quinta-feira, 7 de março de 2013

Tudo na realidade me incomoda

Nossa realidade social é um cu! Até mesmo nossa linguagem. Por exemplo: para expressar minha indignação, eu acabo de ser obrigado a recorrer a uma ideia pejorativa do ânus, que reforça a misoginia e a homofobia das quais eu sou apenas uma das inúmeras vítimas.

Esse cu em que vivemos mostra suas merdas (recorrendo agora à tendência higienista existente em relação às palavras de indignação) sempre e em todo lugar. Na Avenida Antônio Carlos, aqui em Belo Horizonte, por exemplo. Ao esperar um ônibus numa das pistas centrais, o que vemos, de um lado, são carros (projetados para carregar cinco pessoas) ocupados apenas pelo motorista, e, do outro, ônibus (que cabem menos de 40 pessoas sentadas) levando 80 ou 90 pessoas exprimidas como sardinhas enlatadas. É a versão moderna do navio negreiro. Aliás, a versão contemporânea (até quando vamos continuar achando que o adjetivo “moderno” carrega alguma novidade, se já deixamos a modernidade para trás há pelo menos meio século?). 

Ontem vi um anúncio de emprego para balconista. “Feminino”, ele dizia. Hoje vi outro para ajudante, em uma obra. “Masculino”, ele restringia. O Kinder Ovo acaba de lançar uma versão para meninos, com carrinhos e soldados de brinde. Outra versão para meninas, com princesas e maquiagens nas surpresas. Até quando, Jesus? Até quando continuaremos impondo às nossas crianças uma performance de gênero específica, por causa do órgão sexual que elas têm? Eu vendo sapatinhos de criança na Feira da Afonso Pena. A fabricante os faz para meninos (em cores sóbrias e sem detalhes) e para meninas (cor-de-rosa, florido, com lacinho). Que dor no meu coração quando chega uma grávida e eu tenho que perguntar se “vai ser menino ou menina”. Que dor no meu estômago quando um menino pega um cor-de-rosa, e a mãe xinga dizendo que aquele não é para ele.

Aliás, ter Jesus como vocativo no parágrafo anterior foi oportuno: até quando, Jesus, as igrejas pentecostais vão continuar espalhando o ódio contra as minorias e levando todo o dinheiro dos fiéis sem pagar impostos, e, ainda por cima, conseguindo todo o poder no Congresso?

Outro dia fui a um condomínio em Nova Lima, uma cidade vizinha de Belo Horizonte onde parte da elite econômica da cidade reside. Quanto conforto eles têm por lá! Mais carros do que moradores. Piscinas. Eletrodomésticos de última geração. Closets. Arquitetura ~moderna~. Obras de arte. Aí, voltando para casa, passei ao lado de uma favela. Passo por ela sempre, mas nesse dia, em especial, eu a olhei mais atentamente. Casas sem reboco e sem muro, nem cerca, empoleiradas uma em cima da outra. Telha de amianto. Três ou quatro pessoas dividindo o mesmo quarto. Às vezes ele é a sala também.

Eu moro bem, não passo fome. Mas isso é o suficiente? Quantas vezes eu já fiquei com vontade de comer alguma coisa e não tive dinheiro para pagar? Quantas vezes eu já quis ir a algum lugar (balada, exposição, cidade) e não tive dinheiro para a passagem ou para a entrada? Ai, que pobrezinho de mim... Pobrezinho de mim o caralho! Pobrezinho de todos nós que não moramos em Nova Lima (nem no Mangabeiras, ou no Belvedere, ou em qualquer outro bairro de elite). Principalmente aqueles que estão lá na favela. Entendam: eu não quero aqui apontar vilões e mocinhos, porque eles não existem. Podem acreditar: se eu tivesse grana suficiente era eu quem estaria morando em Nova Lima! E sabe esses conselhos do tipo: “Quando você estiver triste porque não tem dinheiro pra balada, lembra que tem gente sem dinheiro pra comer”. Vá se fuder! (Ê homofobia/misoginia nossa de cada dia!) Não é porque os outros tão muito mais ferrados do que eu, que eu vou ficar menos triste! Muito antes pelo contrário! Mais um motivo (e ainda mais forte) pra indignação!

Fico muito, mas muito triste que haja pessoas passando fome. Mas fico muito triste também quando penso que, provavelmente, minha mãe nunca conhecerá Paris. Assim como fico triste ao saber que muitas pessoas nunca vão transar com alguém gostoso na vida (a não ser que paguem por isso, o que é, talvez, ainda mais triste). Ou que muitos não vão ter uma única relação amorosa gratificante. Já disse outras vezes que penso que boa parte das causas da ~concentração de beleza~ são sociais. Mas até a realidade natural do nosso mundo me incomoda! Minha vó tem Alzheimer e não consegue lembrar mais o nome dos netos. Hoje vi nos olhos dela o sofrimento que isso lhe causa, e não pude fazer nada para ajudá-la. Pessoas doentes do corpo e da alma, sem tratamento. Que raiva da realidade social, mas também que raiva da objetividade do mundo!

Hoje sonhei que pintava um rio de roxo com lápis de cor. Mas acordei, em seguida, nesse mesmo mundo em que, todos os dias, temos que ser nós mesmos, até esperarmos a morte, pela velhice, ou pela doença. E, ainda por cima, tendo que jogar um jogo injusto demais!

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