ser subalterno que o homem carrega nas costas. Deus não queria que o homem e a mulher tivessem discernimento do que é bom e do que é mal, a fim de poder controlá-los com facilidade. Mas havia um fruto proibido, no meio do jardim do Éden, local em que Deus os mantinha prisioneiros, que dava aos dois a capacidade de adquirir discernimento.

Como Deus sabe tudo o que vai acontecer, Ele sabia que os dois comeriam o fruto. Mesmo assim Ele o deixou bem acessível, a fim de se fazer de vítima quando os dois o comessem. Deus criou também a serpente, um animal bastante inteligente e astuto, que Ele sabia que faria Adão e Eva comerem o fruto. A serpente disse ao homem e à mulher que o fruto do bem e do mal era bom, e eles o comeram. Primeiro a mulher, depois ela fez com que o homem também comesse. Ou seja, aos olhos de Deus a mulher perverte o homem.

Deus mora no Reino, um lugar muito melhor do que o mundo que criou para os humanos, mas ao mesmo tempo Ele está em todo lugar. Portanto, Ele estava vendo Adão e Eva comerem o fruto. Ele deixou que os dois comessem, apesar de poder tê-los impedido, porque no fundo era o que Ele queria. Afinal, nem mesmo uma folha cai de uma árvore sem que Deus queira. Mas Deus se fez de surpreso e colocou a culpa na serpente. Desde esse dia, todo ser que como ela se opôs às tiranias de Deus passou a ser chamado de demônio.

Apesar de Deus ter negado o discernimento ao homem e à mulher, o que lhes fazia depender dos outros para saber o que era certo ou errado, Ele argumenta que lhes deixou comer o fruto por causa do livre arbítrio que Ele dá aos humanos. Como castigo por terem Lhe desobedecido, Deus expulsou o homem e a mulher do jardim em que eles estavam prisioneiros, o que pode parecer bom, mas não é: o jardim era um terreno fértil, diferente do local para onde foram enviados.

Deus passou a impugnar a todo ser humano que nascesse um pecado original baseado na desobediência de Adão e Eva, a fim de tornar todos devedores em relação a Ele e poder continuar lhes controlando facilmente. Ele passou a cobrar pesados impostos da família de Adão e Eva. Eles tiveram dois filhos, Caim e Abel. Deus começou a tratar Abel bem e ser indiferente em relação a Caim, sabendo que isso causaria a discórdia entre eles, fazendo com que Caim matasse Abel.

Apesar de todos os humanos serem descendentes de Adão e Eva, Caim encontrou uma mulher que não era sua irmã e teve um filho com ela. Adão também encontrou outra mulher e teve outro filho com ela. Com o tempo, Deus foi perdendo o controle sobre grande parte da população. Uma vez, Deus fingiu que não sabia que isso tudo iria acontecer, e disse estar arrependido de ter criado os humanos. Ele mandou um dilúvio sobre a Terra, que matou todos, exceto a família de Noé, que era mais obediente a ele. Dessa forma, todos nós somos descendentes de Noé também.

Não adiantou nada. Então, ele selecionou um grupo de pessoas, chamado Israel, que ainda lhe obedecia um pouco, e começou a ajudar esse grupo a matar todos os seus inimigos. Isso tudo aconteceu em apenas alguns milhares de anos, apesar de as pessoas viverem quase mil anos, no início do mundo.

Pois bem. Acontece que Deus tinha um filho chamado Jesus, e ele era muito rebelde. Diferente do Pai, ele tinha uma visão progressista, achava que o povo tinha que ser livre, que tinha que morar no Reino com eles, que tinha que ser liberto do pecado original e se tornar imortal como eles. Deus acabou acatando as ideias do filho e o enviou à terra, engravidando uma virgem chamada Maria, a fim de que ele contasse as boas novas para o povo. Maria era noiva de José, mas Deus fez com que ele aceitasse criar o filho d'Ele.

Mas Israel foi manipulado por um povo que não gostava de Deus, e todos acabaram matando Jesus. Deus deixou que isso acontecesse e ainda disse ao filho que esse era o preço que ele deveria pagar para que os humanos tivessem os direitos que ele queria que eles tivessem. Mas três dias depois Ele ressuscitou o filho e o levou de volta ao Reino. Desde esse dia, Deus prometeu que daria a vida eterna no Paraíso aos homens, mas só se eles continuassem a Lhe obedecer e a Lhe pagar impostos. Senão eles arderiam para sempre no Inferno, um local de sofrimento intenso. Mesmo assim, essa vida eterna só seria alcançada depois que Ele destruísse o mundo em que os humanos vivem, o que ainda não aconteceu. Até lá, o povo continua morrendo e passando dificuldades na Terra. Mas acredita que Deus cumprirá sua promessa e irá ressuscitá-lo quando esse dia chegar.

Apesar do comportamento psicótico, cruel, tirânico e machista de Deus ao longo de toda a Bíblia, os humanos, que O temem, acreditam que Ele é bondoso, piedoso e amoroso, e Lhe prestam cultos em agradecimento a tudo que Ele lhes fez.


A BÍBLIA, COMO EU A VEJO

Um monte de histórias escritas por um povo fanático religioso sobre o deus terrível no qual eles acreditavam.

Jesus Cristo: um homem que tinha um crença num deus totalmente diferente, ligado ao amor e à misericórdia, no qual eu também creio.

Um monte de histórias escritas por um povo fanático religioso sobre Jesus Cristo, tentando ligar o que ele falava ao deus no qual o povo cria antes dele.

CAUSA NÃO É JUSTIFICATIVA

Eu sofri violência psicológica a vida inteira de membros da minha família, vizinhos, colegas de escola e amigos por ser gay e afeminado. Eu apanhei na rua mais de uma vez por causa disso. Eu passei anos deprimido por ter tido uma dificuldade imensa de me aceitar como eu era. Agora imagina se eu ficasse por aí falando que não fecho com esquerdohétero, chamando todos eles de ozétero, falando que os argumentos deles são straight tears, me negando a dialogar com eles e tratando todos eles como inimigos. Não importa se minha heterofobia não ia matar ninguém, eu estaria sim adotando um discurso de ódio em resposta a outro.

Minha intenção ao fazer comentários sobre esse tema nunca é condenar as vítimas, mas instigá-las a questionar o ódio que sentem. Ninguém tem o direito de cobrar nada de uma vítima, a vitima nunca está errada. Mas eu não posso simplesmente falar que a resposta que algumas delas estão dando a longo prazo não precisa ser repensada, porque eu realmente acho que precisa. 

Muitas vezes não temos um controle sobre nossa resposta imediata. Mas, de qualquer maneira, existe uma escolha a ser feita a seguir: uma coisa é uma reação de ódio imediata e irrefletida, outra é tornar isso uma estratégia de vida. Eu entendo o que leva algumas vítimas a agir assim. Entretanto, eu não vejo a causa como justificativa para as ações e discursos de ódio que elas possam vir a adotar a longo prazo.

Se a vítima não tem responsabilidade pelos discursos e ações de ódio que passa a adotar, então o opressor, que é fruto da sociedade opressora em que vive, também não tem responsabilidade por oprimir. Eu acho sim que somos frutos do meio em que vivemos e das experiências pelas quais passamos. Mas, exatamente por isso, eu acho que temos que atacar sistemas e não pessoas. Só que eu acho também que todo mundo é capaz de refletir e ser crítico em relação ao contexto social do qual é fruto, fazendo sim escolhas sobre como se posicionar em relação a ele.

Ademais, tenho achado, cada vez mais, extremamente pobre adotar conceitos de identidade de formas tão limitadas. Há pouco tempo, eu percebi que não me identifico e nunca me identifiquei homem. Eu não caibo nessa identidade que me é impugnada. Também não caibo na de mulher. Me identifico muito mais com o gênero feminino na verdade. Mas gosto de ter barba, pênis, de não ter seios. Tenho algo de homem e algo de mulher em mim. E gosto disso.

De qualquer modo, decidi voltar a me declarar sim feminista. E se reclamar, sou feministo então. Só que mais do que lutar pela igualdade de homens e mulheres, eu acredito que é hora de lutarmos, também, contra esse próprio binarismo. Enquanto ele existir, vamos continuar atribuindo diferentes características sociais a machos e fêmeas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

ESPANCAMENTOS AO AR LIVRE


Minha cunhada foi a São Paulo na semana passada, fazer compras. Ela me contou que estava no Brás, quando viu um cara correndo perto de onde ela estava, fugindo de alguns outros caras. Ela percebeu em alguns instantes que ele havia roubado alguma coisa e que tinha sido flagrado pelos vendedores.


Assim como ela, muitos perceberam o que estava acontecendo. Um cara estendeu a perna na frente do ladrão, e ele caiu. Quando ele se levantou, um dos vendedores que o perseguiam saiu correndo em sua direção e deu uma voadora no peito dele. Ele bateu com força em um carro e caiu de novo no chão.

Depois disso, uma centena de pessoas se juntaram ao redor dele e, enquanto a maioria gritava coisas como "Bate mesmo, ele merece!", umas trinta pessoas se revesavam para bater nele com pontapés. Ele começou a sangrar rosto a fora. A confusão foi tão grande que as pessoas começaram a bater umas nas outras por acidente e depois pra tirar satisfação. Ela gritou "Para, gente, pelo amor de Deus". Algumas pessoas olharam pra ela com cara de "cala a boca" e ela então foi pra dentro de uma loja. Ela não viu mais ninguém se manifestando contra o espancamento. Ela estava acompanhada da minha sobrinha adolescente, que teve uma crise de choro dentro da loja. Mais tarde, ela ouviu um lojista comentando que tinham matado um ladrão por ali naquele dia. Ela não viu nenhum policial por perto durante o ocorrido.

Você ficou sabendo dessa história? Pois é, ela assuntou e parece que isso acontece volta e meia por lá. Como ela disse quando me contou a história, "Deus tem que acabar com esse mundo mesmo, porque o ódio e a vontade de matar do ser humano não acabam não".

ABAIXO O CIS-TEMA

CIS-TEMA, s.m. 1. conjunto de normas e valores relacionados à heteronormatividade. 2. crença de que o sexo biológico de um indivíduo deve determinar sua identidade de gênero, sua expressão de gênero e sua orientação sexual. 3. sistema que determina os tipos de comportamento esperados para homens e mulheres. 4. crença de que o indivíduo deve ser heterossexual e cissexual (ver CIS*), além de masculino se for homem e feminino se for mulher.

CIS*, prefixo. 1. contrário de trans*. 2. identidade de gênero em conformidade com a esperada para o sexo biológico (fêmeas mulheres e machos homens). 3. cissexual.

domingo, 23 de novembro de 2014

OS SUPER-HERÓIS TÊM SE TORNADO PRÍNCIPES?


Hoje o Domingo Show (Rede Record) apresentou a história de um menino pobre que aprarece num desses vídeos bonitinhos da Internet, mostrando ser um grande fã do Hulk. Dentro da lógica cis-têmica, os meninos são incentivados a ser tornarem fãs de super-heróis, como Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Batman. Já as meninas são incentivadas a se tornarem fãs de princesas, como Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e Elsa.

Esses modelos de masculinidade e feminilidade oferecidos às crianças são muito significativos. A figura do super-herói tradicionalmente representa a força, a coragem e a virilidade. Já a princesa tradicionalmente representa a beleza, a doçura e a fragilidade.

O feminismo, principalmente a partir da década de 1960, tem lutado para que as mulheres sejam representadas de uma forma diferente. E essa luta tem alcançado grandes avanços. Hoje as princesas não seguem mais o modelo tradicional. Elas estão se tornando também super-heroínas. Rapunzel e Elsa, apesar da beleza e da doçura, não são nada frágeis, mas sim donas de superpoderes. Merida, além de não ser frágil, também não é doce e nem liga para beleza. Apesar de não ter super-poderes, ela é uma grande arqueira. Há modelos fortes tanto para meninas que se identificam com os ideais de beleza e doçura, quanto para as que não se identificam com nada disso.

Mas e no caso dos meninos? Há mudanças na forma como os modelos de masculinidade têm aparecido? Os heróis tem se tornado também príncipes? Elementos como a doçura e a fragilidade têm entrado na constituição desses personagens? Os meninos que se vêem frágeis e doces, e não fortes e viris, têm encontrado modelos a partir dos quais possam se identificar? Curiosamente, o Hulk, com sua força descomunal, é um bom exemplo de que as coisas também estão começando a mudar desse lado. A caracterização do personagem nos novos filmes da Marvel tem explorado bastante o lado sensível e frágil do herói.

Parte do movimento feminista tem defendido que não adianta apenas alterar os ideias de feminilidade, sem fazer o mesmo com os de masculinidade. Nesse entendimento, para que o machismo acabe, não é necessário apenas que as mulheres possam se ver como fortes, mas também que os homens possam se ver como frágeis.

Apesar dos homens se beneficiarem da dominação masculina, o machismo também os afeta. Todo homem passa por intensas torturas psicológicas e conflitos internos por ter que ser o tempo todo forte, corajoso e viril. Os que não conseguem se adequar a esses ideias sofrem desprezo, violência psicológica e, às vezes, física ao longo de toda a vida.

Sem ideais de masculinidade diferentes para os meninos, não só esses desviantes se sentem perdidos e sozinhos, como os outros continuam os vendo como desviantes e, por isso, sentindo-se superiores a eles.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O TABU DO SEXO ANAL


Existe um tabu imenso em nossa sociedade no que diz respeito ao sexo anal. Abaixo estão listados cinco motivos que reforçam esse tabu e o porquê de eles serem equivocados.


1. Porque o sexo anal é relacionado diretamente à homossexualidade, uma vez que é a forma de penetração possível nas relações sexuais entre dois homens. Entretanto, qualquer pessoa pode obter prazer com a excitação anal, independente de sua orientação sexual (de se sentir atraído por homens ou por mulheres), porque essa é uma área com muitas terminações nervosas.

2. Por causa da dor que ele pode gerar. Mas essa dor é evitada se o penetrado estiver relaxado e excitado, e se fizer uso de lubrificante (o famoso KY ou similares). Esses cuidados também evitam qualquer tipo de lesão que possa ocorrer durante o sexo anal.

3. Pelo maior risco de contaminação pelo vírus HIV. O sexo anal pode sempre romper um dos pequenos vasos sanguíneos presentes no ânus e no reto, deixando os parceiros mais vulneráveis à contaminação. Mas é claro que esse risco só ocorre em relações sem camisinha.

4. Pela crença de que o sexo anal pode aumentar o risco de doenças na região anal, como hemorroidas e câncer no ânus. De fato, o HPV, outro vírus sexualmente transmissível, aumenta a chance de se desenvolver câncer no ânus. Mas, mais uma vez, esse risco só ocorre em relações sem camisinha. Quanto às hemorroidas, o sexo anal não é causa delas, mas as piora se elas já existirem. Assim, o jeito é tratar as hemorroidas e não fazer sexo anal durante o tratamento. O mesmo vale pra qualquer ferimento aberto na região.

5. Pela higiene. Obviamente, o sexo anal pode expor o contato do pênis do penetrante com as fezes do penetrado, mas apenas se não se fizer o uso da camisinha. Além disso, usando camisinha ou não, pode ser muito desagradável a presença de fezes durante o ato sexual. Pode ocorrer o famoso "cheque", como é chamada a presença de fezes no pênis do penetrado durante o ato sexual. Mas com a limpeza retal, a chamada "chuca", evita-se esse inconveniente. A chuca é geralmente feita com o auxílio de um chuveirinho, desses presentes no chuveiro ou no bidê. Depois de higienizar normalmente o ânus com água e sabonete, a mangueira do chuveirinho é introduzida no ânus até que o reto se encha de água (fria, já que a quente causa dor devido à hiperestimulação dos vasos sanguíneos). Depois disso, a pessoa senta-se no sanitário e expulsa a água do reto, como se estivesse defecando. O procedimento é repetido o número de vezes necessárias até que o reto fique limpo. Há quem faça o mesmo com o auxílio de uma garrafinha como as de soro fisiológico, que são apertadas para ejetar o líquido interno através de um furinho. Também há embalagens descartáveis especificamente criadas para isso, como as da marca In-M.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DISCRIMINAÇÃO E CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA


Ontem à noite, eu e outro homem estávamos juntos num bar no Centro de Betim (Gira Sol, ótima batata recheada, por sinal). Nos sentamos um perto do outro, trocamos não mais do que meia dúzia de selinhos, e ele fez um cafuné no meu cabelo. Nada que qualquer casal hétero não faça na frente de seus filhos e de seus pais, ou no banco da igreja. Um garçom se aproximou.

Garçom: "Por favor, o gerente pediu que eu pedisse a vocês que não ficassem juntos demais, pois há famílias com crianças aqui. Não é nada contra vocês, não temos preconceito, mas vocês sabem, tem gente que tem."

Eu: "Ok. Mas no momento a gente tá junto demais?"

Garçom: "Bom, ele só pediu pra evitarem de ficar muito juntos."

Eu: "Mas o que é ficar muito junto? Só pra saber, porque quero entender se a gente já fez alguma coisa indevida até agora ou não."

Garçom: "Bom, só estou transmitindo o recado."

O outro homem que estava comigo, para o garçom: "Tudo bem, não tem problema."

Eu, para o garçom: "Bom, tem problema sim. Mas a gente já entendeu o que você queria falar." 

Continuamos próximos, mas sem clima pra selinhos ou cafunés. No final, depois de conversar com o outro homem que estava comigo, chamei o garçom.

Eu: "Você é um excelente garçom, nos serviu muito bem. Mas não vamos pagar a taxa de serviço, porque fomos desrespeitados pelo estabelecimento. Não fizemos nada demais e vocês nos repreenderam mesmo assim."

Garçom: "Tudo bem. Mas só falamos para evitar constrangimentos. Tem gente que poderia reclamar."

Eu: "Alguém reclamou?"

Garçom: "Não."

Eu: "Vocês vão à mesa de casais héteros falar essas coisas com eles?"

Garçom: "Se eles estiverem passando dos limites, sim."

Eu: "Nós estávamos passando dos limites?"

Garçom: "Bom, a intenção era só evitar constrangimentos."

Eu: "Pois o que vocês fizeram foi criar um constrangimento. Nós havíamos pensado em ir conversar com o gerente, mas como ele também não veio conversar com a gente e pediu pra você transmitir o recado, também pedimos a você que transfira o nosso recado a ele."

Quando estávamos saindo, vimos um casal hétero em outra mesa dando um beijão de língua. Fiz questão de ir ao garçom mais uma vez.

Eu: "Olha, tem um casal hétero ali dando um beijão de língua, coisa que nós dois não fizemos em nenhum momento em que estivemos aqui."
Ele: "Ok."

Compartilhei o caso num grupo LGBT do Facebook, acreditando que ia encontrar alguma compreensão e suporte. Galera foi tosquíssima comigo, me dizendo que eu era culpado pela agressão, por não ter exigido uma retratação do gerente e não ter ido a uma delegacia prestar queixa. Como se sofrer preconceito não fosse ruim o bastante, ainda somos por vezes culpabilizados pelos preconceitos que sofremos. Como se eu fosse obrigado a terminar uma noite que era pra ser perfeita e que já havia sido bastante afetada, me desgastando ainda mais em uma delegacia, acabando de vez com o resto da alegria que ainda me sobrava, pela companhia com quem eu estava. Palmas pra quem tem ânimo pra fazer isso. Eu, além desse preconceito, tenho que enfrentar um transtorno bipolar que me deixa extremamente vulnerável a tudo isso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A EMANCIPAÇÃO FEMININA DAS PRINCESAS DISNEY

As princesas dos primeiros filmes da Disney não conduziam a ação de suas próprias narrativas. Submissas, elas eram alvo das ações de vilãs femininas e salvas por personagens masculinos. Sua felicidade estava relacionada à aparição de um príncipe encantado em suas vidas. Posteriormente, elas foram se tornando cada vez mais independentes e ativas, até chegarem a se tornar heroínas. Algumas delas não precisam mais de um príncipe em suas vidas, trabalham e fogem aos padrões de beleza tradicionais. Esse processo não foi linear, houve a cada novo filme avanços e retrocessos, mas as mudanças alcançadas ao longo do tempo são incrivelmente significativas. Entretanto, todas ainda são cis e heterossexuais (ou não oficialmente homossexuais ou bissexuais)...

Na imagem, da esquerda para a direita, Anna, Jasmine, Rapunzel, Branca de Neve, Mulan, Aurora, Cinderela, Pocahontas, Tiana, Bela, Ariel, Merida e Elsa.

Branca de Neve (Branca de Neve e os Sete Anões, 1937) fica nas mãos de sua terrível madrasta depois da morte de seu pai, o homem que mantinha as mulheres sob controle. Contando com a misericórdia de um caçador, com o auxílio de sete anões e com o beijo de um príncipe, ela finalmente alcança seu final feliz. Enquanto o mal é encarnado na mulher ativa que conduz a narrativa, e inveja Branca por sua beleza, o bem é encarnado na mulher passiva que sofre as consequências. Branca de Neve é sempre salva por personagens masculinos, todos bons. Os anões a acolhem desde que ela cuide dos afazeres domésticos que se acumulavam na casa deles, sem uma mulher que os fizessem. O "beijo de amor verdadeiro" que seu príncipe lhe dá ocorre após ele vê-la pela primeira vez, supostamente morta. Toda essa narrativa ocorre quando Branca de Neve tem apenas 14 anos de idade.

Cinderela (Cinderela, 1950) também fica nas mãos de sua madrasta (e de suas irmãs de criação) após a morte de seu pai. Ela era forçada a fazer os trabalhos domésticos da casa. Sua vida muda quando o rei convoca todas as moças do reino para um baile onde seu filho escolheria sua futura esposa, como que avaliando as opções de carne disponíveis num açougue. Há nesse filme a primeira personagem feminina boa a ativa, sua fada madrinha. Com sua ajuda, Cinderela consegue ir atrás do príncipe. Mas depois é ele quem manda percorrerem o reino em busca dela, salvando-a de sua madrasta. Ela, portanto, não se torna princesa por nascimento, mas pelo casamento.

Aurora (A Bela Adormecida, 1959) é prometida em casamento a um príncipe no dia de seu batizado. Nessa ocasião, a terrível Malévola lança um feitiço que faz com ela entre num sono profundo no seu aniversário de 16 anos. O príncipe a qual ela havia sido prometida, assim como em Branca de Neve e os Sete Anões, salva Aurora com um "beijo de amor verdadeiro". Antes de saber quem era o príncipe, ela o havia conhecido e se apaixonado por ele, mas havia sido forçada a esquecê-lo, devido ao acordo que seus pais haviam feito sobre seu destino.

Ariel (A Pequena Sereia, 1989) abandona sua voz e sua própria identidade para correr atrás de um príncipe que acabou de conhecer. Diferente das princesas anteriores, ela é independente, rebelde e ativa. Ela até salva o príncipe da morte. Mas tem como ideal de felicidade abrir mão de tudo por um homem. Também é feminina a personagem malvada que lhe tira a voz e transforma sua calda em pernas. Ela disputa o príncipe com Ariel, tentando "roubar" o amor do homem pelo qual ela é apaixonada. Ariel tem apenas 16 anos.

Bela (A Bela e a Fera, 1991) gosta de ler e sacrifica heroicamente sua liberdade para libertar seu pai. Ela recusa os galanteios de Gaston, por considerá-lo machista e rude. Mas apaixona-se por um personagem masculino que lhe mantém prisioneira (e que ainda assim é o mocinho), depois que ele a salva de um ataque de lobos. Ele era um príncipe, mas fora transformado em fera por uma personagem feminina. Gaston é o primeiro vilão masculino nos filmes de princesa da Disney. Ele tenta matar a fera e obrigar Bela a se casar com ele. Nesse filme, é o amor da princesa que salva o príncipe, e não o contrário.

Jasmine (Aladdin, 1992) é uma princesa árabe. Ela é a única princesa que não é a protagonista de seu próprio filme. Ela se apaixona por um plebeu e se recusa a se casar com um príncipe que seu pai arranja, mas depois ela descobre que os dois são a mesma pessoa. Jasmine seduz o vilão do filme para enganá-lo. Ela tem apenas 15 anos.

Pocahontas (Pocahontas, 1995) é uma princesa indígena. Ela se apaixona por um inglês que está em guerra contra seu povo. Pocahontas arrisca sua vida para impedir que ele seja executado, e posteriormente ele quase morre para salvar o pai da garota. Por fim, ele volta para a Inglaterra.

Mulan (Mulan, 1998) é uma princesa asiática. Considerada inapta para o casamento (que ela deveria arranjar), ela resolve se passar por um homem para ir à guerra no lugar de seu pai. Ela alcança incrível sucesso no exército, tornando-se um dos principais soldados. Mesmo depois de descoberta e expulsa do exército, ela continua lutando contra os inimigos de seu país, tendo de enfrentar o preconceito de todos por ser mulher. Ela derrota o líder do exército rival, dando a vitória à China, e o imperador reconhece seu heroísmo. No final, entretanto, ela recusa um cargo oferecido a ela pelo imperador para voltar à sua casa. E isso tudo com apenas 16 anos. Ela tem um interesse amoroso, o general que a comandava. O final do filme mostra os dois se aproximando após a guerra, mas ainda sem concretizarem a relação.

Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009) é uma princesa ambiciosa, que pretende ter um restaurante e trabalha muito para conseguir isso. Ela é a única princesa negra. Tiana não liga para os homens, e sim para seus objetivos de vida. Mas ela apaixona-se por um príncipe e percebe que sua vida não estaria completa sem amor e apenas com sucesso profissional. No fim, ela consegue abrir seu restaurante com seu próprio esforço. É no mínimo curioso que o seu príncipe também seja (o único) negro.

Rapunzel (Enrolados, 2010) é submissa por ter sido criada enclausurada por sua sequestradora. Ela é a primeira princesa com superpoderes, podendo curar e rejuvenescer seres vivos com os seus cabelos. Apesar de sua submissão, ela tem muita vontade de sair de sua torre e faz isso com a ajuda de um ladrão, que ela rende ao tentar invadir sua casa. Dividida entre o remorso por estar abandonando aquela que acredita ser sua mãe e o desejo de conhecer o mundo para além de sua casa, ela consegue amolecer o coração de bandidos conversando com eles e salva da morte o ladrão que está lhe ajudando. No final, ela resolve sacrificar sua liberdade para salvá-lo novamente, mas ele não permite que ela faça isso, cortando seus cabelos. Entretanto, uma lágrima sua o salva.

Merida (Valente, 2012) recusa-se a se casar e não tem nenhum envolvimento amoroso. Ela adora praticar arco e flecha, e entra num campeonato desse esporte onde o ganhador se casaria com ela para ganhar e não ter que se casar com ninguém. Heroína da narrativa, ela não é vaidosa, deixando seus cabelos rebeldes sem se preocupar com isso. Posteriormente, ela luta não contra alguém, mas contra as consequências de suas próprias escolhas equivocadas

Anna e Elsa (Frozen: Uma Aventura Congelante, 2013) trazem para os filmes de princesa uma narrativa em que o amor fraternal, e não por um homem, é quem as salva. Elsa é a primeira princesa que se torna rainha e também possui superpoderes. Entretanto, ela sofre por não ser valorizada como é e passa por um processo difícil de autoaceitação. Ana, por outro lado, resolve se casar com um príncipe que acabou de conhecer, apesar de Elsa lhe advertir que ela não poderia fazer isso. Quando ela está prestes a morrer, ela acredita que um beijo dele é um ato de amor verdadeiro capaz de salvá-la, mas ele se revela um psicopata cruel, que a abandona para morrer e tenta matar também Elsa. O ato de amor verdadeiro que Ana faz é sacrificar sua própria vida para salvar a de Elsa, o que também a salva. Assim como Merida, Elsa também não tem um interesse amoroso. Já Ana acaba com um outro homem que conheceu ao ir atrás de Elsa para ajudá-la a salvar o reino. Elsa é a princesa mais velha de todas, com 21 anos.

Moana (Moana, 2016) será a próxima. Ela será polinésia. Há pouco sobre ela informado. Mas ela certamente será uma heroína, pois sairá "numa épica jornada para ajudar sua família". Ela terá apenas 14 anos, e é descrita como corajosa e independente.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MESMO AMOR


Nos últimos meses, tenho ouvido cada vez mais que branco não entende o problema de preto, que homem não entendo o problema de mulher, que cis não entende o problema de trans. Aí por que eu sou homem cis e branco, eu não sei nada sobre o que as mulheres, os negros e os trans passam.

Eu não sou nada disso. Mas sou gay. E eu sei muito bem o que um gay passa. E eu digo, sem medo de errar, que quem descreveu melhor isso até hoje, de todos as descrições que eu já vi, foi um hétero. Então, se eu tenho propriedade pra dizer isso, eu digo: héteros, eu acredito que vocês possam entender perfeitamente o que nós passamos.

Eu choro sempre com essa música. Aliás, chorei litros fazendo essa tradução:


Mesmo amor

Quando eu tava na terceira série, eu achava que eu era gay
Porque eu sabia desenhar, meu tio era
E eu mantinha meu quarto arrumado
Eu disse pra minha mãe
Lágrimas escorrendo pelo meu rosto
Ela, tipo: "Ben, você ama garotas desde antes da pré-escola, cê tá enganado..."
É, acho que ela tinha razão, né?
Um monte de estereótipos, tudo na minha cabeça
Eu me lembro de fazer contas do tipo
"É, eu sou bom no campeonato infantil"
Uma ideia preconcebida do que tudo isso significava
Pros que gostam do mesmo sexo
Ter certas características
Os conservadores da direita acham que é uma escolha
E que cê pode ser curado por algum tratamento ou religião
Uma mudança duma predisposição, feita pelo ser humano
Brincando de Deus
Ah, nem... aqui vamos nós
América, os fodões ainda têm medo do que a gente não entende
E "Deus ama todos os seus filhos"
É esquecido de algum jeito
Mas a gente parafraseia um livro
Escrito três mil anos atrás
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor

Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Se eu fosse gay, acho que o hip hop ia me odiar
Cê tem lido os comentários do Youtube ultimamente?
"Cara, isso é gay": tem um monte disso todo dia
A gente se tornou tão insensível com o que a gente tá dizendo
Uma cultura fundada na opressão
A gente ainda não aceita eles
Chamamos uns aos outros de bichas pelas costas
Num quadro de mensagens
Uma mensagem enraizada no ódio
Nosso gênero ainda assim ignora isso
Gay é sinônimo de inferioridade
Esse é o mesmo ódio que causa guerras religiosas
De gênero a cor de pele, a aparência do seu pigmento
A mesma briga que leva as pessoas a se manifestarem e insistirem
São direitos humanos pra todo mundo, não tem diferença!
Toque a vida e seja você mesmo
Quando eu tava na igreja me ensinaram outra coisa
Se você pregar ódio no culto
Essa palavras não são abençoadas
E a água benta que você asperge se torna envenenada
Enquanto todo mundo está mais confortável
Permanecendo calado
Ao invés de lutar pelos direitos humanos
Que tiveram seus direitos roubados
Eu posso não ser do mesmo jeito, mas isso não é importante
Não há liberdade enquanto a gente não for igual, eu defendo isso pra caramba
Eu sei lá

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

A gente aperta play, não apeta pause
Progresso, marche pra frente
Com o véu sobre nossos olhos
Nós viramos nossas costas para a causa
Até o dia em que meus tios possam ser unidos pela lei
Enquanto crianças estiverem andando por aí
Andando pelos corredores atormentados pela dor em seus corações
Em mundo tão cheio de ódio que alguns preferem morrer
A ser quem eles são
E um certificado no papel não vai resolver isso tudo
Mas é um lugar muito bom pra começar
Nenhuma lei vai mudar a gente
A gente tem que mudar a gente
Qualquer Deus em que você acredite
A gente veio do mesmo
Jogue fora o medo
Por baixo de tudo isso é o mesmo amor
Já é hora da gente se levantar

E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
E eu não posso mudar
Mesmo que eu tente
Mesmo que eu queira
Meu amor
Meu amor
Meu amor
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida
Ela me mantém aquecida

Amor é paciente
Amor é bom
Amor é paciente 
Amor é bom 
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Sem choro aos domingos)
Amor é paciente
(Sem choro aos domingos)
Amor é bom
(Eu não vou chorar aos domingos)
Amor é paciente
Amor é bom

(Tradução livre de "Same Love", de Macklemore & Ryan Lewis)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"LET IT GO" COMO METÁFORA PARA ACEITAR-SE GAY


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
A noite está relacionada à escuridão e ao frio. É o momento em que a homossexualidade causa desconforto e desorientação. A montanha está relacionada à escalada que leva ao topo. É o difícil caminho que se percorre em direção à auto aceitação. A neve é algo que encobre o chão, dificultando o deslocamento. São as dificuldades que atrapalham o caminho em direção à auto aceitação.


Não há pegadas a serem seguidas.
Refere-se à dificuldade de se encontrar modelos, exemplos de homossexuais que já trilharam esse caminho de forma bem sucedida.

Eu sou a rainha de um reino de solidão.
Refere-se à sensação de que ninguém está ao seu lado, e à de que você é o único que tem que enfrentar esse tipo de "problema".

O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
O vento é aquilo que atrapalha a caminhada. São as dificuldades enfrentadas em direção à auto aceitação. A tempestade dentro do homossexual é a inquietude, a confusão interna.

Não pude contê-la. Deus sabe que eu tentei!
Muitas vezes o que atrapalha a auto aceitação do homossexual é a crença de que a homosexualidade é um pecado.

Não deixe que vejam o que há em você. Seja uma boa garota. Controle-se. Não sinta. Não deixe que saibam.
São frases que o homossexual se diz constantemente, interiorizando a heteronormatividade.

Bom, agora já sabem...
Houve pra o homosseual uma saída do armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Não tem mais nada que eu possa fazer. Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.
É o momento em que o homossexual percebe que não adianta mais tentar esconder seus desejos das pessoas.

Não me importa o que vão dizer. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
O tempo fechado é a reação negativa das pessoas, a raiva e o não entendimento delas. O frio é a reação de afastamento das pessoas, que ao invés apoiarem o homossexual, tornam-se frias com ele. 

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Ao ver a situação de uma outra perspectiva, o homossexual vê que o que ele enxergava como um grande problema, não é nada.

Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
Ele vence a visão negativa que tem de si mesmo, e o medo de ser mal visto pelos outros.

É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los. Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas. Eu estou livre!
O homossexual resolve experimentar sua sexualidade, liberar os seus desejos, sem ligar pras normas que o coíbem.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou ser abraçado pelo vento.
O homossexual entrega-se à situação e vê onde ela pode levá-lo.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Vocês não vão me ver chorar.
Ele para de sofrer por causa de sua homossexualidade.

Aqui estou eu e aqui vou ficar. Deixa o tempo fechar!
Ele firma seu posicionamento.

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Ele percebe que pode ser homossexual e vivencia isso amplamente.

Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
As dificuldades internas são superadas.

Ideias novas logo vão se cristalizar.
Uma nova forma de ver as coisas se estabelece.

Não vou voltar jamais. O passado ficou pra trás.
Ele se recusa a voltar ao armário.

Deixa pra lá! Deixa pra lá! Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.
Ele ergue a cabeça e luta pelo seu direito de ser como é.

Deixá pra lá! Deixá pra lá! A garota perfeita já era.
Ele deixa de fingir que é o que não é.

Aqui estou eu, à luz do sol. Deixa o tempo fechar! O frio não vai me incomodar.
A luz do sol representa a visibilidade. Poder ser homossexual no espaço público, na frente dos outros.


Bônus: a família de Oaken.

O personagem Oaken chama de "família" esses cinco personagens que se encontram na sauna. Aparentemente trata-se de um pai e quatro filhos. A "família" pode ser entendida como "minha família" (a família de Oaken) ou como "uma família".
Fica a interpretação possível de que Oaken é um personagem homossexual, que possui uma família homoafetiva.


Bônus: poderes de Elsa

Ao longo do filme, descobrimos que Elsa congela quando sente medo, e aquece quando sente amor. A mensagem que fica é que o medo congela e o amor aquece. Pesando nessa metáfora, o medo da auto aceitação congela, e o amor (homoafetivo, no caso) aquece.


DEIXA PRA LÁ


Esta noite a neve cobre a montanha onde estou.
Não há pegadas a serem seguidas.
Eu sou o rei de um reino de solidão.


O vento é forte como a tempestade dentro de mim.
Não pude contê-la.
Deus sabe que eu tentei!

Não deixe que vejam o que há em você.
Seja um bom garoto.
Controle-se. Não sinta.
Não deixe que saibam.

Bom, agora já sabem...

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Não tem mais nada que eu possa fazer.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Vou virar essa página e encerrar esse capítulo.

Não me importa o que vão dizer.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

É engraçado como a distância faz tudo parecer menor.
Os medos que antes me controlavam não podem mais me alcançar.
É tempo de experimentar, de testar os meus limites e vencê-los.
Sem certo, sem errado, sem regras a serem seguidas.

Eu estou livre!

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou ser abraçado pelo vento.

Deixa pra lá
Deixa pra lá!
Vocês não vão me ver chorar.

Aqui estou eu e aqui vou ficar.
Deixa o tempo fechar!

Por céu e terra o meu poder vai florescer.
Minha alma congelada vai se quebrar em mil pedaços.
Ideias novas logo vão se cristalizar.

Não vou voltar jamais.
O passado ficou pra trás.

Deixa pra lá!
Deixa pra lá!
Eu vou me reerguer como o sol ao amanhecer.

Deixá pra lá!
Deixá pra lá!
O garoto perfeito já era.

Aqui estou eu, à luz do sol.
Deixa o tempo fechar!
O frio não vai me incomodar.

(Tradução livre de "Let it go", do filme Frozen)

domingo, 9 de novembro de 2014

"MISANDRIA NÃO É REAL"


As feministas chamadas de misândricas afirmam que "misandria não é real". Será? Ou será que apenas não é sistêmica e institucionalizada? Porque são duas coisas diferentes... Discursos formam sujeitos e subjetividades. Eles criam realidades. Se eu defendo um discurso de ódio como estratégia, que consequências isso traz? Questiono isso como alguém que se interessa pelo feminismo (e que é pró-feminismo), e não mais como um pretenso feminista.

SOBRE O ÓDIO QUE RETORNA

Entender as razões que levam alguém a fazer algo não significa concordar que esse alguém está certo. Há pessoas que se tornam amargas e cruéis com os outros, porque os outros foram amargos e cruéis com elas (não necessariamente os mesmos outros). Eu entendo a razão que as leva a ficar assim, mas não concordo que por causa disso todo mundo tem que aceitar esse ódio sem questioná-lo. 

Recentemente, uma garota com quem tentei estabelecer um diálogo, com toda educação e cordialidade possível, e, tenho certeza, sem usar nenhum argumento ou palavra misógina - pois ela mesma, ao "apontar o dedo na minha cara", não apresentou esse como um dos pretensos motivos dessa reação - me tratou como um opressor, argumentando apenas que eu era "um homem tentando falar por ela", uma vez que eu me apresentei falando das minhas pesquisas sobre masculinidade, e argumentando que questionar os ideias de masculinidade era um caminho importante pra que mulheres, gays, travestis e transexuais sejam cada vez menos oprimidos.

A interação foi online. Primeiro num post da linha do tempo dela. No qual ela deslegitimou de forma abrupta e violenta meu trabalho de pesquisa sem me conhecer e sem conhecê-lo. Então mandei uma mensagem privada para ela, tentando contar um pouco sobre meu trabalho. Ela respondeu de forma extremamente grossa e me bloqueou imediatamente. Depois disso, ainda tentei um último contato online, alguns meses depois, mandando uma mensagem para ela via outro canal, falando que nós tínhamos nos desentendido e que eu gostaria de conversar um pouco com ela pra conhecer melhor os motivos dela. Ela (que nem se lembrava mais do caso) simplesmente respondeu que não tinha interesse nenhum de conversar comigo.

Eu me sinto muito, muito mal toda vez que vejo algo a respeito dela (temos amigos e fazemos parte de universos comuns). Nessas ocasiões, eu sempre a elogio, porque reconheço que ela tem um trabalho muito importante dentro do feminismo.

Não sou a vítima. Mas também busco não ser opressor. Queria apenas que fosse possível não ser visto sempre dessa forma.

RELATIVISMO, EVOLUCIONISMO E VITIMIZAÇÃO

Na faculdade, a gente é doutrinado o tempo inteiro. Doutrinado a ser de esquerda ou de direita. Doutrinado a ser construtivista ou evolucionista. Doutrinado a ser relativista ou determinista. A cabeça da gente começa a funcionar de um jeito, que a gente passa a repetir igual a um robozinho tudo o que nos ensinaram.

A gente acha que tem um pensamento crítico, porque quem nos ensinou disse que o que nos foi ensinado é algo muito crítico. A gente aprende até mesmo a criar os nossos próprios argumentos para responder aos argumentos dos outros, que a gente escuta, mas não para de verdade pra considerar, porque já tem as respostas prontas contra eles.

Recentemente, eu tenho tentado me libertar dos dogmas acadêmicos que eu tive em minha formação. Fui ensinado, por exemplo, que a vertente dos estudos de gênero que aponta como o machismo faz mal aos homens, e não apenas às mulheres, é "vitimista", porque os homens são privilegiados e as mulheres desprivilegiadas dentro do sistema da dominação masculina. Ok, isso é verdade. Mas isso anula o argumento dessa vertente? Ela diz que não é assim? Não. Eu aprendi a concordar que sim, apesar de o homem ser privilegiado, o machismo faz sim mal pra ele. Todos somos vítimas do machismo, em maior ou menor grau. As mulheres são as vítimas mais diretas, com uma intensidade de sofrimentos maiores, mas isso não quer dizer que os homens também não sofram.

Eu e a minha amiga Leslie temos conversado muito sobre essas questões. Nós havíamos sido doutrinados para sermos relativistas e construtivistas. Mas começamos a perceber que o buraco é mais em baixo. Quanto ao relativismo, passamos a nos questionar se os valores de quem corta o clitóris das mulheres de uma comunidade não eram piores dos que os dos que lutam contra eles. E chegamos à conclusão que sim. Há sim valores melhores e piores. Melhores e piores para a sociedade como um todo, e para cada um de seus indivíduos. Valores que auxiliam a nossa saúde e não a nossa auto destruição. Quanto ao evolucionismo, que descartávamos, passamos a nos questionar se a sociedade realmente não se torna melhor com o tempo e com as mudanças que se sucedem. E chegamos à conclusão que sim, a sociedade caminha para uma melhora progressiva. Isso porque a pressão dos indivíduos para que ela melhore sempre vai gerando novas soluções que vão sendo testadas e aprimoradas, de forma a gerar um resultado cada vez melhor.

Mas percebemos que essas dicotomias entre formas de ver o mundo são, muitas vezes, tão bobas quanto brigas de criança. Não é necessário jogar o bebê fora com a água do banho. Quanto ao relativismo, por exemplo, concordamos que há uma diferença entre o funcionamento e o estilo da sociedade. Se o funcionamento da sociedade - a saúde e não a auto destruição - não é relativo, o estilo dela é. E por estilo, estamos entendendo questões como a arte, a arquitetura, a moda, o entretenimento, o idioma, as comemorações - como os aniversários ou o Natal - e os modos de vida - como morar ou não com os pais depois da maioridade ou dar três beijinhos ao nos cumprimentarmos. Não existe, de fato, um estilo musical melhor do que o outro. A música que vai haver daqui a dois séculos, não será melhor do que a de hoje. As diferenças aqui não podem ser medidas em termos de melhor ou pior.

Vejo, na academia, uma necessidade de escolher entre a perspectiva desse ou daquele autor, de forma que abandonamos os bons argumentos de quem pensa diferente. Mas, gente, a ideia não é somar as boas ideias, as boas explicações, para chegar num entendimento cada vez maior? Eu preciso concordar com tudo o que o fulano fala pra usar uma ideia específica dele? Qual a lógica desse preciosismo, desse protecionismo intelectual?

PRECONCEITO LINGUÍSTICO E ENSINO DA LÍNGUA

Escrever "nós fizemos tb" não é erro, é estilo.

Escrever "nós fez também" não é erro, é coloquialidade.

Mas escrever "nós fiswmos tamb´rm" é erro de digitação.

Escrever "nós fisemos tanbém" é erro de ortografia.

Erro é tentar se comunicar de um jeito e não conseguir fazer isso adequadamente, não é se comunicar de um jeito que não seja o padrão. Além disso, continua sendo dever da escola ensinar a forma padrão pra que o aluno esteja preparado para situações em que somos obrigados a usá-la. Pois é erro também usar uma forma que não pode ser aplicada a determinada situação. Logo, não ter preconceito linguístico no ensino de língua não quer dizer que não tenha mais escrita errada.

#FikDik

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

TRIÂNGULO POLIAMOROSO

Bruno desenvolveu depressão após perder o namorado num acidente de carro. Ele procurou tratamento, indo ao terapeuta e ao psiquiatra. Seu psiquiatra era um homem jovem, apenas dois anos mais velho que ele, que tinha vinte e oito. Na primeira consulta, os dois conversaram muito. Bruno achou a voz de Paulo, o psiquiatra, muito bonita. Paulo achou o sorriso de Bruno bonito. Os dois passaram a se ver mensalmente, e Bruno foi melhorando de sua depressão. Lá pela terceira consulta, os dois conversavam menos sobre o quadro de Bruno e mais sobre assuntos diversos. No sexto mês do tratamento, antes de Bruno ir embora, Paulo lhe perguntou:

– Bruno, você está namorando alguém (cara de vergonha)?

– Não, não tô não (cara de curiosidade).

– Eu pensei que um dia desses a gente podia sair pra jantar, ou algo do tipo.

– Ué (sorrindo)... Pode ser!

– Beleza. Eu te ligo então pra gente combinar.

Paulo ligou na sexta-feira seguinte, e marcou de passar na casa de Bruno no sábado para pegá-lo. No sábado, às sete, Paulo ligou para Bruno avisando que estava estacionado em frente à casa dele. Bruno saiu, e Paulo abriu a porta do carro para ele. Os dois foram a um restaurante aconchegante e comeram um peixe assado na pedra. Eles conversaram sobre a vida, sobre seriados, sobre política. Dividiram a conta. Paulo perguntou a Bruno se ele topava ir a um pub perto dali para tomar um chopp. Bruno aceitou. O pub tinha bancos acolchoados virados uns contra os outros em direção às mesas no centro de cada par, como é padrão nos fast foods estadunidenses. Os dois sentaram-se do mesmo lado da mesa. Depois do terceiro chopp, Paulo disse a Bruno:

– Sabe, Bruno, eu gosto muito de você (cara de safado).

– Eu também gosto muito de você, Paulo (cara de vergonha).

Paulo estava à direita de Bruno. Ele pegou na mão direita de Bruno com sua mão direita e passou seu braço esquerdo sobre os ombros de Bruno, que apoiou sua cabeça no colo dele. Os dois conversaram assim por alguns minutos, até que Paulo fez uma piada sobre o time de futebol de Bruno. Ele se levantou e olhou pra ele com cara de falsa raiva. Paulo encarou Bruno com olhar de desejo, e Bruno lhe beijou. Paulo perguntou a Bruno se ele não gostaria de ir à casa dele, tomar a saideira por lá. Bruno achou melhor não ir. Então Paulo levou Bruno à sua casa.

Paulo ligou novamente para Bruno três dias depois, e perguntou se Bruno gostaria de ir à sua casa mais tarde para assistir um filme com ele. Bruno aceitou o convite e chegou lá às oito e meia da noite. Os dois se beijaram quando Paulo abriu a porta. Paulo ofereceu uma cerveja a Bruno, e ele aceitou. Os dois se sentaram no sofá da sala e conversaram, trocando beijos de tempos em tempos, enquanto tomavam a cerveja. Quando ela acabou, Bruno perguntou a Paulo sobre o filme. Paulo trouxe a capa do DVD para Bruno ver e ele aprovou. Os dois assistiram o filme no escuro, com o sofá estendido, em forma de cama, abraçados de lado.

O filme acabou por volta de onze e meia da noite. Paulo ofereceu mais uma cerveja a Bruno, mas ele disse que já estava muito tarde. Paulo, então, sugeriu que Bruno dormisse em sua casa aquela noite. Bruno percebeu as intenções de Paulo. E aceitou. Os dois tomaram mais uma cerveja enquanto discutiam o filme. Depois foram para o quarto de Paulo. Paulo disse a Bruno que ele ficasse à vontade, ouvindo uma música no aparelho de som, enquanto ele tomava banho. Bruno olhou para o aparelho e viu uma pilha de CDs ao lado dele. Procurou um pouco e achou um de que gostava. Quando olhou novamente para a direção em que Paulo estava, ele havia tirado a camiseta e estava terminado de tirar a calça. Ele sorriu para Bruno, que sorriu de volta, meio constrangido. Paulo, então, tirou a cueca, e andou em direção ao banheiro de seu quarto. Entrou sem fechar a porta e foi para dentro do box. Bruno gostou muito do corpo de Paulo. Ele era magro, quase sem pelo nenhum. Bruno era mais gordinho e tinha alguns pelos no corpo. Bruno colocou o CD no aparelho de som, e ficou escutando deitado na cama de Paulo. Alguns minutos depois, Paulo voltou molhado do banheiro, com a toalha nos ombros, e começou a se enxugar no quarto, enquanto perguntava a Bruno se ele também não queria tomar um banho. Bruno concordou com a cabeça, e Paulo lhe disse que ficasse a vontade, e que havia toalhas limpas penduradas na parede do banheiro. Bruno então se dirigiu ao banheiro e assim como Paulo não fechou a porta. Tirou suas roupas de costas para Paulo e entrou no box. Saiu, pegou uma toalha e se enxugou por ali. Depois foi pelado, já de pinto duro, em direção à cama de Paulo. Bruno tinha o pinto pequeno e grosso, com uma cabeça bem vermelha e saliente, de onde pendia lubrificação o tempo todo.

Paulo o convidou para se deitar com ele. Depois que Bruno se deitou, Paulo apagou a luz. Os dois se abraçaram de frente e começaram a se beijar. Não demorou um minuto e Paulo também já estava com o pinto duro. O de Paulo era comprido e tinha veias salientes. Os dois continuaram se beijando e se esfregando por vários minutos, até que Bruno gozou. Ele apertou as costas de Paulo com força e soltou sussurros de cansaço. Paulo se virou de barriga para cima, ainda abraçado a Bruno e se masturbou com força. Nem um minuto depois, ele também gozou, também sussurrando “Ah”s. Os dois se abraçaram novamente e continuaram a se beijar. Eles não se limparam e a porra dos dois foi se espalhando pelas peles suadas deles até começar a secar. Dormiram de conchinha em seguida. 

Depois desse dia, os dois passaram a transar umas duas vezes por semana. Da segunda vez, Paulo chupou bastante o pinto de Bruno, e depois Bruno chupou bastante o pinto de Paulo. Em seguida, os dois fizeram sessenta e nove por vários minutos, até que Paulo gozou na boca de Bruno. Ele avisou que iria gozar, mas Bruno continuou a chupá-lo com força. Bruno engoliu a porra de Paulo. Paulo continuou chupando Bruno, até que ele também gozasse, em sua cara. Da terceira vez, Paulo lambeu o cu de Bruno e o comeu. Primeiro de frente, na posição de frango assado. Depois de costas, na posição cachorrinho. Bruno gozou na cama de Paulo, esporrando bastante e com muita força vários jatos quentes de porra. Paulo continuou socando com força e gozou alguns segundos depois com seu pinto ainda dentro do cu de Bruno. Da terceira vez, foi Bruno quem lambeu o cu de Paulo e depois enfiou seu dedo nele. Bruno o comeu na posição cachorrinho. Depois se deitou de barriga para cima, para que Paulo cavalgasse nele. Paulo gozou forte, de forma que um jato de sua porra foi parar na cara de Bruno, e o restante no seu peito. Bruno se levantou e se masturbou próximo ao rosto de Paulo, gozando nele. Paulo lambeu a porra de Bruno e a engoliu.

Alguns meses depois, os dois estavam num bar quando chegou um urso que conhecia Paulo. Os dois se cumprimentaram com um abraço, e Paulo apresentou Edgar a Bruno. Edgar apertou a mão de Bruno com força, e o encarou fixamente, com olhar malicioso. Edgar voltou a acompanhar seus amigos, que estavam se sentando do outro lado do bar. Paulo contou a Bruno que Edgar era seu ex-namorado. Ele estava acompanhado de dois caras, que se beijavam o tempo todo. Bruno, que estava virado na direção da mesa deles, comentou que Edgar estava de vela. Paulo olhou para trás e riu. Ele explicou a Bruno que Edgar era um voyeur. Que adorava ver outros casais transando, e se masturbava enquanto via. Era isso o que os três provavelmente iriam fazer em seguida. Bruno fez cara de estranhamento, mas ficou com o pinto duro e latejando imaginando os dois caras transando e Edgar assistindo à transa.

No dia seguinte, Bruno perguntou a Paulo se, quando ele e Edgar namoravam, ele havia transado com outro cara para Edgar assistir. Paulo riu e disse que sim. Depois perguntou se ele estava querendo convidar Edgar para ver os dois transando. Bruno sorriu envergonhado e não respondeu. Paulo segurou o rosto de Bruno e disse:

– Ei! Tudo bem! Você pode querer isso se você quiser.

– Você quer?

– Bom, eu achei excitante ele me ver transando com outro cara quando a gente namorava.

– Bom, se você quiser a gente pode fazer isso...

– Então tá bom. Eu vou ligar pra ele e combinar. Mas você também quer isso, né?

– Ahan.

Paulo ligou para Edgar, e ele ficou empolgado, marcando o esquema para o dia seguinte. Ele chegou e os três tomaram algumas cervejas. No início, Bruno estava visivelmente constrangido, mas já de pau duro. Edgar olhava para os dois o tempo todo com cara de safado, os encarando. Ele sentava com as pernas bem abertas, e mexia em sua mala o tempo todo. Depois das cervejas, Bruno já estava mais solto, e Paulo começou a beijá-lo. Eles tiraram a roupa ali mesmo no sofá, e ali começaram a transar, com Bruno sentado de pernas abertas, e Paulo ajoelhado o chupando. Bruno e Edgar se encaravam, enquanto Edgar tirava a roupa e começava a se masturbar. Ele mexia nos seus mamilos com a outra mão. De tempos em tempos, ele enfiava vários dedos dentro da boca, os lambia simulando sexo oral e depois voltava com eles molhados para seu pinto. Paulo virou Bruno de costas, ainda em cima do sofá, subiu nele e começou a comê-lo. Bruno gozou rápido, e Paulo continuou socando por um minuto e gozou em seguida. Os dois se sentaram e olharam para Edgar, que se masturbava com força e não demorou a gozar. Edgar era forte, troncudo e peludo. Seu pinto era grande, com a cabeça pequena e bem coberta pelo prepúcio.

Dias depois, Bruno perguntou a Paulo se ele já havia feito um ménage à trois. Paulo riu novamente e lhe perguntou:

– Já fiz sim, por quê?

– Por nada... Curiosidade.

– Sei, curiosidade. Você tá é querendo fazer um ménage com o Edgar.

– E se for?

– Se for, e é, a gente pode fazer, ué.

– Então fechou. Chama ele e a gente faz.

– Combinado.

Bruno tirou a roupa de Edgar empolgado, enquanto Paulo observava. Ele o beijou excitado, e chupou seu pau. Paulo então se aproximou, tirando a roupa, e deu seu pau para Bruno chupar também, enquanto beijava Edgar. Depois, Edgar foi quem chupou os dois, Primeiro o pau, depois o cu. Edgar começou a comer Bruno, na posição frango assado. Paulo veio por trás e começou a comer Edgar. Depois, Bruno começou a comer Edgar, enquanto Paulo o chupava. Por fim, Edgar se deitou de barriga para cima e Bruno passou a cavalgar nele. Paulo veio por trás de Bruno, que se deitou sobre o colo de Edgar. Paulo, então, pôs seu pinto com dificuldade no cu de Bruno, e começou a comer ele junto com Edgar. Os três terminaram sentados lado a lado, se masturbando. Depois desse dia, os três começaram a transar juntos com frequência. Meses depois, Paulo viajou para um congresso por duas semanas, e Edgar e Bruno transaram sozinhos quase todos os dias. Antes de ir, Paulo havia falado aos dois que eles podiam fazer isso. Em determinado momento, Paulo e Bruno brigaram, e ficaram sem se falar por alguns dias. Nessa ocasião, Paulo e Edgar transaram sozinhos. Quando Paulo e Bruno se reconciliaram, Bruno disse que sabia que os dois tinham transado, e que não tinha problema nenhum. Depois disso, às vezes quando um deles não queria transar, um dos dois transava com Edgar sozinho. Às vezes era Edgar quem não queria, e os dois transavam sozinhos. Às vezes um deles transava sozinho com um e depois com o outro. Edgar e Bruno praticamente passaram a morar com Paulo, dormindo na casa dele quase todos os dias.

Dois anos depois do dia em que Edgar, Paulo e Bruno haviam transado juntos pela primeira vez, os três combinaram uma viagem para uma pousada. Lá, Edgar entregou uma aliança com o nome dos três gravado do lado de dentro para cada um, e colocou uma também em seu dedo. Então, ele pediu Bruno e Edgar em casamento. Bruno reagiu:

– Como assim, casamento? Com nós dois ao mesmo tempo?

– Eu acho uma ótima ideia (disse Paulo, rindo). A gente já é praticamente casado mesmo.

– Mas não tem jeito de casar com duas pessoas ao mesmo tempo!

– A gente inventa um jeito (disse Edgar)! Eu amo vocês dois.

– Eu também amo vocês dois (disse Paulo).

– Eu também amo vocês dois (disse Bruno)...

– Então a gente casa (perguntou Edgar)?

– Mas não tem lei pra isso (disse Bruno).

– Uai, mas a gente pode fazer uma cerimônia, nem que seja simbólica (disse Paulo).

Edgar e Paulo olharam com cara de criança pidona para Bruno, que sorriu e aceitou a ideia. Seis meses depois, os dois alugaram um sítio e organizaram uma cerimônia ao pôr do sol. Eles convidaram apenas os amigos mais próximos e os familiares que sabiam e aceitavam a relação, que não eram muitos. Apenas a mãe de Edgar, algumas primas e um irmão de Paulo e a irmã e a vó de Bruno. Eles convidaram um pastor de uma igreja inclusiva que eles frequentavam para celebrar a cerimônia. Edgar foi o primeiro a caminhar em direção ao altar, de braços dados com sua mãe. Em seguida foi Paulo, de braços dados com seu irmão. Por último Bruno, de braços dados com sua avó. Esses ficaram ao lado do pastor no altar, como padrinhos. Do outro lado do altar, já estavam também um amigo de Bruno, uma amiga de Paulo e outra de Edgar, também como padrinhos. Não haviam mais do que doze outras pessoas em frente ao altar. Edgar colocou a aliança no dedo de Paulo, que colocou no dedo de Bruno, que colocou no dedo de Edgar. Os três caminharam na saída de mãos dadas. Edgar ia no meio, Paulo do seu lado esquerdo e Bruno do seu lado direito. Paulo segurava a mão direita de Bruno com sua esquerda, encontrando-a na frente do corpo de Edgar.

A amiga de Edgar que foi madrinha do casamento, concordou em ter um filho para eles. Ela já tinha dois e era divorciada. Edgar quis comê-la ao invés de fazer inseminação artificial, e os outros dois aceitaram com um pouquinho de relutância. Depois de tentarem algumas vezes, ela engravidou. Os três acompanharam de perto a gestação, e depois do parto levaram o bebê para casa, e se revezavam no cuidado dele. A mãe do bebê o visitava às vezes, mas o tratava como um afilhado. Os três brigaram na justiça durante muitos anos para que o casamento deles fosse reconhecido, e para que o filho deles tivesse o nome dos três na certidão de nascimento (até então só tinha o de Edgar). Depois de muitas refutações, quase quinze anos depois, eles conseguiram. O menino cresceu bem, sem estranhar a relação dos pais até que entrou para a escola. Voltou cheio de dúvidas sobre não ter uma mãe e ter três pais. Eles foram muito sinceros com ele e explicaram que sua madrinha e Edgar eram seus pais biológicos. A essa altura, sua madrinha havia se mudado para outro estado, e os dois se viam praticamente uma vez por ano, mas ela telefonava pra eles quase toda semana. Depois que conseguiram a vitória judicial, eles adotaram uma menina de oito anos. Ela estranhou muito a relação dos três no começo, mas acabou se acostumando.

Os três viveram juntos por vinte e cinco anos, até que Paulo morreu. Bruno e Edgar continuaram juntos por mais dois anos, mas depois se separaram. Os dois filhos já eram maiores de idade, e já moravam fora de casa.

Um conto sobre poliamor de Vanrochris Vieira.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

SOBRE HOMENS FEMINISTAS


Em 1990, uma das principais estudiosas de gênero de todos os tempos, Judith Butler, já se questionava, em Problemas de Gênero, se considerar as mulheres o sujeito do feminismo não seria reforçar as dicotomias de gênero que o próprio feminismo procura enfraquecer: "Seria a construção da categoria das mulheres como sujeito coerente e estável uma regulação e reificação inconsciente das relações de gênero? E não seria essa reificação precisamente o contrário dos objetivos feministas?"

A música "***Flawless", de Beyoncé, é intermediada por uma fala da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, na qual ela diz: "Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos". A frase é de um discurso chamado "Todos nós deveríamos ser feministas", proferido por ela no TED, uma fundação estadunidense conhecida por suas conferências. Mas essa definição apontada por Chimamanda é, segundo ela, como o termo "feminista" aparece nos dicionários. Ela própria define feminista como "um homem ou uma mulher que diz: 'Sim, há um problema com os gêneros como eles são hoje, e nós devemos consertar isso, nós devemos fazer melhor'".

A atriz britânica Emma Watson, neste ano, também fez um discurso sobre igualdade de gênero nas Nações Unidas, para a campanha HeForShe (ElePorEla), no qual ela disse: "Homens, eu gostaria de usar esta oportunidade para estender o convite formal feito a vocês. Igualdade de gênero é seu problema também. [...] Homens também não têm o benefício da igualdade. Nós não costumamos falar sobre homens sendo aprisionados pelos estereótipos de gênero, mas eu posso ver que eles são, e quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tiverem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a ser submissas. Se homens não tiverem a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem fortes". O discurso da atriz foi fortemente criticado por parte das feministas.

Muitas feministas apontam que há limites na experiência de homens e mulheres que não permite a eles entender como elas se sentem. Concordo plenamente. Mas entre as próprias mulheres, há uma série de diferentes experiências. Uma mulher negra e uma branca, uma rica e uma pobre, uma cristã e uma ateia, uma homossexual e uma heterossexual, uma cis e uma trans, uma nordestina e uma paulista têm experiências como mulher muito distintas. Da mesma forma, há diferentes experiências entre os homens. Um homem cis e um trans, um heterossexual e um homossexual possuem status muito diferenciados dento do sistema de gênero. Um homem trans foi socializado na infância com sendo mulher e tem que enfrentar a dificuldade constante de deixar de ser visto como uma (o que faz com que ele sejam, em geral, bem aceitos no movimento). Um homem homossexual passa boa parte da vida sendo chamado de "mulherzinha" e sofrendo violência física e psicológica. Entre eles, reproduz-se esses mesmos padrões de gênero entre ativos e passivos, discretos e afeminados. E mesmo o homem cis e hétero, como apontado por Emma Watson, têm que se submeter a uma vigília constante em relação à sua masculinidade. Não obstante, é óbvio que esse sistema dá vantagem aos homens em relação às mulheres.

Algumas feministas mais radicais costumam chamar os homens que se denominam feministas de feministos, como uma forma de desvalorização. Qualquer argumento de que o machismo traz prejuízos também a homens é chamado por elas de "male tears" (lágrimas masculinas) e ignorado. Segundo essas feministas, elas não têm obrigação de ensinar homem nenhum. Concordo. Mas se as feministas não ensinarem, então quem vai? Uma coisa é não ter, outra é não conseguir (muitas vítimas de abuso não conseguem ser didáticas com quem as oprimiu), outra diferente é não querer. Muitas das feministas que possuem esse perfil apresentam uma misandria (ódio contra o masculino) em resposta à misoginia (ódio contra o feminino) que domina em nossa sociedade. Mas essa é uma resposta saudável?

Eu não vou responder se homens podem ou não ser feministas. Também vou continuar não me denominando feminista em respeito às feministas que se sentem desconfortáveis com isso. Mas ficam as considerações.

sábado, 4 de outubro de 2014

DEZ QUESTÕES PARA A REFORMA POLÍTICA REPENSAR

1. Número de partidos: O Brasil é um partido pluripartidarista. Atualmente, ele tem 32 partidos políticos. Para um novo partido ser fundado, é necessário que ele colha um numéro de assinaturas correspondente a 0,5% dos votos válidos registradas na última eleição para deputado. Atualmente, esse número corresponde a menos de 500 mil assinaturas. Depois de criado, apenas alguns atos cometidos pelo partido (como receber verbas de entidades estrangeiras) podem causar sua extinção. Outros países são bipartidaristas, ou seja, na prática, têm apenas dois partidos políticos (podem até existir outros, mas as regras eleitorais dificultam fortemente a participação dos partidos menores). O problema do bipartidarismo é que os dois partidos políticos em disputa representam apenas duas formas politicamente privilegiadas de ver a sociedade (privilegiadas porque são representativas da maioria). Isso causa dois problemas: a) As duas formas acabam sendo, sob muitos aspectos, muitos semelhantes. b) Muitas outras formas de se ver a sociedade ficam invisibilizadas. Mas um pluripartidarismo tão frouxo como o brasileiro também acarreta muitos problemas, principalmente os seguintes: a) Muitos partidos acabam tendo um posicionamento muito parecido uns com os outros. b) Alguns partidos acabam não sendo representativos de uma parcela significativa da sociedade. c) O alto número de partidos dificulta o debate e a capacidade dos eleitores acompanharem todas as perspectivas. Assim, o ideal seria um pluripartidarismo mais rígido. Uma boa ideia seria revalidar periodicamente a existência dos partidos. Um partido que conseguiu o número mínimo de assinaturas há décadas atrás, não necessariamente conseguiria novamente hoje em dia. Também seria necessário repensar essa quantidade mínima de assinaturas. Hoje o número necessário é inferior a 0,25% da população brasileira. Será que essa quantidade de pessoas é significativa para justificar a criação de um partido, ou será que precisaríamos aumentar essa quantidade um pouco?

2. Coligações: Os 32 partidos políticos do Brasil se organizam nas eleições através de coligações. Num sistema com tantos partidos, essa é a única maneira de organizar minimamente as eleições para o executivo. Entretanto, essa lógica tem um grande problema. As coligações podem ser realizadas de forma diferente em cada cidade e em cada estado, em relação a forma como são realizadas no nível federal. Isso gera um série de relações oportunistas entre os partidos, e dificulta a clareza e a compreensão do processo por parte dos eleitores, em especial em relação às eleições para o legislativo, como indicado mais detalhadamente no tópico seguinte.

3. Eleições para deputado: As eleições para deputado no Brasil seguem a lógica do quociente eleitoral. Nas eleições para deputado federal, por exemplo, funciona assim: O número de votos válidos de cada estado é dividido pelo número de cadeiras que esse estado possui. Esse é seu quociente eleitoral. Posteriormente, o número de votos recebido por cada coligação é dividido pelo quociente eleitoral, e assim se define quantas cadeiras cada coligação vai ocupar. Esse sistema tem vários problemas. Alguns candidatos menos votados acabam sendo eleitos em detrimento de outros mais votados porque sua coligação teve no total mais votos do que a coligação do outro. Por isso, muitas coligações lançam uma grande quantidade de candidatos, para que o número total de votos para elas seja maior. Além disso, o eleitor acaba elegendo não o candidato em quem ele votou, mas sim os candidatos mais votados da mesma coligação. Com a lógica fluida das coligações, acabamos elegendo candidatos de partidos que não admiramos, se eles estiverem coligados com o partido em quem votamos. Muitos defendem o voto em lista. Ao invés de votar em um candidato, votaríamos num partido ou coligação, que teria uma lista de candidatos ordenados por prioridade para ocuparem as vagas alcançadas. Outra possibilidade seria o voto distrital: cada estado seria divido em uma quantidade de localidades correspondentes à quantidade de cadeiras que ele ocupa, e cada localidade elegeria apenas um candidato.

4. Número de deputados: Atualmente a Câmara Federal é composta de 513 deputados. O número de cadeiras por estado é proporcional ao número de habitantes, mas deve ser de no mínimo oito e de no máximo setenta deputados. São Paulo é o único com setenta (seguido por Minas Gerais, com 53), enquanto onze estados têm oito deputados. Se a deliberação é parte essencial do sistema democrático que buscamos praticar, como isso é possível com 513 deputados? Esse número não está alto demais? E essa diferença tão grande entre o número de deputados de cada estado não faz com que os estados menos populosos tenham seus interesses invisibilizados? Tudo bem que a população de São Paulo é vinte vezes maior que a do Sergipe, mas isso significa que a população de São Paulo tem dez vezes mais demandas a serem atendidas? Não seria o caso de rever esse mínimo e esse máximo para garantir uma maior igualdade entre os estados?

5. Senado: O Senado é composto por três representantes de cada estado, eleitos por um mandado de oito anos. O primeiro problema é evidente: porque mandatos de oito anos? É tempo demais. O outro problema é que o Senado e a Câmara Federal são órgãos parecidos demais, o que coloca em questão a necessidade da existência dos dois ao mesmo tempo. As diferenças de atribuições entre um e outro são muito poucas. Basicamente, o Senado é o único que pode exercer funções como processar e julgar o presidente e aprovar a escolha dos ministros do Tribunal de Contas da União. Já a Câmara é quem pode executar ações como votar medidas provisórias, autorizar o presidente a declarar guerra e convocar plebiscitos. Enfim, uma divisão completamente arbitrária de funções.

6. Suplentes: Se é difícil para o eleitor pesquisar o histórico de cada candidato, ainda mais o de seus suplentes. Mas frequentemente quem elegemos desiste do cargo no meio do mandato e é substituído por seu suplente, que nem se quer conhecemos. Se a lógica fosse outra, esse problema seria menor. A substituição poderia ocorrer, por exemplo, pelo próximo candidato mais votado na mesma eleição.

7. Judiciário: No Brasil, não há eleições diretas para o poder judiciário. A indicação dos líderes do judiciário é feita pelo executivo e aprovada pelo legislativo. Isso não compromete a independência desse poder?

8. Horário eleitoral: O tempo do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão é dividido de acordo com a representatividade dos partidos ou coligações na Câmara Federal. Isso faz com que os partidos que elegeram mais candidatos na última eleição tenham um tempo muito superior aos demais. Por sua vez, isso ajuda esses partidos a continuarem nessa mesma situação privilegiada. Precisamos pensar na possibilidade de uma divisão igualitária do horário político entre os candidatos.

9. Financiamento de campanha: Hoje grandes empresas financiam a campanha dos principais candidatos, doando milhões para essas candidaturas. Muitas vezes, a mesma empresa doa expressivas quantias para todas as principais candidaturas concorrentes. Essa lógica traz dois principais problemas. Primeiro, é óbvio que nenhuma empresa se envolve no sistema eleitoral de um país capitalista se isso não lhe for render algum retorno financeiro. Portanto, é fácil perceber que se as mesmas empresas continuam investindo nas candidaturas eleição após eleição, isso indica que o que eles ganham com esse investimento supera o próprio investimento. Assim, podemos supor que ocorre, mesmo que de uma maneira indireta, algum tipo de favorecimento dessas empresas no mandato de seus candidatos. Mesmo que isso não possa ser comprovado, essa simples suspeita já é muito grave num sistema democrático. O segundo problema é que as candidaturas que agradam o grande capital recebem muito mais doações do que as que o desagradam, de forma que têm muito mais verba para campanha, o que gera uma relação de desigualdade que desprivilegia fortemente algumas candidaturas. A solução para esses problemas seria o financiamento público de campanha. O que o Estado gastaria nas eleições seria um ônus necessário para garantir que nenhuma ação fosse feita posteriormente a fim de beneficiar as empresas que fizessem doações em detrimento do restante da população. Como essas doações são milionárias, pressupõem-se que os ganhos de tais empresas sejam mais milionários ainda. Assim, no final das contas, pressupõem-se que haveria uma economia indireta do dinheiro público. Com todas as candidaturas recebendo o mesmo valor, a disputa seria mais equilibrada. E esse valor não seria nem de perto o que os candidatos mais votados têm hoje disponível, mas algo muito mais razoável.

10. Obrigatoriedade do voto: Em muitos países, o voto não é obrigatório. Isso faz com que vote apenas quem se interessa pela disputa eleitoral. Entretanto, em países como os Estados Unidos, o índice de votantes em relação ao total da população é muito baixo. Isso gera uma sensação de pouca representatividade dos votos, e também pode contribuir para que parcelas menos intelectualizadas da população fiquem à mercê da escolha das parcelas mais intelectualizadas. Entretanto, é muito reivindicado o direito de não querer opinar, apesar de haver as possibilidades de se votar em branco ou nulo. Argumenta-se também que muitos votam sem uma pesquisa e consciência necessárias, porque são obrigados a votar, e que seria mais produtivo se apenas quem se engajasse realmente nas discussões reivindicasse o direito ao voto.

Bônus - Pesquisas eleitorais: Há quem defenda que as pesquisas eleitoras não devem ser realizadas ou divulgadas, porque influenciam no voto dos eleitores. Isso ocorre porque muitos eleitores acabam optando por votar em um dos candidatos com maiores chances de serem eleitos em detrimento de outros candidatos com menores chances com os quais eles se identificam mais. Deixei essa questão de fora porque ela me parece especialmente problemática, e, portanto, não estou certo se essa deve ser uma das pautas em discussão ou não. Acontece que, como jornalista, não posso deixar de me sentir incomodado com a possibilidade da proibição da produção e da divulgação de um conhecimento relevante sobre o mundo em que vivemos. Me parece ser um direito das pessoas escolher usar seu voto da maneira como quiser, inclusive levando em consideração estratégias como votar em um dos candidatos com maior chance de ser eleito.