quinta-feira, 21 de março de 2013

Viado, afeminado, feio e baixo astral

Sim, Brasil: eu, Vanrochris Vieira, sou homossexual (no vocabulário corrente, sou "viado"), minha performance de gênero não se adequa ao padrão de masculinidade ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "afeminado"), minha aparência não se adequa ao padrão de beleza ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "feio") e, para completar, tenho depressão (no vocabulário corrente, sou "baixo astral").

Antes de eu ser concebido, esse era o meu quadro familiar: meu pai era alcoólatra e batia na minha mãe. Por isso, ela teve depressão durante toda a gravidez. Apanhou dele enquanto me esperava e durante toda a minha primeira infância. Eles se divorciaram quando eu tinha dois anos, depois disso, só fui vê-lo novamente por volta dos seis. Ao longo da vida, vi ele uma dúzia de vezes. Na vez mais longa, apenas por três dias. Ele morreu quando eu tinha dezessete anos. Fazia três anos que eu não o via.

Quando eles se separaram, um dos meus irmãos tinha doze anos e o outro catorze. O mais velho passou a trabalhar fora, assim como minha mãe. O outro cuidava de mim. Ele não tinha preparo, nem paciência para isso. O mais velho assumiu para si o papel de provedor da família e pai, em relação a mim. Papel para o qual ele, obviamente, também não estava preparado. Os dois, em ambas as atividades, me tratavam com muita rispidez e falta de paciência.

Quando eu tinha seis anos, meu irmão do meio foi assassinado. Ele tinha dezesseis anos. A polícia não investigou o crime, e o assassino não foi encontrado, nem o motivo do assassinato foi descoberto. Minha mãe não tratou da depressão dela e, nessa fase, ela piorou muito, ficando fortemente mal por alguns anos. Depois disso, ela se tornou bastante controladora e superprotetora em relação a mim.

Nosso quadro econômico era bastante ruim. Chegamos a não ter dinheiro para comprar alimentos básicos. Mas contamos com a ajuda dos meu avós para que eles não faltassem.

Nunca me adequei ao padrão de comportamento socialmente estabelecido para os meninos: não gostava de esportes, era sensível e delicado, introspectivo e gostava de atividades artísticas, como teatro e desenho. Sempre sofri bullying na escola. Sempre fui apontado como "viadinho" e "bicha", mesmo antes de sentir atração sexual por qualquer pessoa. Cheguei a sofrer agressão física por duas vezes. Minha família é muito católica, e eu também era. Neguei minha atração por pessoas do mesmo sexo e me puni por isso por vários anos. 

Para compensar minhas frustrações na infância, eu me tornei viciado em estudar. Queria ser o melhor, o primeiro em tudo. Queria saber tudo e não errar nunca.

Quando bebê, eu era bem gordinho. Mas tive duas anemias sucessivas, ainda nos primeiros anos de vida, e perdi muito peso. Na adolescência, ao crescer rapidamente, fiquei extremamente magro, e nunca mais consegui ganhar peso.

Sempre tive muita dificuldade para conseguir parceiros para relações afetivo-sexuais. Tinha dezesseis anos quando beijei um garoto pela primeira vez. O próximo cara com quem fiquei, foi o primeiro com quem transei, aos dezoito. Os dois foram encontros episódicos, proporcionados por um site de bate-papo.

Me apaixonei quatro ou cinco vezes até hoje. Todas elas foram frustradas, porque os caras não tinham interesse em ficar comigo. Namorei uma única vez, mas não gostava do cara, e, por isso, foi uma relação bem breve e desagradável. Transei com três caras até hoje: o primeiro, outro que também encontrei a partir de um bate-papo (e com quem também tive apenas um encontro episódico) e o cara com quem namorei. Nenhuma das vezes foi boa.

Há cerca de três anos, eu tinha um grande amigo pelo qual eu era apaixonado. Descobri, porém, que ele era alguém completamente diferente do que eu imaginava, mantendo uma vida dupla que incobria ações e características desvalorizadas cuja responsabilidade ele não queria assumir. Foi um golpe duro na minha confiança nas pessoas e na minha esperança em relação à vida. Foi aí que minha depressão se manifestou.

Não me entendam mal: não tenho e não quero, em hipótese alguma, que alguém tenha pena de mim. Nem só de elementos ruins é composta minha vida. Tenho uma família que me ama e me apóia e amigos super legais e presentes. Me formei em um excelente colégio técnico e em uma excelente universidade públicos. Morei seis meses na Europa (estudando com bolsa do governo federal).

A única coisa que demando é que eu deixe de ser punido e discirminado por ser "viado", "afeminado", "feio" e "baixo astral". Não sou culpado por nenhuma dessas características, porque nenhuma delas é um crime passível de culpa. Simplesmente é assim que eu sou. Já me envergonhei muito de tudo isso. Quero, agora, ter orgulho de quem eu sou.

2 comentários:

  1. A sua vida não foi fácil, mas como toda história tem dois lados, posso te dizer que seu alicerce é forte e não vai ser qualquer coisa que vai te derrubar. Quando as pessoas percebem o seu valor elas não te deixam jamais. A pessoa que vc espera tem que ser especial se não a vida se cuidara de separar. Comece a te olhar com amor que com certeza essa energia será vista. Um abraço

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  2. É muito difícil seguir em frente quando amizades nos decepcionam, mas a gente consegue. O problema não é o que os outros são, mas o que esperamos dos outros. E se não queremos ser cobrados, também não adianta cobrar. A humanidade pode ser feia, baixa e vil, mas também pode ser linda, altruísta e boa.

    Pra começar, você não devia se sentir feio. Você fala muito disso, e isso te incomoda, mas se você viu Hitch, o conselheiro amoroso, padrão não é o x da questão. É o Hollywoodiano mais verdadeiro que já vi. A beleza é um vetor em Rn, não tem nada de unidimensional.

    Gostei de saber sua história! Saber da história dos outros faz a gente se sentir mais próximo e também faz a gente ver melhor onde a realidade está. E considere-se um guerreiro por conseguir se "obedecer" e ser tão nerd em momentos de caos psicológicos. Você conquistou muito além do que as expectativas tradicionais ou, nos termos que você usou, a expectativa corrente diria que conquistaria. Orgulhe-se disso!

    E bora sair do baixo-astral!!

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