sábado, 27 de julho de 2013

MANIFESTAÇÃO CONTRA LACERDA EM DIAMANTINA

Eu (Vanrochris Vieira) estava ontem em Diamantina por causa do Festival de Inverno da UFMG, do qual sou um dos jornalistas.


Neste ano, paralelamente ao Festival de Inverno da UFMG, aconteceu em Diamantina o Encontro de Prefeitos de Minas Gerais.


Uma edição da vesperata, evento tradicional de Diamantina em que músicos tocam das janelas do segundo andar dos sobrados da esquina mais movimentada da cidade, foi organizada exclusivamente para esse Encontro.

Durante as vesperatas, a rua é fechada com uma corda e, nas edições oficiais, cobra-se 130 reais por cada mesa posta dentro dela.

Lacerda era um dos prefeitos que estavam no evento. Quando alguns jovens de Belo Horizonte que estavam na cidade por causa do Festival o viram, começaram a vaiá-lo e a gritar:

– Fora Lacerda!

– Hey, Lacerda, seu governo é uma merda!

O mestre de cerimônias do evento, então, disse:


– O Brasil tem vivido um momento  de descontentamento dos jovens, que, insatisfeitos, têm feito manifestações. Coincidência ou não, o Papa Francisco, em sua primeira viagem internacional, veio ao Brasil pedir aos jovens mais paz e tolerância.


Depois de um tempinho, os gritos dos manifestantes começaram novamente.

Em um momento no qual eu não estava entre eles (segundo diversos relatos de colegas meus que estavam lá), um homem chegou tentando lhes empurrar para longe dali, jogando-se para cima deles.

Segundo os relatos, uma das minhas colegas jogou um copo de quentão no rosto dele, e ele partiu para cima dela. O pessoal defendeu minha colega e mandou ele ir pra longe.

Depois, teria vindo mais um cara segurando um volume na cintura e mandando os manifestantes se dispersarem. Mas a polícia militar, que havia chegado pouco depois das primeiras vaias e estava circulando pelo local, teria se aproximado no momento e contido esse segundo homem. Tudo indica que ele seria um segurança de Lacerda ou de Paulo Célio, o prefeito de Diamantina.

A manifestação prosseguiu, a partir de então com a polícia por perto. O pessoal que estava do lado de dentro da corda começou a chamar os manifestantes de vagabundos, dizer que aquilo era uma falta de respeito e a vaiá-los. Nós (eu incluso entre os manifestantes a partir de então) revidamos:

– Vagabundo é o Lacerda!

O mestre de cerimônias:

– Juscelino era democrata e, como ele, respeitamos todas as manifestações. Mas este é apenas um evento musical.

Mas muitos outros gritos foram ouvidos na sequência, como:

– Começa com M, termina com “erda”, advinha o que é? É o Márcio Lacerda!

– Ele pisca quando mente. Ele mente quando pisca!

– Se o Lacerda não vazar, oh lê, oh lê, oh lá, não vai parar!

– Chegou em Diamantina a revolta do busão!

– Diamantina sem catraca!

O Festival de Inverno da UFMG, desde a edição passada, tem como uma de suas atividades o Tarifa Zero: ônibus da Universidade circulam com entrada gratuita por Diamantina durante o Festival. Apesar dos problemas de execução da atividade nesta edição (demora, procura maior do que oferta, alguns motoristas mal humorados e grossos, ausência de ônibus no horário noturno), a ideia é belíssima.

Uma senhora que estava dentro da corda disse:

– É isso que Diamantina merece, abrindo espaço pra vagabundo.

Ela provavelmente se referia às mudanças que ocorreram no Festival de Inverno nas últimas duas edições. Ele deixou de focar em artistas renomados e apresentações elitizadas, e passou a investir nas manifestações culturais marginalizadas, atingindo e abrindo espaço para moradores das periferias de Diamantina e Belo Horizonte.

Nas ruas, a maior parte das pessoas era contra os protestos, assim como os que estavam dentro da corda.

Exceto pelos jovens do bairro da Palha, periferia de Diamantina, que estavam por ali e se juntaram aos manifestantes, e por um ou outro mais.

Uma mulher disse, apontando para a corda:

– Eu sou filha de Diamantina e eu não concordo com isso! Eu tenho liberdade de passar de um lado pro outro!

Os manifestantes então gritaram:

– Tira a corda!

Algumas pessoas afirmaram ter visto o jornalista Paulo Navarro no local, e alguns manifestantes começaram a gritar contra ele também.

O mestre de cerimônias da vesperata interviu várias vezes dizendo coisas como:

– A vesperata é um evento muito importante para a cidade. Nós de Diamantina sempre acolhemos a todos de braços abertos, por isso, em troca, pedimos que façam o mesmo.

– Nós vamos parar a vesperata por cinco minutos para vocês fazerem o show de vocês. Se vocês pensam que têm o direito de fazer qualquer coisa, se enganam, o direito de vocês termina onde o dos outros começa.

E a gente respondeu:

– Quer me calar, não pode não! Artigo Quinto da Constituição!

– Hey, prefeitura ingrata, você não vive só de vesperata!

– Paulo Célio e Lacerda é tudo a mesma merda!

Em dois momentos da manifestação, eu lavei minha alma em relação à homofobia que sempre se vê nos gritos da galera. Na primeira vez, o pessoal começou a gritar:

– Hey, Paulo Célio, vai tomar no cu!

E na segunda, alguém sugeriu:

– Tem que tocar no brio do Lacerda, vamo chamar ele de viado!

Em ambas as vezes, eu gritei:

– Sem homofobia!

Da segunda vez, a pessoa que havia feito a sugestão respondeu:

– O povo, às vezes, é muito moralista!

E eu, então:

– Não, o povo, às vezes, é gay, e merece respeito!

Lacerda permaneceu o tempo todo imóvel, com cara de paisagem, ignorando a manifestação. Sua esposa, pelo contrário, ficou muito nervosa. Lá pelas tantas, eles acabaram mudando de mesa e indo para a do prefeito da cidade.

Quando o pessoal da vesperata desceu, foi aplaudido pelos manifestantes, que lhes gritaram parabéns.

No final, um dos manifestantes pediu para que uma moça que estava do lado de dentro da corda entregasse uma flor a Lacerda.

Ele acenou para os manifestantes com a flor, foi vaiado, e vaiou de volta os manifestantes, indo embora logo depois.