quinta-feira, 28 de março de 2013

O DIFÍCIL PROCESSO DE ACEIRAR-SE BONITO


Não é novidade que grupos desvalorizados têm muita dificuldade em aceitar sua própria aparência, já que não se adequam ao padrão normativo. Por isso, há mulheres negras que preferem alisar os cabelos ao invés de usar o black power. Mulheres endomorfas que lutam contra a balança durante toda a vida, e homens ectomorfos que apelam para tudo, a fim de ganharem peso.
Segundo seu biotipo, as pessoas podem ser endomorfas (estrutura óssea larga, tendência ao ganho de peso), ectomorfas (corpo delgado, tendência a não ganhar peso) ou mesomorfas (corpo musculoso, facilidade para desenvolvimento de massa muscular). 
A mesma escala de legitimidade estética que, infelizmente, ainda se aplica frequentemente à raça ou mesmo, de forma muito amplamente aceita, ao biotipo, não se aplica, por exemplo, à cor dos cabelos. Preferências à parte, ninguém é mais ou menos bonito à priori por ser moreno, loiro ou ruivo.

Mas para uma mulher negra ou endomorfa ou para um homem ectomorfo, entre outros tantos indivíduos de aparência socialmente deslegitimada, é muito difícil enxergar-se a si próprio como alguém bonito.

Outro dia, acordei deprimido, olhei para o meu próprio corpo e mais uma vez identifiquei nele uma série de traços que costumam me causar insatisfação: ossos bem demarcados sobre a pele, pouco tecido muscular. Resolvi fazer um autorretrato para tentar objetivar essa minha visão negativa em relação ao meu próprio corpo.

Qual foi a minha surpresa ao me satisfazer esteticamente com o resultado do autorretrato? Vendo meu corpo objetivado fora de mim, pude ter a consciência crítica de que é possível admirar a estética dele pelo lado de fora dos padrões de beleza normativos.


Certamente imagino que muitos não verão no painel montado nenhuma beleza. Mas tenho tentado me libertar da ideia fixa de que não haveria aqueles que poderiam achar.

Tenho publicizado questões pessoais consideradas na nossa época temas privados: o corpo fora dos padrões, a performance de gênero fora da normatividade, a depressão. Meu objetivo não é, entretanto, de forma alguma narcisístico. Pelo contrário, é sempre um processo difícil e complicado para mim expor tais questões.

Contudo, acredito no potencial político das ações cotidianas dos indivíduos comuns, como eu. O que desejo é, acima de tudo, contribuir, ainda que de forma limitada em termos de alcance, mas ainda sim da maneira mais forte que eu puder, para o enfraquecimento do sexismo, dos padrões rígidos de beleza e do estigma que a depressão, enquanto doença, carregam em nosso meio.

Em uma época de valorização da autenticidade, esse termo significando "ser idêntico a si mesmo", eu não estaria fazendo jus ao meu tempo e às possibilidades de ação política que ele me coloca se eu me recusasse a me usar enquanto ferramenta discursiva e política.

Ficam ainda muitas limitações: o painel original que compõe esse autorretrato tem uma foto de nu frontal, mas disponibilizar publicamente essa versão é algo que provavelmente nunca terei a audácia de fazer. Afinal, até onde podemos ser rebeldes em relação ao estabelecido?

quinta-feira, 21 de março de 2013

Viado, afeminado, feio e baixo astral

Sim, Brasil: eu, Vanrochris Vieira, sou homossexual (no vocabulário corrente, sou "viado"), minha performance de gênero não se adequa ao padrão de masculinidade ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "afeminado"), minha aparência não se adequa ao padrão de beleza ocidental contemporâneo (no vocabulário corrente, sou "feio") e, para completar, tenho depressão (no vocabulário corrente, sou "baixo astral").

Antes de eu ser concebido, esse era o meu quadro familiar: meu pai era alcoólatra e batia na minha mãe. Por isso, ela teve depressão durante toda a gravidez. Apanhou dele enquanto me esperava e durante toda a minha primeira infância. Eles se divorciaram quando eu tinha dois anos, depois disso, só fui vê-lo novamente por volta dos seis. Ao longo da vida, vi ele uma dúzia de vezes. Na vez mais longa, apenas por três dias. Ele morreu quando eu tinha dezessete anos. Fazia três anos que eu não o via.

Quando eles se separaram, um dos meus irmãos tinha doze anos e o outro catorze. O mais velho passou a trabalhar fora, assim como minha mãe. O outro cuidava de mim. Ele não tinha preparo, nem paciência para isso. O mais velho assumiu para si o papel de provedor da família e pai, em relação a mim. Papel para o qual ele, obviamente, também não estava preparado. Os dois, em ambas as atividades, me tratavam com muita rispidez e falta de paciência.

Quando eu tinha seis anos, meu irmão do meio foi assassinado. Ele tinha dezesseis anos. A polícia não investigou o crime, e o assassino não foi encontrado, nem o motivo do assassinato foi descoberto. Minha mãe não tratou da depressão dela e, nessa fase, ela piorou muito, ficando fortemente mal por alguns anos. Depois disso, ela se tornou bastante controladora e superprotetora em relação a mim.

Nosso quadro econômico era bastante ruim. Chegamos a não ter dinheiro para comprar alimentos básicos. Mas contamos com a ajuda dos meu avós para que eles não faltassem.

Nunca me adequei ao padrão de comportamento socialmente estabelecido para os meninos: não gostava de esportes, era sensível e delicado, introspectivo e gostava de atividades artísticas, como teatro e desenho. Sempre sofri bullying na escola. Sempre fui apontado como "viadinho" e "bicha", mesmo antes de sentir atração sexual por qualquer pessoa. Cheguei a sofrer agressão física por duas vezes. Minha família é muito católica, e eu também era. Neguei minha atração por pessoas do mesmo sexo e me puni por isso por vários anos. 

Para compensar minhas frustrações na infância, eu me tornei viciado em estudar. Queria ser o melhor, o primeiro em tudo. Queria saber tudo e não errar nunca.

Quando bebê, eu era bem gordinho. Mas tive duas anemias sucessivas, ainda nos primeiros anos de vida, e perdi muito peso. Na adolescência, ao crescer rapidamente, fiquei extremamente magro, e nunca mais consegui ganhar peso.

Sempre tive muita dificuldade para conseguir parceiros para relações afetivo-sexuais. Tinha dezesseis anos quando beijei um garoto pela primeira vez. O próximo cara com quem fiquei, foi o primeiro com quem transei, aos dezoito. Os dois foram encontros episódicos, proporcionados por um site de bate-papo.

Me apaixonei quatro ou cinco vezes até hoje. Todas elas foram frustradas, porque os caras não tinham interesse em ficar comigo. Namorei uma única vez, mas não gostava do cara, e, por isso, foi uma relação bem breve e desagradável. Transei com três caras até hoje: o primeiro, outro que também encontrei a partir de um bate-papo (e com quem também tive apenas um encontro episódico) e o cara com quem namorei. Nenhuma das vezes foi boa.

Há cerca de três anos, eu tinha um grande amigo pelo qual eu era apaixonado. Descobri, porém, que ele era alguém completamente diferente do que eu imaginava, mantendo uma vida dupla que incobria ações e características desvalorizadas cuja responsabilidade ele não queria assumir. Foi um golpe duro na minha confiança nas pessoas e na minha esperança em relação à vida. Foi aí que minha depressão se manifestou.

Não me entendam mal: não tenho e não quero, em hipótese alguma, que alguém tenha pena de mim. Nem só de elementos ruins é composta minha vida. Tenho uma família que me ama e me apóia e amigos super legais e presentes. Me formei em um excelente colégio técnico e em uma excelente universidade públicos. Morei seis meses na Europa (estudando com bolsa do governo federal).

A única coisa que demando é que eu deixe de ser punido e discirminado por ser "viado", "afeminado", "feio" e "baixo astral". Não sou culpado por nenhuma dessas características, porque nenhuma delas é um crime passível de culpa. Simplesmente é assim que eu sou. Já me envergonhei muito de tudo isso. Quero, agora, ter orgulho de quem eu sou.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Tudo na realidade me incomoda

Nossa realidade social é um cu! Até mesmo nossa linguagem. Por exemplo: para expressar minha indignação, eu acabo de ser obrigado a recorrer a uma ideia pejorativa do ânus, que reforça a misoginia e a homofobia das quais eu sou apenas uma das inúmeras vítimas.

Esse cu em que vivemos mostra suas merdas (recorrendo agora à tendência higienista existente em relação às palavras de indignação) sempre e em todo lugar. Na Avenida Antônio Carlos, aqui em Belo Horizonte, por exemplo. Ao esperar um ônibus numa das pistas centrais, o que vemos, de um lado, são carros (projetados para carregar cinco pessoas) ocupados apenas pelo motorista, e, do outro, ônibus (que cabem menos de 40 pessoas sentadas) levando 80 ou 90 pessoas exprimidas como sardinhas enlatadas. É a versão moderna do navio negreiro. Aliás, a versão contemporânea (até quando vamos continuar achando que o adjetivo “moderno” carrega alguma novidade, se já deixamos a modernidade para trás há pelo menos meio século?). 

Ontem vi um anúncio de emprego para balconista. “Feminino”, ele dizia. Hoje vi outro para ajudante, em uma obra. “Masculino”, ele restringia. O Kinder Ovo acaba de lançar uma versão para meninos, com carrinhos e soldados de brinde. Outra versão para meninas, com princesas e maquiagens nas surpresas. Até quando, Jesus? Até quando continuaremos impondo às nossas crianças uma performance de gênero específica, por causa do órgão sexual que elas têm? Eu vendo sapatinhos de criança na Feira da Afonso Pena. A fabricante os faz para meninos (em cores sóbrias e sem detalhes) e para meninas (cor-de-rosa, florido, com lacinho). Que dor no meu coração quando chega uma grávida e eu tenho que perguntar se “vai ser menino ou menina”. Que dor no meu estômago quando um menino pega um cor-de-rosa, e a mãe xinga dizendo que aquele não é para ele.

Aliás, ter Jesus como vocativo no parágrafo anterior foi oportuno: até quando, Jesus, as igrejas pentecostais vão continuar espalhando o ódio contra as minorias e levando todo o dinheiro dos fiéis sem pagar impostos, e, ainda por cima, conseguindo todo o poder no Congresso?

Outro dia fui a um condomínio em Nova Lima, uma cidade vizinha de Belo Horizonte onde parte da elite econômica da cidade reside. Quanto conforto eles têm por lá! Mais carros do que moradores. Piscinas. Eletrodomésticos de última geração. Closets. Arquitetura ~moderna~. Obras de arte. Aí, voltando para casa, passei ao lado de uma favela. Passo por ela sempre, mas nesse dia, em especial, eu a olhei mais atentamente. Casas sem reboco e sem muro, nem cerca, empoleiradas uma em cima da outra. Telha de amianto. Três ou quatro pessoas dividindo o mesmo quarto. Às vezes ele é a sala também.

Eu moro bem, não passo fome. Mas isso é o suficiente? Quantas vezes eu já fiquei com vontade de comer alguma coisa e não tive dinheiro para pagar? Quantas vezes eu já quis ir a algum lugar (balada, exposição, cidade) e não tive dinheiro para a passagem ou para a entrada? Ai, que pobrezinho de mim... Pobrezinho de mim o caralho! Pobrezinho de todos nós que não moramos em Nova Lima (nem no Mangabeiras, ou no Belvedere, ou em qualquer outro bairro de elite). Principalmente aqueles que estão lá na favela. Entendam: eu não quero aqui apontar vilões e mocinhos, porque eles não existem. Podem acreditar: se eu tivesse grana suficiente era eu quem estaria morando em Nova Lima! E sabe esses conselhos do tipo: “Quando você estiver triste porque não tem dinheiro pra balada, lembra que tem gente sem dinheiro pra comer”. Vá se fuder! (Ê homofobia/misoginia nossa de cada dia!) Não é porque os outros tão muito mais ferrados do que eu, que eu vou ficar menos triste! Muito antes pelo contrário! Mais um motivo (e ainda mais forte) pra indignação!

Fico muito, mas muito triste que haja pessoas passando fome. Mas fico muito triste também quando penso que, provavelmente, minha mãe nunca conhecerá Paris. Assim como fico triste ao saber que muitas pessoas nunca vão transar com alguém gostoso na vida (a não ser que paguem por isso, o que é, talvez, ainda mais triste). Ou que muitos não vão ter uma única relação amorosa gratificante. Já disse outras vezes que penso que boa parte das causas da ~concentração de beleza~ são sociais. Mas até a realidade natural do nosso mundo me incomoda! Minha vó tem Alzheimer e não consegue lembrar mais o nome dos netos. Hoje vi nos olhos dela o sofrimento que isso lhe causa, e não pude fazer nada para ajudá-la. Pessoas doentes do corpo e da alma, sem tratamento. Que raiva da realidade social, mas também que raiva da objetividade do mundo!

Hoje sonhei que pintava um rio de roxo com lápis de cor. Mas acordei, em seguida, nesse mesmo mundo em que, todos os dias, temos que ser nós mesmos, até esperarmos a morte, pela velhice, ou pela doença. E, ainda por cima, tendo que jogar um jogo injusto demais!